O Massacre da Noite Latina na Boate LGBT em Orlando

Juan Ramon Guerrero e Christopher Andrew Leinonen (Drew), vítimas do massacre que planejavam se casar e serão enterrados juntos.

Jéssica Milaré  |

A Boate Pulse, em Orlando, Flórida, EUA, havia preparado mais uma noite latina para o último sábado, dia 11. “Chamando todos os nossos latinos, latinas e todo mundo que aprecia uma batida latina! É hora de festejar hoje à noite!”, dizia a página da boate na rede social. Kenya Michaels, uma drag queen portorriquenha, seria uma das convidadas. As noites de sábado na Pulse costumavam atrair muitas LGBTs latinas. Infelizmente, o que deveria ser uma noite de festa tornou-se uma noite de horror. Quando a festa já estava terminando, Omar Mateen, armado com uma carabina, foi responsável pelo maior tiroteio em massa da história contemporânea dos EUA. 49 LGBTs saíram mortas e outras 53 ficaram feridas. Muitas destas últimas provavelmente não vão sobreviver.

Mateen tinha um histórico de agressão, à sua ex-esposa; declarações racistas e homofóbicas.

Foi uma noite trágica. Mas igualmente trágica é a campanha que estão fazendo para promover o ódio contra muçulmanos, uma vez que Omar Mateen era muçulmano e, pelo que algumas fontes indicam, havia jurado lealdade ao Estado Islâmico. De fato, não há nada a ser defendido neste Estado, mas esse fato não pode ser utilizado para favorecer a islamofobia ou o racismo contra os povos islâmicos. Não podemos esquecer que a LGBTfobia não é e nunca foi exclusiva de islâmicos. O fato do responsável direto pelo ataque ser islâmico não diminui a culpa dos fundamentalistas cristãos que disseminam o ódio contra LGBTs, como a Fox News, um canal estadunidense fundamentalista cristão que dissemina ódio contra LGBTs, islâmicos e imigrantes latinoamericanos, ou como Donald Trump, que também propaga o ódio contra minorias oprimidas.

É verdade que o Estado Islâmico está comemorando o ataque, mas também há muitos fundamentalistas cristãos fazendo o mesmo. O pastor cristão Steven Anderson de Tempe, no Arizona, por exemplo, lançou um vídeo no Youtube em comemoração ao massacre: “há 50 pedófilos a menos neste mundo”. Este cretino teve ainda a coragem de dizer que “essas pessoas deveriam ter sido mortas de qualquer maneira, mas elas deveriam ter sido mortas da maneira correta, elas deveriam ter sido executadas por um governo justo que as teria julgado, condenado e garantido sua execução.” Por acaso um crime de ódio cometido pelo Estado deixa de ser um crime de ódio?

A Igreja Batista de Westboro, muito conhecida pelo ódio escancarado contra LGBTs, através do Twitter, afirmou que “Deus enviou o atirador para Pulse em Orlando!”, “Parece totalmente justo para a América Sodomita!”, entre outras aberrações. Essa igreja costuma fazer protestos carregando placas com mensagens homofóbicas como “Deus odeia os viados” [God hates fags].

Convém inclusive lembrar que, há poucas décadas atrás, ser LGBT era considerado crime na maioria dos países “desenvolvidos”, o que só foi revertido pelas insubordinações LGBTs que se espalharam pelo mundo após a Revolta de Stonewall, em Nova Iorque, de 1969.

A criminalização da diversidade sexual e de gênero

A partir do século IV, houve um processo de condenação moral e criminalização cada vez maiores na Europa da relação sexual entre dois homens, então chamada de “sodomia”, assim como também do desempenho do papel de gênero diferente do que era imposto (o que era considerado uma “negação do próprio sexo”). O ápice da barbárie foram as Santas Inquisições, que condenaram milhares de “sodomitas” e “bruxas” à morte, como a Inquisição nas Cidades-Estado da Itália (iniciada pelo Papa Gregório IX em 1232) e a Inquisição Espanhola (iniciada em 1483). Um exemplo bastante conhecido dessa perseguição é condenação de Joana D’Arc à morte na fogueira, no século XV.

Durante a colonização da América e da África e a escravização dos povos nativos a partir do século XVI, o homem branco europeu mostrou-se espantado com a liberdade sexual e a diversidade dos papéis de gênero que encontrou em vários desses povos. A existência de “sodomia” nesses povos era moralmente condenada e as pessoas infratoras eram condenadas. Já no final do século XVI, quando a colonização do Brasil estava em seu início, houve centenas de condenações por sodomia, entre elas pessoas brancas, negras e indígenas. Um exemplo é a Xica[1] Manicongo, negra, sapateira, escrava, quimbanda, pode ser considerada a primeira travesti documentada do Brasil. Em 1591, Xica foi denunciada ao Santo Ofício da Bahia.[2]

O frade Giovanni Antonio Cavazzi também escreveu um relato moralista sobre as quimbandas no Congo, no século XVII:

Entre os feiticeiros, um há que não mereceria ser lembrado, se esta omissão não prejudicasse o conhecimento necessário que eu, por meio deste escrito, pretendo dar aos missionários. Chama-se nganga-ia.quimbanda, ou ‘sacerdote chefe do sacrifício’. Este homem, tudo ao contrário dos sacerdotes do verdadeiro Deus, é moralmente sujo, nojento, impudente, descarado, bestial e de tal modo que entre os moradores da Pentápolis teria o primeiro lugar. Para sinal do papel a que está obrigado pelo seu ministério, veste fato e usa maneiras e porte de mulher, chamando-se também a ‘grande mãe’. Não há lei que o condene como não há ação que não lhe seja permitida. Portanto, fica sempre sem castigo, embora abuse sem embaraço de sua impudecência, tão grande é a estima que por ele o demônio inspira! Por isso são julgados favores os mais manifestos ultrajes que ele faz à honra dos casados ou às concubinas dos mais guardados haréns.[3]

A condenação moral à cultura e aos costumes destes povos tinha como objetivo justificar ideologicamente a colonização e a escravidão. Os missionários cristãos impuseram a eles a cultura moralista cristã europeia, fazendo-os abandonar pouco a pouco sua própria história e sua cultura. Afinal, como a própria História demonstra várias vezes, para dominar e explorar um povo, é preciso impor sobre ele a ideologia dos dominadores.

A luta pela descriminalização da homossexualidade e da transgeneridade

A revolução industrial trouxe multidões às cidades e ao trabalho assalariado, o que criou as condições para o surgimento de “guetos LGBTs” como bares, restaurantes e até banheiros de estações ferroviárias. Isso fez com que essas pessoas que rompiam os padrões de gênero e sexualidade se identificassem como uma minoria que é marginalizada da sociedade e privada dos direitos aos quais o resto da população tinha acesso. Consequentemente, as identidades LGBTs foram gradualmente surgindo e se desenvolvendo a partir da classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que se desenvolviam também os métodos de repressão e criminalização.

As revoluções burguesas derrubaram os Estados Feudais e criaram os Estados Burgueses, mas não demoraram a trair a liberdade, a democracia e a laicidade que tanto pregaram, criminalizando a “sodomia”, perseguindo, prendendo e executando sistematicamente as pessoas LGBTs, a exemplo do que se fazia na Idade Média. A medicina, por sua vez, apresentou-se como uma suposta alternativa a essa barbárie, buscando nas LGBTs uma fonte de lucro, fazendo experiências com choques elétricos, castrações e lobotomias para encontrar uma “cura” às supostas doenças que denominaram “homossexualismo”, “transexualismo”, etc. Apenas uma parte dos médicos chegaram a conclusão que isso não era possível e que era necessário garantir a inclusão dessas pessoas na sociedade.

A lógica dessa barbárie não foi rompida pela “benevolência” da medicina, do cristianismo nem mesmo dos políticos. Mesmo após a perseguição pelo nazismo e pelo stalinismo, depois da II Guerra Mundial, os diversos Estados capitalistas, com poucas exceções, continuaram com a criminalização da diversidade. Nas décadas de 1950 e 60, conforme aumentava a quantidade de “guetos gays”, houve uma escalada crescente de repressão policial às LGBTs nos países capitalistas. Na época, enquanto algumas pessoas transgêneras pequeno-burguesas (como centenas de assinantes da revista Transvestia) escondiam sua identidade dentro de casa, a maioria das travestis eram expulsas de suas casas, das escolas e dos seus empregos e encontravam, como única alternativa de sobrevivência, a prostituição. Viviam nas periferias, corriam o risco de serem presas sob acusações como “usar roupas erradas”, por falsidade ideológica ou por suas condições sociais. No geral, ser LGBT era considerado um pecado e um crime.

Em 28 de junho de 1969, policiais de Nova Iorque foram até o bar Stonewall para fazer mais uma batida policial. A rotina era separar as pessoas em três grupos: os homens, as mulheres e as chamadas “aberrações” (nome dado às pessoas que usavam roupas destinadas ao sexo oposto). Estas últimas seriam presas, devido a uma lei de Nova Iorque que proibia a travestilidade. Todas as pessoas que estavam com roupas femininas eram levadas por uma policial até o banheiro feminino para que o seu “sexo” fosse verificado. Se a pessoa fosse do “sexo masculino”, seria presa. Neste dia, entretanto, as pessoas com roupas femininas se recusaram a ir ao banheiro feminino. Outras se recusavam a mostrar seu documento de identidade.

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Como o camburão para levar as “aberrações” à prisão demorava para chegar, várias pessoas começaram a vir de outros bares da região e se acumularam do lado de fora de Stonewall. Houve resistência à prisão, respondida pela polícia com empurrões e agressões. Uma mulher lésbica “masculinizada” começou a lutar com os policiais que tentavam arrastá-la para o camburão e gritou para a multidão: “Por que vocês não fazem nada?” Foi o começo da revolta. A multidão, sob gritos de “Poder Gay” [Gay Power] e chamando os policiais de porcos, prenderam-nos dentro do bar e viraram os carros da polícia. Tiveram que pedir reforços. O confronto durou várias horas.

Nos anos seguintes, LGBTs do mundo inteiro organizaram as Paradas do Orgulho LGBT, lutando contra as leis que criminalizavam a homossexualidade e a travestilidade, que foram sendo derrubadas em vários países. A luta LGBT espalhou-se pelo mundo e o dia 28 de junho é conhecido como o Dia do Orgulho LGBT.

A luta dos fundamentalistas contra os direitos LGBTs

Infelizmente, em muitos países, até hoje, a “sodomia” ainda é considerada crime, principalmente nos países mais pobres do mundo, localizados na Ásia e na África. Isso porque a organização da luta LGBT por uma população mais pobre é muito mais difícil, não por motivos exclusivamente religiosos. Isso ocorre não apenas em países de maioria muçulmana, como também de maioria cristã. Um exemplo disso é na Uganda, onde 85% da população é cristã. Recentemente, nesse país, muitos pastores fizeram uma intensa campanha para que a pena para homossexualidade passasse da prisão perpétua para a pena de morte, que espalhavam a ideologia que a “sodomia” é uma doença criada pelos estadunidenses para dominar o povo africano. Em 2014, foi promulgada uma lei que criminalizava a homossexualidade com a pena de morte, mas ela foi revogada no mesmo ano porque a votação havia sido feita sem quórum.

Já os fundamentalistas, apoiados principalmente em partidos burgueses, estão intensificando os ataques contra os direitos da população LGBT. Donald Trump nos EUA, assim como Bolsonado, Feliciano e Malafaia no Brasil, são as expressões mais visíveis destes avanços. Como a história mostrou, só a luta das LGBTs da classe trabalhadora é capaz de impedir que esses conservadores e reacionários avancem nos ataques aos nossos direitos e na disseminação do ódio LGBTfóbico.

Notas:

[1] O único nome que consta nos documentos é Francisco Manicongo. O nome Xica foi dado a ela recentemente por Majorie Marchi, ativista trans do Rio de Janeiro, como uma referência às travestis brasileiras atuais. Como ela é natural do Congo, não é possível saber o verdadeiro nome que ela utilizava, se era feminino ou masculino.

[2] MOTT, Luiz. Relações Raciais entre Homossexuais no Brasil Colonial. Revista. Brasileira de História, vol. 5, nº 10, 1985. Disponível em http://www.anpuh.org/arquivo/download?ID_ARQUIVO=3604

[3] Cavazzi de Montecúccolo, Padre João Antonio. Descrição Histórica dos três Reinos do Congo, Matamba e Angola (1658), Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1965, Volume I, p. 202-203.

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