Carta aberta a um velho amigo governista imaginário

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Carlos Zacarias de Sena Júnior |

Caro amigo,

acompanhando as notícias sobre as manifestações governistas ocorridas no Brasil nesses dias, vi uma foto em que você está paramentado de vermelho, sorridente, com um cartaz dizendo ser contra o golpe e pela democracia. Confesso que ver a sua imagem tantos anos depois de termos nos conhecido e ombreado em tantas lutas, me bateu aquela nostalgia daqueles tempos. Então lembrei o quanto lutamos juntos. Estávamos começando a universidade, os tempos eram de muita inflação e muita crise, você deve lembrar.

Recordo do quanto era difícil para nós e para as nossas famílias segurar a barra de manter os pagamentos em dia. Mas tínhamos convicções e tantas esperanças, que só pensávamos no futuro, então partimos para organizar a luta por um país e um mundo melhores. Estou certo de que se lembra de que falávamos não apenas do Brasil, mas nos preocupávamos com o mundo, com a América Latina, com a invasão do Iraque, com Mandela que estava em vias de ser libertado. Tenho uma forte recordação do comício que fomos em Salvador depois que o líder sul-africano foi libertado. Era um mar de gente e esperança de um mundo sem apartheid ou racismo. Éramos jovens iniciantes no internacionalismo e no marxismo revolucionário.

Mas o que mais me lembro daqueles tempos é de estarmos juntos quando fizemos a campanha de Lula da Silva para presidente. Puxa, como era difícil andar nas escolas, nas universidades e nas ruas fazendo campanha para o “sapo barbudo”. O Partido dos Trabalhadores era uma esperança, atraia os jovens que se encantavam com sua independência de classes e não estavam contentes com o chamado “socialismo real”. Estávamos certos de que o PT, apesar das limitações e dos setores mais a direita que sofriam uma forte pressão institucional, era um partido para e, mais do que isso, dos trabalhadores. Sabíamos disso porque éramos nós que sustentávamos, vendendo broches, adesivos para carro, camisetas.

Alguns de nós até cotizávamos para as nossas correntes políticas com um dinheiro conquistado com muito suor nas campanhas financeiras que fazíamos. Lembro que vendíamos jornais na universidade, abríamos discussões com inúmeros companheiros e disputávamos com a juventude do PCdoB e de outras correntes. Nem ligávamos quando nos chamavam de divisionistas, porque tínhamos ajudado a construir a CUT contra a CGT que era onde estavam todos os militantes comunistas. Na universidade, nossos adversários principais não eram os comunistas das outras correntes, mas aqueles que nos olhavam com desconfiança e os que riam com ironia da nossa “inocência” e desdenhavam dos nossos sonhos de juventude. Mas nada nos abalava, pois tínhamos esperança e muita vontade.

Lula não foi eleito em 1989, como sabemos. Desconfiamos dos petistas que produziram adesivos em seguida à derrota para Collor, dizendo “Feliz 1994!”. Como assim? Tínhamos sido derrotados nas eleições, mas nossa luta era para o dia seguinte e não para as próximas eleições! Estávamos certos de que ainda havia muita luta a travar até 1994 e não nos enganamos. Collor foi pego com a “boca na botija” enquanto atacava os nossos direitos, mas não vacilamos nem um segundo e partimos para as ruas. Agitamos palavras de ordem contra Collor, mas também contra Itamar quando a maioria do PT, o nosso partido, queria que o vice assumisse.

Engrossamos o coro das manifestações e vimos que as ruas queriam eleições gerais. Mas os acordos de cúpula definiram que Itamar Franco assumiria. Houve uma crise no PT, que foi contornada pelos principais dirigentes que construriam o lulismo, gente como José Dirceu e José Genuíno, entre outros que hoje, infelizmente, estampam as páginas dos jornais acusados de corrupção. Lembra do destino da Convergência Socialista? Os companheiros trotskistas, como nós nos reivindicávamos, foram expulsos do PT porque defenderam o “Fora Collor” muito antes do restante do partido. Ficamos indignados com a expulsão da Convergência, como ficamos inconformados quando Luísa Erundina, ex-prefeita de São Paulo, ganhou uma licença para participar do governo de Itamar, contra a decisão do partido. Isso também aconteceria com Francisco Weffort e com todos os que divergiam pela direita, jamais como a divergência pela esquerda, que era punida com a expulsão. Alguma coisa não parecia certa, mas seguimos acreditando no PT.

Ainda fizemos campanha para Lula em 1994, quando fazíamos o mestrado. Naquele tempo, parecíamos loucos, porque a maior parte da universidade efetivamente desdenhava de nós, especialmente nas ciências humanas. Isso acontecia porque os efeitos da queda do Muro de Berlim e da desagregação da União Soviética sopravam com a onda pós-moderna que começava a se configurar. Ser marxista era démodé, mas nós não nos preocupávamos com a moda. Veja como o mundo dá voltas: Lula foi derrotado em 1994 e depois em 1998, quando já éramos professores da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). O Plano Real ainda estava nos seus primeiros anos e os reveses de tantos anos de crises e inflação foi despejado nas costas dos trabalhadores. Mas a estabilização da economia nos tinha isolado. Pregávamos praticamente no deserto, porque a ofensiva ideológica foi grande nos tempos de FHC.

Mas é verdade que nossa vida melhorou. Estávamos convictos, e a realidade estava lá para comprovar, de que teríamos uma vida melhor do que nossos pais. Não obstante, você deve lembrar da primeira campanha salarial que participamos na UNEB. O mote era “O pior salário do Brasil”. Essa campanha espalhou outdoors por toda a Bahia e também e Brasília. Foi uma campanha bem sucedida, mas faltava o elemento principal: não havia movimento docente organizado na UNEB e nas demais estaduais a luta claudicava. Também a última greve da categoria tinha sido em 1987, então ficava difícil reverter as coisas a situação adversa.

Caro amigo, passamos poucas e boas juntos, mas continuamos ombro a ombro, principalmente quando a categoria começou a se mobilizar em 2000, depois de tantos anos de arrocho, da nossa carreira destruída e da ausência de lutas mais intensas. Participamos da movimentação e foi muito emocionante quando aprovamos a greve naquele dia 28 de junho de 2000, colocando a UNEB ao lado das outras três universidades que já estavam paralisadas há quase 20 dias. Me arrepio até hoje quando me lembro daquela assembleia. Depois de alguns anos de experiência no movimento estudantil e uma breve passagem pela educação básica, quando fui delegado do SINPRO na minha escola, era a primeira vez que me deparava com o desafio de organizar uma greve da minha categoria.

Tenho viva na memória o momento em que me inscrevi para falar na assembleia e, emocionado, defendi a deflagração da greve, dizendo que os professores universitários eram, também, trabalhadores como qualquer outro. Na época governava a Bahia Paulo Souto, o fiel aliado de ACM. Lembro de sua fala, foi muito emocionante! Você foi sempre um grande orador e, como tal, uma grande referência para mim. Nossas falas e disposição nos levaram a integrar o Comando de Greve. Aprendemos juntos a combater na luta de classes, no lado certo da trincheira. Fizemos uma boa parceria naquele Comando de Greve, você com sua oratória convincente e eu com minha capacidade organizativa.

Isso fez com que eu dirigisse todas as assembleias daquela greve, dividindo outras tarefas com tantos companheiros, especialmente com uma maioria de bravas companheiras. Foi uma grande aprendizagem, sem dúvida! Mas naquela greve sentimos uma ausência: a dos nossos companheiros do PT. É verdade que seus poucos parlamentares apareciam vez ou outra para apoiar a greve, assim como os parlamentares do PCdoB. Eles também apareceriam em muitas outras greves, até o PT assumir o governo e eles desaparecerem. Quanto aos companheiros da minha corrente política no PT, estes apareceram no fim da greve para colar adesivo de candidato em mim. Eu não via problema em assumir minhas posições, mas achei um tremendo oportunismo os companheiros aparecerem no final da greve, muito mais preocupados com as eleições daquele ano. É claro que não aceitei!

Não ganhamos nada na greve de 2000, mais depois fomos eleitos para a ADUNEB. Lembra como foi difícil reconstruir aquela Seção Sindical? Lembra como foi difícil construir uma nova greve em 2002? Lembra como saímos vencedores depois de quase 90 dias de greve, dois cortes de salários, mas com o nosso plano de carreira reconstruído e a categoria com muita moral para outras lutas? Foi um momento vibrante, mas só não foi mais alegre porque nossos caminhos começaram a tomar sentidos diferentes. Você não entendeu o motivo de eu ter rompido com o PT em 2000 e nem as indignações que compartilhávamos frente aos descaminhos do PT foram suficientes para seguirmos juntos. Você não veio comigo para o PSTU em 2001, nem esteve ao meu lado quando ajudei a construir o partido em Salvador nos anos seguintes. Não sei se sabe, mas antes de tomar minha decisão estudei muito: li Trotsky, Moreno e outros marxistas. Conheci grandes militantes e dirigentes nacionais do partido e, finalmente, me decidi e fui aceito pelos companheiros do PSTU nas suas fileiras e nas fileiras da LIT. Nos encontramos quando eu saí candidato a governador em 2002, mas você me tratou com frieza. Sei que estava com Lula e Wagner naquela eleição, mas não esperava seu desdém.

Lula ganhou a eleição, Wagner perdeu na Bahia. Teve a “carta ao povo brasileiro” em junho de 2002 e aquela coisa de “Lulinha paz e amor”, algo muito diferente daquilo pelo qual tínhamos lutado em fins dos anos 1980. Na presidência, o PT começou por atacar os servidores, com a reforma da previdência em 2003. Então começou a enfrentar a resistência dos trabalhadores que faziam a experiência com o governo petista. Wagner ganhou a eleição na Bahia em 2006, e todos vimos que o PT governava de maneira igual ao velho PFL.

Soube depois que você ingressou na UFBA por concurso. Fiquei feliz por você, embora um pouco melancólico porque nossos caminhos tinham definitivamente se separado. Não sei se você acompanhou minha trajetória. Segui no PSTU, embora não tenha aceitado mais a tarefa de ser figura pública e disputar eleições. Nunca tive a oportunidade de lhe dizer, mas foi no PSTU que encontrei meus sonhos de juventude. Foi neste partido que finalmente soube o que era ser trotskista e tentar organizar um partido bolchevique. Imagino que você deve estar rindo da minha cara, achando ingênuo alguém nas proximidades dos 50, falar assim. Meus sonhos de juventude, nossos sonhos de juventude, nunca os perdi, esteja certo.

Fiquei na UNEB ainda por muitos anos. A greve que construímos juntos em 2000, e a reorganização da qual participamos naqueles anos e nos seguintes, serviu para o MD da UNEB sair das sombras. Então, depois das greves de 2000 e 2002, participei e integrei o Comando de Greve na paralisação de 2003 e 2007. Em 2005 também teve greve, mas eu estava fazendo o doutorado. Em 2007 ainda voltaria a dirigir a ADUNEB, concluindo o mandato em 2009, quando meus filhos nasceram. Saí da UNEB em 2010, depois de um concurso na UFBA. Sempre tive orgulho daquela universidade e ainda mais dos companheiros e das companheiras que construíram um movimento docente combativo, com uma Seção Sindical filiada ao ANDES e a CSP-Conlutas.

Ingressei na UFBA em 2010. Nossos caminhos não mais se cruzaram, mas quando deflagramos a greve nacional de 2012, dirigida pelo ANDES-SN, não me recordo de ter encontrado você na maioria das assembleias. Tenho certeza de que soube das assembleias lotadas, dos atos que fizemos e todo desenrolar daquela luta emocionante, em que forjamos experiência e companheirismo. Sei que acompanhou o combate que demos a direção da Apub ligada do PROIFES, que boicotou sistematicamente a greve e a categoria, terminando por ser destituída por decisão de uma assembleia convocada com a aquela finalidade e que contou com mais de 400 docentes. Tenho impressão de que divisei você entre as centenas de docentes e me surpreendi com seu jeito acanhado de participar da assembleia. Você não falou, mas esteve entre os poucos que votaram contra a destituição. Você me pareceu envergonhado e creio que tinha razões para estar. Não sei se você soube que seu velho amigo foi processado pela direção da Apub, junto com mais 15 companheiros do Comando Local de Greve (CLG) da UFBA em 2012. Eu estava em estágio probatório, corria o risco de demissão, mas não vi nenhuma solidariedade de sua parte.

De 2012 para cá, fizemos muitos movimentos. Você deve estar a par que os salários dos docentes das IFES está entre os piores do Brasil. Em relação aos salários das universidades estaduais baianas, nossos vencimentos estão bastante depreciados. Não sei como anda a sua vida. Sei que é professor Associado, condição que lhe oferece algum alento diante dos salários aviltados das classes de auxiliar, assistente e adjunto. Não sei se goza ainda dos quinquênios, do direito a licença prêmio, da aposentadoria integral. FHC destruiu tudo isso, como sabemos, mas Lula e Dilma não reintroduziram nenhum direito sequer, muito pelo contrário. Nossa situação é precária, as IFES estão à míngua e a única possiblidade de reverter essa situação é através da luta. Veja, quando ingressamos nas UNEB em 1997, os salários dos docentes das universidades estaduais baianas eram os piores do Brasil.

Depois de 16 anos e oito greves, os salários e a carreira dos nossos colegas das estaduais são muito melhores do que os nossos, de modo que quando vim para a UFBA tive um rebaixamento salarial e hoje ganho algo entre 30% e 40% do que ganharia na UNEB. É sabido que entre os docentes das IFES, foi significativa a perda de influência e a decomposição dos salários ao longo dos anos. Na UFBA, oito anos sem greve (de 2004 a 2012), cobrou o seu preço. Por isso achei triste não encontrar você em nenhum momento nas lutas que fizemos em defesa da universidade e por melhorias nos salários e na carreira. Na greve de 2015, quando a UFB, à míngua, anunciava a impossibilidade de funcionar com tantos cortes promovidos pelo governo de Dilma, não vi você em nenhuma assembleia, mas vi seu nome entre aqueles que assinaram um triste abaixo-assinado contra a greve e contra Comando Local de Greve. Fiquei pensando no que me tornei e no que você se tornou e fiquei triste por você.

Eis que então, percorrendo as notícias sobre as manifestações governistas do dia 18, vi sua foto. Acho que você está bem, parece conservado. Vi que estava sorridente e feliz. Parecia que tinha reencontrado o caminho da luta, “defendendo a democracia contra os golpistas”. Vi em uma das fotos, alguns bravos companheiros e bravas companheiras dos últimos CLGs da UFBA no movimento.

Não tenho dúvidas que as pressões advindas de pessoas que são reconhecidas pela combatividade, levou muitos a cederem aos atalhos da luta política. O isolamento é desolador, com o perdão do trocadilho, mas não podemos confundir nossos desejos com a realidade. Não creio que haja um golpe em curso, mas tendo a concordar com os que dizem que há um “golpe paraguaio”, se admitirmos que a possibilidade do impeachment significa isso. Entretanto, o impedimento da presidente Dilma, nas bases da Constituição, não significará, necessariamente um golpe sobre a nossa classe. É claro que haverá retrocessos, mas não estaremos muito melhores se Dilma sair fortalecida desse processo, porque foi justamente o PT quem desferiu os maiores ataques aos trabalhadores nos últimos anos.

Na atual situação, caso um dos dois cenários prováveis venha a se confirmar, os perdedores seremos nós, a classe trabalhadora. Mas há ainda uma alternativa, que é a de construirmos atos independentes, de maneira a tomarmos em nossas mãos “o que a nós nos diz respeito”. Sei que lembra da referência ao hino de A Internacional, mas não sei se seria mais capaz de entoar junto aos seus velhos camaradas e amigos.

Meu caro amigo eu confesso que fiquei feliz de vê-lo retornar às ruas. Na verdade, vi muitos que, como você, havia levado anos sem por os pés no asfalto. Não pense, contudo, que o mundo deixou de existir nesses anos em que esteve ausente. A luta de classes nunca esteve tão ativa na história do Brasil e as Jornadas de Junho devem nos servir de alerta para o futuro que precisamos construir. Estou certo de que as nossas lutas só não são mais efetivas em função das direções que hoje temos. Isso porque não se pode conceber que tendo picos de greves em 2012 e 2013 (877 e 2050 greves, segundo o DIEESE), não tenhamos sido capazes de construir a necessária greve geral.

Espero sinceramente que a camisa vermelha que usou nos atos pró-governo de ontem, voltem a lhe adornar o corpo no futuro próximo. Temos um ato marcado para o dia 1º de abril, chamado pelo Espaço Unidade de Ação, a CSP-Conlutas e outras entidades que fazem oposição de esquerda ao governo. Ficaria feliz em caminhar na rua ao seu lado. Estaria ainda mais feliz se refletisse sobre esses anos todos do lulismo e o rumo que você e o país tomaram. Podemos não ser mais amigos, mas não me custará voltar a chamá-lo de companheiro nas lutas que teremos pela frente. Ainda acredito que o futuro pertence aos trabalhadores.

Saudações socialistas,

Carlos Zacarias

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