A evolução ideopolítica e organizativa da classe trabalhadora brasileira – Parte 1

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Por: Juary Chagas

Da desagregação ao classismo: a experiência com a velha colaboração de classes e o foquismo

As transformações que marcaram o final da década de 1960 e toda a década de 1970 foram elementos determinantes para o desenvolvimento de uma rica experiência político-organizativa da classe trabalhadora no Brasil.

O governo ditatorial erguido no Estado brasileiro após o golpe de 1964, após um período de alta polarização social, conseguiu imobilizar quase que integralmente o movimento operário que nos anos anteriores ao golpe protagonizou uma fase de intensas mobilizações sociais.

As greves passaram a ser proibidas (permitidas tão somente com anuência do governo, através do Ministério do Trabalho) e consideradas como ameaça à “segurança nacional” – expressão ideológica que apresentava a autoridade militar que governava o país como um árbitro neutro e impessoal, em prol de “interesses nacionais”

Essa imposição por meio do Estado dos métodos repressivos que visavam acabar com a “subversão” identificada nos anos anteriores ao golpe dentro do movimento operário, não se relacionava somente com um desejo dos setores reacionários de eliminar as liberdades democráticas, mas também com uma necessidade real de dar garantias ao curso dos planos econômicos desenvolvidos pela ditadura. O objetivo era estabelecer uma ordem social e política que possibilitasse uma acumulação de lucros baseada na super-exploração dos trabalhadores, com a garantia de não haver possibilidade de reação da classe operária.

Essa exploração violenta se combinou com um fortalecimento estrutural da classe trabalhadora, que cresceu e se concentrou empregada em grandes multinacionais e nas estatais, como resultado da modernização, da ampliação do parque industrial e de sua concentração em algumas áreas, sobretudo no sudeste do país. A classe trabalhadora, que já havia crescido enormemente desde o início da segunda metade do século XX no Brasil, tornava-se estruturalmente um gigante social.

Essas condições produziram uma classe trabalhadora muito numerosa; que apesar do baixo nível cultural era relativamente mais desenvolvida nesse aspecto em relação à geração anterior (em função da necessidade de qualificação técnica para operacionalizar as demandas requeridas pela modernização tecnológica e pelo crescimento da indústria); e, ao mesmo tempo, duramente reprimida diante da falta de liberdade e do medo instaurado pelo regime. Essa classe trabalhadora, com um pouco mais de formação e submetida a condições de vida degradantes, sem o direito de sequer se organizar para reivindicar melhorias nas questões imediatas mais básicas, passou a acumular contradições e uma potencialidade no que diz respeito à deflagração de lutas. O elemento móbile que desencadeou esse processo foi exatamente a precipitação dessas tensões sociais, que explodiram com as primeiras greves no final da década de 1970.

No entanto, a explosão dessas contradições só foi possível após um profundo processo de experiência política dessa nova classe trabalhadora que surgia no Brasil. A esquerda brasileira, logo após a vitória do golpe militar, entrou numa crise profunda. Com larga hegemonia e influência sobre os trabalhadores do Brasil naquele período, o PCB viu o seu prestígio se dissipar após os graves erros políticos e estratégicos que facilitaram a conquista, relativamente fácil, dos militares e seus aliados.

A estratégia de colaboração de classe no período anterior ao golpe desarmou completamente a classe trabalhadora. Alimentando uma expectativa de que as alianças em torno do “interesse nacional” com setores democrático-radicais da burguesia levariam a reformas no interesse dos trabalhadores, o PCB se adaptou integralmente não só ao governo de turno, mas ao regime republicano, como não pudesse haver ali nenhum tipo de retrocesso nas liberdades democráticas. Completamente desarmado politicamente, o PCB não foi capaz – na verdade, sequer se arvorou a isso – de organizar uma resistência de massas perante o golpe, deixando o caminho livre para os golpistas.

Essa política desastrosa do PCB imprimiu uma forte cisão no partido e um debate profundo sobre a política de conciliação de classes. Com a desmoralização dos defensores do aliancismo de classe, o PCB se dividiu em várias correntes/organizações que passaram, majoritariamente, a defender uma estratégia de guerrilha urbana que foi fragorosamente sufocada e derrotada pelo regime militar brasileiro. Com isso, a divisão se aprofunda, o partido perde praticamente toda sua influência e se impõe uma dispersão, conforme atesta CARONE (1984, p. 20, comentários nossos):

… o PCB passara por greves vicissitudes depois de 1964: 1.º) as cisões que surgem depois do golpe o enfraquece; 2.º) esses grupos [surgidos das divisões internas do partido] o acusam de ser “revisionista” e “conciliador”; 3.º) a partir de 1969 a perseguição policial-militar se intensifica, com mortes e prisões de grande número de seus militantes, o que obriga parte do Comitê Central a começar a se refugiar no estrangeiro a partir de 1971. Por essas razões, o papel do Partido Comunista se obscurece neste momento, o que leva muitos a procurarem novas opções ideológicas para a situação brasileira.

Com a eliminação política dessas organizações foquistas, além do intenso debate aberto na esquerda sobre a conciliação de classes, o fracasso da estratégia de guerrilha e a adaptação ao regime e ao Estado burguês, abriu-se um vazio político.

Além do processo de modernização e industrialização que marcou o “milagre econômico” ter produzido uma nova classe trabalhadora, sem a experiência organizativa do período pré-1964, o que restou dos trabalhadores que viveram a fase de lutas mais acirradas anterior ao golpe militar já não tinha referências políticas e sindicais na antiga direção e em sua estratégia derrotada de conciliação de classes. A desmoralização dessa política de colaboração, e o sumiço dos antigos dirigentes que apostaram na luta foquista (praticamente todos foram mortos ou exilados), por sua vez, eliminaram qualquer legado ou trabalho político mais estruturado dessas velhas direções.

Toda essa ausência de organização política dos trabalhadores se combinou com o crescimento da classe operária e com a forte opressão imposta pelas condições de trabalho num regime em que a ditadura, por um lado, aniquilou as antigas direções sindicais e, por outro, realizou intervenções nos sindicatos para lá colocar lideranças totalmente cooptadas e atreladas aos interesses do governo militar. Esse papel delegado aos sindicatos pelo regime, as imposições da ditadura e as condições inaceitáveis de trabalho foram acumulando uma insatisfação inicialmente silenciosa, mas que posteriormente se transformou um barril de pólvora prestes a explodir.

Enquanto o “milagre econômico” conseguiu manter uma estabilidade econômica e um poder aquisitivo mínimo para os assalariados, o regime militar parecia inabalável. A taxa de crescimento das grandes empresas em função dos benefícios estatais e pelo elevado grau de exploração sobre os trabalhadores atraiu investimentos estrangeiros e aqueceu a economia, produzindo uma sensação de melhora das condições de vida em um setor importante da classe trabalhadora.

No entanto, a partir da crise internacional do petróleo, em meados da década de 1970, uma forte recessão se instalou na economia mundial, principalmente nos países centrais do capitalismo, obrigando as multinacionais a retrair seus investimentos, o que afetou o fluxo de capitais no Brasil. Com a queda nos investimentos, a produção é afetada e a balança comercial do país entra em desequilíbrio, provocando uma alta inflacionária que leva a economia à recessão.

A elite brasileira, totalmente dependente da burguesia internacional, viu seus lucros caírem vertiginosamente em função do déficit causado pela elevação do custo geral das importações. O “milagre econômico” vivia seus últimos momentos, generalizando a insatisfação do povo.

Percebendo a crescente insatisfação, em 1974 o governo de Ernesto Geisel (1974-1979) inicia uma política de flexibilização do regime, de relaxamento das restrições democráticas, na perspectiva de manter o controle político da situação do país (mais polarizada) e, com isso, prevenir qualquer possibilidade de ascenso popular contra a ditadura.

Contudo, a piora nas condições de vida, o acúmulo de anos sob um ritmo de trabalho exigido pelo novo padrão de intensificação da exploração se combinou com o arrocho salarial imposto aos trabalhadores na década anterior e produziu uma retomada das mobilizações sociais, que teve seu apogeu a partir da onda grevista que se iniciou com a greve da Scania em 1978, na região do ABCD paulista.

No ano seguinte, em 1979, a onda de greves continuava. E, diferentemente de 1978, as greves não tinham mais um caráter de “greves por empresa”, passando a ser construídas por ramo de atividade. Isto radicalizou um ascenso operário que se deu inicialmente de forma espontânea, aprofundando o grau de organização de uma classe trabalhadora jovem, inexperiente na luta de classes, mas que apesar da “imaturidade”, trazia consigo uma ausência de referência nas antigas direções que fez com que surgisse uma nova vanguarda poderosa, sem os “vícios” da conciliação de classes. Ao contrário, todo o acúmulo da insatisfação social, potencializada pela motivação comum das reivindicações salariais, condições de trabalho e pela existência de um regime totalitário, gerou um fenômeno poderoso de identificação política do conjunto dos trabalhadores.

O ascenso dos anos 1980 e a consolidação da direção política do PT: ação radical e consciência domesticada

A nova e poderosa vanguarda surgida das lutas (constituída nas novas direções sindicais, oposições e no ativismo mais destacado do “chão de fábrica”) aparece, portanto, com uma cara e conteúdo distintos do sindicalismo do passado. Era o Novo sindicalismo, produto genuíno de um rico processo de reorganização que se apresentou como um movimento claramente posicionado contra os patrões e o “velho sindicalismo” de conciliação de classes e atrelado ao Estado. A partir desse movimento, num lapso de tempo muito curto, o patamar de organização da classe trabalhadora brasileira dá um salto de qualidade: sai de um estado de fragmentação, desorganização e desconfiança nas antigas direções e em suas próprias forças, para dar impulso a um movimento de grande vitalidade.

Entretanto, a enorme demonstração do potencial transformador da classe trabalhadora unida em luta, mesmo no seu ascenso mais espetacular, continha contradições. Era nítido que as greves do final dos anos 1970 revelavam não só a força objetiva do proletariado, mas também um avanço na sua consciência e nos seus níveis de organização. Foi esse processo que desencadeou uma experiência que introduziu no seio da classe o classismo e que produziu as condições para a formação de uma nova direção para os trabalhadores, no marco da experiência com as velhas direções; seja pela ruptura com a conciliação de classes, seja pela rejeição das ações foquistas, derrotadas e sem vinculação com o movimento de massas. Contudo, esse novo salto ideológico e organizativo ficou restrito a reivindicações parciais. Os feitos da classe trabalhadora, na ação, eram impressionantes. Mas suas reivindicações estancavam num patamar mínimo e esta limitação estratégica foi, desde o princípio, alimentada pelo setor social que viria a se constituir posteriormente como a direção do PT, cuja proposta inicial visava conformar um mecanismo de luta política para auxiliar a conquista de reivindicações econômicas:

A greve de 1978, de 1979 e de 1980 é sinal da pujança deste proletariado, recém-formado pelo processo de industrialização por que passa o país a partir da política desenvolvimentista de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e pós-1964. Só que esta nova geração de trabalhadores defende uma posição sindicalista, semelhante à dos grandes sindicatos americanos. […] Com o novo movimento, o direito de organização sindical aparece como um processo dissociado do conjunto das lutas sociais e das reivindicações da classe operária. Exemplo típico é a de um Luiz Ignácio da Silva (Lula) que, depois de muitos anos de luta “descobre” a necessidade de se formar um partido para o proletariado; e mais ainda, a sua afirmação de que são as circunstâncias do momento que definem a linha a ser adotada, mostra o sentido pragmatista e antiideológico que defende, mesmo que aceitemos o pressuposto de que o pragmatismo é uma posição ideológica. (CARONE, 1984, p. 23, grifos nossos)

É evidente que no curso desses acontecimentos, não demorou para que os trabalhadores percebessem que a conquista das suas reivindicações imediatas necessitava também de iniciativas que se enfrentassem com a realidade política brasileira. Para que as greves fossem vitoriosas, era necessário ganhar o conjunto dos setores explorados da população e se enfrentar com as restrições do regime. Numa situação em que as greves ainda eram encaradas como “subversão”, estava nítido que todo movimento que tomasse grandes proporções e estabelecesse no horizonte alguma possibilidade de vitória, teria que se transformar em luta política contra o poder instituído.

A partir daí, a vanguarda do novo sindicalismo foi percebendo que o instrumento dos sindicatos não conseguia dar conta dessa luta política, pois era necessário organizar toda a classe trabalhadora, independente das suas aspirações corporativas, ao redor de interesses políticos que extrapolavam as demandas de cada categoria em específico. Era preciso, portanto, um partido que reunisse os trabalhadores para lutar por suas demandas imediatas e também por transformações sociais que pudessem atender seus interesses. Isto se combinava com o momento em que se introduzia – em função da reabertura política gradual iniciada pelo Governo Geisel – um debate público sobre a formação de novos partidos1. A discussão sobre um “partido de trabalhadores” foi inevitável e assim surgiu o PT. Contudo, apesar desse processo profundamente progressivo, que promoveu disputas internas e animou o aparecimento de grupos políticos das mais variadas matizes ideológicas (inclusive os da tradição marxista, que viram ali uma possibilidade da construção, por meio das mais variadas táticas, de uma direção revolucionária), o PT só conseguiu ir até o patamar da oposição ao regime militar. Este foi o seu limite político e isto conseguiu se impor sobre a consciência coletiva da classe trabalhadora brasileira pelo papel de sua direção, como se verá adiante.

No início da década de 1980, a situação política no país, em função da continuidade dos processos grevistas, da consolidação e do vigoroso desenvolvimento de uma proposta ousada de nova organização sindical (a CUT), além da crescente desmoralização do regime militar – que ali já preparava a transição democrática, pressionado pelo ascenso –, claramente se polarizava.

A força do movimento grevista, a conquista de vários sindicatos importantes pelas oposições e a criação da CUT (que já nasceu com uma proposta de preparação de uma greve geral) colocou o regime nas cordas. No “ano de 1983, o número de greves saltou para 393, com um total de grevistas de 874.626, quase o dobro do ano anterior. Em 84, subiria mais ainda, para 618 greves e 1.323.000 grevistas” (WELMOWICKI, 2004, p. 68). A crise da ditadura se aprofundava com movimento operário em cena e, com a maioria da população repudiando o regime, começam a surgir manifestações explosivas reivindicando liberdades democráticas.

Essas mobilizações dão origem à campanha das Diretas Já, o que ajuda o partido a exercer um papel destacado nas mobilizações. As Diretas Já se transformaram, portanto, numa oportunidade de aliar a luta institucional (por eleições diretas) com a ação direta, a mobilização. Isto, mais uma vez, empurra o partido de conjunto e inclusive os setores mais conservadores a assumir posturas classistas, independentes, sintonizadas com o movimento de massas e inclusive referenciadas na idéia de socialismo.

Contudo, a ala majoritária do PT, com influência determinante de Lula (que conquistou durante todo esse período o status de direção incontestável da classe trabalhadora), alimentou desde a fundação do partido a idéia de que não era necessário (pior, era condenável) definir uma direção teórico-ideológica para o conjunto da organização, pois isto deveria ser “definido pelo próprio povo”.

Na verdade, a corrente majoritária do PT sempre vinculou a idéia de demarcação ideológica clara no partido e a necessidade de uma direção que disputasse a consciência das massas trabalhadoras como uma tentativa de plantar “a desconfiança em relação à capacidade política dos trabalhadores brasileiros em definirem o seu próprio caminho” (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1981). Quem defendia isto, segundo a direção do PT, era “quem oferece o prato feito, que os trabalhadores deveriam comer” (Idem, ibidem), como se estivessem tolhendo a auto-organização dos trabalhadores.

Contudo, o que fizeram foi justamente o inverso, demonstrando que negar a importância da direção política termina atuando (nesse caso, conscientemente) cumpre um papel de manter a consciência e a ação política da classe trabalhadora refém dos limites da ordem. A conformação de um grupo dirigente petista para polarizar com as tendências mais à esquerda no partido demonstrou que Lula e seus parceiros não acreditaram na “capacidade política dos trabalhadores” em, espontaneamente, rejeitar as teses “xiitas” das correntes radicais. Constituíram-se como grupo dirigente para disputar e vencer os rumos do PT, e imprimir na consciência e na ação da classe trabalhadora uma estratégia reformista eleitoral. Se o movimento espontâneo das massas, como afirma LENIN (2010, 102-103), “conduz precisamente à supremacia da ideologia burguesa”, “pela simples razão de que a ideologia burguesa é muito mais antiga […], porque é mais completa a sua elaboração e porque possui meios de difusão incomparavelmente mais numerosos” (Idem, ibidem, 103), os trabalhadores brasileiros contaram ainda com a ajuda extra de uma direção reformista que claramente disputava a sua perspectiva política.

Dizer que os trabalhadores “construiriam livremente” as iniciativas que levariam à transformação social não era, portanto, simplesmente um “voto de confiança” na “capacidade da classe trabalhadora” em se auto-organizar e, por si mesma, encontrar o caminho mais adequado para a estratégia socialista, sem qualquer “receita pronta” vinda de fora. Ao permitir que a marcha da luta dos trabalhadores seguisse à própria sorte com a difusão desse pensamento, a corrente majoritária do PT apenas facilitou que o ascenso que marcou a década de 1980 tenha se mantido dentro do quadro de um programa democrático-reformista, e mais, impediu que fosse construída uma cultura política de controle da classe sobre suas direções.

O que se mostrava na aparência, portanto, era o contrário da realidade que se desenvolvia em essência: a tal “confiança” nos trabalhadores ao invés de conferir-lhes protagonismo nas ações de transformação, apenas produziu uma subordinação cega nas direções que lhes prometiam “defender aquilo que era consenso do povo” e uma espécie de messianismo político ao redor da figura de Lula, ao invés de educá-los politicamente em um projeto que visasse sua própria libertação.

Esta subordinação, mais adiante, cobraria seu preço. Sem ser instruída a controlar seus dirigentes e sem uma direção que apontasse claramente qual estratégia deveria seguir, a classe trabalhadora brasileira terminaria sendo arrastada para trás por um futuro refluxo das lutas nos anos 1990, enquanto sua direção reformista já consolidada acompanharia sem questionar toda essa marcha regressiva da consciência, finalizando a obra de prostração.

Esta análise é o que explica como a classe trabalhadora desenvolveu uma estupenda experiência de mobilização com métodos radicais, legitimando o PT como direção desse processo; mas, ao mesmo tempo, acaudilhada pela sua direção reformista, conseguiu se mobilizar com seu gigantismo por objetivos políticos apenas em situações muito excepcionais – e ainda assim sem ameaçar romper com a ordem.

Os anos do neoliberalismo: refluxo, reestruturação produtiva e erosão do classismo pelas mãos do PT

Durante toda a década de 1990, essa tendência de domesticação só viria a se aprofundar ainda mais. Toda a evolução à esquerda da classe trabalhadora organizada nos sindicatos na década anterior, além de sofrer “a pressão de inércia reacionária de um país culturalmente atrasado, onde o medo das represálias sempre foi muito efetivo para neutralizar a ação coletiva do povo e politicamente pouco organizado” (ARCARY, 2011, p. 64), foi bloqueada por novos fenômenos regressivos.

Os acontecimentos internacionais no Leste Europeu, a restauração capitalista nos antigos estados operários burocratizados e a ofensiva neoliberal que varreu o mundo chegam ao Brasil no início dos anos 1990 com muito peso sobre a consciência e a organização dos trabalhadores. A idéia de que “o capitalismo venceu” e que a resolução da desigualdade e dos problemas sociais não está fora do horizonte do capitalismo e das saídas individualistas golpeou o classismo forjado nos anos 1980 e ajudou a deslegitimar as ações coletivas, a idéia de organização política nos partidos, etc.

Após o desembarque do neoliberalismo no Brasil no início dos anos 1990, “o processo de reestruturação produtiva [depois de um primeiro ensaio, sob o governo Collor] deslanchou novamente, por meio do Plano Real, a partir de 1994, sob o governo Fernando Henrique Cardoso” (ANTUNES, 2006, p. 20, comentário nosso), o que também afetou ideologica e organizativamente a classe trabalhadora brasileira.

Nesse período observa-se, em função da reestruturação, o crescimento dos métodos flexíveis de organização e contratação do trabalho, intensificando a precarização e privilegiando formas de trabalho não regulamentadas pela legislação trabalhista, processos de terceirização e informalidade. Do ponto de vista organizativo, isto intensificou o processo de fragmentação da classe trabalhadora e fragilizou o seu nível de organização, potencializando o corporativismo, a conciliação, a burocratização e o esvaziamento de qualquer contestação anticapitalista – movimento este já perceptível em função do papel das direções, sobretudo dos sindicalistas ligados ao PT no Brasil, que já se inclinavam para essa revisão ideológico-programática:

É claro que tal tendência de desenvolvimento do sindicalismo no Brasil possui determinações socioestruturais ligadas ao avanço da mundialização do capital […] Não podemos subestimar o impacto local dessas tendências políticas globais sobre a trajetória da CUT e do PT na virada dos anos 1990.

[…] O desemprego e a terceirização avassaladora abateram-se sobre a dinâmica (e estrutura burocrática) dos sindicatos. No momento em que a sociedade brasileira submergia na irracionalidade social do capitalismo neoliberal, com a ampliação do trabalho precário não organizado e das formas diversas de irracionalidade social, o sindicalismo tendeu a se fechar em si, buscando, antes de tudo, se preservar como corporação social […]

Mas o que era atitude defensiva tendeu a assumir, sob mediação político-ideológica dos agentes sindicais da socialdemocracia internacional, na virada dos anos 1990, um caráter de revisão ideológico-programática do sindicalismo. Na verdade, a crise do capital serviu de pretexto para a disseminação da nova ideologia (e prática) reformista do concertamento social, não mais nos moldes clássicos, ao estilo da social democracia da implicação corporativa de classe, mas da socialdemocracia da implicação concertadora mesocorporativa ou microssetorial. Buscou-se a linha de menor esforço da participação e do não confronto com a política (e cultura) do capital, renunciando-se à luta contra-hegemônica. Em torno da velha estrutura sindical varguista, germinou uma nova cultura corporativa não mais de Estado, mas de mercado. (Idem, ibidem, p. 463)

Isto, além de fragilizar a organização sindical dos trabalhadores, aprofundou a disseminação da perspectiva reformista e de conciliação (já aqui identificado no ideário político como elemento presente da inexperiência da classe trabalhadora e impulsionado pela confiança no petismo), esvaziando na consciência coletiva da luta contra a exploração em detrimento da visão do sindicato como um “prestador de serviços”.

Combinado com a disseminação das políticas de “avaliação permanente”, “remuneração variável” e “participação nos lucros”, a competitividade e o individualismo também foram intensificados a partir dos anos 1990 entre os próprios trabalhadores, golpeando a coesão classista adquirida no ascenso das lutas dos anos 1980. Soma-se a isso o envelhecimento natural da geração que protagonizou esse ascenso e o surgimento de uma jovem classe trabalhadora mais precarizada, sem a formação classista e a tradição das lutas da década anterior e, embora mais instruída, educada na idéia de ascensão individual2 e no medo das represálias e demissões.

Como se percebe, a classe trabalhadora brasileira foi protagonista de lutas poderosas (o que a forjou no classismo e produziu ferramentas político-organizativas de massas, como o PT e a CUT), mas limitada a uma aspiração de apenas um pouco mais de justiça, em função de suas ilusões reformistas, da sua fragilização organizativa, insegurança e incerteza pós-anos 1990, etc. O PT se legitimou nesse processo, no entanto, utilizou seu prestígio conquistado nas lutas para que o programa que levou milhões a lutar não rompesse o horizonte apenas democrático. Com a chegada do refluxo dos anos 1990, o acúmulo classista transitou para o limite da concertação de classe, das alianças com as dissidências burguesas. Essa tendência, traço marcante da influência estrutural do neoliberalismo e suas ideologias, foi amplamente reforçada pelo papel do PT já transformado em partido de aspiração gerencial do capitalismo.

Assim, a classe que aprendeu (e ensinou) protagonizando três greves gerais (1983, 1986 e 1989), terminou sendo dirigida nos processos políticos mais importantes (Diretas Já e Fora Collor), não sendo capaz de controlar sua direção que girava aceleradamente à direita e depositando nela a confiança de que a mudança das suas vidas viria por meio da representação política de Lula e do PT – como estes sempre pregaram durante toda a década de 1990.

Frente a todos esse processo e após o período de ilusões com a estabilização da moeda, quando o Real desvalorizou-se e as medidas neoliberais de FHC impuseram-lhe condições de vida aviltantes, os trabalhadores brasileiros em sua maioria estavam ganhos para a promessa de reformas indolores, sem enfrentamento nem ruptura, sob um governo liderado pela sua direção histórica até então, o PT. A classe trabalhadora brasileira, um gigante objetivamente falando, não superou seus limites estratégicos subjetivos e foi ainda hipnotizada por seus caudilhos.

Quando as massas populares afastaram-se de FHC – aproximando-se de um PT fortalecido pela decadência do governo de plantão e pela inclinação de dissidências burguesas para conformar um governo de coalizão frente o transformismo de seus ex-adversários políticos petistas –, foi soldado um bloco com a classe trabalhadora historicamente dirigida pelo petismo-lulismo, produzindo o conjunto de condições que permitiu a ascensão da experiência governamental petista de conciliação de classes.

Este bloco, que nas condições estabelecidas veio a sustentar por mais de uma década os governos petistas, era evidentemente mantido sob o fio da navalha. Porque as mudanças esperadas pelos trabalhadores e a maioria do povo eram contraditórias, incompatíveis com o acordo que o PT estabeleceu com a burguesia para junto dela governar. Mas, ao mesmo tempo correspondendo à sua imaturidade política e à autoridade petista conquistada durante anos de luta (e, posteriormente, como oposição institucional), parte do povo não compreendia o que significava esse pacto e a maioria acreditava que a coalizão com a burguesia era boa, demonstrando uma “maturidade” dos “ex-radicais” ou uma “jogada tática” para vencer a eleição e depois aplicar todo o programa do PT.

A esperança, de fato, ainda não tinha vencido o medo, em que pese o bordão que marcou a campanha eleitoral vitoriosa de 2002. Essa incompatibilidade entre expectativa e o que de fato era possível ser feito no interesse da maioria explorada é o que marca toda a trajetória dos governos petistas de conciliação de classes, apesar do relativo equilíbrio que conseguiu manter durante 13 anos.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, Ricardo (Org.). Riqueza e miséria do trabalho no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2006.

ARCARY, Valério. Um reformismo quase sem reformas: uma crítica marxista do Governo Lula em defesa da revolução brasileira. São Paulo: Editora Sundermann, 2011.

CARONE, Edgard. Movimento operário no Brasil (1964-1984). São Paulo: Difel, 1984.

DATAFOLHA INSTITUTO DE PESQUISA. Os brasileiros e o trabalho. São Paulo, 2002. [online] Disponível na internet via WWW. URL: http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2013/05/02/trabalho_02012002.pdf. Acessado em: 02 de maio de 2017.

FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO. Discurso de Luís Inácio Lula da Silva na 1ª Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores. São Paulo, 1981. [online] Disponível na internet via WWW. URL: http://novo.fpabramo.org.br/uploads/discursodelula1convecao.pdf. Acessado em: 30 de abril de 2017.

LENIN, Vladimir Ilitch. Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento. São Paulo: Expressão Popular, 2010.

WELMOWICKI, José. Cidadania ou classe? O movimento operário da década de 80. São Paulo: Editora Sundermann, 2004.

1 Pouco mais de um ano após o golpe militar (20 de novembro de 1965), o então presidente Marechal Castelo Branco instituiu o bipartidarismo, com o Ato Complementar nº. 4. A partir daí só foram permitidas as legalizações de dois partidos: a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro).

2 Uma interessante pesquisa do instituto Datafolha, que ouviu 2577 entrevistados em 126 municípios de todos os estados do Brasil no ano de 2001, constatou que “77% gostariam de ter um negócio próprio” (DATAFOLHA INSTITUTO DE PESQUISA, 2002), revelando um dado não absoluto, mas importante para analisar a evolução da perspectiva de vida idealizada pelos brasileiros, ao longo da década de 1990.

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