A guerra russo-americana à Síria

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Aldo Cordeiro Sauda

O colapso da proposta de cessar-fogo na Síria, firmado por John Kerry, secretário de Estado norte americano, e Sergei Lavrov, ministro das relações exteriores da Rússia, significa, inevitavelmente, o prolongamento da total destruição do país.

O potencial pacto russo-americano serviu mais para explicitar, na prática, que as duas maiores potências nucleares do mundo têm importantes pontos estratégicos em comum para Damasco. Ambas buscam preservar do colapso total os pilares político-militares do Estado sírio, assim como a essência de seu regime em Damasco, visando seus interesses na região.

Segundo o próprio Barak Obama, o acordo assinado dia 10 de setembro em Genebra foi firmado em meio à “desconfiança”. Nunca desde a queda do muro de Berlin a rivalidade mundial entre ambos os países foi tão grande. Além da atuação militar em campos distintos na guerra civil ucraniana e da política de sanções estadunidenses por conta da anexação russa da Criméia, novos elementos ligados à crise política eleitoral americana afetam a relação EUA-Rússia. Talvez a mais curiosa delas sejam as declarações de admiração dadas pelo ultradireitista Donald Trump, candidato à presidência pelo partido republicano, ao presidente russo Vladimir Putin.

Mas a Síria é o principal tema de disputa entre ambos. Maior intervenção militar russa desde a guerra no Afeganistão, o esmagamento da oposição armada a Assad serviu para relocalizar a Rússia politicamente no mundo. O acordo Kerry-Lavrov, é, na prática, a admissão norte americana de que a Rússia ocupa hoje um novo papel geopolítico no Oriente Médio.

Trauma Iraquiano

Ao firmar o pacto de Genebra, os Estados Unidos parecem ter cedido a Putin e até recuado parcialmente em sua proposta por uma “solução iemenita” para a Síria. Isto significava dar um fim a Bashar Al Assad de forma similar ao que foi feito pelos sauditas com Abdel Saleh, presidente que governou o Iêmen por 24 anos. Por meio de um acordo regional, o chefe de estado iemenita assinou um pacto em Riad – capital da Arábia Saudita – que transferia o poder ao seu vice-presidente enquanto todo resto do regime manteve-se intacto.

Desde a retirada americana no Iraque –  sem conseguir os objetivos de dominar de forma estável a segunda reserva petrolífera do mundo – a ideia de desintegrar os pilares militares e administrativos do estado inimigo como estratégia imperialista de dominação foi abandonada no Oriente Médio. Segundo o balanço acumulado no Pentágono e no Departamento de Estado americano, o fracasso da ocupação do país, iniciada em 2003, se deve ao fato de os EUA terem desmontado os dois principais pilares do estado nacional iraquiano; o Partido Baath e o Exército.

Ao ter de lidar com as consequências de uma anarquia incontrolável em Bagdá, Washington concluiu que uma nova estratégia mais racional, inclusive para combater a Al Qaeda e o Estado Islâmico, passava pela preservação de aparatos militares cujos estados mantivessem possíveis posições hostis aos EUA. Foi esta a fórmula política aplicada por Obama à “primavera árabe” frente ao levante pró-democracia que afetou aliados e adversários norte-americanos na região.

Após a concretização deste novo método no Iêmen e na Tunísia – no qual o presidente tunisiano, Ben Ali, foi sequestrado em seu avião e despachado na Arábia Saudita enquanto a velha guarda manejou um processo de transição política – tentou-se ao máximo aplicar a estratégia pós-iraquiana à Líbia e Síria. Em Trípoli, a política americana de mediação com o ditador Muamar Kadafi, que dirigia o pais a quase 40 anos, era negociada através de seus filhos. Ela apenas fracassou devido a recusa do tirano em reconhecer a inevitabilidade de sua derrota militar frente o levante.

Já o caso sírio tem ganhado contornos próprios. Desde o início da onda de refugiados à Europa e os atentados do Estado Islâmico, que apanhou os norte-americanos desprevenidos, Washington parece estar recuando cada vez mais da “proposta iemenita” para a Síria de aplicar limitada pressão político-militar sob Damasco para forçar um acordo que preservasse o regime ditatorial, mas retirasse Bashar Al Assad de sua direção.

Zig-zag ianque 

O crescente papel da Russia na região atuou em parte como um empecilho à estratégia de Obama. Porém, para a sorte de Damasco, ela foi usada na contenção à oposição militar a Assad. Neste caso, a estratégia melhor se expressou no veto americano à venda de equipamento antiaéreo para os rebeldes. Ao proibir seus aliados internacionais que patrocinavam a oposição síria de ceder lançadores antiaéreos tipo MANPAD e mísseis FIM-92H Stinger-RMP, cujo preço da unidade fabricado nos EUA é de menos de 45 mil dólares, Obama impediu Assad de cair.

Inesperadamente, frente à enorme resistência militar dos rebeldes, a ausência em sua parte de armamentos decisivos acabou prolongando interminavelmente o conflito e empurrando os próprios guerrilheiros (formado por diversos grupos e frentes militares) mais e mais nas mãos dos principados do Golfo – principalmente o Qatar e a Arábia Saudita – para o financiamento cotidiano de suas atividades. Enquanto Washington impedia estes países de enviar armas pesadas aos grupos que patrocinavam, enxergavam com bons olhos a distribuição de armas leves, que igualmente impedissem que Assad e os russos se saíssem inteiramente vitoriosos por lá.

O movimento pro-democracia, consequentemente, viu-se espremido de todos os lados, e os setores minoritários dos rebeldes ligados a eles, sem esperança de vitória militar, foram lentamente sendo cooptados pelo capital vindo dos países do Golfo. Esses estados, atrelados político-ideologicamente ao fundamentalismo islâmico, formaram uma das duas grandes fontes contrarrevolucionárias que, ao menos temporariamente, conseguiram esmagar o levante democrático em toda região.

Como afirma o trotskista libanês Gilbert Achcar, a “primavera árabe”, diferentemente da maioria dos processos revolucionários do século XX, contou com dois grandes eixos igualmente contrarrevolucionários, que entraram repetidamente em choques armados entre si. Estes dois polos, compostos de um lado pelos antigos regimes ditatoriais, como os de Assad, Mubarak e Ben Ali, foram desafiados por potências igualmente contrarrevolucionárias, como o emirado do Qatar ou o governo turco de Erdogan. Esta dinâmica política, alimentada por aparatos multibilionários, concretamente anulou a força política do polo revolucionário, formado por jovens trabalhadores organizados pela internet que saíram as ruas ao longo de 2011-2012.

Guerra ao Terror

Os detalhes do pacto Kerry-Lavrov, por deliberação dos americanos, foram mantidos em sigilo. O que se sabe dele, portanto, é o que foi anunciado pelos dois governos na coletiva conjunta de imprensa. Ele seria, segundo os ministros, composto por duas fases. A primeira duraria uma semana, caso ela desse certo, se iniciaria a segunda.

Durante a primeira semana, se garantiria um cessar fogo entre rebeldes e o governo sírio, porém, se continuaria a guerra de todas as outras forças contra o Estado Islâmico e a Al Qaeda. Ao longo deste primeiro período, o exército sírio teria de permitir a entrada de alimentos para as cidades controladas pela oposição e sitiadas por Assad.

Mesmo que o cessar fogo tenha sido aplicado por alguns dias, a permissão à entrada de alimentos em cidades como Alepo foram impedidas pela ditadura. Símbolo maior disto foram os dois comboios de ajuda humanitária, composto por 40 caminhões da ONU destinados à zona leste de Alepo, que ficaram parados na fronteira entre Síria e Turquia. A recusa do exército de Bashar al-Assad em permitir a chegada da assistência, capaz de alimentar 185 mil pessoas por um mês, ganhou contornos sádicos alguns dias depois, quando, logo após anunciar o fim do cessar-fogo, comboios com alimentos foram bombardeados pelo ar pelas forças Russo-sírias.

Na segunda fase do pacto entre Moscou e Washington (caso a primeira fase se saísse vitoriosa) Rússia e EUA se uniriam, militarmente, no confronto contra o Estado Islâmico e o grupo Nusra – antiga sessão da Al Qaeda na Síria – e bombardeariam, em conjunto, as regiões do pais controlada pelos “jihadistas”. Afirma o New York Times, em uma tentativa de embelezar o tratado:

O elemento chave é que a Rússia precisa, portanto, impedir as forças do Presidente Bashar al-Assad de realizar operações aéreas sobre áreas controladas pela Al-Nusra e as outras forças da oposição. Os EUA esperam que isso termine com o uso indiscriminado de “bombas de barril” [barris de TNT ou pólvora atirados de helicópteros sem alvos determinados em zonas urbanas] – incluindo ataques com gás cloro – que tem permeado o conflito.

 

Em contrapartida, os EUA terão de persuadir os setores da oposição sob o qual mantêm influência de que eles se separem da Al-Nusra. Assad tem atacado a oposição muitas vezes sob o pretexto de estar atacando guerrilheiros da Al-Nusra.

A argumentação do NYT é curiosa. Afinal, se a grande preocupação dos americanos fossem impedir os bombardeios aéreos com bombas de barril, porque então Washington proibiu a vende de armas antiaéreas aos rebeldes? O eixo do acordo, portanto, parece ser outro, o de tentar introduzir uma vitória mínima à diplomacia americana na véspera das eleições presidenciais frente o debacle sírio.

Independente das intenções de Washington, o acordo foi mal visto pelos rebeldes. Frente aos avanços contínuos de Assad, qualquer cessar-fogo, de certa forma, é melhor que nenhum cessar-fogo, e por isto, ele foi aceito pelos grupos armados anti-regime. Porém, não a ideia de jogar os rebeldes contra a antiga Jabhat al-Nusra.

A proposta de atacar a antiga Nusra se diferencia daquela que propõem unidade contra o Estado Islâmico. Ao contrário do EI, que está em guerra permanente contra os rebeldes, muitas vezes em unidade de ação com o próprio Assad, a relação da oposição armada à ditadura e sua base social com a antiga Al-Nusra é muito mais complexa. Ao contrário do Estado Islâmico, comandado por estrangeiros sem compromisso com a derrubada de Assad, a antiga Al-Nusra, que rompeu no mês passado sua filiação internacional com a Al Qaeda, integra de fato o campo de oposição militar à ditadura de Damasco. Segundo afirma o Observer, em uma matéria parcialmente produzida no norte da Síria:

Jabhat Fateh al-Sham [o novo nome do grupo jihadista Jabhat al-Nusra] está de fato entre nós,” afirmou Dawood Mahmudi, importante dirigente rebelde do leste de Alepo. “Eles estão aqui porque ninguém mais está. Eles mantiveram a cidade aberta e a reabriram quando estávamos sitiados. Onde estavam a Rússia e os EUA à época? Eu lhes direi onde estavam: os EUA não estavam em lugar algum e a Rússia estava nos bombardeando. E agora eles dizem, ‘confiem em nós”.

 

Na província de Idlib, no Noroeste de Alepo, onde Jabhat Fateh al-Sham tem uma presença maior do que em Alepo, também havia resistência para a rendição de grupos jihadistas que surgiram em meio ao caos da guerra civil síria como protetores de algumas regiões. “Eles são daqui e eles são parte de nós” disse Abu Towfik, um ancião do vilarejo de Saraqeb, cujos três irmãos lutam com o grupo jihadista. “Eles não seriam o grupo mais forte daqui se a ajuda tivesse chegado antes.”

Unidade Obama-Putin-Assad?

As turbulências mundiais causadas pelas crescentes ondas de refugiados sírios deram mais peso à “pacificação” do país árabe na agenda imperialista mundial. O caminho proposto pelas potências ocidentais, porém, apenas intensificará a destruição da nação e sua sociedade. Ela transforma os estados imperialistas ocidentais em coautores dos crimes da Assad.

Ao invés de reconhecerem a realidade política, de que jamais haverá paz na Síria sem destituição de Assad e a construção de um regime de transição, o imperialismo tem buscado se associar ao ditador para “lutar contra o terror”. Afirmou o jornal Guardian, ao cobrir a assinatura do acordo

Em sua fala, Kerry sugeriu que o regime Assad poderia conduzir ataques aéreos contra a frente al-Nusra (que recentemente mudou seu nome oficial para Jabhat Fateh al-Sham) se tivessem a aprovação dos russos e dos americanos.

Mais tarde, segundo o jornal, John Kirby, porta-voz oficial do Departamento de Estado, afirmou que não haverá qualquer tipo de unidade com Assad por parte dos Estados Unidos. Segundo Kirby, “o objetivo do JIC [a cooperação militar aérea], se e quando ele for estabelecido, seria para coordenar a ação militar entre os EUA e a Rússia, não para outros atores”.

Inevitavelmente, a proposta do Secretário de Estado norte-americano serviu para fortalecer Assad, não só diplomaticamente, mais também no campo militar. Ao propor uma tentativa de solução diplomática sem uma perspectiva política de transição, que incluísse a saída do ditador do poder, os americanos apenas deram mais tempo para as tropas de Damasco prepararem tranquilamente uma nova ofensiva sobre Alepo. Melhor síntese das ações criminosas de Kerry foi dada por Gilbert Achcar, em um texto recente na revista The Nation:

Foi anunciado (isto é, vazado) que os estrategistas militares norte-americanos não confiavam na possibilidade do regime Sírio e seus patrocinadores russos e iranianos de aplicar um cessar-fogo ligado a um compromisso político. Além do mais, o Pentágono não possui intenção de compartilhar dados militares sobre a oposição síria com os russos por temer que ela possa ser usada para aprofundar o bombardeio da oposição a Assad. E eles tem razão da suspeita. Kerry já conquistou seu ligar na história como incrível personificação da diplomacia naif, i.e. sua crença na capacidade de resolver conflitos em mesas de negociação sem o apoio de ações concretas na realidade (acertadamente descrito pelo Financial Times como uma “interminável confiança em sua própria habilidade de solucionar problemas caso ele apenas consiga juntar os diferentes lados dentro de uma sala”), e suas incríveis ilusões com relação a disposição de Moscou a ajudar os EUA a sair da encruzilhada síria.

É improvável, porém, que Barak Obama – alguém que dificilmente pode ser suspeito de ingenuidade – compartilha das idiossincrasias de seu Secretário de Estado. O presidente norte americano tem teimosamente rejeitado mudar sua atitude perante a Síria ao longo dos últimos quatro anos a pesar das enormes evidencias de que ele estava permitindo o conflito se degenerar em uma catástrofe para o povo sírio e mais um enorme desastre para a política externa dos EUA após Iraque e Afeganistão. Ao fazer isto, Obama apenas conseguiu convencer a maior parte da opinião pública árabe de que os EUA, que invadiram o Iraque e bombardearam a Líbia por muito menos do que tem ocorrido na Síria ao longo dos últimos cinco anos, apenas se preocupam com países ricos em petróleo. Se alguém na região tinha ilusões nos pretextos democráticos e humanitários invocados por Washington em suas últimas guerras, devem tê-los perdido inteiramente agora. Como Anthony Cordsman, um dos mais astutos observadores da situação político-militar do Oriente Médio recentemente afirmou, o presidente americano está inteiramente centrado em uma “estratégia de saída” – não da crise síria, mais de seu próprio escritório.

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