James Cannon contra a burocracia stalinista

A academia dá muito pouco valor aos teóricos trotskistas. Isso é uma injustiça. Gostaria de compartilhar um pouco da leitura que estou fazendo do livro A História do Trotskismo Norte-Americano, de James Cannon, particularmente do capítulo 3, disponível online. (http://docplayer.com.br/61616731-O-comeco-da-oposicao-de-esquerda.html) Vamos estudar marxismo?

Por: Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online

A campanha antitrotskista

Em 1923, na União Soviética, iniciou-se uma batalha entre a fração de Stalin e a Oposição de Esquerda, cuja principal liderança era Trotski. Mas, até 1928, James Cannon não teve acesso a nenhum documento, nenhum relato vindo da Oposição de Esquerda. Os relatos e informes eram sempre unilaterais, de forma que ficava difícil para Cannon tomar uma posição.

Apesar dos informes unilaterais, todos os partidos da Terceira Internacional tinham a obrigação de posicionar-se a favor da fração stalinista, apoiando a expulsão de qualquer pessoa que ousasse opor-se à fração majoritária. Os opositores eram sempre classificados como trotskistas. Como Cannon relata:

Desde Moscou, foram ordenadas campanhas contra o trotskismo em todos os partidos do mundo. As expulsões de Trotski e Zinoviev, em 1927, foram seguidas pela exigência de que todos os partidos tomassem uma imediata posição, com a ameaça implícita de represálias de Moscou contra qualquer indivíduo ou grupo que não tomasse a posição ‘correta’, quer dizer, a favor das expulsões. Levaram-se a cabo campanhas de ‘esclarecimento’. (CANNON, p. 54)

Nessa época, no Partido Comunista estadunidense haviam três frações, que disputavam entre si há anos. Uma delas, cuja principal liderança era Lovestone, tinha base social pequeno-burguesa. As duas outras, uma liderada por Foster e outra por Cannon, tinham base social proletária. Todas as principais lideranças das frações perceberam que a melhor forma de obter vantagem na disputa, nas palavras de Cannon, “era se tornar os mais enérgicos e agressivos combatentes na luta contra o trotskismo”.

Os lovestonistas eram a vanguarda na luta contra o trotskismo. Assim, conseguiram o apoio da Internacional e gozaram deste apoio em todo aquele período. Organizaram a sua campanha de ‘esclarecimento’: reuniões de membros, de ramos e de regionais aconteciam em todos os partidos em que os representantes do Comitê Central eram enviados para esclarecer aos demais membros sobre a necessidade das expulsões do organizador do Exército Vermelho e do Presidente da Internacional Comunista.

Os fosteristas, que não eram tão rápidos e astutos como os lovestonistas, porém, tinham com eles boas relações, os seguiram imediatamente. Realmente, competiam com os lovestonistas para mostrar quem era mais antitrotskista. Não cansavam de fazer longos discursos sobre o tema. (p. 54-5)

Na campanha antitrotskista, não existia direito de defesa, não haviam documentos nem informes da Oposição de Esquerda. James Cannon, apesar de ter votado a favor das resoluções de apoio às expulsões, não participou das campanhas antitrotskistas. “Neguei-me a participar das campanhas apenas porque não entendia o que estava acontecendo” (p. 55)

Em 1928, Cannon e outros delegados do PC estadunidense foram para Moscou participar do VI Congresso da Internacional Comunista. O primeiro foi designado a participar da comissão de programa, que foi negligenciada pelos demais delegados. Mesmo ele, Cannon, confessa que não estava interessado no assunto.

Porém, colocar-me na comissão de programa revelou-se um grande erro. Custou a Stalin mais que uma dor de cabeça, para não falar de Foster, Lovestone e os outros. Porque Trotski, exilado em Alma-Ata, expulso do partido russo e da Internacional Comunista, apelou ao congresso. Percebam que Trotski não se afastou simplesmente do partido. Na primeira oportunidade, recorreu ao VI Congresso da Internacional Comunista […] com uma enorme contribuição teórica, sob a forma de crítica ao esboço de programa de Bukharin e Stalin […]. Por meio de alguns deslizes no aparato de Moscou, que supunha ser burocraticamente hermético, este documento de Trotski chegou à sala de tradução da Internacional […]. Eles receberam o documento e distribuíram aos chefes das delegações e aos membros da comissão de programa. Então, foi posto em minha pasta e traduzido ao inglês […]. Desde o dia em que li aquele documento, considerei-me, sem uma única sombra de dúvida, discípulo de Trotski. (p. 59-60)

A fração trotskista

Cannon explica que não iniciou a luta em defesa do trotskismo logo em seguida. Ele e Spencer, um membro do Partido Comunista canadense, teriam que retornar em silêncio. “A Internacional já estava bastante stalinizada. O congresso foi manobrado. No nosso caso, expor completamente nossas posições no congresso provavelmente teria resultado em nossa prisão em Moscou […]” (p. 60).

Percebendo que nenhuma crítica à linha stalinista seria aceita dentro da organização, James Cannon iniciou uma conspiração silenciosa, tentando ganhar militantes para a defesa do trotskismo um a um. Isso, entretanto, não seria fácil, mesmo no Partido Comunista estadunidense. “Declarar-se a favor de Trotski e da oposição russa significava estar sujeito à acusação de traidor contrarrevolucionário e ser expulso imediatamente, sem nenhuma discussão” (p. 61)

Comecei discretamente a buscar indivíduos e a falar com eles conspirativamente. Rose Karsner foi minha primeira aderente firme. Ela nunca vacilou, desde esse dia até hoje. Shachtman e Abern, que trabalhavam comigo na Defensoria Trabalhista Internacional e eram ambos membros do Comitê Nacional, embora não do Comitê Político, uniram-se a mim neste novo grande empreendimento. Logo, outros poucos fizeram o mesmo […]. Corria o rumor de que Cannon era trotskista, porém, eu nunca o disse abertamente, e ninguém sabia o que fazer com este rumor. (p. 61-2)

Devido às disputas internas, as frações de Lovestone e Foster queriam evitar complicações com Cannon e eventualmente perder seu apoio. Um mês depois do início da conspiração, devido aos rumores, em uma reunião conjunta das frações de Cannon e Foster, os fosteristas interrogaram Cannon e outros sobre a questão. Cannon disse: “Considero um insulto que qualquer pessoa queira me interrogar” (p. 62). Com isso, ganharam mais uma semana, quando foi chamada outra reunião do bloco Cannon-Foster, onde se propôs votar uma moção contra o trotskismo. Cannon e outros objetaram a isso com o argumento de que a questão do trotskismo já havia sido superada há muito. Duas semanas depois, os fosteristas decidiram romper o bloco com os cannonistas e denunciaram-nos como trotskistas.

Fomos julgados em uma reunião conjunta do Comitê Político e da Comissão Central de Controle. Reportamos o julgamento nas primeiras edições do The Militant (O Militante). Naturalmente, foi um julgamento arranjado, mas tivemos um campo completo para fazer vários discursos e para questionar as testemunhas fosteristas. Mas isto não foi graças à democracia partidária, e sim porque os lovestonistas, que estavam em maioria no Comitê Político, estavam ansiosos por comprometer aos fosteristas. Para atingir seus objetivos, deram-nos uma pequena via livre, e nós a exploramos o máximo possível. O julgamento se prolongava dia após dia […] até que, finalmente, tivemos uma audiência com cerca de cem presentes. Até aí, não havíamos admitido nada. Tínhamos nos limitado a questionar suas testemunhas e a embaraçar e comprometer os fosteristas. Finalmente, quando nos cansamos disto […], decidimos atacar. Li para um plenário assustado de funcionários do partido uma nota na qual declarávamos total apoio a Trotski e à oposição russa em todas as questões de princípio, e anunciávamos nossa determinação de lutar por esta linha até o fim […].

Fomos expulsos em 27 de outubro de 1928. The Militant saiu na semana seguinte, como uma edição de novembro, celebrando o aniversário da Revolução Russa, anunciando nosso programa etc. Assim, começou a luta aberta pelo trotskismo norte-americano. (p. 63-4) Após a expulsão de Cannon e de outros trotskistas, os dirigentes do PC percorreram os EUA propondo em todo comitê e regional uma moção para aprovar a expulsão de Cannon, Shachtman e Abern. Qualquer pessoa que quisesse perguntar e obter mais informações era acusada de ser trotskista e expulsa imediatamente. Isto nos ajudou muitíssimo, pois colocou estes camaradas em uma posição em que podíamos, ao menos, falar com eles.(p. 66)

Construindo um partido trotskista

James Cannon e outros trotskistas tiveram que enfrentar muitos obstáculos para defender o programa trotskista e construir um partido. Os stalinistas utilizaram-se de todo tipo de método para impedi-los de defender suas ideias: a partir de calúnias, difamação e inclusive pelo uso da força física. Em plenárias que ocorreriam nas semanas e meses seguintes, a fração trotskista teve que procurar outros movimentos de esquerda para organizar a defesa do palestrante. Em algumas situações, os bate-paus stalinistas conseguiam criar um tumulto e impedir James Cannon de falar. Em outras, a segurança organizada conseguia expulsar os stalinistas para que a reunião continuasse.

O trotskismo está vivo. Sua principal tese – a de que a própria burocracia stalinista restauraria o capitalismo na URSS – foi demonstrada pela História. O stalinismo, pelo contrário, merece um único destino: a lata de lixo da História.

 

Referência

CANNON, James. A História do Trotskismo Norte-Americano. São Paulo: Sundermann, 2015.

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