Libertação das mulheres: a tradição marxista

Rosa Luxmburg u. Clara Zetkin / 1910 Luxemburg, Rosa sozialist. Politikerin, 1871-1919. - Rosa Luxemburg und Clara Zetkin (links) auf dem Weg zum SPD-Parteitag in Magdeburg, 18.-24.9.1910. - Foto (Ausschnitt).
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Por Sharon Smith, Dirigente da Internacional Socialist Organization (ISO/EUA)

Publicado originalmente em https://isreview.org/issue/93/womens-liberation-marxist-tradition

Tradução: Caio Garrido

Revisão: Paula Farias

“Se a libertação das mulheres é impensável sem o comunismo, então o comunismo é impensável sem a libertação das mulheres” [i].  Inessa Armand, revolucionária russa.

Os marxistas clássicos do século XIX e do início do século XX – Karl Marx, Friedrich Engels, Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo, V. I. Lenin, Alexandra Kollontai e Leon Trotski – desenvolveram uma estrutura teórica unindo a luta pela libertação das mulheres à luta pelo socialismo. Ao passo que suas teorias precisam ser atualizadas[ii], as mesmas vêm sendo rejeitadas ou ignoradas.

Além disso, a história de quem sustentou a tradição marxista sobre a opressão das mulheres ao longo do século XX é frequentemente invisibilizada – ainda que estas ativistas e teóricas tenham formado um fio de continuidade indispensável desde a vitória do sufrágio feminino na década de 1920 (comumente chamada de “primeira onda” do feminismo americano) ao levante dos anos 60 pela libertação da mulher (conhecido como “segunda onda”).

Marx e Engels localizaram as raízes da opressão às mulheres no papel que estas cumprem no seio da família nuclear das sociedades de classe. Eles entendiam a função das mulheres como “reprodutoras” biológicas resultado de seu status subordinado dentro da família nuclear e, consequentemente, de toda a sociedade. Na sociedade capitalista as mulheres das famílias proprietárias produzem herdeiros; nas famílias de trabalhadores, reproduzem as gerações de mão de obra para o sistema.

A classe dos capitalistas se tornou dependente deste método de “reprodução privada” dentro das famílias de trabalhadores, porque ele diminui a sua responsabilidade financeira pela reprodução da mão de obra, que é, então, amplamente provida pelo trabalho não pago no âmbito familiar. Isto, por sua vez, exige uma transformação socialista da sociedade, que não pode ser atingida gradualmente, mas apenas através de um processo revolucionário, em um enfrentamento decisivo entre as classes.

Marx e Engels rapidamente identificaram o papel revolucionário da classe trabalhadora, ou proletariado, como única classe capaz de conduzir a mudança para uma sociedade socialista. No Manifesto Comunista, eles afirmaram, “O que a burguesia produz, antes de mais nada, são seus próprios coveiros. Sua derrocada e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis”[iii]. Como observou Hal Draper,

“A formulação clássica do princípio da auto emancipação foi escrito em 1864 sendo a primeira premissa das regras da Primeira Internacional – de fato, como sua primeira cláusula:

‘CONSIDERANDO, que a emancipação da classe trabalhadora precisa ser conquistada por ela própria…’”[iv]

Esta estratégia revolucionária baseada no classismo não minimiza a importância de combater a opressão às mulheres na teoria marxista do final do século XIX e início do XX. Como Leon Trotski argumentava, “para que possamos mudar as condições de vida nós devemos entendê-las através do olhar das mulheres”[v].

Assim como Marx e Engels fizeram, a geração seguinte de marxistas reconheceu o caráter revolucionário de toda a classe trabalhadora – e viram as mulheres trabalhadoras como componente chave para atingir o potencial revolucionário. Eles enfatizavam a má condição das mulheres e se esforçaram para organizar explicitamente movimentos de mulheres trabalhadoras.

Marxistas europeus da Alemanha à Rússia estiveram correntemente na vanguarda da luta pela libertação das mulheres, ao mesmo tempo em que desenvolviam a teoria marxista no que tocava o que chamavam “a questão da mulher”. Fizeram isso não apenas em um momento de crescimento dos conflitos inter-imperialistas que conduziram o mundo para a Primeira Guerra Mundial, mas também no contexto em que o movimento revolucionário socialista crescia. Com o início da guerra veio à tona um redemoinho de patriotismo em todos os países beligerantes e isso levou à divisão do movimento socialista, pois partidos inteiros da Segunda Internacional mergulharam, junto às burguesias locais, no intento de promover a guerra.

A cisão entre revolucionárias socialistas e aquelas por elas chamadas de “feministas burguesas” se deu não por questões menores de tática e estratégia, mas por princípios políticos cruciais. No caso da Rússia czarista, por exemplo, as mulheres burguesas se puseram a defender a guerra em troca do seu direito ao sufrágio. A Liga pela Igualdade das Mulhereschamou as russas a “dedicar toda nossa energia intelectual e nossos conhecimentos ao nosso país. É a obrigação que temos para com a pátria, e isto nos dará o direito de participar, igualmente aos homens, na nova vida de uma Rússia vitoriosa” [vi].

Como socialistas, Hal Draper e Anne G. Lipow, descreveram as revolucionárias socialistas

“… deram um forte apoio para todas as demandas democráticas de direitos das mulheres. Mas seu movimento se diferenciava daquele das feministas burguesas, não apenas no contexto programático no qual apresentavam as “demandas democráticas”, mas também, e consequentemente, na sua escolha por enfatizar demandas imediatas. Esta visão, em termos marxistas, como um movimento classista, se torna um movimento de mulheres trabalhadoras”.[vii]

A auto-organização das mulheres socialistas.

Engels encorajou o socialista alemão August Bebel, autor de Mulher e o Socialismo, de 1878, a apoiar a fundação de um movimento socialista de mulheres trabalhadoras dentro do Partido Social Democrata Alemão (SPD). O resultado foi a formação de uma secretaria de mulheres no partido em 1891, tendo Clara Zetkin, dirigente do SPD, como seu centro político e organizativo.

Zetkin conduziu este trabalho até a divisão da Segunda Internacional quando deixou o partido para se unir a um pequeno grupo composto por outros revolucionários contrários à guerra, entre os quais estavam membros do partido bolchevique russo, que buscavam construir um movimento internacionalista principista contra a guerra imperialista. Depois disto Zetkin continuou seu trabalho por fora da Segunda Internacional.

Na época da fundação da secretaria de mulheres do SPD, em 1891, as mulheres na Prússia eram legalmente proibidas de participar de reuniões políticas ou aderir a partidos. Finalmente, em 1902, conforme lembrou Bebel, “o secretário do Estado prussiano concedeu permissão às mulheres para frequentarem reuniões de clubes políticos, com a condição de que se sentassem em uma área separada para elas nos salões” [viii].

As conquistas da secretaria de mulheres, vista neste contesto, foram substanciais. Sua publicação Gleichheit (Igualdade), alcançou uma circulação de 23.000 exemplares em 1905 e 112.000 em 1913. [ix]

O movimento de mulheres trabalhadoras alemãs logo se tornou o epicentro internacional do movimento socialista de mulheres sob a rubrica da Segunda Internacional, e teve como prioridade a organização de trabalhadoras nos sindicatos. Em 1907, Zetkin organizou a primeira conferência internacional de mulheres socialistas, em Stuttgart, nos dias que precederam o congresso da Segunda Internacional. Neste congresso a Internacional votou pelo sufrágio universal para todas as mulheres e homens.

A questão sobre se deveriam lutar pelo sufrágio universal ou parcial foi um ponto de forte polêmica. Algumas organizações pelo sufrágio das mulheres reivindicavam (e em alguns países europeus conquistaram) o sufrágio parcial das mulheres – com o direito ao voto baseado na posse de propriedades e pagamento de impostos (restringindo o direito ao voto às mulheres com recursos financeiros). Mas em muitos desses lugares o direito ao voto dos homens também era restrito e negava-se aos trabalhadores o direito de votar. Dessa forma, o sufrágio parcial apenas aumentava os poderes eleitorais das classes dirigentes.

As dirigentes da Segunda Internacional, incluindo Zetkin, Luxemburgo, Kollontai e Eleanor Marx, tinham clareza sobre a diferença entre as demandas socialistas para as mulheres trabalhadoras e aquelas reivindicações de mulheres de classe média. Elas defendiam o sufrágio universal no contesto da luta de classes.

Em um comunicado de preparação à conferência de Stuttgart Zetkin defendeu o direito de todas as mulheres votarem, independentemente da classe à qual pertencessem:

Mas quando reivindicamos o sufrágio às mulheres nós só podemos fazer na medida em que se oriente por ser algo inerente à mulher e não pelas posses de cada uma, à quantia de propriedades…

Deste ponto de vista histórico, demandamos a igualdade entre as mulheres e o direito ao voto como um reconhecimento dos direitos políticos próprios de nosso sexo. Esta é uma questão que se aplica a todas as mulheres, sem exceção. Todas as mulheres, seja qual sua posição, deve reivindicar igualdade política em prol de uma vida mais livre, voltada a produzir riquezas para toda sociedade. Além disso, no mundo das mulheres, assim como no dos homens, existe uma legislação de classe e há a luta de classes, e estas aparecem tão estabelecidas que às vezes entre as mulheres trabalhadoras socialistas e aquelas pertencentes à classe média pode haver antagonismos… Esta classe média deve reivindicar o sufrágio, não apenas para seu próprio interesse, para assim enfraquecer o poder do sexo masculino, mas elas devem também trabalhar em função de uma reforma social completa, e dar toda ajuda que elas possam neste sentido. Mas enquanto nós estamos prontas, como socialistas, para usar toda nossa força política em favor desta mudança, seremos ainda obrigadas a perceber a diferença entre nós e elas.” [x]

Classes sociais e a opressão às mulheres

Em 1909 a revolucionária russa Alexandra Kollontai escreveu o que se provou ser uma contribuição definitiva para a análise marxista da opressão à mulher, As bases sociais da questão da mulher onde ela argumentava,

O mundo das mulheres é dividido, assim como é o mundo dos homens, em dois campos: os interesses e inspirações de um grupo são próximo à burguesia, enquanto o outro grupo tem uma estreita conexão com o proletariado, e suas reivindicações por liberdade abarcam uma solução completa para a questão das mulheres. Assim, ainda que os dois campos sigam o slogan de “libertação das mulheres”, seus alvos e interesses são distintos. Cada grupo inconscientemente tem como ponto de partida as aspirações de sua classe, o que dá um colorido específico, de classe, para as tarefas e objetivos que definem para si… ainda que as demandas das feministas sejam aparentemente radicais, não se deve perder de vista o fato de que as feministas não podem, dada sua posição de classe, lutar pela transformação fundamental da sociedade, sem a qual a libertação das mulheres não pode ser completa” [xi]

Mas o outro lado da abordagem de Kollontai envolveu um esforço para convencer os homens da classe trabalhadora a apoiar as reivindicações das mulheres de sua classe. Os bolcheviques participaram de greves e lutas que envolviam na maior parte homens e argumentavam que seus interesses repousariam na luta por demandas como a proteção à maternidade e o salário igual às mulheres.

Durante os preparos para o Congresso Pan-Russo dos sindicatos em 1917, Kollontai convocou os trabalhadores homens a defender o salário igual entre homens e mulheres argumentando,

O trabalhador consciente deve compreender que o valor do trabalho masculino depende do valor do trabalho feminino, e que a ameaça de substituir o trabalho masculino por um trabalho mais barato feito por mulheres permite aos capitalistas pressionarem o salário dos homens, rebaixando-os ao nível do salário feminino. Dessa forma, somente a falta de conhecimento permitiria alguém ver no tema da equidade salarial uma questão meramente “de mulheres” [xii]

Ao mesmo tempo seria incorreto assumir que o marxismo clássico desconsiderava os problemas das mulheres da classe média ou até mesmo das burguesas. Pelo contrário, Clara Zetkin expressava ter clara empatia com todas as mulheres, subjugadas dentro do núcleo familiar. Como ela argumentava em 1896, a lei familiar dita às mulheres das classes altas que seus maridos seriam seus superiores: “ela ainda é dependente de seu marido. O protetor do sexo frágil sobreviveu na lei familiar à qual diz: E ele deverá ser seu mestre.” [xiii] Ela também argumentava,

A mulher burguesa não apenas demanda seu próprio pão, mas também busca sustento espiritual e quer desenvolver sua individualidade. É exatamente neste estrato que encontraremos estas trágicas, ainda que psicologicamente interessantes, mulheres, cansadas de viver como bonecas em suas casinhas e que desejam tomar parte no desenvolvimento da cultura moderna. A defesa dos direitos das mulheres burguesas é completamente justificada seja no âmbito econômico como no intelectual e moral”.[xiv] (itálico nosso)

No mesmo texto Zetkin também defendeu que as mulheres da classe média

não são iguais aos homens no que toca a posse de propriedade privada, ainda que sejam parte dos círculos superiores. As mulheres destes círculos têm ainda que conquistar a igualdade econômica em relação aos homens e só o podem fazê-lo mediante duas exigências: a demanda por treinamento profissional e oportunidades de trabalho iguais para ambos os sexos. Esta competição as pressiona para que reivindiquem seus direitos políticos e com eles possam destruir todas as barreiras que foram criadas contra sua atividade econômica [xv]

Há uma distinção importante, observada acima por Zetkin, entre as mulheres burguesas e as de classe média. As mulheres de classe média, como todos desta classe, experimentam uma ampla gama de circunstâncias financeiras, de trabalho e de vida. A classe média alta tem um modo de vida próximo ao da classe dirigente, enquanto a classe média baixa vive em condições muito semelhantes às dos trabalhadores. Assim, as mulheres de classe média podem ser atraídas para distintas direções políticas – algumas gravitando em direção à burguesia e outras se identificando com os interesses dos trabalhadores.

Certamente, Zetkin, em seus escritos visionários de 1896, observou a tendência crescente de proletarização do “trabalho intelectual” que afetaria os acadêmicos e outras profissões, um fator que é ainda mais relevante hoje que nos tempos de Zetkin:

Em meio à intelligentsia burguesa, outra circunstância leva à deterioração das condições de vida: o capitalismo precisa de uma força de trabalho inteligente e cientificamente treinada. Isto, porém, contribui para uma superprodução de trabalhadores intelectuais proletarizados e contribui para que posições sociais que antes eram respeitadas e bem remuneradas venham erodindo continuamente.[xvi]

O início do movimento americano pela libertação das mulheres

O movimento pelo sufrágio das mulheres no início do século XX nos Estados Unidos diferiu um pouco de seus correlatos europeus, mas sua dinâmica foi similar. Enquanto o governo dos Estados Unidos concedeu o “sufrágio universal” aos homens isso não impediu os Estados sulistas de impor as taxas eleitorais de Jim Crow e outras restrições voltadas a negar o voto especificamente aos homens negros.

Assim, a segregação de Jim Crow impôs efetivamente o sufrágio parcial aos homens, negando aos negros dos antigos Estados confederados o direito de votar. Evitando este assunto vital, as sufragistas americanas clamavam pelo “sufrágio universal” às mulheres (ainda que às negras também fosse negado o direito ao voto devido às leis de Jim Crow). A direção branca da National American Woman Suffrage Association (Associação Nacional para o Sufrágio da Mulher Americana), NAWSA, permitiu que as filiadas sulistas praticassem a segregação racial chamando voto unicamente nas brancas.

Contudo, o racismo escancarado não se limitou a episódios no sul do país, como foi demonstrado em uma carta de uma dirigente do NAWSA, Carrie Chapman Catt, a um congressista: “neste momento as mulheres de Nova York são politicamente iguais aos homens, mas as mulheres brancas do sul são politicamente inferiores aos negros”.[xvii]

Mulheres afro-americanas, incluindo Mary Church Terrell e Ida B. Wells-Barnettm, se organizaram pelo sufrágio das mulheres junto à NAWSA, mas antes de tudo através da National Association of Colored Women (Associação Nacional de Mulheres Negras) e o Alpha Suffrage Club (Clube de Sufrágio Alpha). Wells-Barnett teve um papel chave na construção da parada pelo sufrágio das mulheres em 1913, ainda assim foi pedido a ela que caminhasse no final da marcha. Ela respondeu furiosa, “se as mulheres de Illinois não tomarem posição nesta parada democrática, então as mulheres negras estão perdidas[xviii]

Socialistas americanas e radicais poderiam ter se unido às suas correlatas europeias na luta pelo sufrágio completo para homens e mulheres, a despeito de suas cores ou raças. Infelizmente, isto não aconteceu.

Nos Estados Unidos, no início do século XX, socialistas e outros radicais estiveram frequentemente associados de forma concomitante na anarco-sindicalista “Industrial Workers of the World” (Trabalhadores Industriais do Mundo), IWW, e no Partido Socialista (PS), parte da Segunda Internacional. Ambos, a IWW e o PS, estavam comprometidos com a emancipação das trabalhadoras e ligavam a luta de classes à conquista ao direito das mulheres a controlar a natalidade, contudo discordavam quanto à importância de se conquistar o sufrágio feminino.

Ainda que a IWW fosse declaradamente antirracista, ela recusava se envolver em atividades eleitorais e se opunha terminantemente contra o movimento por sufrágio, o qual considerava “entusiastas ricos do sufrágio feminino”. [xix] A ardente organizadora do IWW, Elizabeth Gurley Flynn, afirmou de forma clara, “para nós a sociedade se movimenta por questões de classe, não sexo”.[xx] Ao mesmo tempo os organizadores da IWW eram francos em lutar pela igualdade das mulheres. A IWW fazia questão de encorajar as mulheres a assumirem papéis de comando nas greves e outras lutas, tendo tido um tremendo sucesso em 1912 na greve têxtil de Lawrence. Flynn argumentava, “A IWW tem sido acusada de pôr as mulheres no “front”. A verdade é que a IWW não mantém as mulheres na retaguarda, e assim elas tomam a dianteira”.[xxi]

Lucy Parsons, viúva de Albert Parsons, mártir da revolta de Haymarket, e uma dirigente radical, enfatizou o poder das mulheres trabalhadoras em seu discurso à conferência de fundação da IWW em 1905:

Nós, mulheres deste país, não votaríamos mesmo que quiséssemos, o único meio de sermos representadas é escolher um homem para fazê-lo. Vocês homens fizeram tamanha bagunça tentando nos representar que nós não temos mais confiança em pedir algo a vocês, e eu tenho o pé atrás em lhes pedir que me representem…

[As mulheres] são as escravas dos escravos. Somos exploradas de forma mais cruel do que são os homens. Sempre que os salários são reduzidos os capitalistas usam as mulheres para fazê-lo; e se há algo que vocês homens deverão fazer no futuro é organizar as mulheres. [xxii]

Em contraste com o boicote da IWW ao movimento por sufrágio, o PS trabalhou em conjunto com as sufragistas – mas sem uma política que desafiasse sistematicamente a sua aderência ao status quo segregacionista. De fato, o PS era dividido entre a ala à esquerda e outra à direita no que tocava a questão crucial da segregação racial. Em sua esquerda, Eugene Debs, talvez o orador mais inspirador do PS, se opunha à segregação racial e se recusava a falar para públicos segregacionistas.  À direita, Victor Berger defendia que o socialismo nos EUA e no Canadá só seria possível caso permanecessem países de “homens brancos”. Berger também advertia que se a maré migratória nos Estados Unidos não parasse, “este país certamente virá a ser um país negro-amarelo dentro de algumas gerações”. [xxiii]

Enquanto Debs tendia a evitar debates internos no PS, Berger e a ala direita do partido dominavam o aparato organizacional e através dele exerciam considerável influência na política do PS.

A ala direita do PS apostou suas fichas nas vitórias eleitorais, e via nisso um caminho para conquistar uma sociedade socialista. Depois de alguns debates internos o PS votou pela formação de uma Comissão Nacional da Mulher, em 1908 – incumbida não apenas de supervisionar o trabalho sobre as mulheres, o que incluía o tema do sufrágio, mas também por “organizar o ataque sobre a superioridade dos homens entre os socialistas”.[xxiv] Como ressaltou o historiador, contudo, “as mulheres socialistas parecem ter conduzido a luta por direitos iguais com pouca ajuda dos homens de seu partido”.[xxv]

Boa parte deste trabalho se centrou na educação e assistência às mulheres trabalhadoras para que estas tivessem acesso a métodos contraceptivos confiáveis como um meio de controlar o tamanho das famílias e a gravidez recorrente em condições de pobreza. Historiadores focaram sua atenção no papel pioneiro do movimento por controle de natalidade da então socialista Margaret Sanger, que depois veio a assumir um ponto de vista racista e eugenista.

Mas muitas outras mulheres radicais da IWW e do PS receberam diminuto reconhecimento ainda que tivessem se comprometido durante toda a vida com a luta pelos direitos das mulheres controlarem sua própria vida reprodutiva. Isso em um período no qual até mesmo dar informações sobre contracepção era ilegal; estas ativistas encararam ataques da polícia e a prisão, não abandonando o seu trabalho entre as mulheres.

Antoinette Konikow, uma revolucionária russa que imigrou para os EUA em 1893, dedicou-se a este projeto ao mesmo tempo em que foi central para o movimento socialista americano até sua morte em 1946. Konikow ligava explicitamente o direito das mulheres de controlar sua fertilidade à luta por igualdade das mulheres. Como ela escreveu em 1923 em um panfleto, maternidade voluntária, as mulheres nunca poderão obter a verdadeira independência ao menos que sua função reprodutiva esteja sob seu próprio controle”.[xxvi] Konikow nunca abandonou esta abordagem, prevendo temas que viriam a emergir no movimento pela libertação das mulheres nos anos 1960.

Os escritórios de Konikow eram regularmente atacados, por isso ela codificava seus arquivos médicos para prevenir que suas pacientes fossem processadas. Uma feminista socialista, Diane Feeley, comentou, “ainda que a grande maioria de suas pacientes fossem imigrantes pobres, sempre que Dra. Konikow era presa alguma mulher rica a punha em liberdade, já que, dadas as leis repressivas de Massachusetts, elas recorrentemente tinham que recorrer à ajuda da revolucionária”.[xxvii]

Como médica, Konikow falava sobre como a universidade deixava os médicos ignorantes sobre o tema dos métodos de controle de natalidade e assim estes eram incapazes de ajudar suas pacientes mulheres que buscavam controlar sua fertilidade. Em resposta ela escreveu o Manual Médico para o Controle de Natalidade, em 1931, no qual estava incluído não apenas uma detalhada discussão sobre anatomia feminina, mas também informações sobre o que ela considerava ser o mais confiável método de controle de natalidade à época, o diafragma com gel espermicida. [xxviii]

O PS também se dedicou a ajudar mulheres grevistas e encorajou-as a se organizarem na American Federation of Labor (Federação Americana do Trabalho), AFL, mesmo quando a federação não aceitava mulheres, negros e imigrantes em sua organização. Neste projeto, as mulheres do PS colaboraram com as sufragistas e mulheres reformistas de classe média, apesar dos fortes atritos entre estes grupos e as mulheres trabalhadoras.[xxix]

A greve das trabalhadoras do vestuário de Nova York de 1909-10 é normalmente lembrada pelos historiadores do trabalho como “o levante dos 20.000”, e envolveu massivamente os imigrantes e a mão de obra de mulheres adolescentes que lutaram incansavelmente até o fim, no qual a maioria das fábricas, ainda que não todas, ganharam reconhecimento sindical e tornaram-se o Local 25 da International Ladies Garment Workers Union (União Internacional dos Trabalhadores do Vestuário de Senhoras).

Quando a greve começou, as grevistas receberam um forte apoio não só do PS, mas também das sufragistas e da Women’s Trade Union League (Liga Sindical das Mulheres), WTUL, organização de mulheres de classe média, vistas como “aliadas” das grevistas. O PS manteve seu comprometimento durante toda a greve. Contudo o interesse das mulheres de classe média diminuiu à medida que a greve se arrastava e as grevistas votaram contra uma proposta de contrato apresentada pela patronal. Uma participante enfurecida do WTUL fez uma proposta de “começar uma campanha contra o socialismo já que o socialismo é uma ameaça… ele apenas faz com que imigrantes ignorantes e descontentes se posicionem contra o governo querendo destruí-lo”.[xxx]

Mas a inspiração destas trabalhadoras do vestuário era profunda. Quando o Partido Socialista organizou a marcha do “Dia das Mulheres” em 1910, a passeata pelas ruas de Nova York foi uma demonstração massiva de solidariedade e consciência de classe entre as mulheres trabalhadoras, incluindo um grande contingente das vestuárias, que apresentavam suas demandas de aumento salarial, melhores condições de trabalho junto à reivindicação de direito ao voto.

O heroísmo das trabalhadoras vestuárias de Nova York inspirou Clara Zetkin a erigir uma resolução, em 1910, na Segunda Conferência Internacional de Mulheres, que declarava o Dia Internacional das Mulheres um feriado anual para os socialistas, uma tradição que continua até os dias de hoje.

Em fevereiro de 1917, as trabalhadoras têxteis em Petrogrado organizaram uma manifestação pelo Dia Internacional das Mulheres sob o tema “contra a guerra, os altos preços e a situação da mulher trabalhadora”, resultando em um movimento grevista massivo que levou à queda do Czar. Este dia se tornou, efetivamente, o primeiro dia da Revolução Russa.

A Revolução Russa e os desafios para materializar a libertação das mulheres

Os líderes da Revolução Russa de 1917 desde o início fizeram do combate à opressão às mulheres um aspecto central de seu projeto revolucionário. Durante sua breve existência, este governo revolucionário ofereceu uma fugaz visão do que uma sociedade genuinamente socialista poderia oferecer ao criar condições materiais para que as mulheres sejam livres – mas também mostrou quais os desafios devem ser encarados para realizar esta libertação em um contexto pós-revolucionário.

Abaixo farei uma breve apreciação das conquistas legais e também das limitações destas para atingir uma genuína igualdade para as mulheres – indicando o grau de quão profunda deve ser a luta depois de uma revolução socialista para erradicar a opressão às mulheres.

Não há dúvidas, o governo revolucionário promulgou uma legislação que estabeleceu a completa igualdade política e social para as mulheres: o direito ao voto e a ocupar cargos públicos, o direito ao divórcio mediante reivindicação de qualquer uma das partes, o princípio de igualdade nos salários para trabalhos iguais, licença maternidade de quatro meses antes e depois o nascimento e acompanhamento médico ao bebê pago pelo governo. Aborto – visto apenas como uma questão de saúde – foi legalizado em 1920, e as mulheres ganharam o direito de obter o aborto legal em hospitais estatais. Apenas eram considerados criminosos aqueles que realizavam aborto com fins lucrativos.

Soma-se a isso o fato de a revolução ter derrubado todas as leis que criminalizavam a homossexualidade junto a outras leis que regulavam a sexualidade. [xxxi] O bolchevique Grigorii Btakis, em 1923, descreveu o impacto da Revolução de Outubro no que concerne a sexualidade:

[a legislação soviética] declara absoluta não interferência do Estado e sociedade nas questões que tocam a sexualidade, até onde ninguém seja lesado, e o interesse de ninguém vai arbitrar no que concerne a homossexualidade, sodomia, e outras várias formas de satisfação sexual, as quais são apresentadas pela legislação europeia como ofensivas à moralidade – a legislação soviética aqui trata essas manifestações como “intercurso natural”. [xxxii]

Mas a igualdade legal, ainda que crucial, não atinge a liberdade na vida do dia-a-dia dentro da família. Como Lenin explicou em 1919,

Leis sozinhas não são suficientes, e nós não estamos de modo algum satisfeitos com meros decretos. Na esfera legal, contudo, nós fizemos tudo que nos cabia para por as mulheres em posição de igualdade e temos todo o direito de nos orgulhar disso. A posição das mulheres na Rússia Soviética é agora ideal se fizermos um paralelo com sua posição nos mais avançados Estados. Dizemos a nós mesmos, que isso, obviamente, é apenas o começo.[xxxiii]

Lenin normalmente se referia a opressão à mulher dentro da família como “escravidão doméstica”, e ele se preocupava com sua continuação na Rússia pós-revolução. Em uma conversa com Zetkin em 1920, alguns anos após a revolução, Lenin falou detalhadamente sobre os obstáculos que continuavam a existir na vida doméstica. A seguinte citação de Lenin deixa claro que o marxismo russo não esperava que a opressão às mulheres fosse desaparecer automaticamente depois da revolução, mas reconhece a necessidade para uma luta contínua:

Pouquíssimos maridos, nem mesmo os proletários, pensam no quanto eles podem abrandar o fardo e as preocupações de suas esposas, ou aliviá-las por inteiro, se eles as auxiliarem no “trabalho doméstico”. Mas não, isso iria contra o “privilégio e a dignidade do marido”. Ele demanda descanso e conforto. A vida doméstica da mulher é um sacrifício diário em nome de uma miríade de trivialidades. Os direitos ancestrais de seu marido, seu senhor e mestre, sobrevivem imperceptíveis… Eu conheço a vida dos trabalhadores, e não apenas por ter lido. Nosso trabalho comunista entre as massas de mulheres, e nosso trabalho político em geral, envolve uma considerável educação sobre os homens. Nós temos que arrancar pela raiz o velho ponto de vista escravocrata tanto no partido quanto nas massas. Este é um de nossos objetivos políticos, uma tarefa tão urgentemente necessária quanto a formação de um grupo de camaradas, homens e mulheres, com um treinamento teórico e prático completo para o trabalho partidário entre as trabalhadoras.“ [xxxiv]

Da mesma forma Trotski argumentava, “instituir a igualdade política entre homens e mulheres no Estado Soviético é o mais simples dos problemas… mas para alcançar a igualdade entre homens e mulheres dentro da família é um problema infinitamente mais árduo”. E concluiu, “todos nossos hábitos domésticos devem ser revolucionados antes que isso possa ocorrer. E ainda assim é óbvio que ao menos que haja igualdade real entre marido e mulher na família, comumente às condições gerais da vida, não poderemos falar seriamente em igualdade no trabalho social e nem mesmo na política”.[xxxv]

Dessa forma os bolcheviques nunca abraçaram a ilusão de que uma revolução socialista vitoriosa é suficiente para acabar com a opressão à mulher. Velhos costumes e atitudes não podem ser mudados da noite para o dia, mas apenas ao longo do tempo, com advento de novas gerações que não tenham crescido recebendo a bagagem ideológica perpetuada pelas sociedades de opressão de classes ao longo dos séculos.

De fato, é apropriado entender que o grau de compreensão dos bolcheviques sobre o tema se dava em ver que a revolução não como o fim, mas o início da luta pela conquista da libertação da mulher. E mais importante, eles compreenderam a centralidade de libertar a mulher da penosa “escravidão doméstica”, que, ainda que seja difícil, é a chave para a sua libertação nas demais esferas da vida.

O ponto de inflexão na revolução

A revolução russa de 1917 inspirou uma onda de lutas revolucionárias pela Europa. A possibilidade de a revolução se espalhar para sociedades economicamente mais avançadas, particularmente a Alemanha, manteve vivas as esperanças do governo revolucionário nos seus primeiros anos. Esta esperança se desfez com a derrota final da revolução alemã em 1923. A Rússia, com sua economia abalada, ficou isolada. O terreno político foi então transformado: a década seguinte deu o testemunho da ascensão contrarrevolucionária stalinista na Rússia e do fascismo na Europa.

A revolução russa também produziu uma mudança na esquerda americana. O PS foi capaz de passar incólume à guerra, já que se sustentou uma firme posição contra a guerra. Mas em 1919 os revolucionários russos formaram a Terceira Internacional, a Comunista, composta por 19 organizações e partidos. A Revolução Russa então acelerou o já estabelecido conflito entre as alas esquerda e direita do PS, na medida em que os revolucionários do partido apoiaram os bolcheviques e o grupo reformista se opôs a eles. Em 1919 o PS perdeu a sua maioria de esquerda que construiu o Partido Comunista (PC) – filiado à Terceira Internacional. A maioria dos membros da IWW os seguiu – muitos dos quais já haviam deixado ou sido expulsos do PS.

A década de 20, contudo, provou ser um difícil período para aqueles que queriam defender a tradição marxista. O governo americano conduziu uma perseguição massiva e deportação de imigrantes suspeitos de atividade socialista ou anarquista. Além disso, com a consolidação do poder de Stalin na União Soviética em 1928, o PC expulsou a minoria que defendia a oposição trotskista contra o stalinismo.

O resultado foi o aparecimento de dois movimentos socialistas distintos, um pró Stalin e outro pró Trotski. A esquerda socialista foi composta por estes dois grupos até a emergência da Nova Esquerda nos anos 1960.

Deste modo, algumas das mais dedicadas e talentosas lideranças femininas do início do século XX acabaram separadas em distintas organizações com posições politicas opostas no tocante a questões fundamentais. Konikow, uma das fundadoras do movimento trotskista nos Estado Unidos, continuou seu trabalho em torno da distribuição de métodos contraceptivos seguros, e escreveu extensivamente sobre o direito das mulheres de controlar a natalidade no jornal trotskista Militant, nos anos 1930 e início dos 1940. Gurley Flynn se uniu ao PC em 1936 e escreveu regularmente em uma coluna para o Daily Worker.

Assim, as veteranas dos movimentos radicais do início do século XX cumpriram um papel chave na transmissão de suas tarefas para as gerações mais novas de mulheres na esquerda americana.

A organização das mulheres durante a Grande Depressão.

No tumultuoso movimento pelo reconhecimento da sindicalização na década de 1930, o empenho pela libertação das mulheres se deu no curso da luta de classes, sem que houvesse uma reivindicação explícita pela igualdade das mulheres.

Uma das greves mais exemplares do movimento operário foi a importante greve de Flint durante o inverno de 1936-37, quando trotskistas (neste momento compondo o Partido Socialista) e comunistas trabalharam juntas em uma coesão brilhante, até a vitória, contra a General Motors (GM). A militante do PS Genora Johnson (posteriormente Genora Dollinger), neste momento com 23 anos de idade, esposa do grevista Kermit Johnson, formou a Brigada de Emergência das Mulheres de Flint.

Primeiramente constituída de esposas dos grevistas, a Brigada esteve longe de ser um grupo de auxílio composto por “esposas”. Conscientemente elas se referiam à sua organização como composta de “mulheres” e não “esposas”.[xxxvi] As mulheres da Brigada vestiam uniformes e com uma boina e braçadeira vermelhas, que Dollinger depois revelou terem sido escolhidas em parte porque “elas eram uma bandeira vermelha, a cor do socialismo”. [xxxvii]

A Brigada de Emergência poderia ser mobilizada rapidamente como um aviso de alerta para defender a greve; elas carregavam porretes de madeira, que pareciam tacos de basebol.  Como noticiou o New York Times certa vez, as mulheres da Brigada “não se contentam com a resistência pacífica, elas utilizam clavas semelhantes à tacos de basebol, esculpidas na extremidade para serem melhor manuseadas”.[xxxviii] Em mais de uma ocasião a Brigada encarou a polícia, provocando-a para que batessem ou atirassem em um grupo de mulheres.

Uma das táticas mais inteligentes que utilizavam era o “carro de som” que era rapidamente acionado quando havia sinal de problema fora da fábrica. O carro de som dirigia os piquetes em conflito com seu alto-falante. A tática se provou indispensável para a estratégia diversionária de batalha, para desviar a polícia ao fingir ocupar a planta “Chevy 9” (quando na verdade a “Chevy 4” era ocupada) no dia primeiro de fevereiro. Esta estratégia, ainda que vitoriosa, pois em risco a vida de grevistas quando estes enfrentaram a polícia na Chevy 9. Como descreveu a pesquisadora Janice Hasset, “a polícia da GM trocou tiros com os grevistas, e usou cassetetes e gás lacrimogêneo para conduzi-los ao fundo da planta. A Brigada de Emergência, sempre pronta para intervir, estava a postos e usou seus porretes para quebrar as janelas e permitir a entrada de ar na fábrica”. [xxxix]

O PC, na década de 1930, devido ao seu grande tamanho e a preocupação em combater o racismo, fez incursões para construir uma organização multirracial durante este período. Mulheres comunistas negras começaram a organizar sistematicamente trabalhadoras negras nos anos 1930. As mulheres comunistas do Harlem, como descreveu o historiador Erik S. McDuffie em Sojourning for Freedom (Peregrinação pela Liberdade), se organizaram contra os preços elevados dos alimentos nas mercearias, de proprietários brancos, como na seguinte demonstração, em 1935:

Em 3 de junho, “os esquadrões voadores” de mulheres negras e seus filhos marcharam desafiadoramente pela rua 125, entre a sétima e oitava avenida, a principal via pública de comércio da vizinhança. Elas tinham a força de mil mulheres. Cantavam, “o preço da carne tem que cair!” e reivindicavam uma redução de 25% no preço da carne. As revoltas organizavam reuniões espontâneas nas esquinas e debatiam sobre os altos preços dos alimentos e outras questões emergenciais da comunidade, como o forte desemprego, as péssimas habitações, os serviços sociais inadequados. Elas queriam negociar. Grupos de mulheres se dirigiram para as mercearias de donos brancos e confrontaram os comerciantes brancos, assustados, questionando-os sobre o porquê dos preços serem tão altos e a mercadoria tão ruim para a clientela negra.[xl]

Na conclusão de McDuffie, “o protesto foi bem sucedido. Na mesma noite quase cinquenta lojas concordaram em reduzir o preço em 25%”.[xli] O “Comitê de Ação do Harlem Contra os Altos Preços dos Víveres”, dirigido pela descendente de índios Bonita Williams, organizou este protesto rapidamente bem sucedido. Williams e Audley Moore foram duas dirigentes de base do PC, e neste turbulento período organizaram, simultaneamente, lutas contra o desemprego e despejos, greves de aluguel, e a formação de sindicatos.

Williams e Moore, como muitas ativistas radicais do Harlem, iniciaram sua vida política sendo parte do movimento de Marcus Garvey em 1920, atraídas por sua mensagem de nacionalismo e orgulho racial. Ambas se uniram ao PC através do envolvimento na campanha conduzida por este partido pela libertação dos “garotos de Scottsboro”, oito adolescentes negros que foram falsamente acusados de estuprar duas mulheres brancas em um trem em 1931. Depois de Williams participar em uma marcha multirracial no Harlem, que contou com milhares de participantes, ela pensou “se eles tivessem um movimento como esse, e tomassem consciência de tudo que diz [Marcus] Garvey, seria algo do qual eu participaria para salvar meu povo”.[xlii]

Todos estes exemplos acima mostram mulheres comunistas e socialistas dirigindo importantes lutas que envolveram mulheres na década de 1930 sem que estas tivessem a intenção de formar um movimento pelo direito das mulheres. No caso de Williams e Moore, suas lutas eram explicitamente mais ligadas à libertação dos negros que das mulheres. Posteriormente, em uma entrevista com Hassett, Dollinger defendeu que uma luta pela “libertação das mulheres” seria “historicamente imatura” no movimento de trabalhadores de 1937.

Mas depois da Brigada de Emergência de Flint Hassett concluiu,

Apesar do fato de que os esforços das mulheres não eram expressados em um “movimento de mulheres”, questões de gênero eram um elemento perceptível na greve de 1937. Genora Johnson enfatiza que “foi uma mudança radical… dar às mulheres o direito de participar das discussões com seus maridos, com outros sindicalistas, com outras mulheres, para expressarem seu ponto de vista… isto foi uma mudança radical para aquelas mulheres naquele momento…”

Não foi uma ação feminista, e não era um movimento de mulheres – era um fenômeno de trabalhadores, de classe – mas os eventos de 1936-37 mostrou à nação, e às mulheres, que elas não eram apenas aquilo que lhes era ensinado que deveriam ser, elas eram capazes de atuar de forma conjunta, orquestrada e, as vezes, até heroica. Este é o motivo para acreditar que nenhuma delas nunca mais seria “apenas uma mulher”. [xliii]

As décadas de 1940 e 1950

Como consequência imediata da Segunda Guerra o interesse político no tema da opressão às mulheres se renovou entre as mulheres organizadas na esquerda. Durante o período da guerra houve um movimento das mulheres ao trabalho industrial bem remunerado em função da máxima produção militar, e logo depois perderam os postos para os veteranos que retornavam do exército. Muitas mulheres brancas retornaram ao trabalho doméstico, algumas combinando com outro trabalho de meio período, enquanto as mulheres negras retornaram para o trabalho doméstico de período completo, com baixa remuneração, que elas ocupavam antes da guerra.

A Segunda Guerra também expôs a hipocrisia racista de lutar pelas “liberdades democráticas” americanas que neste mesmo país não existiam para a população negra, excluída do processo democrático. O movimento por direitos civis se fortaleceu nos anos 1950 e inspirou uma forte radicalização na década seguinte.

Mulheres comunistas e trotskistas, e simpatizantes, começaram a reexaminar as teorias a cerca da opressão à mulher, algumas incorporando os efeitos não só da desigualdade de classe, mas também de raça. Assim elas iniciaram um trabalho de base que ajudou a pavimentar o caminho para as futuras lutas de libertação das mulheres.

Claudia Jones, dirigente do PC, escreveu o que foi provavelmente a mais significativa exposição pré década de 1960, das conexões entre diferentes opressões que sofrem as mulheres negras. O seu artigo “An End to the Neglect of the Problems of the Negro Woman!” (um fim à negligência dos problemas das mulheres negras!), publicado em 1949 na revista Political Affairs, que afirmava com clareza, “as mulheres negras – como trabalhadoras, como negras, e como mulheres – são o estrato mais oprimido de toda a população”.[xliv]

Jones continuava, “cabe aos sindicalistas progressistas perceber que na luta por igualdade de direitos para os trabalhadores negros é preciso dar uma atenção especial para as mulheres negras, que, em uma proporção muito maior que outras trabalhadoras, são quem provêm o sustento de suas famílias”.[xlv]

Jones desafiou explicitamente “mulheres brancas progressistas” a reconhecerem

Que a luta pela igualdade das mulheres negras era de seu interesse, na medida em que a super exploração e opressão das mulheres negras tende a diminuir o padrão de vida de todas as mulheres… Desafiar permanentemente cada observação chauvinista sobre a mulher negra é uma necessidade vital, se queremos derrubar a compreensível desconfiança nas mulheres negras que são rechaçadas pelo chauvinismo branco sempre expresso nos círculos progressistas. [xlvi]

No mesmo ensaio pioneiro Jones enfatizou a agressão sexual como uma das questões chave que as mulheres negras enfrentam:

Mas nada dramatiza o status de oprimido das mulheres negras como faz o caso de Rosa Lee Ingram, viúva, mãe de quatorze crianças – duas das quais mortas – que encarou a prisão na Georgia pelo “crime” de se defender das ameaças de “supremacistas brancos”… isto expõe o álibi hipócrita dos linchadores de negros que historicamente se esconderam atrás das saias de mulheres brancas quando tentaram encobrir seus crimes abomináveis com o “cavalheirismo” de “proteger as mulheres brancas”.[xlvii]

Jones concluiu que a devida atenção à sofrida situação das mulheres negras lhes permitira “participar ativamente” na conclusão de sua “missão histórica” que é a mesma de “toda a classe trabalhadora americana”: criar uma América socialista – a derradeira e plena garantia da emancipação da mulher.[xlviii]

O trabalho de Jones no interior do PC tornou-se irrealizável, graças à perseguição implacável do governo americano. Jones, nascida em Trinidade e Tobago, foi presa primeiramente em 1948 por suas atividades políticas e outras três vezes mais nos anos seguintes. Ela foi considerada culpada sob os termos do Ato de Segurança Interna de 1950, que bania “estrangeiros” membros do PC. Ela também foi condenada junto de Gurley Flynn por “atividade não americana” sob o ato Smith em 1951.

Em 1955 o governo americano a deportou, mas o governo de Trinidade e Tobago recusou-se a aceitá-la de volta. O governo britânico concordou em recebê-la em termos “humanistas”, vivendo lá até a morte por uma parada cardíaca fulminante aos 49 anos. Ainda que Jones tenha mantido seu estreito envolvimento com a luta antirracista no Reino Unido até sua morte fora de hora, ela não voltou a se dedicar à produção teórica que iniciara no PC americano.

Mesmo assim outras mulheres comunistas continuaram a lutar durante este período, na defesa de Rosa Lee Ingram e contra o estupro sistemático das mulheres negras, algumas vezes em conjunto com os ativistas dos direitos civis, como Rosa Parks.

Além disso, o PC começou a organizar comissões locais de mulheres para encorajar a participação das mulheres no partido. Junto disto, em uma série de locais se organizaram aulas para ajudar as mulheres a tomar posições de liderança. Para as aulas eram garantidos transporte e creche para que fossem acessíveis às trabalhadoras.  Em janeiro de 1947, por exemplo, o PC de Bronxville organizou uma reunião jantar especial, na qual mulheres presentes apreciaram uma palestra sobre “o papel das mulheres hoje” e discutiram os problemas encarados por elas, enquanto os homens “cozinharam e serviram a comida, cuidaram das crianças e lavaram os pratos”.[xlix].

No pós-guerra, mulheres trotskistas também se engajaram em revisitar o tema da opressão à mulher.

Em 1952, a então trotskista Selma James escreveu um panfleto para a tendência trotskista de Johnson-Forest[l]O Lugar da Mulher, que indicava o peso das responsabilidades familiares sobre as mulheres trabalhadoras. James e seu coautor usaram pseudônimos para não perderem seus empregos diante da histeria anticomunista, ainda assim James foi demitida.

O panfleto incluía a seguinte passagem, pressagiando as observações de Betty Friedan no “The Feminist Mystique” (A mística feminista), tendo a mulher trabalhadora, e não a de classe média, em mente:

Ainda que uma mulher trabalhe, é suposto desde o início que a principal responsabilidade da casa é da mulher e o principal trabalho para o sustento é do homem. O marido tem que sair de casa para sustentar você e as crianças. Você precisa garantir a casa limpa, as crianças cuidadas, refeições preparadas, roupa lavada etc. Isto parece uma forma justa de fazer as coisas. Mas logo você vai descobrir que o trabalho de ficar cuidando da casa não é o mesmo que se pinta nos filmes. O trabalho doméstico é inacabável, monótono e repetitivo. Depois de um tempo de serviços como passar a roupa ou acordar cedo para preparar o café da manhã você verá que não é isso que quer fazer.[li]

Em 1954, James escreveu uma coluna bissemanal chamada A woman’s place, (O lugar da mulher), na “Correspondence” o jornal da tendência Johnson-Forest. Em uma coluna, “Miss Universo” James descreveu sua experiência observando a disputa de beleza, expressou muito do mesmo sentimento das mulheres liberacionistas que se reuniram em protesto do lado de fora do concurso de Miss América em 1968. James percebeu, por exemplo, que “o concurso não se pautava apenas pela beleza como dizia o mestre de cerimônias, também deve-se ter altura e postura… mas o mais importante é o maiô ter exatamente o mesmo estilo para cada uma das jovens mulheres”.[lii]

James também observou que apesar de o concurso ser mundial, as mulheres que desfilavam diante dos espectadores televisivos compartilhavam todas as mesmas características faciais das mulheres americanas brancas: “enquanto eu assistia as finais, me pareceu que as mulheres, ainda que de diferentes tipos, tinham a mesma aparência… é claro, havia um ‘tipo’ que não estava representado. Não havia uma mulher negra no concurso de beleza”.[liii]

Também em 1954, Evelyn Reed, do Socialist Workers Party (EUA) (Partido Socialista dos Trabalhadores, dos Estados Unidos), que frequentemente discorria sobre a opressão às mulheres nas páginas da “Quarta Internacional”, afirmava que as responsabilidades das mulheres como mães são tidas como inferiores às dos homens em todos os aspectos da vida:

Está estabelecido como um […] axioma imutável que as mulheres são socialmente inferiores porque são naturalmente inferiores aos homens. E qual a prova? Elas são mães! A natureza, alega-se, condenou o sexo feminino a um status inferior… não é a natureza, mas a sociedade de classes, a qual roubou das mulheres o direito a participar das funções superiores da sociedade e enfatizou nelas primeiramente a sua função animal da maternidade. E esta usurpação foi perpetrada através de um mito duplo. De um lado a maternidade é representada como um azar biológico que advém dos órgãos maternos das mulheres. Junto deste materialismo vulgar a maternidade é representada como algo quase místico. Para consolar as mulheres de seu status de cidadãs de segunda classe a maternidade é santificada, dotada de uma aréola e abençoada com “instintos” especiais, sentimentos e conhecimentos para além da compreensão dos homens. Santidade e degradação são os dois lados da mesma moeda deste roubo social na sociedade de classes. [liv]

Como a historiadora Kate Weigand argumentou, “apesar do movimento de mulheres dos anos 1960 e 1970 ter sido diferente em muitos sentidos daquele anterior, ele não emergiu como uma entidade plenamente desenvolvida no meio dos anos 60. Não, a segunda onda feminista foi construída sobre o trabalho de vários grupos que as precederam, incluindo o trabalho de mulheres que inspiraram e foram inspiradas pelos esforços da velha esquerda em levar a sério as questões concernentes às mulheres antes de 1945”.[lv]

Em 1983, a feminista negra e estudiosa, Barbara Smith, reconheceu particularmente a influência da dramaturga Lorraine Hansberry na advocacia em sexualidade lésbica. Hansberry, mais conhecida por ter escrito a aclamada obra A Raisin in the Sun (O Sol tornará a brilhar) ainda aos 27 anos, foi também uma ativista de esquerda e uma pensadora do feminismo negro. Em 1957, o mesmo ano em que terminou A Raisin in the Sun, Hansberry se uniu às Daughters of Bilitis (Filhas de Bilitis – nome que alude à personagem grega da ilha de Lesbos) a primeira organização lésbica nos EUA. Ela contribuiu com uma série de cartas para a publicação do grupoThe Ladder (A Escadaria), assinando com as iniciais “L.H” para proteger sua privacidade.

Na introdução de seu livro, Home Girls: A Black Feminist Anthology [lvi] (Meninas do Lar: uma antologia do feminismo negro) Smith cita uma das cartas de Hansberry:

Já está na hora “da metade da raça humana” falar sobre a natureza de sua existência. De outra forma – sem revisar os pensamentos básicos – a mulher intelectual provavelmente vai se encontrar tentando tirar conclusões – conclusões morais – baseadas na aceitação de uma superestrutura social moral, que nunca admitiu a igualdade das mulheres que seria, portanto, imoral. Conforme o matrimônio, as práticas sexuais, segundo a criação de crianças, etc. Neste tipo de trabalho que podem surgir mulheres capazes de formular um novo e possível conceito de que a perseguição e condenação dos homossexuais têm raízes não só em ignorância social, mas, filosoficamente, em um dogma anti-feminista.[lvii]

Smith comentou, “eu gostaria que muito mais pessoas tivessem ciência que Lorraine Hansberry, uma de nossas mais respeitadas artistas e pensadoras, fazia questionamentos, enquanto mulher lésbica, sobre alguns dos mesmos temas que questionamos hoje, pelos quais temos sido tão atacadas”.[lviii]

Algumas mulheres da “velha esquerda” dos anos 1950 tornaram-se teóricas dos movimentos de libertação das mulheres nas duas décadas seguintes. Gerda Lerner, por exemplo, que foi próxima do PC nas décadas de 1940 e 1950, emergiu como uma eloquente pesquisadora sobre as mulheres que também defendia as lutas das mulheres negras contra a desigualdade racial. Selma James, depois de deixar o movimento trotskista, cumpriu um papel chave ao teorizar sobre o trabalho doméstico das mulheres e fundou a campanha pela remuneração do trabalho doméstico.

Em 1970, Evelyn Reed usou o livro “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, de Engels, para construir seu argumento que postulando que com o advento do capitalismo as mulheres tiveram duas tristes alternativas. Elas poderiam procurar um marido para lhes sustentar e tornarem-se donas de casa em habitações urbanas e formar a próxima geração de escravos assalariados. Outras, mais pobres e desafortunadas poderiam tornar-se trabalhadoras marginais em fábricas e usinas, junto às suas crianças, e viver o horror de ser o mais subjugado e mal pago setor da força de trabalho.[lix]

Como muitas feministas socialistas, Reed distinguiu os papéis reprodutivos das classes dirigentes e das famílias trabalhadoras para os donos dos meios de produção: as famílias das classes dirigentes transferem as riquezas através das gerações por meio da herança, enquanto as famílias trabalhadoras servem para reproduzir força de trabalho.

No mesmo artigo Reed também desafia aquelas de outras tradições políticas “que dizem que são marxistas, mas se recusam a reconhecer que as mulheres devem conduzir e organizar sua própria luta por emancipação, assim como não entendem o porquê negras e negros devem fazer o mesmo”. Aqui, ela primeiramente se dirige aos socialistas que erroneamente acreditam que as organizações independentes dos oprimidos impõem uma ameaça para a unidade da classe trabalhadora, que requer fundamentalmente “uma ofensiva anti-capitalista de toda a classe trabalhadora” para conquistar uma sociedade socialista.

Ela também apontou que a luta deverá continuar depois da revolução para alcançar a completa libertação das mulheres. Como ela argumentou,

A razão é que nenhum segmento da sociedade que foi sujeitado à opressão, seja ele composto por pessoas do terceiro mundo ou por mulheres, pode delegar a liderança e promoção de sua luta por liberdade a outras forças – mesmo quando outras forças possam atuar como suas aliadas… a máxima dos revolucionários irlandeses – “quem deseja se tornar livre deve desferir o golpe”, se aplica perfeitamente à libertação das mulheres. As próprias mulheres devem desferir os golpes para conquistar sua liberdade. E isso se mantém tão verdadeiro depois da revolução anticapitalista como era antes dela.[lx]

 Assim, muitas marxistas chegaram aproximadamente ao mesmo marco teórico inicial que muitas socialistas feministas no fim dos anos 1960 e início dos 1970, e compartilharam o mesmo objetivo: usar a teoria marxista para melhorar a compreensão do trabalho não pago dentro da família e a sua conexão com a opressão da mulher na sociedade capitalista.

[i] Quoted in Barbara Evans Clements, Bolshevik Feminist: The Life of Aleksandra Kollontai (Bloomington: University of Indiana Press, 1979), 155.

[ii] See Sharon Smith, “Theorizing women’s oppression – Part 1: Domestic labor and women’s oppression,” International Socialist Review 88, March 2013.

[iii] Karl Marx and Frederick Engels, Manifesto of the Communist Party, chapter 1, (1848), https://www.marxists.org/archive/marx/works/1848/communist-manifesto/ch01.htm(tradução livre)

[iv]Hal Draper, “The Principle of Self-Emancipation in Marx and Engels,” Socialist Register 1971, 81–109, https://www.marxists.org/archive/draper/1971/xx/emancipation.html#f6

[v] Leon Trotsky, “Against Bureaucracy, Progressive And Unprogressive,” Problems of Life (Methuen 1924), https://www.marxists.org/archive/trotsky/1924/xx/bureaucracy.htm

[vi] Richard Stites, The Women’s Liberation Movement in Russia: Feminism, Nihilism and Bolshevism 1860–1930 (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1978), 282.

[vii] Hal Draper and Anne G. Lipow, “Marxist Women versus Bourgeois Feminism,” Socialist Register1976, 179-226. https://www.marxists.org/archive/draper/1976/women/women.html

[viii] August Bebel 1879/1910, Woman and Socialism, chapter

XV, https://www.marxists.org/archive/bebel/1879/woman-socialism/ch15.htm

[ix] Draper and Lipow, op cit

[x] Clara Zetkin, “Social-Democracy & Woman Suffrage” (1906), https://www.marxists.org/archive/zetkin/1906/xx/womansuffrage.htm

[xi] Alix Holt, Selected Writings of Alexandra Kollontai (Westport: Lawrence Hill & Co., 1977), 59.

[xii] Ibid. 126.

[xiii] Clara Zetkin, “Only in Conjunction With the Proletarian Woman Will Socialism Be Victorious,” Speech at the Party Congress of the Social Democratic Party of Germany, Gotha, October 16th, 1896, Berlin, in Philip Foner, ed., Clara Zetkin: Selected Writings, International Publishers, 1984, http://www.marxists.org/archive/zetkin/1896/10/women.htm

[xiv] Ibid.

[xv] Ibid.

[xvi] Ibid.

[xvii] Crista DeLuzio, ed., Women’s Rights: People and Perspectives (ABC-CLIO/Greenwood, 2009), 105.

[viii] Ibid. 106

 [xix] Ann Schofield, “Rebel Girls And Union Maids: The Woman Question in the Journals of the AFL and IWW, 1905–1920, Feminist Studies 9, no. 2 (Summer 1983), 338.

[xx] Ibid.

[xxi] Meredith Tax, The Rising of the Women: Feminist Solidarity and Class Conflict, 1880-1917 (University of Illinois Press, 1980), 256.

[xxii] Robin Blackburn, ed., An Unfinished Revolution: Karl Marx and Abraham Lincoln (London: Verso Books, 2011), 251–52.

[xxiii] Ira Kipnis, The American Socialist Movement 1897–1912, Haymarket Books, 2005, 278–79.

[xxiv] Ibid. 268.

[xxv] Ibid. 265.

[xxvi] Diane Feeley, “Antoinette Konikow: Marxist and Feminist,” in Paul LeBlanc, ed., Revolutionary Traditions of American Trotskyism (New York, NY, 1988), 5. Reprinted fromInternational Socialist Review 33 (January 1972), 19–23.

[xxvii] Ibid.

[xxviii] Ibid, 6.

[xxix] See Tax, op cit.

[xxx] Tax, 232

[xxxi] Stites; quoted in Noel Halifax, Out, Proud and Fighting (London: Socialist Workers Party, 1988), 17.

[xxxii] Quotes in J. Lauritson and D. Norsad, The Early Homosexual Rights Movement 1864–1935 (New York, 1974); cited in Noel Halifax, Out, Proud and Fighting (London, 1988), 17.

[xxxiii] V. I. Lenin, Speech at the Working Women’s Congress, Moscow, 1919, Lenin’s Collected Works, 4th English Edition, (Moscow: Progress Publishers, 1965), Volume 30, 40–46, https://www.marxists.org/archive/lenin/w…

[xxxiv] Clara Zetkin, “Lenin on the Women’s Question” (An Interview with Lenin on the Woman Question in 1920), http://www.marxists.org/archive/zetkin/1….

[xxxv] Leon Trotsky, “From the Old Family to the New,” Pravda (July 1923), http://www.marxists.org/archive/trotsky/….

[xxxvi]Janice Hassett, “Never Again Just A Woman: Women of the Auxiliary and Emergency Brigade in the General Motors Sit-Down Strike of 1937,” from the American Socialist Collection of Sol Dollinger, March 11, 1994, http://www.marxists.org/history/etol/newspape/amersocialist/neveragain.htm#53n

[xxxvii] Ibid.

[xxxviii]Ibid

[xxxix] Ibid

[xl]Erik S. McDuffie, Sojourning for Freedom: Black Women, American Communism, and the Making of Black Left Feminism (Duke University Press, 2011), 1.

[xli] Ibid. 1.

[xlii] Ibid. 79

[xliii]Janice Hassett, op cit.

[xliv] Beverly Guy-Sheftall (ed.), Words of Fire: An Anthology of African-American Feminist Thought (NY: The New Press, 1995), 109.

[xlv] Ibid. 115.

[xlvi] Ibid. 117.

[xlvii]Ibid. p119–120.

[xlviii] Ibid. 120.

[xlix]Kate Weigand, Red Feminism (Johns Hopkins University Press, 2001), 74.

[li] Selma James, Sex, Race and Class—The Perspective of Winning: A Selection of Writings, 1952–2011 (Oakland: PM Press, 2012), 16–17.

[lii] Ibid. 35.

[liii] Ibid.

[liv] Evelyn Reed 1954, “The Myth of Women’s Inferiority,” Fourth International (Vol.15 No. 2, Spring 1954) https://www.marxists.org/archive/reed-evelyn/1954/myth-inferiority.htm

[lv] Weigand, op cit, 7.

[lvi] Barbara Smith, ed., Home Girls: A Black Feminist Anthology (New York: Kitchen Table: Women of Color Press, 1983), xxxii.

[lvii] Quoted in Barbara Smith, ed., Home Girls: A Black Feminist Anthology (New York: Kitchen Table: Women of Color Press, 1983).

[lviii] Ibid.

[lix] Evelyn Reed, “Women: Caste, Class or Oppressed Sex,” International Socialist Review, September 1970, vol. 31, no. 3, 15–17 and 40–41, http://www.marxists.org/archive/reed-evelyn/1970/caste-class-sex.htm

[lx] Ibid.

[l] A tendência Johnson-Forest foi uma organização fundada pelos marxistas C.L.R James e Raya Dunayevskaya, usando os pseudônimos J.R Johnson e Freddie Forest. A eles logo se uniu Grace Lee Boggs, sob o pseudônimo de Ria Stone. A tendência defendia que a União Soviética era uma sociedade de estado capitalista e não uma burocracia coletivista (como sustentava o Partido dos Trabalhadores) ou um estado operário degenerado (como argumentava o Partido Socialista dos Trabalhadores Americano). Entre 1940 e 1950 a tendência Johnson-Forest foi primeiramente parte do Partido dos Trabalhadores e posteriormente do Partido Socialista dos Trabalhadores, finalmente rompendo com este para formar sua própria organização, “Correspondência”.

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