Sobre “Argo”, ou o que os Estados Unidos devem fazer com o Irã

Rejane Carolina Hoeveler

O lançamento de um filme que trata da revolução iraniana de 1979 em plena campanha militarista por uma invasão ao Irã já seria motivo suficiente para analisar “Argo”, dirigido e estrelado por um declarado apoiador do partido democrata e o mais premiado no último Globo de Ouro, Ben Affleck. Porém, a crítica se faz ainda mais necessária justamente pela sutileza da abordagem que o filme propõe, que o diferencia um bocado da maioria dos representantes de uma Hollywood engajada em apoiar implícita ou explicitamente as política imperialistas dos EUA. Acusado de islamofobia, o filme despertou reações no Irã, inclusive o financiamento de um filme-resposta à versão de Affleck.

O fato de o herói de “Argo” ser um condecorado agente da CIA já é, de saída, bastante informativo – sabemos que a escolha do personagem principal, especialmente quando se trata de um “galã”, em geral indica bastante sobre o ponto de vista a partir do qual a obra se coloca). Porém, a narrativa do filme procura escapar à velha fórmula hollywoodiana das meras sequências de ação, sem nenhuma contextualização, típica de filmes que narram operações da CIA; ele procura desenvolver uma visão um pouco menos “tosca”, e por isso mesmo, mais convincente, que no fim das contas serve para reabilitar a imagem própria CIA e das ações do governo Carter.

Além da reabilitação da CIA com sua representação como uma agência quase que “humanitária”, o filme se insere totalmente no atual debate político nos EUA sobre o que fazer com o Irã, aparentemente colocando-se dentro dos setores que, de forma pragmática, defendem táticas mais sutis contra as nações consideradas inimigas do que a “simples” a invasão militar (ainda mais tendo em vista o desgaste interno ainda presente em relação ao Iraque e ao Afeganistão). É como se “Argo” estivesse dizendo: “lembremos de 1979, façamos um balanço! E não cometamos os mesmos erros…”

Senão, vejamos.

Logo nos primeiros minutos, o filme trata de expor uma contextualização histórica que, mesmo omitindo alguns fatos, não se furta a explicitar o apoio dos EUA ao regime ditatorial do xá Reza Pahlevi, que derrubou o governo de Mossadeghi em 1953, aquele havia nacionalizado do petróleo iraniano (esse, aliás, o motivo de fundo desta que foi a primeiro operação da recém fundada CIA, em colaboração com o serviço secreto britânico). Logo de cara, o filme procura ganhar o espectador para a ideia de que apresentará uma visão um pouco mais equilibrada dos eventos a serem abordados, ressaltando que o regime de Reza Palehvi promovia a fome (enquanto a família monárquica esbanjava em luxos), e destacando a brutalidade da polícia política do regime, a Sadak. A contextualização leva o espectador para a condenação do apoio norte-americano àquele regime brutal, e esse é um elemento que, sem dúvidas, faz o filme conquistar muitas mentes, inclusive as mais progressistas, para sua narrativa. Aos poucos, no entanto, vai ficando claro que a revolução iraniana de 1979 será pintada como uma explosão irracionalista de hordas bárbaras, dirigida por homens movidos por crenças obscurantistas e por um “ódio” anti-americano que transbordava quaisquer possíveis motivos justificadores. O telespectador é conduzido a “torcer” para que a operação funcione, e que os cidadãos americanos sejam salvos!

Esteticamente, a estigmatização islamofóbica fica clara, por exemplo, na construção dos personagens iranianos, todos intolerantes, autoritários, sujos, sem profundidade ou personalidade; enquanto os personagens americanos são todos retratados como seres humanos com dramas pessoais particulares, cada um com uma história própria e quase que casual (sic) sobre como foram parar ali na embaixada americana de Teerã. Essas mesmas vítimas, mesmo tendo que fugir das massas explosivas, se colocam claramente contra a extradição do xá, principal reivindicação dos iranianos que ocuparam a embaixada. Tony Mendez, o especialista em extrafiltrações da CIA (Ben Affleck), é o preocupado pai recém separado; e o embaixador do Canadá, (Ken Taylor, interpretado pelo ator Victor Garber, que fez o papel do capitão em “Titanic”), que abriga os seis fugitivos da embaixada americana, é um homem centrado, inteligente e gentil anfitrião. Nenhum ator conhecido do público faz nenhum papel iraniano. O elenco é completado com o carismático John Goodman no papel do maquiador que comprou a ideia de Mendez (que era disfarçar as vítimas como produtores de um filme de ficção científica canadense, e assim fazer os seis passarem pela segurança do aeroporto com passaportes canadenses); na vida real, John Chambers receberia do serviço secreto americano a mais alta honraria dada a civis, pela sua atuação naquela operação. Os dois contaram com o apoio de um milionário diretor da decadente Hollywood dos anos 1970, Lester Siegel, que, de acordo com o filme, se sensibilizou com as imagens na TV e resolveu se solidarizar com os compatriotas. A aliança da CIA com Hollywood foi o ponto forte da operação (sugestivo?)

“Argo” procura desconstruir a imagem da CIA como uma agência envolvida apenas em preparações de golpes violentos, e a transforma numa agência que promove operações basicamente defensivas, atuando para “proteger as vidas” dos cidadãos americanos. Mesmo quando a operação é suspensa, Mendez, comprometido com sua missão de “proteger vidas”, (como é repetido à exaustão), vai adiante com sua responsabilidade, arriscando sua vida, enfim, um verdadeiro “herói espartano”.

Porém, o filme vai além, e uma sequência em especial é destinada a desconstruir o discurso anti-imperialista da revolução; é quando a edição entrelaça um pronunciamento de uma representante da revolução com cenas de reféns americanos sendo torturados em Teerã, junto com falas dos personagens do filme fictício (cujo título era “Argo”), inventado especialmente para a operação. A sequência começa com uma fala muito sugestiva de uma das personagens do filme fictício: “O nosso mundo mudou. A chama da esperança não brilha mais nessa galáxia há muito tempo”.

(Percebe-se claramente um paralelo com o momento que estava sendo vivido pelos EUA, com a chamada “crise de confiança”i que abalou os últimos anos do governo Carter).

A certa altura, uma revolucionária iraniana fala: “O governo dos EUA considera os revolucionários como terroristas, mas eles mesmos e a CIA são as organizações mais terroristas de todos os tempos”.

Enquanto ela fala, aparecem cenas de tortura física e psicológica aos reféns americanos, levando o espectador imediatamente a desacreditar tal fala e a encarar o discurso anti-imperialista como uma mistificação auto-legitimadora, na realidade, mentirosa e enganadora. Em suma, quase um delírio resultante de um fanatismo. Mais explícito impossível.

O monarca preferido e a revolução não evitada

O golpe de 1953 foi a primeira ação de vulto do imperialismo americano no contexto da Doutrina Truman e da Guerra Fria. Depois do retorno do xá, o regime político iraniano, que até então era de uma monarquia constitucionalista, foi transformado em uma ditadura monárquica, aberta economicamente ao capital estrangeiro. O xá Reza Pahlevi recebeu mais equipamentos militares americanos do que qualquer país do mundo, e o Irã se tornou um paraíso econômico para as corporações globais.ii Não apenas os EUA se beneficiavam desse comércio: a Inglaterra, cujo histórico de imperialismo na região vinha de mais longe, também contribuiu para que o Irã chegasse a consumir mais de 25% de seu orçamento em armamentos.iii Juntamente com a Arábia Saudita, foi esse regime que proveu para o imperialismo ocidental muitos anos estabilidade no Oriente Médio, além de moderação nas políticas da OPEP, garantindo fornecimento de petróleo para Europa e EUA (cujas demandas pelo combustível fóssil aumentara exponencialmente desde o início da década de 1970).iv

Entre os anos 1960 e 1970, o Irã conheceu um período de franco crescimento econômico, com maciça entrada de capital estrangeiro. As consequências sociais foram desastrosas para a população, que passou a migrar em peso para as cidades, as quais não possuíam nenhuma infra-estrutura. Os projetos de desenvolvimento realizados no período de auge dos preços do barril de petróleo, a partir de 1973, fizeram crescer a concentração proletária, especialmente com a entrada de uma jovem geração operária nas indústrias. Em 1977, uma onda de lutas operárias sacudiu o país, após o lançamento, no ano anterior, de um ajuste econômico que punha fim a grande parte dos planos de desenvolvimento. O desemprego aumentou e os salários baixaram, o que fez explodirem greves em vários setores, inicialmente liderados pelo setor têxtil. O movimento se organizava em mesquitas, pois eram os únicos locais possíveis sob a ditadura monárquica, mas também porque a população pobre, habitante das favelas de Teerã e das grandes cidades, era a mais religiosa. A concentração de riquezas no Irã era escandalosa, uma das maiores do mundo, com apenas 45 famílias abocanhando 85% da renda nacional, sendo ainda coroada pelo esbanjamento luxuoso da família real, que dava à desigualdade um toque ainda mais ultrajante.v

Em setembro de 1978, começa uma nova onda de greves que culminaria com uma greve geral dos trabalhadores do petróleo. As reivindicações econômicas se transformaram em palavras-de-ordem contra o regime. A classe dominante e família real, apavoradas, saquearam as finanças públicas, retirando apenas nos últimos 3 meses de 1978 um bilhão de libras e os enviando para os EUA, Inglaterra e Suíça.vi A situação revolucionária se abriu e as FFAA racharam, pois os soldados se recusaram a atirar nos manifestantes e passaram a desertar. Para tentar conter a situação, o regime fez concessões de última hora, libertando presos políticos e relaxando a censura (era proibidas publicações marxistas e islâmicas), o que só fez aumentarem os protestos.

O apoio explícito dos EUA àquele regime, em plena cruzada de Carter pelos “direitos humanos” (sic), foi motivo de denúncia internacional.vii O embaixador americano em Teerã, William Sullivan, temia que o xá estivesse “perdendo as estribeiras”, especialmente após o massacre de manifestantes na chamada “Sexta-feira Negra” de setembro de 1978. A estratégia do xá para acalmar a oposição, que incluía suspender a tortura, foi vista por Sullivan como um “efeito desorientador”, com consequências adversas para aqueles que estão “sendo impedidos de utilizar consagrados métodos de detenção, encarceramento prolongado e força bruta – quando não pior – para enfrentar a ameaça” (Relatório de 1º de junho de 1978).viii Zbigniew Brzezinski, então conselheiro de segurança nacional, e figura altamente influente em Washington até hoje, foi particularmente intransigente na exortação para que se esmagasse pela força a oposição ao xá.ix Em janeiro de 1979, o general Robert Huyser foi enviado a Teerã para consultas com os generais iranianos, exortando-os a assumir militarmente o comando dos campos de petróleo. (Não foi à toa que a primeira medida tomada pelos funcionários da embaixada, diante das massas em fúria, foi destruir tantos arquivos quanto possível, como mostra o próprio filme).

No espectro político iraniano, o imã Khomeini era uma figura de grande prestígio por sua forte oposição ao regime de Reza Pahlevi desde a implementação da chamada “Revolução Branca” (um projeto de ocidentalização forçada, em 1960-1961) e do apoio do governo iraniano a Israel.x Porém, do ponto de vista ideológico, um personagem chave da revolução iraniana foi Ali Chariati, intelectual que defendia um islamismo que misturava elementos de marxismo, com forte inspiração nas experiências anticolonialistas e em Frantz Fanon. Outra força importante no espectro político era a oposição burguesa moderada, liderada pela Frente Nacional de Oposição, que não conseguiu, porém, capitalizar o processo e acabou tendo que puxar seu programa “à esquerda”.

Dentro da esquerda revolucionária, havia a guerrilha fedayin-e-kalk, de declarada inspiração marxista, fundada em 1971 por estudantes da Universidade de Teerã, sob influência da ala marxista da OLP (Organização para a Libertação da Palestina). Os fedayin formaram uma frente com o movimento liderado por Khomeini durante o processo revolucionário, mas mantinham independência organizacional e política. Eles defendiam a criação de um Exército Popular para substituir as Forças Armadas, aos moldes do Exército Vermelho, juntamente com a criação de conselhos revolucionários a partir dos já existentes conselhos de representantes eleitos das comissões de greve (que seriam, na prática, uma espécie de soviet). Em muitas cidades e povoados, de fato, os shuras (comitês operários) chegaram a assumir o controle político.

Quando o aiatolá Khomeini chegou ao Irã de seu exílio forçado na França, foi recebido por 5 milhões de pessoas, a maioria em greve total há dois meses.xi Após uma série de confrontos, o chefe do governo, Bakhtiar, indicado pelo xá numa tentativa de contornar a situação, finalmente renunciou. As massas, assim que souberam que as FFAA não estariam mais na ruas para reprimi-las, passaram a espontaneamente acertar contas com todos os representantes do antigo regime, se dirigindo ao Palácio, ao escritório do chefe de governo, à sede da missão comercial de Israel e à sede da missão militar americana, já abandonada apelos seus ocupantes. (No filme, isso aparece na cena e que uma vítima americana vê uma execução sumária de sua janela, e também quando Mendez chega a Teerã e vê um homem enforcado num guindaste no meio da rua). A revolução teve direito até à sua “Bastilha”, que foi a tomada da prisão de Jamshidieh, em Teerã, da qual foram libertados 11 mil presos.

Uma das primeiras ações de Khomeini no poder foi restaurar a unidade das Forças Armadas, e foi somente a guarda islâmica que impediu que ocorressem mais linchamentos públicos. Em seguida, se desencadeou uma repressão violenta às organizações de esquerda, que incluiu o enforcamento de um líder do Tudeh (o partido comunista iraniano). Um antigo analista da CIA, Ken Pollack, afirmou que houve uma mudança de estratégia por parte dos EUA, que passaram a tentar costurar um acordo com o novo poder, para impedir que forças mais radicais avançassem.xii

Khomeini ordenou que todos os trabalhadores retornassem a seus postos. A ausência de uma direção socialista revolucionária mais uma vez impediu a criação de um governo dos trabalhadores e, no caso, abriu caminho para a construção de um regime teocrático que destruiu a esquerda. (A contextualização inicial de “Argo” indica foi com Khomeini que começou o “caos”, quando, na verdade, ele foi o maior responsável pela posterior estabilização contra-revolucionária do país).

Em agosto de 1979, os acordos para compra de armas, assim como o fornecimento de petróleo para os EUA, foram encerrados. Foi quando se deu o episódio da tomada da embaixada norte-americana e a subsequente crise dos reféns, que só seriam liberados em 1981 (444 dias depois), episódio que contou com a participação dos fedayin. A ação visava, objetivamente, pressionar para que os EUA liberassem os 23 bilhões de dólares, iranianos, congelados em contas americanas (“detalhe” que é totalmente omitido no filme).

As lições de 1979 para os EUA

Internamente, o sequestro dos americanos em Teerã, assim como a ocupação soviética no Afeganistão, foi prato cheio para os setores que defendiam um rápido retorno às intervenções militares diretas dos EUA no Terceiro Mundo. O fato de que foi uma revolução televisionada (talvez a primeira e última) contribuiu para isso.

A derrota da missão especial de Carter para debelar o sequestro e retomar a embaixada, em abril de 1980, foi vista por muitos analistas políticos do período como o estopim de sua derrota nas eleições para Ronald Reagan, cujo mandato ficou marcado pela retomada das intervenções militares diretas. Porém, é um engano pensar que foi somente com Reagan que se reacendeu tal militarismo; esta guinada já tinha sido dada ao final do próprio governo Carter, como fica claro no caso da Nicarágua, onde Carter apoiou Somoza até o fim, ou em El Salvador, no golpe de outubro de 1979.xiii

Henry Kissinger, figura que dispensa maiores apresentações, assim resumiu a posição norte-americana diante da queda do xá:

O desafio fundamental de uma revolução é este: certamente um governo sábio previnem revoluções fazendo concessões pontuais; de fato os governos mais sábios não consideram adaptações como concessões, mas sim como parte de um processo natural de fazer aumentar o apoio popular. No entanto, uma vez que a revolução ocorre, a necessidade mais premente é a restauração da autoridade.”xiv

Um episódio cômico, se não fosse trágico, foi quando o xá visitou Washington em 1977, e Carter o brindou dizendo que: “se alguma vez houve um país que floresceu sob uma liderança iluminada, seria o antigo Império Persa que é hoje o grande país do Irã”. Na ocasião da visita houve protestos contra e a favor do xá, e quando o gás lacrimogênio entrou no local da cerimônia, Carter se desculpou cinicamente por uma “poluição temporária do ar”.xv

De fato, os EUA tiraram suas lições. Sem descartar as intervenções e invasões militares diretas (como ficou claro em 2003 e 2005), passaram a incrementar, cada vez mais, outros tipos de intervenção política, por exemplo fomentando organizações da “sociedade civil” para a construção de “democracias estáveis” – provando que pode haver um aumento simultâneo tanto da coerção quanto do consenso, para manter sua hegemonia. (Um exemplo disso foi a criação do NED (National Endowment for Democracy, uma entidade criada logo no início dos anos Reagan, atuante até hoje, que visa “espalhar a democracia” pelo mundo). Apesar da retórica de Obama, neste exato momento, se discute nos EUA o que fazer com o regime de Ahmadinejad, e os mass media já começaram a repetir o papel que tiveram logo antes das invasões do Iraque e do Afeganistão. Israel já declarou que está disposta a tomar a iniciativa a qualquer momento, só dependendo de um sinal positivo dos EUA.

De uma forma ou de outra, parece que o Irã ainda vai pagar caro por 1979.

Referências bibliográficas:

COGGIOLA, Osvaldo. A Revolução Iraniana. São Paulo: Edunesp, 2008.

KISSINGER, Henry. White house years. Boston: Little, Brown and Company, 1979.

CHOMSKY, Noam. Rumo a uma nova guerra fria – Política externa dos EUA, do Vietnã e Reagan. Rio de Janeiro-São Paulo: Record, 2007.

KINZER, Stephen. Todos os homens do xá. O golpe norte-americano no Irã e as raízes do terror no Oriente Médio. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

Notas:

i A chamada “crise de confiança” dos anos 1970 nos EUA dizia respeito à derrota no Vietnã, à crise econômica presente desde o fim dos anos 1960, com déficit da balança comercial e logo após os “choques de Nixon” e ao escândalo de Watergate; foi interpretada por autores conservadores como Samuel Huntington como uma “crise da democracia”.

ii Em 1977, um senador americano chegou a propor uma moratória na venda de armas ao xá.

iii Parte muito significativa das armas importadas pelo Irã eram para uso interno: só em 1978, a Inglaterra exportou para o país 8 mil fuzis especiais para conter manifestações, 26 mil cargas de gás e igual número de granadas; 20 mil escudos especiais para conflitos de rua, e igual número de capacetes e cassetetes, entre outros equipamentos.

iv O Irã foi o único país da OPEP a ignorar o embargo de petróleo a Israel, decretado pelos países árabes em 1973.

v A festa em comemoração à fundação do Império Persa, em 1971, contou com um set de estrelas internacionais do cinema, e com a encomenda, dentre ouros, de toneladas de caviar e 200 cozinheiros franceses, enquanto boa parte da população passava fome. COGGIOLA, O. A Revolução Iraniana. São Paulo: Edunesp, 2008.p.61.

vi Isso foi tornado público graças ao envolvimento, no movimento, de bancários e funcionários públicos, que abriram os livros contábeis e os revelaram, o que levou a uma onda de queima de bancos generalizada.

vii A campanha pelos direitos humanos, na verdade, obedecia a uma estratégia interna e externa, basicamente relacionada com a tentativa de superação da “síndrome do Vietnã”, isto é, uma reabilitação moral do Estado norte-americano perante seus próprios cidadãos e o mundo, aliada à continuidade da política da détente iniciada por Nixon.

viii CHOMSKY, Noam. Rumo a uma nova guerra fria – Política externa dos EUA, do Vietnã e Reagan. Rio de Janeiro-São Paulo: Record, 2007.p.96-97.

ix Brzezinski chegou a propor que fosse enviado o navio americano Constellation, com 80 aviões e 5 mil marinheiros e aviadores, para deixar claro o apoio americano ao xá.

x Por conta de suas posições, foi obrigado pela Savak, a odiada polícia do xá, a viver sob custódia numa prisão próxima a Teerã, o que gerou uma greve geral em 1963.

xi Ainda antes da queda total do regime, a TV iraniana, que cobriu alguns minutos da chegada de Khomeini, foi ordenada a parar a transmissão. Com passagens compradas para os EUA, o xá deu instruções aos chefes militares de “atirar à vontade” contra os manifestantes, com o objetivo de gerar deliberadamente uma guerra civil que pudesse restaurá-lo com todos os poderes. As ordens, porém, foram gravadas em uma fita k7, que foi entregue às mãos de uma afiliada da rede CBS por um general dissidente, e acabou tendo cópias vendidas aos milhares nas ruas de Teerã.

xii COGGIOLA, Op. Cit., p.81.

xiii Especula-se que as mensagens de apoio de Carter enviadas tanto a Somoza quanto ao xá contribuíram ainda mais para a precipitação tanto da revolução sandinista quanto da iraniana. Paradoxalmente, o apoio à contra-revolução na Nicarágua foi financiada com fundos provenientes da venda clandestina de armas ao novo regime iraniano, no que ficou conhecido como escândalo do “Irã-Contras”,

xivThe Economist, 10 de fevereiro de 1979, p.32. Apud SKLAR, Holly. “Overview”. In. _________. Trilateralism: The Trilateral Commision and elite planning for world management. Boston: South and Press, 1980. Em suas memórias, publicadas exatamente em 1979, isto é, já diante da queda do regime do xá, o estrategista do massacre do Vietnã narrou a visita feita por ele e Nixon em Teerã, em 1972, justificando porque os EUA deveriam dar abrigo ao xá mesmo diante de desgaste internacional: “A importância geopolítica daquele país deve impelir qualquer administração a buscar boas relações com qualquer grupo que esteja governando o Irã. Mas este imperativo não precisa ser exercido ignorando aqueles que foram nossos amigos em sua jornada.”KISSINGER, Henry. White house years. Boston: Little, Brown and Company, 1979.p. 1265.

xv A reportagem do Washington Post que cobriu o evento foi intitulada ”Human Rights on eclipse”. Segundo Scott Armstrong, jornalista do Washington Post, “o xá, não obstante sua reputação de tirano sanguinário, desconsiderou as recomendações feitas por Washington na última hora para que endurecesse com os manifestantes e os dirigentes da oposição. (…) Na realidade, Carter continuava na esperança de manter o xá no poder muito depois que os relatórios dos serviços de inteligência e os principais assessores de política externa começaram a insistir que, por uma questão de realismo, os Estados Unidos deveriam contribuir para a transição pacífica para quaisquer forças políticas que viessem a tomar o lugar do trono do pavão.” Apud CHOMSKY, Op. Cit.,p.33 e 97-98.

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