Grã-Bretanha: Por que eles ainda têm tanto medo de León Trotsky?

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Daniel Taylor  |

Os líderes do establishment do partido trabalhista da Grã-Bretanha se lançaram desesperadamente em uma campanha para desalojar Jeremy Corbyn da liderança do partido, após uma vitória expressiva deste nas eleições internas (da qual participam os membros do partido) no ano passado. Corbyn representa uma ala esquerda do partido que há muitos anos era mantida fora da liderança, cuja função é dirigir a oposição ao governo conservador e apresenta o líder como candidato a primeiro-ministro caso o partido vença as eleições parlamentares. O programa da liderança de Corbyn, embora apresente as importantes limitações comuns a todo projeto reformista, representa um giro à esquerda inaceitável para a maioria da fração parlamentar do partido (seu programa inclui a defesa da estatização de setores estratégicos da economia – como as ferrovias -, a oposição a iniciativas imperialistas e à permanência do Reino Unido na OTAN, e a recusa da utilização do orçamento em gastos militares correspondentes a estes projetos, como o caso dos submarinos nucleares Trident).

Após a votação do “Brexit” no plebiscito no final de junho uma maioria dos parlamentares do partido se mobilizou para destituir Corbyn da liderança buscando um nome mais “aceitável” para a burguesia inglesa e que permitisse uma “unificação” com a ala direita. A conspiração da direita do partido incluiu uma tentativa de impedir até mesmo que o nome de Corbyn constasse da votação para a escolha de um novo líder, movimento que só foi barrado por uma intensa mobilização dos membros do partido organizados em torno do movimento “momentum“, que inclui alguns dos principais sindicatos britânicos. A nova eleição para a liderança do partido ocorre este mês, e as pesquisas indicam uma nova vitória avassaladora de Corbyn contra o candidato da direita, Owen Smith. Esta situação gerou todo um desespero nos setores de centro na política britânica, incluindo uma estranha campanha midiática contra o “Trotsquismo”. O texto abaixo, de Daniel Taylor, busca expor as raízes desta intensa campanha anti-trotsquista da imprensa britânica. O texto foi publicado originalmente no Jornal Red Flag, da Austrália. Introdução e tradução de Patrick G. de Paula.

Jeremy Corbyn empurrou a sociedade britânica à esquerda de maneiras diversas. Ele tem encorajado um revival de uma série de noções supostamente antiquadas: a nacionalização em larga escala, a greve e o protesto. Mas talvez o mais surpreendente de tudo é que Corbyn (ou, mais especificamente, a campanha contra ele) trouxe o nome de Leon Trotsky para o mainstream do debate político na Grã-Bretanha.

Trotsky chegou às manchetes quando o vice-líder do Partido Trabalhista Tom Watson afirmou que “entristas trotsquistas” que estavam “influenciando os mais jovens”, foram responsáveis pela crescente popularidade de Corbyn. Watson até começou a ventilar um “dossier” de evidências de que novos membros do Partido Trabalhista e as maciças manifestações pró-Corbyn na Grã-Bretanha comprovariam que os “trotsquistas” estariam “voltando para o partido”.

Depois disso, a imprensa britânica – sempre aberta à novas maneiras de atacar Corbyn – desenvolveu a ideia com força. A BBC publicou uma cartilha muito interessante chamada “O que é um trotsquista?” e os líderes do movimento trotsquista britânico foram convidados a explicar-se em público, obviamente, na esperança de que sua retórica revolucionária sem maquiagens incriminasse Corbyn por associação (e no final eles até foram bastante bem-educados…).

A obsessão Trotsky-Corbyn já está aí há algum tempo. Mesmo durante a primeira campanha de liderança de Corbyn no ano passado, o aparato do partido trabalhista tentou manipular a eleição ao excluir novos membros da participação; eles chamaram este pequeno projeto de “Operation Ice Pick” (operação picareta) em referência à arma usada por um agente stalinista para assassinar Trotsky em 1940.

No início de 2016, o jornalista político Michael Crick reeditou seu livro de “caça-as-bruxas” Militant, uma narrativa que exalta a forma pela qual o último agrupamento trotsquista de tamanho considerável dentro do partido trabalhista foi detonado e expulso do partido. Tom Watson descreveu o livro como uma “leitura obrigatória para ativistas trabalhistas”.

Em certo sentido, esta é apenas a mais recente numa longa lista de calúnias cada vez mais enlouquecidas contra Corbyn: que ele é um anti-semita; que ele é um simpatizante do ISIS; que ele é muito relutante em destruir a humanidade em um holocausto nuclear global; que ele fingiu sentar-se no chão de um trem…

Cada acusação teve apenas algumas semanas de execução na imprensa. Mas as acusações sobre o trotsquismo são diferentes: os acusadores realmente parecem acreditar nelas. Eles publicam e divulgam o “dossier” de Watson e o “manual de guerra” anti-Militant de Crick com um ar de pânico que sugere que eles realmente têm algo a temer dos “trotsquistas”. O que explica isso?

Trotsky sempre foi igualmente aterrorizante e impressionante para políticos do establishment. Winston Churchill escreveu que ele combinou “o comando organizativo de um Carnot, a fria inteligência individual de um Maquiavel, a oratória popular de um Cleon, a ferocidade de Jack, o estripador, e a dureza de Titus Oates.”

Um oficial da Cruz Vermelha Americana que executava um trabalho “diplomático” na Rússia pós-revolucionária observou que Trotsky era “um tremendo filho-da-puta, mas também o maior judeu desde Jesus Cristo”.

Mas para a classe operária russa e para os trabalhadores do movimento revolucionário que surgiu em toda a Europa nos anos seguintes Primeira Guerra Mundial, Trotsky foi visto, principalmente, como o “organizador da vitória”.

Depois de anos de exílio, Trotsky havia retornado para a Rússia em 1917, quando a revolução estava em pleno vôo. Ao longo de 1917 ele defendeu, com todo o poder de um dos grandes oradores da política moderna, que a classe operária deve tomar o poder para si. Em outubro, ele ajudou a organizar o levante mais aberto e democrático da história.

Não é de admirar que ele apareça em pesadelos dos modernos burocratas do partido trabalhista, cuja imediata sobrevivência política depende de “operações picareta”, e para quem a participação ativa das pessoas da classe trabalhadora na política é uma ameaça, não um objetivo.

A capacidade de Trotsky para assustar os privilegiados e motivar os oprimidos atingiu o seu apogeu nos anos seguintes a 1917. Como organizador, fundador e líder do Exército Vermelho, ele liderou a defesa militar bem sucedida da revolução russa contra a brutalidade chocante da contra-revolução capitalista.

Quatorze exércitos invadiram a Rússia, na tentativa de exterminar o movimento revolucionário dos trabalhadores; O Exército Vermelho de Trotsky derrotou todos eles. E no período que se seguiu, como uma figura importante no movimento revolucionário internacional, Trotsky trabalhou para encorajar os trabalhadores através de fronteiras a trabalhar juntos para derrubar seus exploradores.

Foi neste momento que Trotsky esteve sujeito às mais grotescas calúnias anti-semitas, anti-comunistas e anti-operárias, retratando-o como um subversivo judeu que tinha evocado uma multidão selvagem de analfabetos para abater as pessoas civilizadas e para conquistar o mundo.

Esta difamação é agora direcionada contra Corbyn, que é acusado pela imprensa e os seus inimigos trabalhistas de simpatia por Trotsky, o suposto autor da “matança em massa”. Mas matança em massa não é nem nunca foi um problema para a classe dominante: Apenas há duas semanas atrás, eles estavam criticando Corbyn por sua recusa a endossar o uso de armas nucleares. E ele o tempo todo foi atacado por sua hostilidade à sangria imperialista do Oriente Médio.

A classe dominante em todo o mundo deu um suspiro de alívio quando a Revolução Russa foi estrangulada por Stálin e sua essência emancipadora substituída pela ditadura autoritária. Trotsky foi exilado, e depois assassinado por agentes de Stálin. É revelador que os inimigos de Corbyn no partido trabalhista se identifiquem com este crime (ainda que “brincando”), quando eles se envolvem em expurgos anti-esquerda.

Esta época do exílio e e o período subsequente foi também o momento de “trotsquismo”: quando primeiro Trotsky e depois seus sucessores – enfrentando a repressão brutal de stalinistas, fascistas e “democratas” igualmente – trabalharam incansavelmente para manter uma corrente política que era ao mesmo tempo revolucionária, marxista e anti-stalinista.

Foi um período de resistência heroica nas circunstâncias mais difíceis, na qual os apoiadores de Trotsky foram empurrados para as margens do movimento dos trabalhadores. Por muitas décadas, parecia que os únicos caminhos possíveis para a política da classe trabalhadora eram o estalinismo autoritário ou um reformismo cada vez mais morno. Os líderes dessas correntes se convenceram de que a ameaça de uma classe operária radical estava terminada e que o “trotsquismo” era apenas uma piada de mau gosto.

That joke isn’t funny anymore. Esta piada parece não ter mais graça. Certamente, a paranoia de Tom Watson é um absurdo. Oitenta anos atrás, Stálin acusou trotsquistas de colaborar com os nazistas para explodir minas e ferrovias russas; Agora, o desafiante de Corbyn, Owen Smith, acusa “entristas” de organizar as pessoas para rir dele durante os debates da disputa pela liderança.

Não é o poltergeist de Trotsky que está colocando os jovens Corbynistas em movimento; grupos políticos trotsquistas não estão dirigindo o despertar político de centenas de milhares de esquerdistas na Grã-Bretanha galvanizados por Corbyn.

Mas a aposta do trotsquismo ainda está valendo a pena. A história não terminou a chegada ao poder de Stálin, nem com Thatcher, nem com Blair. Centenas de milhares – talvez milhões – de pessoas jovens, os trabalhadores organizados e os socialistas podem vir a desafiar as ordens dos respeitáveis políticos trabalhistas.

Manifestações de massa, novas organizações políticas e velhas questões sobre socialismo e capitalismo podem voltar a aparecer dentro do movimento do trabalhadores. Aqueles que ganham a vida com a administração do atual sistema político têm razão para temer este processo. As coisas estão apenas começando agora, mas a vida e as idéias de Trotsky indicam onde tudo pode acabar – com os trabalhadores se livrando de seus grilhões e assumindo o comando de seu destino!

Publicado originalmente em Red Flag.

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