A política espacial do trabalho na China: Vida, trabalho e uma nova geração de trabalhadores migrantes

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Artigo de Ngai Pun e Jenny Chan, publicado originalmente em Researchgate

Ngai Pun é socióloga chinesa,  Professora da Universidade Politécnica de Hong Kong e Diretora da Rede de Pesquisa e Desenvolvimento da mesma Universidade. Autora de “Made in China: Women Factory Workers in a Global Workplace e de “Migrant Labor in China”
Jenny Chan é Professora do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Politécnica de Hong Kong

Tradução: Wilma Olmo Corrêa

(Crédito da foto de abertura: JordanPouille)

Seguimos com a série de artigos sobre as transformações na China. Agora, com artigos escritos por pesquisadoras chinesas e centrados na estrutura e formas de luta da imensa classe trabalhadora surgida com a restauração capitalista no país. Suas dimensões (cerca de 250 milhões de pessoas) na segunda economia do mundo e suas especificidades a tornam um tema obrigatório para os marxistas revolucionários em todo o mundo. (Editoria Internacional)

 Introdução

A ascensão da China como a “fábrica do mundo” tem atraído interesse acadêmico na espacialidade do capitalismo global. A contínua mudança geográfica do processo de acumulação de capital do Ocidente para o Japão, Coreia, Taiwan, em seguida para a China e, agora, para as nações em rápida industrialização no sul da Ásia, não apenas trouxeram milagres econômicos na região, mas também as tornaram vulneráveis à crise. À medida em que a China se integrava ainda mais à economia mundial neoliberal, o desequilíbrio econômico estrutural e a desigualdade de classes tornaram-se mais pronunciados. Em nossa intervenção aqui, pretendemos extrair as profundas contradições entre o trabalho, o capital e o estado chinês no contexto da produção global.

Nosso foco é a criação da classe trabalhadora chinesa em um regime de trabalho-dormitório – a natureza altamente concentrada da espacialidade do trabalho e residência que os trabalhadores transformam em um campo de batalha para lutar pelos seus direitos. Nosso estudo de caso da Foxconn mostra que o fornecimento, pelo empregador, de dormitórios de sua propriedade para os trabalhadores é parte integrante e essencial para a acumulação de capital na China urbana. No entanto, a resistência dos trabalhadores também está ocorrendo nos dormitórios e nas comunidades de trabalhadores. Em suas moradias, os ativistas operários tentam compartilhar habilidades de organização e divulgar estratégias de protesto, contanto que permaneçam juntos. No chão da fábrica, eles colocam problemas específicos para a gerência. Nos espaços públicos, eles apresentam demandas coletivas ao governo local.

Sem a organização de sindicatos independentes na negociação coletiva, os trabalhadores estão vivendo suas próprias lutas sociais, das quais as lutas de classe são uma parte. Em comparação com as gerações mais velhas, esta nova geração de trabalhadores migrantes rurais, cuja idade média é de vinte e três anos, é mais bem-educada, mais consciente dos direitos no local de trabalho e mais propensa a exigir proteção do emprego, além de trabalho decente (Federação dos Sindicatos da China 2010). A partir de 2003, surgiu uma escassez de mão-de-obra nas cidades costeiras cosmopolitas, bem como nas pequenas cidades do interior.1 Essa situação trouxe esperança aos trabalhadores porque eles têm sido capazes de se aproveitar dessa escassez – pelo menos em um grau limitado – para exigir salários mais altos. Quanto maiores são as suas aspirações para um futuro melhor, mais trabalhadores tomam consciência da sua dura realidade. Contra a injustiça social e econômica, eles usam os espaços do trabalho e do dormitório para se envolverem em lutas de vida ou morte.

A política espacial do trabalho

Como Rosa Luxemburgo discute, “o capitalismo precisa de organizações sociais não capitalistas como cenário para seu desenvolvimento” (2003: 346); prossegue através da criação de condições favoráveis, ou a remoção de obstáculos de todos os tipos, para a sua expansão. A maioria das economias socialistas, desde o chamado fim da história no início da década de 1990, foram atraídas ao capitalismo global, já que não mais poderiam sustentar sua forma convencional de existência. A China, há muito centrada nas relações sociais não capitalistas tem, desde a década de 1990, crescido para se tornar o maior produtor industrial do mundo e uma área geopolítica crucial para a acumulação de capital (Hung 2009; Andreas 2008, 2011). Esta globalização econômica e reforma estrutural orientada pelo Estado continua a exigir a aceleração de uma proletarização específica – as sucessivas gerações de trabalhadores migrantes rurais (nongmingongex-camponeses trabalhando na indústria) tornaram-se o pilar do setor de transformação no país, voltado à exportação, mas eles não podem se tornar trabalhadores “livres” no mercado. Com a rápida incorporação da China na economia mundial capitalista, os líderes do governo inverteram políticas anteriores que proibiam a migração rural-urbana e, em vez disso, incentivaram os camponeses a se tornarem trabalhadores assalariados, equipando de pessoal as florescentes fábricas nas áreas costeiras que alimentam o boom das exportações. Mas os trabalhadores rurais e suas famílias, embora convidados a trabalhar na cidade, não têm os direitos de cidadania urbana. As autoridades locais não recebem financiamento ou incentivos “de cima” para fornecer aos trabalhadores rurais “transitórios” a mesma habitação, educação, assistência médica, pensões e outras provisões sociais garantidas aos residentes urbanos registrados. Esta privação é justificada com o argumento de que os migrantes permanecem formalmente residentes rurais sob o sistema hukou do governo (registro de residência). Mesmo os grupos mais jovens de trabalhadores e membros da família que nasceram, viveram e trabalharam na cidade por décadas não têm direito aos benefícios básicos gozados pelos seus homólogos em domicílios urbanos (Selden e Wu 2011; Whyte 2010).

As famílias rurais de onde os trabalhadores migrantes vêm e às quais têm direito de retornar, conservam os direitos de uso da terra em pequenos lotes em suas aldeias nativas. Para muitos residentes rurais, esta terra evita a fome em tempos de adversidade, mas não pode proporcionar um meio de subsistência, menos ainda para o crescente número de migrantes rurais que cresceram nas cidades e não possuem habilidades agrícolas (ACFTU 2011).2 Os migrantes geralmente retornam às suas aldeias apenas para casar e ter filhos. Esse padrão persiste porque os filhos de pais cujo registro de residência permanece rural não podem receber educação pública nas cidades, especialmente nos graus mais elevados.

Tal proletarização é assim caracterizada por uma separação espacial entre a produção nas áreas urbanas e a reprodução social no campo. Este exército de reserva de trabalhadores migrantes internos chineses, mais de 200 milhões em todo o país, ajuda a diminuir não apenas os custos de produção, mas também os custos da reprodução social nas cidades-hospedeiras, negando aos trabalhadores migrantes rurais vários tipos de serviços sociais e educação pública. Uma subclasse permanente é criada em espaços industrializados urbanos.

Embora o sistema hukou ofereça um “amortecimento” sob a forma de direitos iguais de uso da terra para os residentes rurais, incluindo aqueles que vivem e trabalham nas cidades, contribuindo assim para a estabilidade social, o sistema envolve a cooperação tácita entre o estado chinês e o capital. Nessa economia política, os empregadores não precisam pagar um salário digno porque fornecem aos trabalhadores as necessidades mínimas de vida dentro do mundo fechado dos complexos de fábricas. Manter os dormitórios, em que uma dúzia de jovens devem compartilhar um quarto único atolado com beliches a poucos metros de distância uns dos outros, custa ao empregador muito menos do que os salários necessários para que os trabalhadores encontrem sua própria habitação. O mesmo vale para os alimentos notoriamente de baixa qualidade fornecidos nos restaurantes para funcionários. Os empregadores reduzem seus custos ainda mais, deduzindo as taxas de alimentos e habitação dos salários dos trabalhadores. Habitação barata e comida barata garantem minimamente que seus trabalhadores migrantes rurais possam comer, dormir e depois acordar rapidamente para trabalhar no dia seguinte. Além disso, os empregadores aproveitam o sistema hukou ao assumir que os trabalhadores podem voltar para suas terras rurais caso haja recessão econômica. Assim, o sistema hukou, distintamente não-capitalista, serve aos interesses do capital ainda melhor do que as cidades-empresa ou os cortiços urbanos em que os trabalhadores proletários ocidentais foram alojados no século XIX e início do século XX (ver também Burawoy, 1976).

O regime de trabalho-dormitório também ajuda no processo de proletarização no qual a vida familiar se extingue, tendo em vista que esse tipo de moradia é sempre temporário, circulando de um local de trabalho para outro. Enquanto os trabalhadores estão se movendo frequentemente de habitação temporária em habitação temporária, eles são continuamente separados de suas famílias. Os membros mais velhos da família e as crianças em idade escolar tendem a viver na aldeia onde nasceram, enquanto os familiares em idade laboral são geralmente espalhados entre diferentes empregadores e dormitórios diferentes. A instituição sociopolítica do regime de trabalho-dormitório, portanto, mantém uma massiva força de trabalho migrante interna sem o apoio das redes familiares e da vida comunitária.

O governo chinês, além de negar os benefícios básicos de bem-estar social que permitiria que os trabalhadores migrantes rurais fossem menos dependentes de seus empregadores, coíbe a auto-organização dos trabalhadores de forma a perpetuar os baixos salários, apesar dos aumentos periódicos atendendo aos requisitos locais de salário mínimo. Criticamente, a liberdade de associação, o direito de greve e a negociação coletiva são severamente restringidos pelo governo. Se os trabalhadores pudessem negociar de forma eficaz, eles poderiam pressionar os empregadores a aumentar os níveis de renda para que pudessem pagar por uma habitação própria e não permanecer morando no local onde trabalham (trabalho-dormitório), o que estimularia rapidamente o desenvolvimento de opções de habitação fora dos dormitórios. Nas zonas industriais urbanas, a incapacidade dos trabalhadores migrantes rurais de negociar coletivamente reduz os níveis de renda, apesar da escassez de mão-de-obra que deveria funcionar a seu favor. O setor de exportação da China, organizado em torno do princípio capitalista do lucro antes do ser humano, transformou a maior parte de seus lucros em poupanças empresariais, dividendos e reinvestimentos, em vez de compartilhá-los com os trabalhadores. O capital se acumula, as empresas e as corporações multinacionais ficam ricas e os trabalhadores migrantes do campo carregam sobre si o interminável sofrimento.

Independentemente dos tipos e localidades industriais, descobrimos que os dormitórios em altos edifícios, tipo arranha-céus, são fundamentais para a organização da produção e a reprodução diária dos trabalhadores com os menores custos possíveis e a maior eficiência no atendimento de empresas estrangeiras, privadas ou públicas. Os conjuntos de dormitórios são geralmente construídos dentro dos complexos de fábricas ou são adjacentes aos locais de trabalho, formando cidades industriais independentes e abrangentes. Esta proximidade espacial ajuda a cumprir os prazos de produção just-in-time, impondo o trabalho de horas extras e alongando a jornada de trabalho. O empregador convoca e desconvoca os funcionários como quem abre ou fecha uma torneira. O limite entre “casa” e trabalho é turvo. Trabalhadores precisam de menos tempo para chegar ao trabalho, mas eles também têm menos oportunidades de lazer em ambientes de produção. Nos dias com muito vento, as roupas dos trabalhadores penduradas nos corredores dos dormitórios voam como bandeiras multinacionais coloridas. Estas são as bandeiras da nova classe trabalhadora em uma época caracterizada pelo advento do capital global em conjunto com o Estado chinês.

Foxconn: A fábrica de eletrônicos do mundo

Em 2010, dentro de um período de cinco meses, treze jovens trabalhadores migrantes rurais tentaram suicídio na cidade de Shenzhen nas instalações da Foxconn, o principal fornecedor da Apple que, em 2010, era o empregador de 1 milhão de trabalhadores chineses.3 Onze dos treze trabalhadores morreram e um dos sobreviventes ficou com lesões incapacitantes. A idade desses trabalhadores variava entre dezessete e vinte e cinco anos. A maioria deles saltou de edifícios de dormitórios, enquanto um cortou os pulsos após tentar e não conseguir saltar. Na sequência desta série de eventos, a Foxconn colocou grades de metal e redes de proteção em seu prédio-dormitório de dezoito andares em Shenzhen e em outras cidades-fábrica. Embora isso possa ter tornado o suicídio mais difícil, deixou intactas as causas dos suicídios e criou uma vista verdadeiramente deprimente para os trabalhadores que, agora, são diariamente lembrados a respeito da realidade das regras da Foxconn quando olham pela janela. A revelação do sofrimento humano e a natureza extrema dos suicídios provocaram um “momento de julgamento” – não apenas na indústria, mas também nos espaços da sociedade civil global.

Durante os nossos dois anos de trabalho de campo4 em doze das cidades com mega-fábricas da Foxconn em toda a China, aprendemos sobre o aprofundamento da aliança entre a empresa e os governos locais, desde o custo incrivelmente baixo para o uso do solo até o abastecimento de água e eletricidade para os serviços laborais. Os menores complexos fabris da Foxconn empregam cerca de cinquenta mil trabalhadores, e os maiores empregam um número extraordinário de trabalhadores que chega aos quatrocentos mil. Dentro das cidades muradas da Foxconn, os trabalhadores migrantes que estão no nível mais baixo de uma organização hierárquica que possui treze níveis, lutam para melhorar suas vidas diante de um sistema de produção que exige que eles atinjam metas de produtividade cada vez maiores em níveis mais altos de velocidade de trabalho e qualidade. Em uma brilhante bandeira vermelha pendurada na nova fábrica da Foxconn em Chengdu pode-se ler: “Um só coração, Foxconn e eu crescemos juntos” (“Xin lian xin, Fushikang yu wo gong chengzhang”), sugerindo que os trabalhadores e a empresa se identificam um com o outro, como se eles compartilhassem o mesmo coração. A equipe de propaganda corporativa criou um sonho de riqueza através do trabalho e tentou persuadir os trabalhadores de que o sucesso e o crescimento só são possíveis quando se trabalha em um ritmo esgotante, extenuante. No entanto, muitos trabalhadores rejeitam esses tipos de sonhos coloridos e os consideram distantes e irreais. Irritados com a falta de oportunidades para um desenvolvimento e crescimento em sua carreira profissional, bem como pelo respeito devido a eles como seres humanos, os trabalhadores zombam dos slogans da Foxconn com uma torção de palavras, transformando a “gestão humana” (renxinghua guanli) em “subordinação humana” (renxunhua guanli).

Os gerentes de recursos humanos corporativos também introduziram até 150 mil estagiários – 15% da força de trabalho da Foxconn – apenas no verão de 2010, de acordo com as estatísticas da empresa (Foxconn Technology Group 2010). Os estudantes, de dezesseis a dezoito anos de idade, estudam em tempo integral em escolas profissionais privadas e públicas. São enviados para fazer estágios nas fábricas da Foxconn onde há falta de mão de obra. Tais estágios têm a duração de três meses a um ano. Fixar parafusos e colar rótulos em iPhones e iPads não tem nada a ver com a área de estudos desses alunos, que incluem artes, música, estudos aplicados em cibernética, educação pré-escolar e gerenciamento de indústria turística. Os “estágios”, longe de serem livremente escolhidos, são coletivamente organizados em uma escala maciça, estabelecendo-se uma relação triangular entre a Foxconn, os governos locais e as escolas.

 Controle e resistência no regime de trabalho-dormitório

Longe de ser uma forma de bem-estar oferecida pela empresa, o regime de trabalho-dormitório é implantado pela administração para maximizar o controle dos trabalhadores. E, no entanto, o outro lado desse processo permanece pouco estudado: a subversão pelos trabalhadores do ambiente desumanizado em relação aos seus interesses individuais ou coletivos.

A instituição do regime de trabalho-dormitório está centrada no controle burocrático tanto quanto na autodisciplina. A sexualidade é altamente regulada pelos dormitórios segregados por gênero. Trabalhadores masculinos e femininos – a maioria adolescentes e adultos jovens não casados – estão proibidos de visitar os quartos uns dos outros. Os oficiais de segurança permanecem no portão do dormitório, ou mesmo em todos os andares, 24 horas por dia. O controle do desejo e a obediência às regras do dormitório, enquadradas no discurso gerencial da moral e da cooperação, são cruciais para as políticas de trabalho. Os trabalhadores são treinados não só durante o horário de trabalho, mas também durante as supostas horas de lazer sob este sistema capitalista.

Atualmente, um dormitório padrão geralmente é compartilhado por seis a doze trabalhadores em beliches duplos. Os dormitórios recém-construídos em prédios de vários andares tendem a ter melhores instalações do que os antigos e estão equipados com chuveiros de água quente, ar condicionado, armários pessoais, salas de televisão compartilhadas e elevadores. Apesar disso, as condições básicas permanecem em grande parte inalteradas: trabalhadores com tarefas diferentes e até mesmo de turnos diferentes são misturados no mesmo dormitório. Seus horários para dormir e acordar são diferentes e frequentemente os trabalhadores de turnos diferentes interrompem o descanso uns dos outros. O espaço privado é limitado à própria cama atrás de uma cortina autofabricada. Muitos trabalhadores vivem nos dormitórios barulhentos da fábrica porque não conseguem pagar nem mesmo um pequeno apartamento na cidade industrial. Muitos trabalhadores casados vivem separados de seus cônjuges. Apenas alguns poucos podem compartilhar um lugar fora dos dormitórios da fábrica. Nesse contexto, o capital envolve todo o espaço vivo em um sistema de gerenciamento diário total. Horários de almoço, jantar, dormir, acordar e até mesmo banhos e lavagem de roupas são tarefas agendadas, como aquelas em linhas de produção. Os trabalhadores vivem com estranhos, não têm permissão para cozinhar e não podem receber amigos ou familiares durante a noite.

As aleatórias mudanças de dormitórios rompem as amizades construídas e as redes locais, aumentando o isolamento e a solidão. E, mais que isso, as divisões por idade, habilidades, origens, e concepções de equidade e justiça, podem ser desconsideradas, especialmente quando os trabalhadores enfrentam ameaças comuns. No ambiente densamente povoado e intensamente estressante, são tópicos comuns: as queixas resultantes da falta de higiene pública nos dormitórios, a falta de sono devido à excessiva carga de trabalho, a humilhação e punição pelo não cumprimento das regras, a exposição aos riscos existentes no ambiente de trabalho e aos riscos à saúde, aliadas a comunicações bloqueadas entre trabalhadores e gerentes. Não importa o quão rígido seja o controle e a vigilância no local de trabalho, os trabalhadores – como seres humanos e não máquinas – encontram maneiras de lidar com suas necessidades econômicas, sociais e afetivas.

O aparentemente todo-poderoso império de produção da Foxconn, submetido à demanda implacável para a produção just-in-time da Apple e muitas outras empresas de tecnologia na cadeia de abastecimento global, está propenso a interrupções no seu fluxo de trabalho. É verdade que, devido à sua enorme escala, a Foxconn pode mudar os pedidos dos clientes bem como os trabalhadores de uma planta para outra com a finalidade de reduzir riscos e perdas – assim como ocorreu após a explosão mortal de poeira de alumínio e o encerramento subsequente de uma oficina de polimento em Chengdu em maio de 2011 (IHS iSuppli News Flash 2011, Estudantes e Acadêmicos contra a Má Conduta Empresarial 2011). No entanto, este “reajuste espacial” é, na melhor das hipóteses, um adiamento ou reorganização da crise, e não uma solução para os problemas ao nível do local de trabalho e além.

É importante ressaltar que o dormitório serve de plataforma para que alguns trabalhadores compartilhem suas ansiedades sobre seu futuro e articulem preocupações comuns – ou seja, quando há suficiente descanso do excesso de horas extras, a fim de que tenham tempo para discussões de assuntos sérios. Em um final de sábado à noite, em dezembro de 2011, nós nos encontramos com um trabalhador Foxconn de vinte e cinco anos, Zhu Weili, que usava calças jeans, tênis Nike e o uniforme azul escuro da Foxconn. Apesar de seu olhar brilhante e esportivo, ele expressava profundas preocupações:

Não sou mais capaz de continuar trabalhando sem um propósito e sem um plano claro; todos os meses eu consigo ganhar apenas mil yuans aproximadamente. Se não fosse me casar eu poderia viver com esse salário por alguns anos, mas se eu me casar, vou ter que criar meus filhos; realmente esse salário não é o suficiente para tanto. . .. Nossos dias são verdadeiramente frenéticos, e mesmo que você seja forte, é difícil. A maioria das pessoas no meu dormitório é solteira, e eu sinto que as pessoas casadas geralmente não viriam para cá. Os salários são baixos. 5

Zhu e seus companheiros de quarto uma vez pensaram em organizar uma paralização no trabalho para negociar salários e benefícios com a administração, mas o plano não progrediu.

Em outro dia, em um dormitório de mulheres, nós nos reunimos com Fan Chunyan e suas duas colegas de quarto para discussões sobre saúde ocupacional e segurança no trabalho. Elas mencionaram o fato de terem “vomitado muito em todos os lugares” nos primeiros dias do turno noturno, já que os produtos químicos aplicados no processo de limpeza de peças e produtos são “alergênicos e provocam irritações”. Elas vincularam a exposição química crônica e de alta dose a problemas de saúde reprodutiva e defeitos congênitos. Como elas estavam em idade fértil, havia muito medo em relação às substâncias químicas desconhecidas que eram obrigadas a usar todos os dias. Reunindo-se em um grupo, elas chegaram à conclusão que aquilo não era um problema individual de “corpos debilitados ou fracos” ou “problemas pessoais”, mas um problema sistêmico no local de trabalho.6

Ações coletivas esporádicas finalmente estouraram. Na noite de 6 de janeiro de 2011, em um dormitório na planta de Chengdu da Foxconn, “trabalhadores rebelados” jogaram garrafas de vidro e extintores de incêndio dos andares superiores ao chão. Embora os trabalhadores não tenham apresentado demandas claras à gerência, por trás desse comportamento “insensato”, de acordo com a caracterização da administração, havia uma profunda insatisfação com as condições de trabalho, em particular pelos baixos salários e pelas longas jornadas: os trabalhadores estavam trabalhando treze dias de doze horas consecutivamente, incluindo quatro horas extras ilegais. Em 2 de março de 2011, centenas de trabalhadores do mesmo departamento de produção entraram em greve e bloquearam a entrada principal da planta do Sul até que a polícia chegou para dispersar a multidão. Desta vez, a demanda para aumentar os salários e melhorar as medidas de segurança foram claramente articuladas, mas não foram atendidas.

Em julho e agosto de 2011, na “Cidade do iPhone” da Foxconn Zhengzhou, em Henan, trabalhadores descontentes utilizaram a linha direta da empresa – o número 78585-  para assistência (em mandarim, os números “78585” são foneticamente equivalentes a “por favor, ajude-me, ajude-me”), mas os problemas com o excesso de horas extras e de disputa salarial levantados permaneceram sem solução. Seguiu-se uma paralisação do trabalho, e os trabalhadores em greve foram todos demitidos. As discussões sobre o tratamento injusto continuaram por semanas nos dormitórios dos trabalhadores. Em 28 de março de 2012, o CEO da Apple, Tim Cook, visitou o chão da fábrica, onde os trabalhadores haviam gastado horas para limpá-la antecipadamente. Os instantâneos da auditoria pré-anunciada foram encenados, com o número de toxinas reduzidas antes das visitas e os trabalhadores temporariamente realocados em tarefas mais seguras. Os trabalhadores enviaram mensagens através de telefones celulares e micro blogs para desabafar sua raiva contra ambas, a Foxconn e a Apple: “Foi apenas um show”.

Tendo em vista que o governo chinês, em nível federal, não impõe leis trabalhistas e códigos que protejam os trabalhadores, os empregadores como a Foxconn sentem-se livres para ignorar as restrições estatais sobre horas extras, saúde e segurança, a fim de atender aos imperativos de fabricação e logísticos globais. E quanto à representação sindical? A lei chinesa, ostensivamente, dá aos trabalhadores direitos fundamentais, incluindo o direito de eleger os representantes sindicais, o direito de votar o impedimento de representantes sindicais que não estejam representando-os apropriadamente e a proteção contra a discriminação por atividades sindicais. No entanto, embora a Foxconn tenha entrado em Shenzhen em 1988, o carro-chefe, a fábrica Longhua, estabeleceu um sindicato apenas no final de 2006, sob a dupla pressão da exposição na mídia das condições de fabricação do iPod da marca Apple e a mobilização da Federação de Shenzhen dos Sindicatos (China Labor News Translations 2007). Os trabalhadores nos disseram, nas entrevistas, que o sindicato não age de acordo com suas necessidades, mas sim organiza atividades como concursos de vedação de caixas para atender às necessidades da empresa. Os trabalhadores da Foxconn, como a maioria dos trabalhadores chineses, não têm meios para apelar pela ajuda do sindicato ou recorrer a outras fontes de assistência. Os estudantes estagiários não são nem mesmo representados como membros do sindicato, pois são legalmente definidos como estagiários e não funcionários.

Os jovens trabalhadores, no final de sua adolescência até meados de seus vinte anos, que foram colocados no ambiente de fabricação e dormitório, experimentam a alienação no sentido marxista clássico. A fabricação “flexível” da Foxconn dita que o trabalho, como mercadoria, juntamente com outros meios de produção, está organizado em uma operação ininterrupta de vinte e quatro horas dedicada a satisfazer a demanda dos consumidores globais por aparelhos eletrônicos. “Eu sou apenas um grão de poeira na fábrica” é o sentimento de si próprio que surge após inúmeras palestras e repreensões dos líderes de linha. Como migrantes rurais, os trabalhadores da Foxconn gozam de pouca proteção trabalhista na sociedade em geral e sofrem uma intensificada pressão laboral e de desespero no local de trabalho, o que leva a suicídios e a uma resistência cotidiana e coletiva.

Conclusão

Em meio ao crescimento econômico de alta velocidade da China, uma geração mais nova de trabalhadores enfrenta um cenário pior do que aquele experimentado por seus pais ou colegas mais velhos com relação à crescente desigualdade salarial e de oportunidades. A experiência dos trabalhadores, que são coisificados pelo processo de ter que vender a sua força de trabalho a um capitalista que em seguida toma para si o controle  de sua capacidade de trabalho, contrasta fortemente com a ação intencional de uma pessoa auto-capacitada que trabalha para fazer algo que é, em última análise, mais benéfico para si mesmo do que para um empregador implacável (Marx, 1973).7 Os trabalhadores chineses entram em colapso no momento em que percebem que há pouca possibilidade de encontrar um trabalho decente e pouca possibilidade de construir uma casa na cidade, o próprio significado de seus empregos e até mesmo de suas vidas.

Na acumulação acelerada de capital que migra da área costeira para o centro e o oeste da China, o regime de trabalho-dormitório garante, não apenas a eficiência de custos, mas também que os trabalhadores passem suas horas de folga apenas se preparando para outra rodada de produção. Paradoxalmente, como nosso estudo da Foxconn mostra, os trabalhadores também reconquistam o limitado espaço para morar e o limitado tempo aos quais seu trabalho e suas vidas estão confinados, recriando e recombinando repertórios culturalmente diversificados de lutas sociais, através de slogans e declarações públicas expressas em protestos. Ao transformar seus dormitórios coletivos em espaços comunais, eles abrem novas oportunidades para a resistência no trabalho. A conscientização dos seus direitos é aumentada através da partilha de informações sobre o Direito do Trabalho, através da comunicação “boca a boca” e das tecnologias móveis. A aprendizagem mútua entre diferentes segmentos de trabalhadores (trabalhadores migrantes jovens e velhos, ativistas trabalhistas iniciantes e veteranos, e estudantes estagiários) ajuda a construir a solidariedade. Deixando de lado os resultados da disputa trabalhista, o que quisemos ressaltar aqui é que a análise de classe, como uma arma de mudança social progressiva, tem que ser reformulada pela experiência vivida da classe trabalhadora. A transformação capitalista da China nos oferece uma perspectiva não-ocidental sobre a compreensão das contradições da mobilidade transnacional do capital, da vida dos trabalhadores e da mudança do papel do Estado. Os filhos da era da reforma pós-Mao são adultos. Eles levantam preocupações legítimas sobre o discurso de “direitos de cidadania” articulado pelo Estado. Eles irrompem através da imagem corporativa global de “atenção”, atrás da qual as reais práticas de organização das empresas vão contra tudo o que prometem em seus programas de padrões trabalhistas e ambientais. Os trabalhadores convocam os consumidores conscientes de produtos da Apple, e os pesquisadores interessados em produzir conhecimento que possa aumentar sua capacidade de vencer na política laboral mundial.

Notas

Nossa sincera gratidão a Ralph A. Litzinger, Dimitri Kessler e Amanda Bell por seus comentários muito úteis sobre um esboço anterior. Também gostaríamos de agradecer a todos os membros do Foxconn Research Group, especialmente Mark Selden, Lu Huilin, Shen Yuan, Guo Yuhua e Jack Qiu. Pelo seu apoio, agradecemos a Peter Evans, Michael Burawoy, Chris Smith, Jos Gamble, Debby Chan, Yiyi Cheng, Ellen David Friedman, Jeffery Hermanson e Gregory Fay.

  1. O fornecimento de mão-de-obra da China é maciço em tamanho. Mesmo que que o crescimento da população em idade de trabalhar se desacelere, em parte devido à política obrigatória de um único filho, estima-se que o número de pessoas em emprego não agrícola aumentará em 80 milhões entre 2010 e 2020. A abundância do trabalho rural coexiste com a redução na oferta de mão-de-obra migrante em algumas cidades.
  2. A pesquisa de 1.000 empresas da ACFTU- (Federação dos Sindicatos de Toda a China -All-China Federation of Trade Unions) (2011) de vinte e cinco cidades informou que 73,9% dos jovens trabalhadores migrantes estavam empregados na fabricação (apenas 5,5% na indústria da construção) e a proporção com experiência de trabalho agrícola antes do emprego urbano caiu para apenas 11%.
  3. A Foxconn divulgou visitas de psicólogos com a sugestão desdenhosa de que o número de suicídios em suas fábricas estava abaixo da taxa nacional de 23,2 por 100.000 pessoas. Mas nenhum estudo científico ignoraria o fato de que os suicídios da Foxconn eram de jovens empregados por uma única empresa. Especificamente, a Foxconn não considerou a “norma” dos trabalhadores chineses se suicidar em protesto contra condições de trabalho extremamente atrozes.
  4. Somos membros do Grupo de Pesquisa Foxconn multi-universitário desde a sua criação em junho de 2010. Professores e alunos de vinte e duas universidades na China, Taiwan, Hong Kong, Reino Unido e Estados Unidos uniram forças para realizar investigações independentes a respeito das práticas trabalhistas da Foxconn, investidas em Taiwan, na sequência dos suicídios. Na primeira fase, entre junho e dezembro de 2010, entrevistamos e pesquisamos trabalhadores e gerentes nos principais complexos de fábrica da Foxconn em nove cidades, principalmente na China costeira, onde as fábricas da empresa foram concentradas: Shenzhen, Shanghai, Kunshan, Hangzhou, Nanjing, Tianjin, Langfang, Taiyuan e Wuhan. Na segunda fase, de março a dezembro de 2011, viajamos para três novos complexos Foxconn em Chengdu, Chongqing e Zhengzhou, nas províncias central e sudoeste. Na terceira fase, desde janeiro de 2012 até o presente, trabalhamos em estreita colaboração com as organizações não-governamentais locais que fornecem programas de treinamento aos trabalhadores da Foxconn.
  5. Em dezembro de 2011, a Foxconn Chengdu pagou 1.300 yuan por mês (US$ 204) a seus funcionários iniciantes (aqueles que estavam na parte mais baixa da hierarquia de cargos). Os custos de alimentos (o pacote de refeições mais barato era de 11 yuans por dia), o aluguel de um quarto de dormir (110 yuans por mês) e as taxas de segurança social (75 yuans por mês) eram deduzidas dos salários dos trabalhadores. Em 2011, o salário mensal médio dos trabalhadores migrantes da China era de 2.049 yuan (US$ 322), incluindo as horas extras.
  6. O problema de trabalho da Foxconn não é, de forma alguma, um caso isolado na China. Sem uma proteção legal efetiva e sob a pressão constante da Apple e outros compradores, pelo menos 137 trabalhadores da Wintek foram envenenados em 2009 quando limpavam as telas sensíveis ao toque de iPhones com n-hexano, um produto químico que, apesar de seus perigos, foi escolhido pela Wintek, porque tal produto evapora muito mais rapidamente do que qualquer outro produto de limpeza substituto, acelerando assim a linha de produção.
  7. Nas palavras de Karl Marx, “O trabalho é o seu ser na medida em que você não seja coisificado; é o seu ser ideal; a possibilidade de valores e, como atividade, o postulado de valor. Contra o capital, o trabalho é a forma meramente abstrata, a mera possibilidade de atividade valor-postulação, que existe apenas como uma capacidade, como um recurso na corporeidade do trabalhador” (1973: 297-98).

Referências

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———. 2011. “Survey into and Some Proposals Regarding the Conditions of the New Generation of Rural Migrant Workers at Enterprises in 2010” (in Chinese). http://acftu .workercn.cn/c/2011/02/21/110221040907789516873.html.

Andreas, Joel. 2008. “Changing Colors in China.” New Left Review, no. 54: 123–42. ———. 2011. “Expropriation of Workers and Capitalist Transformation in China.” China Left Review, no. 4. http://chinaleftreview.org/?p=477.

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