Ocupação na periferia: Os aprendizes de pé, ocupando a sua fábrica!

Joana B.  |

Um movimento de ocupação das Fábricas de Cultura  na periferia, pelos aprendizes, seguindo o exemplo dos secundaristas nas escolas públicas do pais. Resistem com força e determinação há 45 dias!

No extremo sul da cidade de São Paulo, no Capão Redondo, jovens entre 12 e 18 anos, protestam contra cortes de verbas e das atividades e contra demissões dos funcionários da Fabrica de Cultura, defendendo um dos poucos espaços de fomento à cultura que existe no seu bairro.

Há 5 anos atrás, com o pretexto de dar maior aceso à cultura, o governo Alckmin lançou o projeto de Fábricas de Cultura “para pacificar as quebradas”.  De fato, este tipo de projeto significa a privatização da cultura, ao colocar a sua gestão em mãos de instituições privadas, como a Organização Social POIESIS.

Os mais de 200 adolescentes que ocupam a fábrica há 45 dias  de maneira pacífica, se definem como um movimento autônomo e  têm um grande nível de organização interna. Se enfrentam com a POIESIS que anunciou corte de verba e demissões, redução de horas de planejamento e da duração das atividades. Diante disso a molecada concretamente respondeu: “queremos maior transparência, queremos decidir as coisas”, “a fabrica é nossa”, “queremos o controle”.  Luta Popular foi levar a sua solidariedade e colhemos o seu depoimento coletivo.

 

As reivindicações  dos jovens

Nos muros da fábrica, em todos os andares, está colada na parede as reivindicações dos aprendizes, que são:

  • consulta ampla aos aprendizes em todas as atividades da fábrica
  • Readmissão dos educadores demitidos
  • Não ao fechamento dos ateliês
  • Não demitam funcionários educadores, arbitrariamente
  • Funcionamento da biblioteca até as 20.00
  • Merenda saudável para os que frequentam a fábrica
  • Manutenção imediata dos espaços mal cuidados (rachaduras, vazamentos) etc
  • transparência dos que administram a fábrica (Poiesis sec de cultura)

A reivindicação do horário da biblioteca, que funcionava até as 20h e passou a fechar às 17h, foi o “disparador de tudo”: Foi o único ponto que a administração atendeu.

“Uma das reivindicações levantada foi os horários da biblioteca, essa reivindicação foi atendida só que quando nós fomos a conversar com POIESIS, eles dão desculpas e desculpas, sempre com o mesmo argumento que eles usam: corte de verbas , porque o país esta sofrendo com a crise e não tem como; a culpa é sempre a crise e crise…  e essa não é a resposta que nós gostaríamos de receber”.

 

A ocupação da Fabrica do Capão Redondo não é um ato isolado; o movimento atinge o conjunto das fábricas de cultura, projeto da Secretaria de Cultura de São Paulo.

“As outras fábricas também se mobilizaram; Brazilândia foi ocupada e reprimida. A poíicia interveio sem mandato nenhum e acabaram levando presos  os 22 aprendizes (maioria de menores) presentes; saíram depois de 12 horas e os maiores foram liberados depois de 24 hs.”

“Os aprendizes de outras fábricas estão sempre presentes sim , estão sempre em contato pelo celular, whatsapp, facebook e tudo o que acontece se compartilha. Também temos assembleias com as outras fábricas. Todas as fábricas estão juntas porque o problema não é só nesta fábrica de cultura. Esta foi a primeira fábrica de cultura a ser ocupada. Depois o problema foi aumentando. As reivindicações são de todas as fábricas e as outras têm os mesmos problemas.”

 “O problema da merenda não é só nas fabricas , também era o problema das escolas estaduais  que se ocuparam. Estamos em contato com esse movimento das escolas ocupadas. Conhecemos gente secundarista que ocupou e agora nos apoiam para nos fortalecer nesta luta, vêm pra cá para ajudar.”

 Junto a isso, se declarou uma greve dos arte-educadores, mobilizados contra a falta de transparência na gestão por parte da empresa POIESIS, e em apoio à molecada.  Imediatamente POIESIS demitiu 15 deles por telegrama, sendo 7 da Fábrica de Cultura do Capão Redondo.

“Os professores foram demitidos justamente porque nos apoiaram; eles vêem nosso movimento como uma resistência contra o governo não só contra Poiesis, querendo ou não, a cultura é pouco valorizada; não é uma coisa que seja boa; na periferia é a unica coisa que temos.”. 

Um educador presente diz: “Por pequena maioria, os educadores votaram para suspender a greve e pela abertura de negociação; querem demitir para retomar quem quiserem, é uma demissão política. Estou neste movimento para apoiar essa molecada que toma seu destino nas suas mãos”.

Sua organização interna, um verdadeiro conselho popular

Dentro da ocupação, o nível de organização interna é impressionante; reinventaram o espaço e decidem tudo em assembleia.

 “A gente mantem a maioria das atividades, a POIESIS queria fechar alguns ateliês e justamente nós estamos contra isso; aqui é uma Fábrica de Cultura, não é justo deixar o povo sem nada, porque nos alimenta e dá força para funcionar.”

Aqui na ocupação a gente funciona com grupos de trabalho, os GT são discutido de acordo com o que as pessoas querem: cozinha, recepção e segurança, comunicação e limpeza coletiva. A gente faz o que pode para manter as coisas organizada.  Em toda assembleia a gente tenta conscientizar o povo que isso é nosso e que tem que manter e cuidar; não podemos quebrar nada. A única coisa que queremos é ARTE porque este lugar está feito para isso”.

“A gente é autônoma, cada semana se tem assembleias onde se convida os aprendizes, os pais dos aprendizes e todo mundo, essa assembleia é aberta para todos. Para consolidar e sair cada dia mais fortes; quanto mais pessoas vierem participar é um apoio maior. A gente vai passar informação e os de dentro vão passando para os que não estão, para os companheiros de trabalho. E assim o movimento vai ganhando cada vez mais força”.

 “Tem bastante aprendizes, cerca de 200 que estão bem presentes. Quase sempre cola este numero aqui. E vem mais ou menos 230 alunos para fazer ateliês, práticas de samba, hip hop, percussão e violão. As vezes têm uns 5 ou 10, depende. Os aprendizes sempre explicam a situação e a molecada entende. Eles falam de politica e dizem o que não querem. Não há nenhum professor dando aula; eles transmitem o que conhecem e assim passam o que sabem.”

 “Nenhuma atitude foi tomada por ninguém, nem pelos maiores, então, por alguém tem que vir esta atitude… Então todo o mundo está unido e a gente está batalhando, esperando recuperar o que estava nosso”

 

Que são as Fábricas de Cultura?

É um projeto da Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo, um projeto de contenção social financiado pelo BID (Banco Internacional de Desenvolvimento) com 40 milhões de dólares, como o projeto UPP no Rio de Janeiro, que pretende combater o alto grau de violência e criminalização nas periferias. Existem 5 Fábricas de Cultura na periferia de São Paulo: em Brasilândia, Capão Redondo, Jaçanã, Jardim São Luís e Vila Nova Cachoeirinha.  É um projeto recente, iniciado em 2012.

O objetivo apresentado pelas Fábricas de Cultura é promover o acesso equitativo e permanência de jovens em situação de risco social, às atividades artísticas e culturais de qualidade, que contribuam com uma melhor inserção social e familiar dos jovens das comunidades onde estão localizadas. Para isso, o governo estadual faz um repasse anual de R$ 16 milhões para que a Organização Social POEISIS, ofereça gratuitamente cursos e atividades de iniciação artística, programação cultural, além de fazer a manutenção da estrutura, que engloba biblioteca, estúdios de gravação e captação de áudio, arenas e outros.

Uma vontade de mudar as coisas, de tomar seu destino na suas mãos

A ocupação de Capão Redondo é neste momento a única ocupação de fábrica em pé e corre o risco de ser despejada a qualquer momento e os aprendizes serem agredidos e presos. Eles estão conscientes da situação:

“No Capão, já existe mandato de reintegração mas ainda continua a ocupação; temos apoio da população e também de um grupo de advogados que conhecem direitos da gente e explica o que pode acontecer.”

“Esperamos que todas as fábricas que foram danificadas pelas medidas de cortes voltem como eram antes. É o que a gente quer, um funcionamento normal e ter mais controle das coisas que decidem”

“Tem  que sentar o movimento inteiro para pensar mas como seguir, como reagir à repressão planejada pelo governo? A única resposta que a gente tem frente a essas manobras jurídicas de POIESIS é a luta política; porque é politicamente que estão atacando a gente. Tudo o que ocorre é politico. Nossa resposta deve ser politica, pensar na estratégia que vamos responder, discutir internamente o que fazer, enfrentar a PM , etc. Nós temos capacidade para isso e muito mais. Se a gente tem que sair daqui, vai para Poiesis e isso pode ser o próximo “okupa” de lá; temos que entrar em acordo com todos os aprendizes se isso pode acontecer ou não”.

“A gente assumiu isso e tem que dar continuidade; estamos conversando com as outras fábricas. Eles tem a força física mas é preciso continuar,  ver a força que temos para continuar, unificar todas as lutas da região e bater de frente com eles depois. Mas ainda não estão unificadas as lutas do Capão. Somos um símbolo, mas em algum momento vai se somar.”

 “Mudar a maneira de ver o mundo, que isto aqui sirva de exemplo para o resto do país”.

 

Nossa solidaridade

“Aqui já está consolidada a ocupação. Vocês são o símbolo da luta neste momento. Frente ao possível despejo, a gente vai ampliar a divulgação para impedir isso, denunciar o que aconteceu lá, soltar notas de apoio, permanecer junto a vocês com a equipe de advogados que apoiam. Acompanhar o processo, uma rede de apoio, apoiar as decisões de vocês. Aqui é a maneira de vocês de encarar a situação, na assembleia de vocês.” falou um camarada do Luta Popular. Outro complementou:  “Esta ocupação aqui já é uma vitória. Vocês estão escrevendo uma página deste país aqui. A forma em que vocês estão resolvendo, gerenciando o espaço da fábrica ocupada, é a forma como a gente pensa em dirigir essa sociedade, com mais democracia, sem racismo, contra criminalização da juventude. O maior heroísmo é guardar a organização de vocês. Depois da ocupação muito vitoriosa. Tudo vai continuar, a luta continua.”

 

TODO APOIO À OCUPAÇÃO DA FÁBRICA DE CULTURA DO CAPÃO!

Contra o despejo e contra o uso da PM!
Pelo atendimento da pauta dos aprendizes, com o controle da fábrica de cultura pela comunidade!
Readmissão de todos os arte-educadores demitidos!

Sua página no facebook.com : Aprendizes De Olho.

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