Apoio a Gaza pode virar regra no mundo árabe e islâmico

Aldo Cordeiro Sauda e Márica Camargos
Ele pesa 915 quilos e tem 6,48 metros de altura. Com esse perfil desengonçado, dificilmente passaria despercebido. Ao atingir pela primeira vez, em décadas, alguns centros urbanos de Israel, o Fajr, que em farsi significa “amanhecer”, tornou-se o mais novo protagonista do conflito na região.

Segundo especula-se, a jornada dos mísseis tem origem nos portos iranianos. De lá, os foguetes, em peças soltas, são enviados ao Sudão. Atravessam o Egito em caminhões para, através dos túneis controlados por traficantes de armas na Península do Sinai, aportarem na Faixa de Gaza.

O abastecimento dos grupos armados palestinos tem sido uma das marcas da recente política externa da República Islâmica. O autointitulado “eixo da resistência”, formado por Irã, Hezbollah e Síria, sobretudo após a guerra israelense de 2006 no Líbano, vem desenvolvendo as mais diversas formas de relação com o Hamas, que controla Gaza. Mas se engana quem olha apenas para o Irã e seus aliados na tentativa de explicar a evolução do arsenal palestino. Talvez seja justamente o contrário. Por melhor que esses três tenham trabalhado para fortalecer seus vínculos com o movimento, eles nunca foram tão secundários como na guerra atual. Não surpreende, portanto, que o colapso do Estado sírio, que no passado se colocava como o grande patrono da luta palestina, em nada tenha diminuído a capacidade bélica do Hamas. Mais que nunca, são os novos atores da Primavera Árabe, e não os velhos inimigos de Israel, que estão dando as cartas definitivas na política regional.

Em contraste com o completo isolamento registrado durante os ataques a Gaza entre 2008 e 2009, a última ofensiva de Israel desencadeou uma verdadeira peregrinação de líderes regionais ao território palestino. Ministros da Tunísia, parlamentares líbios, diplomatas turcos, representantes da monarquia do Qatar e, acima de tudo, Hisham Qandil, primeiro ministro e chefe do governo egípcio, bateram ponto na área conflagrada. Ou seja, o apoio a Gaza, até pouco tempo uma iniciativa exclusiva de sírios e iranianos, está se tornando regra no mundo árabe e islâmico.

O Qatar, que pela sua prática de respaldo aos novos dirigentes dos países em revolução, tem se saído como o maior vitorioso da Primavera Árabe, vinha construindo uma agressiva política de inserção em Gaza. Menos de um mês antes dos ataques de Israel, o emir Hamad bin Jassim, em visita à Faixa, prometeu centenas de milhões ao Hamas. Um apoio vindo também de aliados tradicionais dos norte-americanos como a Turquia que, com o Egito, desempenhou papel fundamental nas negociações do cessar-fogo com o Estado sionista.

Nesse contexto, o Cairo destacou-se como o principal centro de decisões ao longo do bombardeio. Adotando uma linha oposta à do presidente deposto Hosni Mubarak, que contribuíra ativamente para isolar a Faixa, a Irmandade Muçulmana manteve abertas as fronteiras entre o Egito e os territórios ocupados e reforçou o apoio a hospitais da zona fronteiriça para atender os feridos. Em uma demonstração de solidariedade popular, grupos de jovens que haviam encabeçado a derrubada da ditadura egípcia e hoje compõem a oposição secular ao atual governo foram em carreata a Gaza expressar seu apoio aos palestinos, numa cena inimaginável dois anos atrás.

Indo além da solidariedade material à Faixa, o papel exercido pela diplomacia egípcia provou-se crucial não apenas para o acordo de armistício como ainda para impedir um ataque terrestre à Palestina. Tomando para si a responsabilidade sobre Gaza, os egípcios apostaram todas as fichas nas negociações, chegando mesmo a retirar seu embaixador de Israel em sinal de protesto.

O Cairo tem razões de sobra para estar irritado com Tel-Aviv. O assassinato do comandante Ahmed Jabari, decisivo na escalada do conflito, ocorreu na contramão de um cessar-fogo que o Egito havia acabado de negociar entre os dois lados. Assim, além de ter se aproveitado do clima favorável para atacar os palestinos de surpresa, na mesma penada Israel eliminou o principal contato entre o poder egípcio e o braço armado do Hamas ao matar Jabari. Mas, justiça seja feita: os egípcios não agiram sozinhos. Estados Unidos e União Europeia, via Londres, deixaram claro sua desaprovação a qualquer escalada militar terrestre de Israel. A frágil amizade entre as potências ocidentais e as atuais lideranças da Primavera Árabe corria o risco de se esfacelar de vez no caso de uma radicalização nas ações israelenses.

De resto, é preciso lembrar que os mísseis iranianos, vitais para o arsenal palestino, não estão sozinhos nos esconderijos do Hamas. É de amplo conhecimento o fato de que, finda a guerra na Líbia, os rebeldes que derrubaram Kadafi venderam, por meio do Egito, centenas de foguetes do ex-ditador a seus colegas em Gaza. Portanto, independentemente de seu tamanho e peso, os Fajrs parecem ser a novidade menos importante da Faixa de Gaza. Antes do que qualquer arma persa, será o amanhecer da Primavera Árabe que vai definir o futuro daquele trecho de terra.

(Publicado originalmente em O Estado de S. Paulo,  25 de novembro de 2012).

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