Marx e a Arte

Mariana Rio |

 

O interesse duradouro de Karl Marx por arte e literatura não é tão notório, ao menos entre o grande público, quanto sua apaixonada inclinação pela investigação dos temas econômicos e políticos ou históricos e filosóficos.

Contudo em seus anos como universitário, junto aos estudos de história e filosofia, as questões estéticas foram temas de grande interesse para um então jovem Marx. Inclusive levando-o a acompanhar os cursos de Schlegel sobre literatura antiga e elaborar um esboço-proposta de livro sobre Balzac.

No começo de 1842 Marx começa a se debruçar sobre o tema da arte de forma mais sistemática. Os ensaios da época, Sobre a Arte Religiosa e Sobre os Românticos, foram o início de uma relação longeva porém esquecida por grande parte dos que se interessam pela obra do autor renano.

A herança de Marx

Os escritos citados se perderam um ano depois de um esboço inicial de trabalho sobre as questões da arte. Marx teve que deixar de lado seus estudos, devido ao frenesi de sua carreira jornalística e seu exílio em Paris. Mas seu afastamento do tema não durou muito.

Já em 1844 seu interesse ressurge com vigor, como transparece nas páginas dos Manuscritos Econômicos-Filosóficos. No texto, Marx debate suas influências predominantes, Hegel e Feuerbach, e como elas marcaram suas percepções estéticas.

 

Em uma interpretação algo ligeira podemos enxergar nesse movimento um jovem Marx ainda influenciado pelas ideias contraditórias de seu legado filosófico. Por um lado temos o caráter grandioso do sistema hegeliano, que via na arte uma façanha da consciência humana, uma manifestação do espírito, uma diferenciação do homem para com a natureza.

Esse descontentamento do homem com sua natureza, tão bem argumentado por Hegel, leva à distinção do belo natural e do belo artístico. Não iremos nos aprofundar agora sobre as concepções hegelianas a respeito do belo. Mas é importante, minimamente, demarcar as influências de Marx para verificar alguns caminhos trilhados.

 

Já por outro lado temos, em Feuerbach, uma produção assistemática e desagregada sobre o tema. Além de não ter propriamente algo como um sistema filosófico o autor se diferenciava claramente de Hegel, como já sabemos, pela não-aceitação da primazia do espírito. É a forma materialista da expressão feurbachiana o que interessava ao jovem Marx e ao feuerbachianismo da esquerda neohegeliana.

Segundo ele: “Em consequência da abstração do sensível que é seu princípio, ela [a intuição] reduziu a qualidade sensível a uma simples determinação formal, a filosofia especulativa concebeu a arte e a religião não à verdadeira luz, à luz da realidade, mas no luscofusco da reflexão: arte é Deus na determinação formal da intuição, a religião é Deus na determinação formal da representação.”

 

No sentido oposto do hegeliano a percepção do sensível por Feuerbach pode ser entendida de forma contraditória e parcamente desenvolvida. Seu deslumbramento pela natureza, como belo, alimenta o caráter problemático de seu pensamento, mas sua crítica à desvalorização do mundo material não é uma conquista secundária para uma crítica crítica ao idealismo de Hegel.

Mais tarde Marx irá cada veze mais tomar distância crítica da influência dos dois autores, inclusive sendo um grande objetor dos mesmos. O caminho de Marx para suas próprias concepções em arte estava em pleno processo de pavimentação.

 

 

A arte como práxis

Diferentemente dos autores citados as questões estéticas levantadas por Marx não são apenas ilustrações de erudição secundárias ou marginais. Em suas elaborações a arte ocupa um lugar chave como integrante das suas novas elaborações teóricas globais, uma forma nova de compreender o mundo.

Ao longo dos Manuscritos podemos enxergar e apreciar o pensamento econômico de Marx que, de forma dialética, se conecta com suas considerações sobre a arte. Para a vulgata economicista e os preconceitos ideológicos de parte de sua fortuna crítica esse tipo de entendimento pode ser visto com algo de estranhamento. Contudo ninguém menos do que István Mészáros compreende ser impossível compreender a significação de seu enunciado sobre as questões estéticas sem levar em conta os seus liames econômicos.

 

Encontramos nos Manuscritos um Marx empenhado em descobrir na crítica da economia, na crítica da política e na crítica da filosofia, tanto quanto na crítica da arte, um sentido plenamente humano. O conceito que desenvolve de alienação serve perfeitamente à ideia de arte como parte fundamental da produção humana.

Para Marx o trabalho é uma atividade material de mediação na relação fundamental homem-natureza. Enquanto mediação cria o mundo dos objetos. Esse mundo dos objetos, por sua vez extraído da natureza e modificado segundo o pôr-teleológico dos homens, ou sua prévia-ideação, pode então criar novos significados. A objetivação do homem, da vida mesma da espécie humana, é uma questão preponderante para entendemos a distância desse Marx para com suas antigas influências filosóficas.

 

A arte e a liberdade

Com essa compreensão a necessidade da arte seria um desdobramento da centralidade do trabalho no processo mesmo do homem se fazer homem. O trabalho e a arte são inseridos no desenvolvimento a um só tempo material e não-material que separa o homem da natureza que ele busca transformar em seu objetivo de a moldar de acordo com seus interesses essenciais. Se é o homem demiurgo do próprio homem é na raiz humana que devem ser buscadas suas misérias e riquezas próprias.

Como forma de objetivar o ser social a arte possibilitou ao homem um novo critério de produção de si, do mundo, da vida. Não se tratava de satisfazer tão-somente as necessidades do estômago, por assim dizer, mas, também, da fantasia. Porque o homem se fez homem pudemos passar, enquanto gênero humano mundialmente constituído, a produzir segundo o critério autotélico das leis da beleza estética.

 

Para além da metafísica hegeliana ou das mistificações feurbachianas foi possível, a partir de Marx, compreender a arte não além ou aquém da natureza humana e da humanidade natural. A crítica de duplo caráter é simultaneamente dirigida aos pontos mais altos (e baixos) alcançados pelo idealismo e o materialismo de sua época histórica.

Posteriormente, e sob os ombros de gigantes, autores como Leon Trotsky e György Lukács, Adorno e Benjamin, Bloch e Marcuse, Gramsci e Vigotski, entre muitos outros, conseguiram se debruçar de forma ainda mais consistente sobre a ideia mesma de “leis da arte”, estética e congêneres.

 

Ligada ao processo de autoformação da humanidade, a arte não deve ser vista como uma contemplação desinteressada, nem como uma celebração diáfana, ou qualquer coisa parecida. No campo dos sentidos humanamente constituídos a arte possui uma ligação essencial com a história social e material e por isso podemos afirmar que o valor de uma pintura, por exemplo, pode ser pensado de acordo com o momento histórico-social em que a obra foi criada (ainda que não se reduza ao mesmo).

A autolimitação que o mundo dos homens enfrenta devido a seu caráter utilitarista, instrumental e pragmático, a própria sociabilidade produtora de mercadorias, prejudica uma qualquer clareza da relação do homem com sua própria essência. Não à-tôa Marx afirma: “se queres desfrutar da arte há necessidade de uma educação artística” e “é a música que desperta no homem a sensibilidade musical”. O caráter material da arte é reafirmado de maneira prática.

Mas é claro que Marx não trilhou este caminho pioneiro sem contradições. Em sua crítica ao belo natural, Marx às vezes se assemelha às concepções hegelianas, demostrando, mais uma vez, sua concepção do homem como superior à natureza e um transformador de sentidos que produzem coisas e objetos. O interesse de Marx pela questão artística e literária tinha como pressuposto a reinvenção da liberdade humana enquanto autodeterminação coletiva.

 

Considerações finais

Karl Marx, de fato, nunca viria a escrever um livro ou levar adiante um estudo orgânico exclusivamente voltado aos problemas literários e artísticos. Os seus conhecimentos sobre esta vasta área são, contudo, inegáveis. Trata-se de uma concepção de mundo total na qual não pode haver separação entre mãos e cabeça, natureza e humanidade, civilização e cultura.

Como muitas outras correntes de pensamento o marxismo, ao longo do tempo, foi criando a sua própria teoria estética. Até hoje nomes como Arnold Hauser e Terry Eagleton são literatura obrigatória em disciplinas tais como História da Arte e Teoria Literária até mesmo em ambientes hostis ao marxismo. Isso diz algo a respeito do valor de seu discurso.

À medida que se enfrentou com novos tempos e espaços os expoentes desta corrente foram construindo todo um complexo de ideias e programas a respeito do assunto que compreende e ultrapassa a natureza e os limites dos escritos do então jovem Marx dos anos 1840.

É importante lembrar que o marxismo não possui uma teoria acabada de mundo nem busca ideias fechadas sobre fenômenos. Todo o contrário. Não fosse assim e não seria nem crítico nem revolucionário. E, além disso, os seguidores de Marx foram muitos e muito diversos. Trata-se de toda uma constelação.

De um modo ou de outro a preocupação comum tem a ver com conectar às diferentes esferas da vida a um projeto coletivo de auto-superação da pré-história da humanidade, qual seja, o atual estágio de exploração do homem pelo próprio homem. Das diversas fraturas sofridas pelo marxismo ao longo do Século 20 – estrutura/superestrutura, economia/política, cultura/sociedade, teoria/prática – talvez uma das menos combatidas até hoje não deixe de ser aquela que separa arte e revolução.

 

 

Referências

FREDERICO, Celso. A Arte em Marx. Revista Novos Rumos n.42 (19), São Paulo, 2004.

MARX, K. Manuscritos Econômico-Filosóficos: terceiro manuscrito. São Paulo: Abril, 1974.

EAGLETON, Terry A Ideologia da Estética. Rio de Janeiro, Zahar, 1990.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Cultura, Arte e Literatura. São Paulo: Expressão Popular, 2010.

MÉSZÁROS, István. A Teoria da Alienação em Marx. São Paulo: Boitempo, 2006.

 

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