O palco das mulheres de O pão e a pedra

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Natalia Conti  |

Em entrevista, perguntado sobre o I Congresso da Mulher Metalúrgica de São Bernardo do Campo, datado do ano de 1978, Cláudio Rosa, então um dos responsáveis sindicais pela organização do evento, mencionou: “Você é a primeira pessoa que me pergunta a respeito do Congresso das Mulheres de 78. Ninguém me perguntou nunca sobre isso. De 78 pra cá nós temos trinta e… quase quarenta anos”.

“Ele só te vê, se te enxergar.” – fala de Joana, no I ato de O pão e a pedra.

Da peça O pão e a pedra, da Companhia do Latão, dirigida por Sérgio de Carvalho, em cartaz no TUSP com temporada até o dia 3 de julho, poderiam ser tratados diversos aspectos. Muitos foram abordados nas críticas e resenhas publicadas nas últimas semanas, como o debate sobre a atualidade temática, no diálogo com a crise política atual; o trato da poesia do cotidiano, possível nas formas associativas, em enfrentamento à dureza do mundo do capital, entre outros. Aqui, faço a escolha de tratar de uma camada que em especial chama a atenção, e cria fina tensão entre o ABC de 1979 e o Brasil da atualidade; a luta invisível travada, e os frutos colhidos pelas gerações atuais. É na voz da mulher que a peça ganha corpo. Na contramão da produção historiográfica e sociológica sobre o tema, o teatro pôde, em consonância com o que as ruas transpiram – de hoje, e porque não, daquele tempo – trilhar o caminho do inesperado, transpor a vigorosa masculinidade edificada no mundo do sindicato, das fábricas metalúrgicas e das lutas operárias.

Os reconhecidos sujeitos das lutas do ABC são os homens, cabras-machos, muitos deles migrantes nordestinos, que sem ter nada a perder, se enfrentam com a realidade do arrocho salarial, luta que alcança a inevitabilidade do embate com a ditadura civil-militar brasileira. Há, no entanto, um sujeito esquecido, escanteado, também calejado, migrante e sem ter o que perder, do qual não se fala. Aquelas mulheres que vieram de diferentes rincões do país, sozinhas, por vezes carregando os filhos no lombo e no bucho, na busca da mesma promessa de emprego e melhoria de vida nas fábricas de São Paulo. Eram parte dos piquetes, tomavam a frente nas comissões de arrecadação de fundos de greve e mobilização das comunidades em apoio às mobilizações – sem as quais a continuidade das greves seria impossível. Mais ligadas à igreja e ao ambiente doméstico do que os homens, possuíam enraizamento e influência entre as pessoas do bairro, onde estabeleciam pontes fundamentais para o fortalecimento da luta em curso, mas não apareceram nas fotos, nas filmagens e nos discursos.

A Companhia do Latão explora, nesse sentido, os ambientes para além da linha de montagem ou do espaço estrito do trabalho, compreendendo o fazer político de forma expandida, atravessando todas as esferas da vida – o lazer, as relações afetivas, o intervalo do trabalho, a manifestação de rua. Esta abordagem dos espaços, mais ampliada, é também uma forma de perceber o trânsito das mulheres, sua resistência no enfrentamento de classe, como operárias que combatem lado a lado com os companheiros; e como mulheres, que na guerra entre classes, também se enfrentam com os companheiros, em um embate de gênero. O contraponto entre o vestiário masculino e feminino na fábrica revela os pontos de contato e as disparidades entre gênero e classe.

A forma como a solidariedade das mulheres passa pelas questões familiares e do cuidado com os filhos, seja na mãe solteira que não pode cuidar do filho, ou da mulher grávida que terá o mesmo futuro; expressões importantes da necessidade de creche, uma das pautas que mais movimenta mulheres trabalhadoras. A presença do assédio moral, com a vigia das regras, como se costumava dizer, a obrigatoriedade de exibir mensalmente o absorvente. São diferentes preocupações. Enquanto isso as vozes do vestiário masculino tem o seu universo próprio, que passa pelas mesmas questões econômicas que as mulheres, e por outros problemas da vida cotidiana dentro e fora da fábrica.

A personagem Joana, representada por Helena Albergaria, é mãe e pai de seu filho, mulher travestida de homem na perspectiva de melhores condições de vida. Quando se traveste e passa a ser João Batista, somos lembrados de que é possível no teatro representar aquilo que não somos. Porque representar não é transpor a vida para o palco, mas construir mudança, perspectiva estética que se enfrenta com padrões de representação no teatro e na vida mesma. Ser o que não somos, quando falamos no ABC em 1979, significa dizer que podemos ser classe inteira, sem apartamentos, divisões que a classe dominante nos impõe. Nessa busca, João Batista se depara também com outras formas que podem acompanhar a perspectiva de ascensão: a abstenção à luta, o furar da greve, o arrivismo corporativo. É na roda-gigante que percorre o caminho entre ser mulher e o ser homem das personagens Joana e João, que as contradições de classe e de gênero se desvendam, sem truques.

Outra mulher forte a ser lembrada é Luísa, militante revolucionária girada por sua organização para o trabalho político na fábrica, representada por Sol Faganello. A poética que combina sua convicção e a juventude ingênua e desajeitada, atribui à personagem a atmosfera da geração que se organizou na luta contra a ditadura, sua potência e também sua fragilidade, seja na dificuldade com as praticidades da vida no ambiente de trabalho ou mesmo no trato com a linguagem para a política, na escolha das palavras de ordem, na grandiloquência mais própria à universidade do que ao ambiente fabril.

O que amarra as pontas entre passado e presente, além da obsessão do trabalho da Companhia do Latão em explorar a chave da contradição, da desnaturalização das relações e dos processos, é o momento político que se vive hoje. O contraponto entre a luta das mulheres durante as greves do ABC para serem reconhecidas como sujeito político, para saírem da invisibilidade, e a rasgada intervenção de massas feministas hoje nas ruas do mundo todo, impondo na marra a sua visibilidade, amparadas pelas lutas passadas, imprime sua marca nas personagens de O pão e a pedra – nem mesmo as personagens infantis escapam. A imagem do protagonismo feminino na luta operária de 1979 é coisa que só poderia ser produzida na costura da luta embrionária e corajosa das mulheres de lá com a intempestividade das jovens de cá.

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