100 anos da Revolução que abalou o mundo

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Por Carlos Zacarias de Sena Júnior* , Colunista do Blog Esquerda Online

A Revolução de Fevereiro

“Não foi coincidência que a greve mais importante da história mundial tenha começado com mulheres do setor têxtil em Petrogrado no Dia Internacional da Mulher de 1917 – 23 de fevereiro no antigo calendário juliano”, escreveu o historiador norte-americano Kevin Murphy, professor da Universidade de Massachusetts.[1] Autor do magistral Revolution and counterrevolution: class struggle in a Moscow metal factory, ainda sem tradução no Brasil, Murphy esteve no Rio em setembro para participar de um evento no NIEP-Marx, na Universidade Federal Fluminense (UFF). Depois esteve ainda no Congresso da CSP-Conlutas em outubro, para refletir sobre o centenário da Revolução que abalou o mundo, tema em que é dos principais especialistas na atualidade, e para contribuir na organização dos trabalhadores brasileiros.

A chamada Revolução de Fevereiro aconteceu quando da deflagração de greves, a partir das mulheres do setor têxtil, que logo se generalizaram e alcançaram as principais cidades da Rússia. Segundo Kevin Murphy, as mulheres russas trabalhavam 13 horas por dia, enquanto seus maridos e filhos estavam no front combatendo na guerra. Condenadas “a uma vida monótona e imutável, provendo suas famílias e esperando numa fila, durante horas, num frio abaixo de zero graus, na esperança de conseguir um pão”, as mulheres “não precisavam de muito convencimento para se lançarem à luta”.[2] E foi assim que uma avassaladora força vinda de baixo recomeçou no país, depois de um intervalo de alguns anos causados pela guerra e pela propaganda tzarista que apontava nos estrangeiros o inimigo a ser batido.

A greve iniciada por algumas centenas de mulheres no dia 23 de fevereiro, se alastrou rapidamente pelos bairros operários de Petrogrado, capital da Rússia. Em poucos dias alcançou outras cidades, pressionando o regime tzarista que não foi capaz de resistir ao extraordinário influxo de milhares de trabalhadores e trabalhadoras dispostos a mudar o estado de coisas em que se encontravam. No dia 25 de fevereiro, já eram 240 mil trabalhadores parados, “exigindo pão, o fim da guerra e a abdicação do tsar”.[3] No dia 27, o chefe da autocracia, que até poucas horas antes parecia ainda não ter se dado conta da grave situação do país, foi obrigado a renunciar. De sua casa de campo, para onde havia partido para ter com a sua família que cuidava da recuperação do seu único filho homem que se ecnotrava enfermo, Nicolau II renunciou, pondo fim a mais de três séculos de dinastia Romanov. Seu ministério ainda se reuniria uma última vez na noite deste mesmo dia, mas apenas para reconhecer o fato consumado, pois a cidade estava definitivamente nas mãos dos revolucionários.[4] A Revolução havia triunfado, mas quem foi mesmo que derrubou o tzar? Quem dirigiu a Revolução de Fevereiro? Qual o seu caráter? Quem assumiu o poder?

A Revolução de Fevereiro foi, para a Rússia, aquilo que a Revolução de 1789 foi para os franceses, uma revolução tipicamente burguesa. A autocracia tzarista, sustentada num regime brutal e senil que perdurava por séculos, muito além do absolutismo no ocidente europeu, não teve como opor resistência, num país tomado pela crise, onde a fome era a companheira diária de quase todas as pessoas que viviam do trabalho. Então, os protagonistas da queda do tzar foram as massas, como vem a ser nas revoluções. Entretanto, não se pode dizer que foi uma revolução “apartidária”, como querem os meios de comunicação. De acordo com Trotsky,

Para a questão: “Quem dirigiu a Revolução Russa?”, podemos responder de forma suficiente: operários conscientes e temperados, educados em sua maior parte pelo partido de Lenin. Mas devemos adicionar aqui: essa direção provou ser suficiente para garantir a vitória da insurreição, mas inadequada para transferir imediatamente para as mãos da vanguarda proletária a direção da revolução.[5]

O fato, contudo, é que a disposição dos trabalhadores, que há apenas 12 anos tinham oferecido ao mundo um mecanismo de auto-organização e de duplo poder absolutamente eficaz, os sovietes, logo sugeriu que os protagonistas da revolução não pretendiam circunscrevê-la ao horizonte democrático e burguês.

Mergulhados numa crise econômica e social profunda, cujo pano de fundo era o abismo que dividia ricos e pobres, o brutal regime tzarista não resistiu à generalização das greves e aos processos que tomavam alguns regimentos mobilizados para a guerra. Em muitas situações, as tropas se recusavam a partir para o front. Havia deserções em escala inimaginável e, nas cidades, os efetivos encarregados de reprimir os trabalhadores grevistas se dividiam, com muitos passando de armas e bagagens para o campo revolucionário. E foi assim que Nicolau II saiu da história pelas portas dos fundos, abrindo caminho para a Rússia acertar os ponteiros com o Ocidente.

O governo surgido de Fevereiro, foi saudado entusiasticamente pelas potências europeias e pelos Estados Unidos, que viam a Rússia se tornar uma democracia burguesa e parlamentar. Formado majoritariamente por membros do partido Constitucional Democrata (Kadete), e por Socialistas-Revolucionários (SRs), um agrupamento com larga influência entre os camponeses, o primeiro gabinete surgido da Revolução de Fevereiro contava ainda com uma minoria de mencheviques. Tal governo, foi sediado no Palácio Táurida, um local suficientemente grande para abrigar também o Comitê Executivo do Soviete.

Ao ser informado dos acontecimentos em seu país, do exílio na Suíça, Vladimir Ilitch Ulianov, popularmente conhecido como Lenin, principal dirigente bolchevique, arrumou as malas para partir para Petrogrado. Antes de tomar o trem blindado com destino à Estação Finlândia, Lenin redigiu suas Cartas de longe, um poderoso manifesto em que colocava as suas impressões sobre os acontecimentos na Rússia e apontava as principais tarefas dos bolcheviques: “A primeira revolução gerada pela guerra mundial imperialista eclodiu. Esta primeira revolução não será, certamente, a última”, escreveu.[6] Premonitório, Lenin partiu para a Rússia destinado a escrever uma das mais importantes páginas da história da humanidade, mas até que as condições estivessem efetivamente maduras para a transferência do poder para os sovietes de operários, camponeses e soldados, muita coisa aconteceria.

A Revolução de Outubro

“A arte da liderança revolucionária, em seus momentos mais críticos, consiste nove décimos em saber como perceber o sentimento das massas”, escreveu Leon Trotsky em seu exílio turco, na ilha de Prinkipo, em 1930.[7] Sua História da Revolução Russa é a magistral narrativa daqueles acontecimentos que levaram a classe trabalhadora ao poder na atrasada Rússia. Trotsky estava a caminho de Petrogrado, vindo dos Estados Unidos, quando Lenin desembarcou na Estação Finlândia com um documento ainda mais arrebatador do que suas inquietantes Cartas de longe. Diante das dúvidas e vacilações da direção dos bolcheviques, o líder recém-chegado, a quem Trotsky tinha dedicado as linhas acima, apresentou as famosas Teses de Abril. No documento, que havia sido redigido, em parte, durante a viagem de trem até Petrogrado, Lenin foi taxativo ao defender que a o principal aspecto do atual momento da Rússia consistia “na transição da primeira etapa da revolução, que deu o poder à burguesia (…) para a sua segunda etapa”, que deveria “colocar o poder nas mãos do proletariado e das camadas pobres do campesinato”.[8]

As primeiras palavras de Lenin, proferidas na chegada à capital russa e que traduziam sua perspectiva que havia se modificado substancialmente desde que redigira As duas táticas da social democracia na revolução democrática, em 1905, causaram profundo mal-estar entre os presentes que foram saudar o dirigente bolchevique no seu desembarque na Estação Finlândia. No dia seguinte, no Palácio de Táurida, Lenin voltaria a discursar diante de espectadores atônitos que o acusaram de haver rompido com o marxismo, de ter-se tornado um anarquista ou de simplesmente ter adotado as posições de Trotsky, teórico da Revolução Permanente e adversário de Lenin em tantas questões desde a divisão do partido em 1903, que logo se juntaria aos bolcheviques como protagonista da Revolução em curso.[9]

A história registra como o pequeno Partido Bolchevique, que contava antes de 1917 com menos de 20 mil membros, saltaria para 80 mil em abril, 240 mil em julho e mais de 300 mil em outubro. Esta ascensão só foi possível porque os bolcheviques foram os únicos capazes de traduzir em palavras o sentimento das massas, o que determinou que se tornassem maioria nos sovietes na altura em que os conselhos já controlavam todo o país. Para que isso tivesse se tornado possível, Lenin defendia que a principal tarefa dos bolcheviques era explicar pacientemente aos trabalhadores que os sovietes eram a “única forma possível de governo revolucionário”, o que se traduzia na fórmula de “Todo poder aos sovietes”.

Mas entre abril e outubro um longo caminho ainda seria percorrido. Considerando que o poder continuava dividido entre o governo provisório e os sovietes, o primeiro controlado por uma maioria de Cadetes e Socialistas Revolucionários, e o segundo formado por SRs e mencheviques, a tarefa de explicar pacientemente aos trabalhadores que o poder deveria passar às suas mãos também exigia dos bolcheviques a capacidade de se constituírem em maioria nos sovietes. As massas, contudo, tinham pressa. Frente aos vários sinais emitidos pelo vacilante governo provisório, que não se mostrava nem um pouco capaz de resolver os problemas mais candentes do povo, as lideranças dos trabalhadores, das tradicionais às improvisadas, ante o desespero crescente, indagavam-se sobre a possibilidade de os sovietes serem capazes de tomar o poder imediatamente. Os mais exaltados, então, defenderam que o puder deveria passar às mãos dos trabalhadores através da deflagração de greves e do armamento dos operários.

No início de julho foram organizadas uma série de jornadas de lutas que envolviam trabalhadores de diversos setores da indústria, dos transportes e das comunicações, regimentos do exército, operadores de metralhadoras e outros segmentos. Entre os bolcheviques, a confusão imperava, porque a maioria do partido percebia naquela movimentação uma arriscada precipitação. As chamadas Jornadas de Julho logo repercutiram pela maioria das grandes cidades do país, com marinheiros amotinados, soldados armados e trabalhadores em greve e dispostos a pôr abaixo o governo provisório.

Mas o governo não caiu. Como afirma China Miéville, “Para a maior parte das pessoas, no entanto, tais eventos não passavam de jogadas apressadas”.[10] O fato é que após algumas horas o movimento começou a recuar.

Ante o recuo da revolução, foi a reação do governo provisório e a sanha sanguinária da contrarrevolução que começou a ocupar espaço:

Cinco de julho foi um dia de reação fria. O pêndulo balançou. Naquele dia, Petrogrado não era uma cidade segura para a esquerda. Um entregador do Pravda foi morto na rua. Cossacos e outros legalistas mantinham o controle por intimidação e selvageria. A extrema direita estava exultante.[11]

Em seguida ao fracasso das Jornadas de Julho, a contrarrevolução avançou. Em poucos dias eram os pogroms que ocupavam as ruas, espancando judeus, operários e dissolvendo manifestações. Enquanto o governo provisório colocava o partido bolchevique na ilegalidade, determinando da prisão dos seus principais dirigentes, o temido general Kornilov preparava o caminho para esmagar a revolução e pôr abaixo o governo de Kerenski.

O poder soviético

A contrarrevolução de Kornilov poderia ter transformado a Rússia no primeiro estado fascista da Europa. ntre os dois extremos do espectro político, cotudo, as massas, que não confiavam em Kerenski, não hesitaram nem por um momento sequer em apoiar os partidos que organizavam as greves e atuavam nos sovietes. Em vista disso, foi a partir da atuação decisiva dos bolcheviques que a contrarrevolução foi derrotada no penúltimo dia de agosto de 1917.

Durante o mês setembro, os bolcheviques conquistaram a maioria nos conselhos, reafirmaram a consigna de “Todo poder aos sovietes” e pavimentaram o caminho para a transferência do poder do governo provisório para os trabalhadores e suas organizações.

Foi na noite de 6 para 7 de novembro (24 para 25 de outubro, pelo calendário juliano), que o Soviete de Petrogrado decidiu pela tomada do poder. Nos momentos preparatórios para a realização do II Congresso dos Sovietes de toda a Rússia, já era certo que os bolcheviques estariam em maioria. Seria, portanto, uma questão de horas para que a transferência do poder para os sovietes fosse efetivada. Em sua autobiografia, Trotsky anotou: “Sem hesitação, sem incertezas, as massas apropriavam-se do que era imposto pela situação. Sob o peso dos acontecimentos, os líderes formulavam simplesmente as respostas às necessidades das massas e às exigências da história”.[12]

A tomada do poder pelos sovietes dirigidos pelos bolcheviques, entrou para a história como “Revolução de Outubro”. Todavia, uma série de controvérsias se deu em torno do acontecido. Teria sido um golpe? Teria havido uma ditadura de partido único? A dissolução da Assembleia Constituinte confirmaria uma disposição ditatorial? O stalinismo foi o resultado do desenvolvimento da ditadura estabelecida por Lenin?

Outubro foi uma Revolução e não um golpe, como alguns sugerem. As evidências e os melhores historiadores confirmam este fato. A partir de Fevereiro a Rússia viveu um aprofundamento das mobilizações dos trabalhadores, camponeses e soldados. No desenrolar daqueles meses, a intensificação da agitação política coincidiu com o reforço dos sovietes e o crescimento da organização dos bolcheviques, que se tornaram maioria nos conselhos entre setembro e outubro. Os bolcheviques levaram ao II Congresso a proposta de transferência do poder para os sovietes, que já controlavam o país, o que foi aprovado pela maioria dos presentes.

O governo foi exclusivamente formado pelos bolcheviques. Apesar do II Congresso ter votado por um governo de coalizão com Socialistas Revolucionários de esquerda e Mencheviques internacionalistas, estes optaram por não integrá-lo. Em novembro ocorreram eleições para a Constituinte, com os SRs fazendo a maioria, seguido pelos bolcheviques. Na abertura dos trabalhos da Assembleia, em janeiro de 1918, os partidários de Lenin propuseram que as decisões do II Congresso dos Sovietes fossem reconhecidas, o que foi recusado. Os bolcheviques se retiraram da sessão e a Constituinte foi dissolvida, porque seria impossível retornar a antiga ordem, controlada pelos mesmos partidos, depois que os sovietes tomaram o poder e passaram a governar com base numa democracia muito mais ampla que a democracia parlamentar burguesa.

Após Outubro o governo dos Comissários do Povo, que foi como se chamou o novo governo liderado por Lenin, tratou de resolver os problemas da maioria da população, com decretos sobre a terra, sobre a paz, sobre o controle das fábricas pelos operários e a nacionalização dos bancos. Foram estabelecidos o voto feminino, o direito ao divórcio e a legalização do aborto. Estabeleceu-se, ainda, a igualdade de salários para homens e mulheres e a homossexualidade foi descriminalizada. Durante aqueles dias intensos, muitas questões foram discutidas apaixonadamente, sempre no espírito de ajudar os trabalhadores e os oprimidos a se libertarem de todo o jugo da exploração e opressão que se abatia sobre a Rússia durante séculos.

A Revolução de outubro vingou na Rússia como em nenhuma outra parte do mundo. Apesar dos inúmeros “fevereiros” havidos pelo mundo, o evento russo foi o único a produzir um governo dos trabalhadores com ampla democracia. A Guerra Civil que se seguiu à Revolução e que durou três anos, ao lado da derrota da revolução mundial, ajudam a explicar o isolamento da União Soviética, o esvaziamento do papel dos sovietes e a ascensão da burocracia e do stalinismo. Todavia, os tumultuados, esperançosos e intensos dias vividos entre fevereiro e outubro, quando o socialismo amadureceu na cabeça das massas trabalhadoras, inscreveu na história a mais importante revolução que a humanidade produziu. O século XX, portanto, não pode ser pensado sem os sonhos e esperanças que mobilizaram os trabalhadores do mundo desde aqueles dias ocorridos há 100 anos.

* Doutor em História. Professor da UFBA.

[1] https://blogdaboitempo.com.br/2017/03/21/a-historia-da-revolucao-de-fevereiro/ Acessado em 14/11/2017.

[2] https://blogdaboitempo.com.br/2017/03/21/a-historia-da-revolucao-de-fevereiro/ Acessado em 14/11/2017.

[3] MIÉVILLE, China. Outubro: história da Revolução Russa. São Paulo: Boitempo, 2017, p 57.

[4] Id ibid, p. 67.

[5] TROTSKY, Leon. História da Revolução Russa. São Paulo: Sunderman, 2007, p. 155.

[6] https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/03/20.htm Acessado em 14/11/2017.

[7] TROTSKY, Leon. História da Revolução Russa. São Paulo: Sunderman, 2007, p. 127.

[8] https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/04/04_teses.htm Acessado em 14/11/2017.

[9] MIÉVILLE, China. Outubro: história da Revolução Russa. São Paulo: Boitempo, 2017, p. 117-118.

[10] Id. Ibid., p. 184.

[11] Id. Ibid., p. 186.

[12] TROTSKI, Leon. Minha vida. São Paulo: Usina Editorial, 2017, p. 383.

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