“Os tempos já estão mudando”? («The times they are a-changin’»?) | Editorial (uma análise de conjuntura depois do referendo pela saída da Grã-Bretanha)

«A transformação social nunca vem sem turbulência no Mar da História — e agora é a hora "H" para aproveitarmos o momento histórico que se abriu em meio à tormenta.»

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Editorial do Socialist Worker | Trad. Betto della Santa

If your time to you/
Is worth savin’/
Then you better start swimmin’/

[Se seu tempo para você/
Vale a pena ser salvo/
Então é melhor você começar a nadar/]

(Bob Dylan)

Os donos da Grã-Bretanha enfrentam abalos sísmicos após o voto pela saída da União Europeia e nenhum deles parece ter qualquer resposta política para o que aconteceu.

David Cameron anunciou a saída de cena apenas algumas horas após o resultado do referendo.

O homem que dirigiu a austeridade mais brutal contra os trabalhadores desde 1930, atacou os migrantes e presidiu a campanha islamofóbica contra o prefeito de Londres, Sadiq Khan, está desaparecido.

O chanceler, George Osborne, saiu do esconderijo, Segunda-feira, para reassegurar os mercados de ações de que “a economia está tão forte quanto nunca”. O resultado foi que o preço das ações despencou abruptamente.

Os Tories do ‘Brexit’ estão descobrindo que os Estados europeus não vão lhes dar qualquer trégua.

Suas promessas, como mais dinheiro para o Sistema de Saúde Nacional, desapareceram sem deixar quaisquer rastros.

A disputa pela liderança Tory vai dividi-los ainda mais agudamente. Outro referendo, pela independência escocesa, está na ordem do dia. A eleição geral poderá ocorrer para este ano, ou para o início de 2017.

O lançamento do Informe Chilcot, na próxima semana, irá desmascarar pelo menos algumas das mentiras sangrentas por detrás da Guerra do Iraque. Se isso não acontecer a ira irá tomar conta da sociedade após qualquer tentativa de varrer a sujeira para debaixo do tapete.

Estes verdadeiros golpes de martelo reforçam-se mutuamente. O governo está marcado pela inércia, paralisia e derrapagem. Trata-se de uma genuína crise.

E isso pode ser resolvido na direção das pessoas que vivem do próprio trabalho. E pode, portanto, não favorecer às elites que sofreram com o martelar do referendo.

Quebra

Muitos na esquerda parecem mergulhados em tristeza. Nós não compartilhamos deste ponto de vista. Há perigos e armadilhas potenciais, mas também uma chance real de romper com o consenso da austeridade e fazer recuar os racistas de volta ao armário.

O voto de saída enfraqueceu nossos inimigos. É hora de acelerar o assalto ao establishment.

Os racistas irão buscar fazerem-se prevalecer nesta atmosfera de turbulência.

O bode expiatório racista dos meios de comunicação e dos políticos da ordem, muito antes e também durante o referendo, encorajou-os a valer — e alguns vão recrudescer em violência e assédio.

Mas eles podem ser derrotados.

Temos que dimensionar como a crise se desenrola. Temos que ser participantes ativos do resultado. E não meros espectadores passivos de manobras políticas advindas de cima para baixo da sociedade.

Este é o contexto da tentativa de defenestrar Jeremy Corbyn enquanto líder trabalhista. À primeira vista é desconcertante que, assim como os Tories desintegraram o Labour, os parlamentares da Câmara dos Comuns deram cabo de sua própria liderança.

Mas eles deparam-se com uma batalha muito mais ampla. Corbyn e os seus apoiadores querem o Labour como um partido antiausteridade e antirracista enquanto a maioria dos deputados trabalhistas acham que o partido não deve representar qualquer ameaça efetiva aos patrões.

Eles concordam com Tony Blair quando este diz que “não gostaria de vencer em uma plataforma de esquerda à moda antiga.” (E “mesmo que pensasse ser esta a trilha a pavimentar o caminho para a vitória, eu não a seguiria.”)

Os oponentes de Corbyn querem um Labour totalmente endireitado. A maioria parlamentar trabalhista nunca aceitou Corbyn como líder. A única divergência era quanto ao momento certo para derrubá-lo de uma vez por todas.

Incentivados pelo jornal Financial Times, o qual afirma que “após desembainhar a adaga os parlamentares trabalhistas não podem colocá-la de volta”, vão lutar até o fim.

Todos à esquerda precisam apoiar Corbyn contra a direita.

Mobilizar

Mas ele não vai sobreviver a menos que se mobilize às pessoas, por fora do parlamento ou do Labour. É hora de uma luta aberta, e não de mais conciliação de classes.

Outra eleição para a liderança parece provável. Corbyn deve estar na cédula. E deve ganhar. Os dirigentes sindicais que apoiaram Corbyn não devem, agora, traí-lo. Os parlamentares que o apunhalam pelas costas devem ser preteridos e cortados dos laços de todo apoio sindical.

Mas uma batalha mais ampla tem agora lugar. Precisamos lutar por soluções para a crise que unifiquem e mobilizem a classe trabalhadora.

Temos que garantir que as forças antiausteridade e antirracistas possam emergir mais fortes que antes. E que a direita seja derrotada.

É boa a notícia de que as pessoas de Newcastle a Tower Hamlets já tenham tomado às ruas contra o racismo e o fascismo.

Quanto mais greves, atos e ocupações do nosso lado, melhor será o resultado da votação. Tal ação coletiva deve envolver a todas as pessoas, não importa como tenham votado no referendo.

A greve dos professores em toda a Inglaterra é um bastião importante. A Marcha contra a Austeridade e o Racismo, chamada pelas coalizão Levante-se contra o Racismo/Stand Up to Racism e a Assembléia do Povo/People’s Assembly — para 16 de julho em Londres —, é outra data crucial.

Por que os Tories deveriam se ver livres de toda uma ofensiva de nosso lado?

Os professores podem vencer. Empregos na metalurgia merecem ser salvos. O Projeto de Lei Sindical/Trade Union Act deve ser desafiado.

Os dirigentes sindicais podem ser parte da derrubada dos Tories ou responsáveis por abrir-lhes caminho para uma sobrevida. Um rubicão foi cruzado.

A transformação social nunca vem sem turbulência no Mar da História —
e agora é a hora “H” para nós nos aproveitarmos deste momento histórico.

Fonte: Jornal Socialist Worker, London, 28/Jul./2016.

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