Um novo “tombo” na economia mundial?

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Alejandro Iturbe*  |

A imprensa mundial, os meios especializados como The Economist ou Financial Times, os economistas, e as reuniões internacionais como o Fórum da Davos e a reunião do G-20, já discutem abertamente a possibilidade de que a economia mundial esteja entrando em uma fase descendente como a que se viveu a partir de 2007-2008.

Os sinais evidentes são a crise da economia chinesa, a importante caída das bolsas em todo mundo, a evidência de uma crise bancária na Europa, o descenso das cifras do comércio mundial em 2015, e a economia dos Estados Unidos, que cresceu apenas 1% no quarto trimestre de 2015 (contra 3,7% no segundo). A indústria está pior.

Alguns dados são menos conhecidos. Um é muito importante e afeta diretamente a dinâmica da situação: segundo um informe do banco JP Morgan está caindo a taxa de lucro das corporações estadunidenses a seu nível mais baixo em dois anos. O outro é sintomático: os empréstimos de curto prazo são mais caros que aqueles há 10 anos, o que os economistas burgueses chamam “curva invertida dos tipos de interesses” e que é considerado como um dos indicadores que acostumam antecipar uma recessão.

Os processos estudados por Marx

É impossível entender a situação atual e as hipóteses possíveis de evolução sem considerar as leis do processo de acumulação capitalista estudadas por Marx, especialmente em “O Capital”, escrito entre 1861 e 1863 e logo enriquecida por outros autores como Lenin. Referimo-nos especialmente a  lei do valor-trabalho e a criação de mais-valia  na produção, conceitos como  a taxa média de lucro, a composição orgânica do capital, e a lei da tendência de queda da taxa de lucro que levam ás inevitáveis  crises cíclicas analisadas e previstas por Marx como um período “normal”, um componente absolutamente inevitável da dinâmica de acumulação de capital. E à determinadas consequências do processo de acumulação (dentro delas, as crises): um número cada vez menor de capitalistas manejam, dominam, uma parte cada vez maior do capital total (a tendência monopólica do capitalismo).

Sobre esta base, Lenin analisou que esta tendência se vê exacerbada a partir da crise europeia de 1873, cujas consequências levariam ao surgimento do capital financeiro (fusão dos capitais bancários e industrial) e o início da época do capitalismo imperialista.

Os super lucros conquistados pelas empresas imperialistas vão agravar a sobreacumulação de capital ou como o chama Lenin, a produção de cada vez mais “capitais excedentes” que se voltam à especulação e ao parasitismo como ímpeto, característica crescente e dominante da época imperialista.

As super crises [1]

As crises cíclicas analisadas e previstas por Marx continuaram verificando-se no decorrer de um século e meio. Vemos, entretanto, que algumas crises são muito mais profundas e de um impacto muito maior ao longo do tempo. Por exemplo, as iniciadas em 1873, em 1929, em finais da década de 1960, e em 2007-2008, podemos chama-las de “super crises”.

No germe e no início de todas as crises está a queda da taxa de lucro estudada por Marx. Porem, na super crise isto se coloca potenciado pela existência de uma massa gigantesca de capital excedente parasitário que já não consegue valorizar-se. É como um gigantesco castelo de areia que começa a cair e ameaça fazê-lo por completo.

Ao mesmo tempo, o ataque aos trabalhadores e as massas (para aumentar a quantidade de mais-valia) tornam-se muito mais ferozes, porém, junto a ele, “alimentam” durante um tempo mais curto a voracidade do monstro capitalista imperialista.

Assim ocorreu com a imensa quantidade de nova mais-valia que representou a incorporação massiva do proletariado chinês ao mercado mundial, a partir de 1990, ou o escasso efeito de crescimento que teve o grande aumento da taxa de exploração conquistado pela burguesia mundial desde 2008 (com seus permanentes ataques ao emprego, ao salário e as condições de trabalho).

As fases da série negativa atual

Ao abrir-se a crise de 2007-2008, a política da burguesia imperialista teve três pilares:

  1. O primeiro deles foi (como temos analisado em numerosos materiais) ataques ferozes ao movimento operário para aumentar a extração de mais-valia.
  2. O segundo foi uma queima parcial de capital (especialmente no setor produtivo, mas também no setor financeiro da EEUU) através de grandes fusões, fechamentos e reduções de empresas (como a GM). Avançando assim o processo de centralização analisado por Marx.
  3. O terceiro (e central para nossa análise) foram os megapacotes de ajuda aos bancos e mercados financeiros. Alguns estudos afirmam que nos últimos tempos os estados injetaram, de diversas formas, o equivalente a quase um PIB mundial (entre 65 e 70 bilhões de dólares [trilhões em português e inglês]). Os estados atuaram desta forma como companhia de seguros dos grandes especuladores financeiros, mostrando, sem dúvidas, quem são os verdadeiros donos destes estados.

Com estes megapacotes, o imperialismo conseguiu frenar a dinâmica de plano inclinado permanente (a primeira fase da crise entre 2007 e 2009) e evitar a quebra do sistema financeiro-bancário mundial. Abriu-se assim uma segunda fase da crise, em 2010, em que a EEUU sai da receção e começa primeiro uma “recuperação anêmica” (crescimento menor a 2%) e logo uma “moderada” (entre 2 e 3%).

Tanto durante a primeira como durante a segunda fase, a China parecia “imune” (com base em uma política de inversões do Estado e crédito barato) e atuou como uma espécie de “motor secundário” da economia mundial, amortecendo assim os efeitos descendentes e ajudando os países provedores de matérias-primas, como Brasil e Argentina.

Em 2012 se abre uma terceira fase com as chamadas “crise das dívidas soberanas europeias”; excessivamente endividados pelos processos  anteriores (como custo de ingresso na União Europeia), as ajudas aos bancos e as reestruturações da dívida pública, os países mais débeis (os PIG: Portugal, Irlanda e Grécia) chegam a impossibilidade de pagamento e entram em colapso. Países imperialistas mais débeis, como Espanha e Itália, também são fortemente golpeados.

Começa a quarta fase?

No final de 2014, todos os sinais de alerta começam a indicar que pode estar aberta uma quarta fase da crise (igual ou até mesmo mais profunda da iniciada em 2007-2008).

O principal desses sinais é o início da crise na China[2]. Como disseram vários economistas no ano passado, China deixou de ser “parte da solução”, e, agora, é “parte do problema”. E uma parte não pequena, certamente. Sua desaceleração impacta o conjunto da economia mundial, e, com ela, empurra a crise para as economias provedoras, como Brasil e Argentina: “As perspectivas destes países se escurecem” como afirmou no Forum  de Davos o presidente do Instituto Internacional de Finanças, Tim Adams.

Se a locomotiva secundária vem parando, as locomotivas principais também parecem somar-se ao “problema”. Em 2015, EEUU manteve um crescimento igual com anos anteriores (2,4%), porém com desaceleração no quarto trimestre (1%) e outros dados preocupantes, mostrando assim que também não pode ser o motor que tracione o conjunto, quando tenta “acelerar na subida” começa a frear-se. Europa enfrenta agora a abertura de uma crise bancária que já afeta ao principal banco de sua primeira potencia: o Deutshe Bank[3].

Os “investidores imperialistas” são pessimistas tanto com a perspectiva como com as possibilidades de enfrentara-la. Ray Dalio, presidente da companhia de investidores Bridgerwater, expôs em Davos: “O mais provável [é] que a economia siga sofrendo uma notável debilidade. Porem caso tenhamos uma recessão, esta será difícil de reverter. Este é o momento de maior desafio desde a crise financeira… Porém no caso que tenhamos uma resseção, esta será difícil de reverter”.

Dá-se, então, a combinação de duas questões centrais. A primeira é que o imperialismo não impulsionou a queima de capital fictício e especulativo sem que, pelo contrário, os imensos “pacotes de ajuda” fossem utilizados pelos grandes bancos e investidores financeiros para “capitalizar-se” (cobrir os furos de seus investimentos) e para criar novas bolhas. Com ele, pode repetir o ocorrido em 2007-2008 (sobre bases corrigidas e aumentadas, porque a economia está ainda mais frágil). Vai seguir fazendo “ajudas” porém estas terão um efeito menor da que existiram em anos anteriores. O especialista econômico do diário espanhol El País escreveu: “Dalio coloca assim o dedo na ferida em um dos temores mais profundos dos analistas: a falta de ferramenta para responder a uma nova crise”. O capitalismo imperialista atuou como alguém que tem o motor de seu automóvel seimfundido e o faz seguir funcionando com óleos ultrapesados… e isso tem um limite intransponível.

O segundo é que, sem bem a burguesia mundial conseguiu um aumento muito importante de extração de mais-valia com os ataques desses últimos anos, este aumento se mostra insuficiente para sustentar a taxa média de lucro (que se expressa em sua queda atual). Para conseguir um crescimento da magnitude necessária, o capitalismo imperialista necessita de um salto qualitativo nos níveis de exploração dos trabalhadores (digamos, uma “profunda retificação do motor”).

O fator “luta de classes”

Aqui entra um fator que se liga profundamente aos processos da economia, mas que joga em um terreno diferente: a luta de classes. Parece muito difícil que um salto dessa magnitude possa se dar sem uma derrota profundíssima dos trabalhadores no mundo. É uma hipótese possível que –de produzir-se de conjunto ou a nível nacional– mudaria toda dinâmica da “equação econômica pura”.

A reação da massa e dos trabalhadores frente à crise e os ataques seguem caminhos contraditórios. Alguns setores se atemorizam e retrocedem sem luta, outros compreendem plenamente as perspectivas e radicalizam seu método de luta e suas reivindicações, em um curso objetivamente revolucionário. Também se dão combinações de ambos os processos em um mesmo país.

Acreditamos que desses processos contraditórios, a tendência parece ser para maiores lutas e enfrentamentos, cujo os resultados depende a dinâmica de toda situação política e econômica. Apoiamos-nos para este prognóstico em elementos como as lutas que estão acontecendo na Argentina contra o novo governo de Macri, no Brasil contra o governo do PT, na Grécia contra o governo do Syriza, na África do Sul contra o governo do CNA, na Tunísia e no aumento das greves na China.

Claro, não somos cegos e também vemos que existem derrotas e retrocessos em outras regiões e países.  Por isso falamos de uma tendência e não de um processo unilateral.

Algumas conclusões

No artigo sobre a cúpula de Davos expressamos:

O capitalismo imperialismo não só está esgotado, assim como expressou esta cúpula de Davos, mas também se mostra incapaz de promover saídas para a crise que seu próprio funcionamento gera. Cumprindo as leis econômicas analisadas por Marx (concentração da riqueza e centralização de capitais em um polo, miséria crescente no outro), hoje o 1% dos donos do mundo possui tanta riqueza como o 99% restante.

Nesse marco, sem proposta para resolver a crise, as perspectivas são de novos e duríssimos ataques ao nível de vida dos trabalhadores e as massas, e a necessária resposta de luta a esses ataques. Portanto se os trabalhadores não forem capazes de elevar esta luta de resistência a uma formulação de uma alternativa profunda ao capitalismo imperialista (a revolução proletária e socialista), a situação dará volta em círculos, ou melhor dizendo, em uma dupla espiral: descendente  na situação econômica das massas e com tendência ascendente nas lutas.

Assim, a crise, os ataques às massas e as lutas, devoram governos burgueses. Na América latina vivemos uma decadência dos “populismos burgueses” (que cavalgaram sobre a prosperidade de 2001-2012) e o ascenso eleitoral da direita (que galopa sobre o descontentamento das esperanças frustradas nos governos populistas) e seu ascenso ao governo, como o de Macri na Argentina. Obrigados a aplicar planos de ajustes ainda mais ferozes que seus antecessores, se não derrotam as massas, sua perspectiva é durar ainda menos. Na Europa, em vários países, cai a direita clássica e sobem governos burgueses de “esquerda”, como o Syriza na Grécia, o de coalisão PSOE-Podemos na Espanha. Também rapidamente, como mostrou Syriza na Grécia, colocam sua verdadeira face ajustadora do governo ao serviço do imperialismo.

 É imprescindível romper com este ciclo vicioso da bipolaridade burguesa. Seja de “direita” ou de “esquerda” todos estes governos são nossos inimigos e governam para os “donos do mundo”. É necessário, claro, lutar duramente contra seus planos e ataques. Porém nesta lutas é imprescindível a construção de nossa própria alternativa de poder e de mudança radical da sociedade. Do contrário, os trabalhadores seguirão vivendo cada vez pior, enquanto eles se reúnem em meio ao luxo para debaterem desfrutando de suas caríssimas bebidas e comidas”.

Só adicionaria uma conclusão final: a “construção de nossa própria alternativa de poder e de mudança profunda da sociedade” se expressa em duas coisas combinadas. A primeira é a apresentação clara às massas de um Programa de Transição para que estas lutas se elevem à questão do poder. Um programa cujas propostas sejam cada vez mais claras e compreensíveis para os trabalhadores e as massas, porque a própria realidade do capitalismo imperialista as coloca na ordem do dia. A segunda é a necessidade  da construção nestas lutas de um partido revolucionário que defenda e leve esse programa e assim dispute e ganhe a direção dos trabalhadores e das massas.

Em ambos os aspectos, se trata de travar uma luta política mortal contra aqueles que dizem às massas que “não há alternativa ao capitalismo” (como Alexis Tsipras, Pablo Iglesias ou Bernie Sanders), ou contra os muitos que dizem que se havia alternativa agora “a consciência das massas” não permite lutar por ela (e por isso, acabam propiciando uma situação confortável para Tsipras, Iglesias ou Sandres). Pelo contrário, para nós é agora (quando o capitalismo-imperialista mostra seu verdadeiro e desagradável rosto) que a construção dessa alternativa é não só imprescindível senão também possível.

* Tradução de Jean Paulo Pereira de Menezes.

[1] Poderia ser traduzido também como “As grandes crises”.

[2] Ver: http://litci.org/es/mundo/asia/china/certezas-e-interrogantes-que-plantea-la-crisiseconomica-en-china/http://litci.org/es/mundo/asia/china/certezas-e-interrogantesque-plantea-la-crisis-economica-en-china/

[3] ver artigo http://litci.org/es/economia/europaviene-una-nueva-crisis-bancaria/

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