A história política do trotskismo operário e internacionalista na Argentina em Gonzáles – parte 2 (1943-1955)

Francisco da Silva  |

O POR e o 3º Congresso da Quarta Internacional

Em 1948 o GOM se transforma em Partido Operário Revolucionário (POR). Esta fase é uma fase muito rica. O POR se liga à Quarta Internacional, avança em suas elaborações teóricas e polêmicas com as outras organizações. Perde trabalhos importantes, conquista outros. Alguns anos antes o GOM chegou a realizar um comício com cerca de 500 pessoas, tempos depois volta a ter 30 militantes e em pouco tempo chega a ter 100. Nós decidimos porém pular até o ano de 1951 no 3º congresso da Quarta.

Muita coisa estava acontecendo no mundo naquela época. O imperialismo norte americano estava numa ofensiva brutal sobre o restante da América e se consolidando como hegemonia mundial. No leste europeu havia as “democracias populares” produzidas não sobre uma revolução proletária mas sobre a “conquista” do exército vermelho da URSS e daí a polêmica sobre a natureza destes Estados. E dentro desta polêmica a situação da Iugoslávia e de Tito que liderou um exército guerrilheiro e tomou o poder expropriando a burguesia depois da derrota de Hitler e que tinha uma política relativamente independente da burocracia do Kremlin. E simultaneamente à tudo isso, a colossal revolução chinesa feita por Mao e seu Exército Popular contra a orientação de Stalin. E também o movimento das burguesias nacionais tentando conquistar certa independência política e econômica constituindo a política dos “países não alinhados”.

Em que pese todo esse quadro marque a correta previsão dos trotskistas sobre o ascenso revolucionário do pós guerra e também constitua sinais de declínio do domínio stalinista, a verdade é que a vitória sobre os nazistas na 2ª guerra mundial influenciou que todo esse ascenso fosse capitalizado pelo stalinismo. Foi nesse mapa que se deu o 3º congresso da internacional e que o POR se posicionou:

Nossos companheiros foram a este congresso providos de uma bagagem teórico política muito importante, produto das posições discutidas dentro do partido argentino, que foram tema de debate e confrontação durante todo este período. No Segundo Congresso do POR, realizado a princípios de agosto de 1950, se debateram as Teses Internacionais em que se avançava em torno a situação internacional, polemizando corretamente em vários pontos importantes com as posições do SI da Quarta Internacional, que a nível nacional eram aceitas incondicionalmente pelo GCI de Posadas, e que podemos resumir assim: 1) junto com a maioria da seção inglesa, sustentávamos que a perspectiva para a economia europeia era a recuperação e o desenvolvimento, e não o ‘estancamento e o marasmo [como defendia a maioria da direção da Quarta]’; 2) mantínhamos no terreno nacional uma política de defesa da independência política da classe trabalhadora argentina e denunciávamos o GCI pela sua capitulação ao peronismo; 3) fazíamos uma análise essencialmente correta da ruptura entre Tito e Stalin como parte da crise mundial do stalinismo, mas não como parte da revolução política senão das forças centrífugas que se produziam pela debilidade relativa da URSS no terreno económico (em particular na maquinaria e tecnologia industrial) e a pressão imperialista; 4) discrepávamos com os métodos absolutistas y burocráticos de Pablo e do SI, e os denunciávamos; 5) criticávamos o método de análise seguido por Pablo, mas compartilhávamos com ele e Hansen a definição dos novos Estados operários burocráticos; 6) chamávamos a trabalhar sem nenhum sectarismo ou ‘stalinofobia’ sobre os quadros de todos os grandes partidos operários da Europa e Ásia, e inclusive baralhávamos a possibilidade de entrismo em certos partidos comunistas; 7) sustentávamos, desde o triunfo de Mao na China, que se havia dado ali uma extraordinária revolução, e não compartilhávamos a ambígua posição de Pablo a respeito; 8) apoiávamos a Coreia do Norte contra a Coreia do Sul desde que começou a guerra, em oposição a Posadas que apoiou a Coreia do Sul; 9) sustentávamos que havia uma grande margem de sectarismo e ‘normativismo’ nas fileiras da Quarta Internacional e que as posições iniciais de Pablo significavam um passo adiante na ruptura com o sectarismo. Finalmente, aprovávamos em geral, a pesar de considerá-los em algumas partes confusos e contraditórios, os documentos para o Terceiro Congresso Mundial[1].

A revolução boliviana

Em 1946 se reúnem os delegados mineiros de toda a Bolívia e formulam as Teses conhecidas pelo nome da cidade mineira de Pulacayo. As teses eram um sinal inquestionável da grande autoridade política que os trotskistas haviam adquirido perante as massas bolivianas já que tinha sido elaborada pelo POR boliviano e votada contra as teses do MNR stalinista.

As Teses de Pulacayo eram a adequação do programa de transição da Quarta Internacional para a situação boliviana. Na opinião de Ernésto Gonzales “uma consequência do triunfo colossal dos trotskistas entre os trabalhadores mineiros foi a constituição do bloco ou frente operária para as eleições de 1946. Apesar de que 90% da população não votava naqueles tempos (só votava quem sabia ler), o bloco operário ganhou nos distritos mineiros e obteve um senador e cinco deputados”[2].

Em 1951 o MNR ganhou as eleições, mas o exército deu um golpe de Estado impedindo a posse do MNR e instaurando uma ditadura sanguinária. Em abril de 1952 a polícia e um setor do exército em acordo com o MNR deu um contra golpe mas foram derrotados. Mas nesse contra golpe a polícia entregou armas à população de La Paz. Simultaneamente, os mineiros de Oruro se levantaram, derrotaram o exército local e marcharam sobre La Paz; e foi tomado um trem carregado de armas. Aí começou a revolução boliviana, a “mais clássica revolução desde Outubro, com importante participação dos trotskistas. Sete regimentos que eram a base do Exército boliviano foram completamente liquidados pelos operários e camponeses. (…) caiu a ditadura militar e o MNR se alçou ao Governo com Victor Paz Estenssoro como presidente”[3].

A corrente morenista na Argentina desde o início teve claro que o governo de Paz Estenssoro era um governo burguês que não se devia apoiar, apoiar criticamente ou reconhecer. Tampouco estava favorável da consigna de “abaixo o governo” e polemizava com a direção do POR boliviano “Podemos não levantar a consigna [abaixo o governo] sem que isto signifique apoiar o governo nem ‘criticamente’ nem de nenhuma forma”[4].

Segundo Gonzáles, considerando os poucos informes sobre a correlação de forças na Bolívia depois de abril entre outros elementos o POR argentino levantou “’Exigimos a integração ao gabinete de Paz Estenssoro com ministros operários eleitos e controlados pela Federação de mineiros e a nova central operária (…) Exigimos a estes ministros o fiel e rápido cumprimento das resoluções aprovadas pelo Congresso da Federação Sindical de Trabalhadores Mineros Bolivianos’. No artigo (…) reconhecíamos nossos erros: ‘Justamente porque o POR (argentino) não se deu conta no princípio da existência do poder dual e da relação de forças completamente desfavorável ao governo burguês, é que defendeu a possibilidade de forma extremadamente cautelosa, sem abanderarse decididamente, do desenvolvimento, apoio e fortalecimento de uma ala esquerda no MNR. Este foi um erro grave provocado pela falsa caracterização da relação de forças. Mas justamente esse erro demonstra de forma palpável o critério intransigente de classe do POR já que desde o princípio se atacou o governo de Paz Estenssoro e se defendeu a saída correta, de classe, ministros da COB em todo o governo para aplicar o programa de da COB’”[5]. Em seguida o POR argentino ainda iria modificar sua linha mais uma vez defendendo “todo poder à COB”.

O entrismo no Partido Socialista da Revolução Nacional

Segundo Ernésto Gonzales, o novo período aberto em 1952 combinado com dois acertos políticos monumentais, o entrismo no PSRN e a política adotada a partir do exemplo da Lista Verde da AOT, possibilitaram um salto na construção do POR argentino num sólido partido de vanguarda com 300 militantes e uma intervenção não só sindical senão também política. Daí que devemos olhar com bastante atenção como foi o comportamento dos morenistas na Argentina nesse período.

Em 1952 se abriu um novo período na Argentina, que coincidiu com os acontecimentos da Revolução Boliviana. Os fatores que geraram essa nova situação já existiam, mas então se fizeram mais evidentes. O agravamento da situação econômica, o cerco imperialista, o deterioramento da infra estrutura, o esgotamento das reservas monetárias acumuladas durante a guerra e a baixa na produção do campo completaram o quadro de uma situação insustentável[6].

Assim, desde 1953 vigorava uma crise generalizada no peronismo que tentou enfrentar a crise suavizando sua política para o imperialismo yanqui (cada vez mais forte) e proclamando um governo de paz e “unidade nacional”: fechou um pacto entre a CGT e a entidade patronal para que não houvesse aumento de salário e lançando a consigna de “produzir e produzir”. Prevendo que a crise saísse do controle e fosse capitalizada pelo PC ou por outros partidos mais radicais, Perón fortalece a ideia de formação de novas organizações, fundamentalmente o Movimento Socialista que como partido teria o nome de Partido Socialista da Revolução Nacional (PSRN).

Segundo o Frente Proletário jornal do POR de agosto de 1953:

Em síntese podemos dizer que [o Movimento Socialista] se caracterizou por um pró peronismo manifestado fundamentalmente pela boca de seu principal orador e dirigente, Dickmann (…) se colocou de forma evidente o carácter estatizante dos mesmos por parte do governo, que desta maneira busca lograr uma ‘oposição’ que canalize o descontentamento, mas não por causas perigosas para sua estabilidade futura[7].

Na nota 15 da página 250 no final do livro, Gonzáles ainda afirma:

Estas caracterizações foram corroboradas não somente pelas resoluções que outorgaram ao PS(RN) as personalidades do PS senão também pelas próprias manifestações de Emilio Dickmann, quem numa carta de 6 de dezembro de 1954 enviada a Nahuel Moreno lhe dizia ‘O companheiro Unamuno (Juan) e eu temos conversado várias vezes com o Presidente da Nação sobre a situação política e sobre a função do Partido Socialista (…) Repetia insistentemente Perón, na ‘necessidade de existência de um Partido Socialista forte, socialista, não peronista’, para contribuir ao progresso social do país. Com essas ideias é que constituímos nosso partido.

O Comitê Central do POR de novembro de 1953 discutiu o informe do Bureau político sobre a “possibilidade de aproveitar os resquícios legais que brindam o regime para fazer uma tarefa legal”. Em agosto de 1953 o Frente Proletário (jornal do POR) já dizia “No suposto caso de que se forme um movimento deste tipo, [referia-se as perspectivas abertas com o reconhecimento do Movimento Socialista] em que pese a sua origem estatizante, se transformaria em um passo adiante na formação de uma consciência política independente do proletariado e de fato um passo importante na formação do futuro partido operário de massas”.

O mesmo informe  do CC ainda dizia: “A necessidade de criar um organismo que capitalize a desperonização por um lado e o fato de que esta desperonização quase não se faz todavia sentir, se reflete no próprio Movimento Socialista (…) esta contradição surpreende o Movimento Socialista com uma magra equipe dirigente e praticamente sem base, o que se enfrenta com suas necessidades organizativas. Se o partido compreende cabalmente a etapa atual, o papel que pode cumprir com o MS e suas limitações, deve encarar o entrismo com toda claridade e fixar com toda precisão os objetivos nele (…) Os companheiros que ingressem deverão lutar para que tenham autonomia para a saída de um periódico ou boletim legal e em ampliar o programa”[8].

Gonzáles afirma que “inicialmente o POR considerou que o entrismo seria parcial ‘e não devia entorpecer aqueles outros trabalhos que o partido reputa como importantes’”[9].

Quanto aos perigos, dizia o informe do CC: “Da mesma forma de quando se tratou o assunto de Concentração Operária temos que alertar o partido para os perigos (…) do aventureirismo, oportunismo e seguidismo. O ambiente geral de corrupção do MS, a facilidade de escalar postos dirigentes podem desviar os objetivos dos que entrem e em geral constituem uma constante pressão que temos que saber superar (…) O Bureau Político deve controlar o trabalho da fração”[10].

Segue Gonzáles “Quando Perón convocou as eleições para o 25 de abril de 1954, o partido compreendeu que se abria uma grande oportunidade que não devia desaproveitar. Ao analisar a convocatória para as eleições, o CC do POR defendeu a necessidade de que a classe operária se preparasse ‘para organizar seu próprio partido de classe com um programa que contemple as mais sentidas reivindicações proletárias’. E em 18 de março de 1954 publicou sua posição: ‘As eleições brindam uma ocasião mais ao partido revolucionário para fazer conhecer suas ideias e programa e ajudar a mobilização popular e verificar numericamente suas forças e o prestígio de que goza’. (…) O CC de maio destacou que a formação do PSRN abria um grande interrogante já que não se podia descartar a possibilidade de que a corrente de desperonização passasse para suas filas. Sem embargo aclarava: “Não são mais que um grupo de funcionários direta ou indiretamente ligados ao governo’. Por isso até a resolução de ingresso, votada no CC de maio de 1954, somente um pequeno grupo de companheiros trabalhou neste partido, incorporando-se aos organismos de direção da Federação Bonaerense em Avellandeda, San Martín, La Plata e Bahía Blanca. O grosso de nossa militância prosseguiu seu trabalho no movimento operário como POR. Para participar nas eleições o partido votou as Teses de Orientação para a campanha eleitoral, em que se defendia como consigna ordenadora: ‘Por uma tendência de classe, por um partido de classe, por um partido e um programa operário’”[11].

Durante as eleições o POR se colocou também a tarefa de fortalecer os trabalhos operários e por isso teve a política de lançar candidatos operários. Tinha até a hegemonia das candidaturas em alguns lugares.  E então organizava discursos próximo das fábricas, lançava panfletos e tinha presença constante nas sedes públicas do PSRN em localidades operárias que o POR tinha inserção. Chegaram a ter 300 militantes e cogitavam se não podiam controlar o partido inteiro. Em função disso e dum acordo com os Dickmann (que dirigiam o partido) solicitaram a direção da Federação da Província de Buenos Aires e pediram autorização para criar um órgão de imprensa: La Verdad (A verdade), que seria o nome pelo qual ficariam conhecidos. Depois das eleições, o CC fez uma avaliação positiva das possibilidades e resolveu que ingressassem todos os companheiros ao PSRN “como forma de fortalecer nosso trabalho e influência no caso de que se transforme em um partido centrista de esquerda ou em trotskista legal ou simplesmente como cobertura legal para o nosso trabalho”[12].

Mas o CC do POR resolveu ainda que “a entrada total ou parcial não significa diluir nossa organização (…) mais que nunca se mantém os organismos e a disciplina do POR, que é por meio de seu CC, Bureau Político e células, quem resolve o que se faz ou se deixa de fazer (…) o POR manterá seu aparato de publicações editando os materiais trotskistas necessários (…) a atividade do partido que não se puder fazer dentro do PS(RN) se efetuará mais ativamente que nunca, como o contato e trabalho sobre América Latina, os periódicos sindicais, a atividade internacional, ‘Revolução Permanente’ [órgão teórico], etc.“[13].

Primeira participação eleitoral, o  acordo eleitoral com Concentração Operária de 1951

Voltamos dois anos no tempo para contar brevemente o que foi esse acordo eleitoral com a Concentração Operária. Segundo Gonzáles, no mesmo CC de novembro de 1953 que se discutiu o entrismo no PSRN o informe tomava como “antecedente imediato um acordo político eleitoral com Concentração Operária (o velho desprendimento do PC encabeçado por Penelón), que tinha certa presença e, sobretudo, a legalidade que lhe permitiu apresentar-se nas eleições a vicepresidente em 1951”[14].

Gonzáles explica melhor “Num CC de princípios de 1951, Alonso (Daniel Pereyra) e Moreno defenderam a possibilidade de fazer um trabalho legal-eleitoral aproveitando o partido Concentração Operária (CO). No informe ao CC que debateu o tema se analisava a proposta, que incluía a possibilidade de abrir locais e discutir posições dentro desse partido para modificar o programa. Se alertava sobre os possíveis desvios, entre elas a possibilidade de eleitoralismo ou sectarismo contra a direção de CO. Se defendia que o Bureau Político devia ter um estrito controle da disciplina partidária. Por último se aclarava que ‘nossa tática não tem nada que ver com o entrismo senão com a utilização dos órgãos legais de um partido reformista por uma organização revolucionaria’. O POR destinou somente um grupo de companheiros para levar adiante esta experiência. Foi a primeira experiência legal. Concentração Operária obteve 1322 votos”[15].

Lista Verde da AOT

Seguia vigente a política de impulsionar oposições sindicais, mas agora se desenvolvendo para apoiar uma parte da burocracia que começava a se descolar. O maior exemplo e que a partir dessa experiência permitiu tirar novas conclusões foi a lista (chapa) verde das eleições para os têxteis da AOT (Associação Operária Têxtil que era o sindicato nacional dos trabalhadores têxteis):

A velha burocracia estava dirigida por Hermida e Grioli. Mujica, Andrés Framini e Mendoza eram os dirigentes da oposição que haviam constituído a Lista Verde. Nós decidimos apoiá-la depois de uma discussão muito importante dado que não desconhecíamos que esses dirigentes, ainda que de oposição, eram parte da burocracia peronista[16].

Então, no 4º congresso do POR se fez uma profunda avaliação de toda atividade da corrente desde sua fundação 10 anos atrás. Entre várias outras discussões importantes, segundo Gonzáles os morenistas avaliaram que era necessário romper com a etapa propagandística e dar início a uma nova fase de integração na realidade nacional e internacional e especialmente com a classe operária.  E que a política construída em torno das oposições sindicais era um grande símbolo desses erros: ainda que tivessem acertado no fundamental, isto é, o caráter da CGT e a “Luta pela independência dos sindicatos, contra a burocracia, formando oposições sindicais que agrupassem todos os ativistas sem distinção de ideologia política, o POR pela sua falta de experiência na luta de classes, caiu no erro de:

3) Não distinguir entre o avanço do proletariado e a forma que o faz, desprezando todo esquematismo e cuidando muito na distinção de forma e conteúdo, já que as vezes a vanguarda se expressa e toma caminhos que somente tem em comum com nossa caracterização correta no sentido geral da mesma, ou seja sua tendência geral, e não o esquema organizativo ideal que construímos ao concebe-la. Esta idealização foi um dos nossos principais erros de modo que nos deteremos um pouco nele. Nós defendemos como consigna aplicável (…) da luta contra a burocracia: a formação de oposições sindicais. No lugar disso devíamos observar o movimento operário e localizar a corrente de oposição para dentro dela, guiá-la até a tarefa estratégica, a través de sua própria experiência respeitando a forma que pudesse tomar sem renunciar nunca a dar aos seus integrantes o maior grau de consciência possível. Isto é, devíamos ter diferenciado realmente, a direção do caminho que recorria o proletariado com sua forma particular de fazê-lo. Quisemos ao contrário aplicar organizativamente uma consigna que defendia a tarefa, no lugar de buscar as consignas tácticas que levassem à aplicação da mesma. Quisemos começar pelo final[17].

A política do POR frente a nova colonização norte americana

O POR estava desenvolvendo uma opinião que ficaria muito mais evidente com o trabalho 1954, ano chave do peronismo de Nahuel Moreno: estava ocorrendo uma mudança qualitativa na relação de forças (mais favorável aos EUA) no continente a partir da desvalorização dos produtos agrícolas no mercado mundial, do fim das reservas monetárias acumuladas na guerra e do caráter atrasado da indústria capitalista nacional. Argumentava Moreno que a indústria Argentina havia se desenvolvido de forma anormal: não no investimento de maquinário mas de mão de obra. Assim em meados dos anos 50 as duas principais fábricas do país usavam máquinas de 1905 enquanto trabalhavam 3 turnos. E a ofensiva yanqui era tão brutal que estavam dispostos a fazê-la pela força das armas como se viu com a vitória do golpe pró EUA na Guatemala, a derrota da revolução boliviana e o suicídio de Getúlio Vargas no Brasil. OS EUA queriam enfim colonizar todo o continente.

Como a Argentina passava por uma situação econômica complicadíssima, Perón estava se tornando cada mais refém do imperialismo yanqui e a este começou a fazer concessões. O imperialismo não podendo mais se apoiar nos seus antigos aliados começou a estimular a Igreja Católica a criar um movimento de oposição de base popular (que significava uma nova linha nacional da readequação mundial do Vaticano se entregando ao imperialismo yanqui) que culminou na formação do Partido Democrata Cristão. Dia a dia o imperialismo yanqui ia ganhando terreno e a possibilidade de um golpe estava se tornando iminente.

Frente a essas conclusões o POR levantou “Evitemos que o imperialismo yanqui domine o nosso país!”[18] E disso foi desenvolvendo todo uma política, um programa e consignas fundamentais:

Unámo-nos com outras correntes para denunciar e freiar os planos de colonização da América Latina e nosso país. É nossa obrigação denunciar sistematicamente os planos e avanços do imperialismo yanqui. Por outro lado temos que destacar toda atitude independente dos governos latino-americanos e toda vacilação ou capitulação dos mesmos, isto é deve ser fator permanente de nossa atividade a denúncia dos planos yanquis de colonização (…) Esta campanha contra o plano yanqui de colonização deve ser ampla, amplíssima, sem sectarismos: acordos para fazer atos comuns onde se denunciem esses planos, acordos técnicos com quem resista timidamente a esses planos, etc. (…) Que todo o mundo saiba que os lutadores mais consequentes contra o plano yanqui de colonização da América Latina somos nós, que independentemente do antagonismo que nos separa de todos os governos latinoamericanos e correntes burguesas ou pequeno burguesas, como de nossa intransigente crítica de classe a elas, estamos pela unidade e independência de nossos países contra a colonização yanqui[19].

Depois Gonzáles afirma que se bem Moreno explicava que o perigo imediato era não compreender a necessidade de uma audaz união contra o plano yanqui, o perigo oposto era capitular às tendências burguesas que resistiam:

Estamos dispostos a nos unir ao estancieiro ou ao industrial contra o plano colonizador do imperialismo e inclusive chegaremos, em circunstâncias excepcionais, a acordos delimitados. Mas que saibam todos, tanto o estancieiro como o peão, que somos o partido que reflete os interesses históricos e imediatos dos peões e que nesse sentido, alentamos e educamos os peões para que combatam econômica e politicamente o seu patrão como a seu inimigo natural, já que se enriquece às custas da miséria dos trabalhadores. Isto não impede que numa luta ou choque circunstancial entre os planos imperialistas e o estancieiro ou industrial, cheguemos a um acordo limitado com nosso inimigo (a patronal), para combater o inimigo do país (o imperialismo). (…) Nossa posição, não por ser simples deixa de ser correta: nenhuma confiança na burocracia governamental ou nos capitalistas nacionais. Ainda que coincidamos com eles em algum ponto do programa e em algum momento determinado: somente a classe operária pode governar para freiar de verdade os planos yanquis de colonização e para superar a economia nacional em benefício dos trabalhadores[20].

E sobre a política em relação ao governo peronista:

Nossa tendência deve alentar, destacar e tender a um acordo técnico com o governo em toda resistência deste aos planos yanquis de colonização (…) Por isso, quando coincidimos técnica ou politicamente com o governo, devemos saber destacar que essa coincidência é completamente parcial e que não é de política geral. Ou seja, seguimos, como desde o primeiro dia, lutando contra a falta de liberdades democráticas e contra a estatização sindical, mas sobre todo seguiremos atacando irreconciliavelmente a velha estrutura estancieril, frigorífica, burguesa, do país, cuja defesa encarniçada é a razão de ser do peronismo[21].

E quando a possibilidade de um golpe pró yanqui estava na ordem do dia o La Verdad (jornal da federação Bonaerense do PSRN dirigido pelo POR) ainda sustentou:

Frente ao perigo do golpe de Estado fomentado por Wall Street, oferecemos ao governo um acordo de carácter técnico bem delimitado, público e sem compromissos políticos afim de deter todos os intentos do imperialismo de colonizar e super explorar a nossa classe operária[22].

E Moreno em 1954, ano chave do peronismo ainda levantava conclusões sobre a necessidade de construir um grande partido da vanguarda operária formando já um partido centrista de esquerda legal que seria a melhor forma de unir o ativismo sindical e estudantil numa organização independente:

Nós somos extremamente débeis para utilizar a legalidade em todas as suas possibilidades, inclusive para ganhá-la por nosso próprio esforço, mas ao mesmo tempo, somos os únicos que podemos estabelecer um nexo, por nossa estrutura e programa, entre o partido legal e a vanguarda operária (…) A unidade com os grupos centristas para alcançar de conjunto a legalidade através de um partido único, é completamente progressivo (…) O Partido Socialista da Revolução Nacional não é mais que uma etapa na formação do partido centrista de esquerda legal, nosso principal objetivo político-organizativo no atual momento. Nesse sentido devemos buscar uma solução. O PSRN deve transformar-se em uma corrente centrista de esquerda a curto prazo ou devemos buscar outro acordo ou união que crie essa organização. (…) Sabemos conscientemente que essa organização é o oposto de uma proletária bolchevique, e que nossa tendência, por meio dela e lutando nela contra as tendências pequeno burguesas, tende a construir uma organização bolchevique e não centrista. Concretamente, temos que formar por meio de acordos com os centristas e grupos progressivos um partido de esquerda centrista legal que nos permita chegar ao melhor da vanguarda operária. A experiência do Partido Socialista da Revolução Nacional deve ser liquidada a curto prazo: ou serve para esse fim ou não serve, e então nos vamos[23].

 

Notas:

* Com a colaboração de Matheus Gomes.

[1] p 175 tomo 1.

[2] p 197-8 tomo 1.

[3] p 198 tomo 1.

[4] p 199 tomo 1.

[5] p 200-1 tomo 1.

[6] p 207 tomo 1.

[7] p 210 tomo 1.

[8] p 220 tomo 1.

[9] p 220 tomo 1.

[10] p 220 tomo 1.

[11] p 220-1 tomo 1.

[12] p 224 tomo 1.

[13] p 250 nota 20 tomo 1.

[14] p 219 tomo 1.

[15] p 249-0 nota 14 tomo 1.

[16] p 211 tomo 1.

[17] p 218 tomo 1.

[18] p 233 tomo 1.

[19] p 233 tomo 1.

[20] p 233-4 tomo 1.

[21] p 236 tomo 1.

[22] p 238 tomo 1.

[23] p 236-7 tomo 1.

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