#NuncaMais

Por Eduarda Johanna Alfena

No dia de hoje, 27 de Janeiro de 1945, o Marechal do Exército Vermelho da URSS, Gueorgui Jukov (ou Zhukov, dependendo da transliteração), junto ao 1º Corpo de Exércitos Bielorusso, marchava pelo território da então Polônia ocupada. Porém tiveram uma terrível descoberta em seu caminho: O Campo de Trabalho e Extermínio de Auschwitz-Birkenau. Oito mil prisioneiros foram achados ainda “com vida”.

Começo da Perseguição

O Holocausto não se resumiu apenas a Campos e Câmaras de Gás. Ele pode ser datado desde a tomada de poder pelos nazistas, em 1933. Logo que Adolf Hitler e sua trupe alçaram o poder na Alemanha, uma sombra começava a pairar sobre a nação. Em Fevereiro daquele ano, o prédio do Parlamento Alemão seria consumido por um incêndio. Hitler convenceu o então Presidente, Paul Von Hindnburg, a assinar um decreto fechando a maioria dos partidos existentes e instituindo lei marcial em todo o país.

Centenas de militantes e parlamentares comunistas e socialdemocratas seriam presos e depois transferidos para campos de detenção “espaciais”. O ódio nazista logo seria direcionado aos judeus da Alemanha. Primeiro foram expulsos do Serviço Público. Depois viriam as Leis de Nuremberg, que além de lhes tirar a cidadania alemã, proibia casamentos inter-religiosos de judeus com não-judeus. Judaísmo passou a ser legalmente considerado não mais uma religião, mas uma raça.

Logo os judeus teriam que andar com uma estrela de Davi amarela costurada na roupa. Depois tiveram que acrescentar nomes na identidade, tudo para serem melhor identificados.

O Anschluß e a Noite dos Cristais (Kristallnacht)

Passemos para 1938. A Alemanha Nazista anexa a sua vizinha Áustria e, com isso, os judeus daquele país passam a ficar sob as leis alemãs. Durante todos esses anos, os judeus que tinham mais condições iriam emigrar para outros países, principalmente Estados Unidos e Reino Unido. Mas a maioria da população judia, que não dispunha de recursos suficientes, ficaria presa na Alemanha.

A situação dos judeus estava a cada dia pior. Porém, ela iria piorar mais. Herschel Grynszpan era uma jovem de origem judia e polonesa. Ela vivia em Paris com um tio, quando, em novembro de 1938, recebeu um postal da família. Todas as pessoas de descendência polonesa que viviam na Alemanha foram retiradas de suas casas e jogadas perto da fronteira com a Polônia sem acesso a seus bens.

Herschel enlouqueceu. Sem suportar o sofrimento que sua família vinha enfrentando, arrumou um revólver, entrou na Embaixada Alemã em Paris pedindo para conversar com o embaixador, mas acabou atirando e matando o funcionário Ernst von Rath. A reação na Alemanha foi de raiva e consternação. Como vingança, o Governo Nazista autorizou, no dia 9 de Novembro uma série de perseguições contra os judeus. Da noite do dia 9 até o amanhecer do dia 10, centenas de milhares de judeus foram agredidos e\ou mortos, tiveram suas casas e lojas destruídas e saqueadas, e centenas de sinagogas foram incendiadas. Em alusão aos montes de vidros quebrados, o episódio ficou conhecido como a Noite dos Cristais.

Da invasão a União Soviética à Conferência de Wansee

Vamos mais adiante. O ano é 1941. A Europa está imersa na guerra fazem dois anos. Hitler quebra seu tratado de não agressão e invade a União Soviética. Devido ao despreparo dos Soviéticos centenas de milhares de quilômetros são ocupados e colocados sob administração imediata nazista.

Desde que a Polônia fora dividia, em 1939, os judeus foram levados para o leste e passavam a conviver em guetos. Esses guetos eram grandes territórios, cercados e vigiados, em que os judeus foram jogados para viver à própria sorte. As condições de higiene eram quase inexistentes, e milhares morreriam por fome e doenças. O maior desses guetos ficava em Varsóvia, antiga capital polonesa, na região que deu origem ao assim chamado Governo-Geral, administrado por Hans Frank.

Porém, o excesso de internos começava a gerar irritação das autoridades ocupantes do território polonês. Uma solução teria que ser encontrada. Com a invasão da União Soviética, a Alemanha ganhara muito mais territórios. Começou-se então uma intensa discussão sobre o que fazer. Hitler pensava em deportar todos os judeus para a distante Madagascar, mas a Alemanha não tinha recursos para isso.

Uma conferência foi marcada então para 20 de janeiro de 1942. Ela aconteceu na casa de número 56 – 58 Am Großen Wansee, (que ficaria conhecida como Conferência de Wansee). Todas as autoridades nazistas se reuniram, e aí que foi traçada a “Solução Final para a Questão Judaica”. Os judeus seriam levados para mais ao leste e lá seriam erguidos campos de Trabalhos, mas majoritariamente de Extermínio.

Campo de Trabalho Versus Extermínio

Uma discussão que existe é se podemos chamar todos os campos de simplesmente “Campo de Extermínio”. Entretanto, existiam também campos de trabalho, onde os Judeus eram colocados para prestar trabalhos forçados, muito caros ao esforço de guerra nazista. Os campos de Extermínio serviam apenas como fábricas da morte. Não havia estrutura no sentido de dormitórios ou latrinas.

Como era feito o extermínio? Para maximizar a morte, os judeus eram colocados em vagões de gado, sem comida ou água. Os dejetos eram feitos ali mesmo, ficando amontoados, para maximizar a probabilidade de doenças e infecções. Ao chegar nos campos de extermínio, eram avisados que iriam tomar um banho e comer. Se despiam, e eram avaliados por dentistas. Quem tivesse obturações de ouro, era marcado nas costas. Entravam para tomar banho, a porta era trancada, e dos chuveiros saí o Zyklon-B, gás fatal para humanos.

Os seus pertences eram guardados depois enviados para campanhas de “caridade” promovidas pelo Governo Nazista. As pessoas marcadas nas costas, tinham seus dentes arrancados, e o ouro era enviado para o Banco do Reich.

É importante dizer que muitas vezes os dentes chegavam com pedaços de gengiva. A gordura (ou o que restava dela) era drenada para fazer-se sabão. Os cadáveres eram encaminhados aos crematórios e queimados. As cinzas ainda eram vendidas como fertilizante. Muitas vezes os campos eram construídos pela mão de obra dos próprios prisioneiros. Literalmente, eles cavavam a própria sepultura.

Auschwitz-Birkenau: A verdadeira indústria do extermínio

Vários campos de extermínio se popularizaram no quesito de morte em escala industrial: Treblinka, Sobibór, Majdaneck, Bełzec e Chełmno. Mas nenhum chegou perto do mais temido: Auschwitz II Birkenau.

Auschwitz era o único do tipo “Campo Misto”. Ele servia para ambos trabalho e extermínio. Os prisioneiros chegavam e eram selecionados conforme suas aptidões físicas, exame este feito meramente a partir da aparência. Se fossem considerados “saudáveis”, iam para a fila da direita, para trabalhar. Se fossem considerados “doentes”, iam para a fila da esquerda, direto para a Câmara de Gás. Cada prisioneiro, ao entrar nos campos, era tatuado com números de registro, sempre nos antebraços.

E como controlar tantos detentos? Bom, alguns prisioneiros eram selecionados como guardas, para manter a ordem no campo. Eram denominados Sonderkommandos. Ganhavam um pouco mais de ração e faziam todo o trabalho sujo para quem administrava os campos, a SS. Não só a SS poupava trabalho, como também economizava, pois não teriam que pagar por mais guardas. Não que os Sonderkommandos tinham escolha. Se não aceitassem o posto, fuzil.

Adivinhem quem que era responsável por retirar os corpos dos crematórios, retirar os dentes, os cabelos, a gordura, e os pertences? Sim, os Sonderkommandos. No fundo eles sabiam que uma hora chegaria a vez deles.

O sofrimento era tanto que muitos prisioneiros tocavam em cercas elétricas para se suicidar. A morte era a melhor opção. Logo os guardas colocaram arame farpado para impedir o suicídio em massa, pois como dito acima, os trabalhadores forçados eram caros ao esforço de guerra.

Um dado sinistro: no auge do extermínio, em meados de 1944, seis mil pessoas morriam por dia em Auschwitz. Dos seis milhões de judeus exterminados, um sexto foi somente em Auschwitz. Não raro, os crematórios não suportavam tanta carga de mortes e quebravam. Os corpos então eram amontoados e se jogava gasolina para queimar.

Das Marchas da Morte e a Libertação

Quando a Alemanha viu que iria perder a guerra, a ordem foi evacuar os campos. Quem tinha condição deveria sair, quem estava muito debilitado, que ficasse e morresse. Foi aí que se iniciaram as marchas da morte. Todos os prisioneiros restantes foram obrigados a andar, andar, andar, andar, a esmo e sem rumo. Quem caísse de cansaço ou reclamasse de fome, era fuzilado pelos guardas que os escoltavam. Chuva, sol, neve, não importava, tinham que andar. Homens, mulheres, idosos, crianças…

Mas os aliados não poderiam saber sobre o Holocausto. Antes de sair, muitos guardas levavam consigo os arquivos dos campos. O que não podia ser levado, era destruído sistematicamente. Alguns campos, tanto de trabalho ou extermínio, foram parcialmente incendiados, ou demolidos. Ninguém poderia saber.

Tudo que foi feito nos guetos e campos, era mantido sob absoluto sigilo. As pessoas comuns viam trens cheios de gente voltarem vazios, mas não sabiam para onde iam. Heinrich Himmler, o líder da SS disse para líderes da organização em 1943: “A aniquilação do Povo Judeu é uma página gloriosa de nossa História, que não foi escrita, nem nunca será”.

No Oeste, estadunidenses e britânicos libertavam campos de prisioneiros e o mundo ficava consternado. Porém, foi no dia 27 de janeiro de 1945, quando o Marechal do Exército Vermelho Gueorgui Jukov chegou em Auschwitz, que o mundo conheceu a verdadeira extensão do horror nazista. Jukov e o 1º corpo de exércitos Bielorusso encontraram oito mil prisioneiros esquálidos e extremamente doentes. Muitos deles já não tinha mais condições de serem salvos.

Junto deles estavam corpos amontoados nos crematórios, verdadeiras montanhas de roupas, sapatos, dentes de ouro, chumaços de cabelo, relógios, entre diversos itens religiosos.

Auschwitz não pôde ser completamente destruída e esvaziada. Não só em razão de o exército vermelho se aproximar tão rápido que mal havia tempo para fugir, mas também pelo seu imenso tamanho. Auschwitz era um complexo de 48 campos. Quarenta e oito fábricas da morte.

E que fim levaram os prisioneiros? Ficaram abandonados à própria sorte. Suas casas haviam sido destruídas ou tomadas, seus bens roubados, sem dinheiro ou condição de viajar, e suas famílias (muitas vezes quase totalmente) exterminadas. A maioria traumatizada pela vida toda pelos horrores que presenciaram.

Mengele

Não só os prisioneiros eram submetidos a toda sorte de crueldades como também eram cobaias. Sim, cobaias. Em muitos campos, os prisioneiros eram usados pelos médicos como cobaias em todo o tipo de experimento. Claro, a ética médica não contempla perseguidos por sistemas totalitários.

Não só Auschwitz era o pior dos campos, como também era onde “trabalhava” o pior dos “médicos” nazistas. Josef Mengele era o “médico” do campo. Formado em medicina, Mengele se especializou em uma área muito comum nas faculdades de medicina da época: Genética e Pureza Racial. Creio que não preciso dizer mais nada.

Mengele se tornou um nazista fanático e rapidamente subiu nos rankings da SS. Quando Auschwitz foi aberto, o próprio Hitler lhe “presenteou” com o cargo de médico do campo.

Alguns dos experimentos de Mengele? Bom, jogar pessoas em tanques de água semicongelada, para depois jogá-las em tanques de água quase fervente. O objetivo era descobrir como fazer com que os soldados alemães se adaptassem melhor ao frio soviético. Mengele era fascinado por gêmeos, principalmente siameses. Ele infectava ambos com as mesmas doenças e ficava lá observando, para ver se reagiriam do mesmo jeito.

Jogava tinta nos olhos para ver a reação e adorava fazer cirurgias e dissecações sem anestesia, para “testar” o quanto uma pessoa aguentava de dor. Também cobria os seios das mulheres que davam à luz com fita adesiva. O Objetivo era calcular quanto tempo os recém-nascidos aguentavam sem comer. Sim ele ficava parado contando o tempo, enquanto os nenéns gritavam de fome. Tudo friamente, sem o menor desconforto.

Pouco antes do fim da guerra Mengele fugiu da Alemanha e depois disso há um imenso debate sobre onde ele viveu, onde morreu, que nomes usou. O certo é que ele viveu uma vida bem tranquila. Os arquivos de Mengele até hoje não foram encontrados.

Não Só Judeus

Fica bastante claro que os judeus foram o povo que mais sofreu com o Nazismo e o Holocausto. Mas eles não foram os únicos. Qualquer pessoa considerada comunista ou opositora do regime era presa e muitas foram enviadas a campos de trabalhos forçados. Prisioneiros de guerra, principalmente os Soviéticos, eram usados em massa em experimentos. Ciganos também foram perseguidos e mandados direto para campos de extermínio. Testemunhas de Jeová tiveram destino semelhante.

Pessoas homossexuais eram inicialmente presas por comportamentos “desviantes”. Com a invasão da URSS e consequente construção dos campos, homossexuais, em sua maioria homens gays, eram enviados e usados em experimentos, na tentativa de “curar” sua homossexualidade.

Pessoas com deficiências também foram exterminadas em massa. Principalmente crianças. Elas eram retiradas da guarda dos pais e levadas para “hospitais” para serem tratadas. Lá, elas eram encaminhadas para câmaras de gás (sim) e depois cremadas. O modelo foi seguido depois pelos campos de extermínio. Isso foi o programa T4, que vale um texto futuro.

Considerações Finais

O Holocausto foi o pior capítulo da história da humanidade. Apesar de regimes posteriores terem matado numericamente mais que os nazistas, nenhum deles, nenhum, criou meios exclusivamente com a função de matar em massa. Nenhum regime criou uma logística tão avançada e complexa de extermínio. Podemos dizer que foi uma verdadeira engenharia da morte. Os fascismos geralmente matam para chegar e manter o poder. O Nazismo chegou no poder apenas para matar.

Apesar de tudo, quer-se esquecer o Holocausto. Dizem que devemos demolir tudo que sobrou. Devemos apagar o sofrimento e sangue de tanta gente. Que o nazismo acabou. Não. Não acontecerá isso. O nazismo não morreu. Ele volta a nos assombrar. Vemos movimentos de extrema-direita surgindo com força. Principalmente movimentos nazi-fascistas.

Que lutemos para que nunca mais o mundo presencie outro Holocausto, outra Shoá. Outra barbárie dessas. Que nunca mais chegue ao poder o regime da barbárie, o regime do sangue e do sofrimento. O regime capaz de tanta destruição gratuita.

#NuncaMais #NeverMore #NieWieder. Que #NuncaMais seja o nosso lema para hoje e sempre.

Na imagem: Auschwitz principalmente, e vários outros campos de trabalhos forçados, nas suas entradas vinha essa frase “O Trabalho Faz Livre”. Cinicamente uma justificativa para os horrores que lá iriam acontecer.

Referências:
Evans, R. J:
‘’A Chegada do Terceiro Reich’’, Editora Planeta do Brasil, São Paulo, 2010, 2ª ed.
“O Terceiro Reich no Poder”, Editora Planeta do Brasil, São Paulo, 2011, 2ª ed.
“O Terceiro Reich em Guerra”, Editora Planeta do Brasil, São Paulo, 2014, 2ªed.

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