Socialismo, barbárie ou apocalipse zumbi

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Carlos Zacarias de Sena Júnior  |

Esqueça tudo o que você sabe (ou acha que sabe) sobre zumbis. Deixe de lado o preconceito e ignore que o gênero nasceu de filmes B de fins dos anos 1960 tornados clássicos nas décadas seguintes. Tome coragem e se ponha diante da TV ou da tela do computador para encarar as cinco temporadas completas e a sexta que está em curso de uma das séries de maior sucesso da atualidade, e, creia: você não vai se arrepender. The walkikg dead vai lhe surpreender e lhe colocará questões que você nem imagina que fosse pensar a partir de uma série sobre zumbis trazida dos quadrinhos para a TV na virada da primeira década do século XXI.

Em verdade, como sugere Robert Kirkman, autor dos quadrinhos, produtor executivo e idealizador da série televisiva junto com Frank Darabont, The walking dead é sobre seres humanos e não sobre zumbis, aqueles mortos-vivos imortalizados (com o perdão do trocadilho) por George Romero em 1968 com o clássico A noite dos mortos vivos (Night of living dead). Todavia, esteja preparado para rios de sangue, corpos em processo de decomposição expostos permanentemente, mortes inesperadas e “ressurreições” macabras, cabeças rolando depois de voarem alguns metros arrancadas pela espada inclemente de Michonne, personagem de Danai Gurira, e, principalmente, esteja a postos para botar os miolos para funcionar diante de inúmeros dilemas morais enfrentado pelos humanos da série.

Não há como escrever sobre uma série em sua sexta temporada sem cometer diversos spoiler, portanto o leitor desse artigo, especialmente o interessado na série que ainda não se iniciou nas temporadas, deve estar preparado para isso. Caso pretenda se surpreender, é melhor largar o texto de lado, ir assistir aos capítulos e depois tretornar para conferir se o que aqui está dito procede. Entretanto, tomarei o cuidado de evitar revelações muito importantes para não tirar o prazer daqueles que irão se aventurar sobre o universo dos zumbis (chamados walkers pelos personagens) e do grupo do policial Rick Grimes (Andrew Lincoln) na sua desesperada tentativa de sobreviver ao apocalipse zumbi.

A série

The Walking Dead conta a história de um grupo de sobreviventes a um apocalipse de zubis. A história se inicia nos arredores da cidade norte-americana de Atlanta, capital da Georgia, mas ganha as estradas ao longo das temporadas, especialmente em zonas rurais, sem que o telescpectador saiba exatamente em que cidades ou quis caminhos os sobreviventes estão percorrendo. O grupo de humanos que protagoniza a série é bastante variado, porque os produtores e idealizadores da série não tem grande predileção por muitos dos protagonistas que tombam pelo caminho. Todavia, há um núcleo de personagens que se conforma ao longo das temporadas que é liderado pelo policial Rick Grimes. Rick dirige os sobreviventes na desesperada busca por refúgio diante das hordas de mortos-vivos que vagam em busca de carne humana. Os sobreviventes ao apocalipse, assim como o telespectador, tem conhecimentos bastante limitados sobre o que realmente está acontecendo no mundo ou sobre o que causou o que chamam de “epidemia”, mas ao longo do tempo vão descobrindo, da pior forma possível, que todos estão potencialmente contaminados e qualquer um que morra está condenado a se tornar um zumbi, situação que só pode chegar a um termo com a destruição do cérebro daquele que se tornou um morto-vivo.

A série, que não poupa em mobilizar centenas, talvez, milhares de figurantes travestidos de zumbis, é fundamentalmente sobre os dramas e dilemas que o grupo de Rick Grimes enfrenta numa situação extrema e desesperadora, com zumbis comedores de carne e grupos de humanos que perderam toda a dimensão de civilidade e todas as regras morais atuando como uma permanente ameaça a sobrevivência e integridade do grupo. A série, embora nos remeta imediatamente ao clássico de Geroge Romero e seus sucessores, como O despertar dos mortos, de 1978 (Dawn of the dead), Dia dos mortos, de 1985 (Day of the dead) ou os inúmeros remakes dos anos seguintes feitos por muitos diretores, nos faz lembrar, também, do universo criado por José Saramago no Ensaio sobre a cegueira, transformado em filme homônimo de Fernando Meireles em 2008. As principais questões que se colocam na série, e que também apareceram no livro de Saramago e no filme de Meireles, dizem respeito ao que é humano: em Saramago somos convidados a refletir sobre “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”, sobre a necessidade de dar a enxergar àqueles que apenas veem (ou nem isso). Em The walking deadi somos levados a pensar em como sobreviver em um mundo cuja moralidade, civilidade e regras éticas foram ultrapassadas pela caótica realidade? Os padrões vigentes na sociedade burguesa serão mantidos? Haverá propriedade, família nuclear, hetero-normatividade e monogamia? Como enfrentar a adversidade extrema, se perfilando aos demais humanos, a um pequeno grupo ou optando pela saída individual? Como encarar os dilemas relativos ao homicídio, suicídio e nascimento? Seria lícito procriar? Como seria encarado o aborto? Seria legítimo seguir acreditando em Deus e praticando alguma religião? Enfim, há uma infinidade de questões que nos são consciente ou inconscientemente apresentadas e nós somos convidados a refletir sobre os diversos temas.

O significado dos mortos-vivos no cinema e na TV

Vez por outra o cinema e a TV ficam repletos de um tipo de filme ou de série que se multiplicam aos borbotões. A indústria cinematográfica, especialmente a hollywoodiana, reflete a realidade, por vezes de maneira distorcida, então em tempos de crise econômica ou catarses políticas, não raro, o cinema incorpora, ainda que metaforicamente, a impossibilidade da civilização burguesa, da sociedade de consumo e do modo de produção capitalista através dos filmes de zumbis, do cinema catástrofe ou de outras modalidades de gênero. Não à toa, o gênero “terror com zumbis” surgiu em fins da década de 1960, quando os sinais da crise econômica que atingiria o planeta a partir de 1973 com o choque do petróleo pintaram a realidade e o futuro em cores sombrias. Os filmes de mortos-vivos proliferaram a partir dos anos 1970 e sobreviveram com relativo sucesso até meado dos 1980, sendo sucedidos pelas obras do cinema catástrofe, que na década de 1970 e 1980 fizeram imenso sucesso, como a série de filmes Aeroporto (1970, 1974, 1977, 1980), O destino do Poseidon (1972), Inferno na torre (1974), Terremoto (1974) e O dia seguinte (1984) e inúmeros outros. Não obstante, nenhum filme foi tão significativo dos medos da sociedade burguesa, medos esses transfigurados em recalques e pavores do subconsciente do indivíduo, como Tubarão, clássico de Steven Spielberg produzido em 1975.

Hollywood nunca permaneceu imune à realidade, muito embora a exclusão de atores negros na premiação do Oscar de 2016 possa sugerir o contrário. O fato é que a indústria reflete a realidade, às vezes de maneira inconsciente, como os gêneros e filmes aqui aludidos, às vezes de maneira consciente e ideologicamente programada, como no caso do filme Vampiros de almas, filme de Don Siegel de 1956, época do auge do macarthismo e da guerra fria que retratava uma invasão alienígena de seres que através de plantas replicavam os humanos, tomando sua consciência e pondo-os aa favor dos intentos maléficos e não revelados dos extraterrestres. O filme ganhou um remake de Philip Kaufman em 1978 e outro de Abel Ferrar em 1993. No primeiro caso a atmosfera da guerra fria ainda era sentida, de modo que os invasores de corpos poderiam ser tomados como os temidos soviéticos, doutrinadores de mentes e transformadores de corpos humanos e individualizados em robôs programados para intentos escusos. Já o remake da década de 1990, embora tendo perdido a força da referência aos temidos “comunistas”, devido a desagregação da URSS, ainda mantinha o argumento de que podemos ser alvos de doutrinação que pretende vampirizar a nossa alma e dirigir nossos corpos.

Filmes de gêneros diversos refletem a realidade, às vezes distorcidamente, às vezes de maneira rasa e direta. Neste último caso, as séries de filmes Rambo e Rocky, ambos estrelados por Sylvester Stallone, edificaram os inimigos dos norte-americanos desde os vietcongues e soviéticos nos anos 1980, sempre lembrados como inimigos irreconciliáveis, até os grupos de mercenários envolvidos nas intermináveis guerras do oriente dos tempos pós-queda do Muro de Berlim. A temática rasteira e o enredo pobre das duas séries que fizeram grande sucesso no cinema nas décadas de 1980 e 1990, não impediram que os personagens centrais se tornassem o alter ego do cidadão estadunidense médio, sendo importante objeto de teses sociológicas sobre a forma como o império representa os seus desafetos e como o norte-americano médio se percebe diante dos conflitos geopolíticos que lhe são impenetráveis.

Filmes sobre zumbis, entretanto, passaram a filmografia como clássicos dos “filmes B”. Ou seja, eram películas de categoria inferior, de baixo orçamento, com o objetivo único de entreter, com razoável viabilidade comercial e que normalmente empregavam atores desconhecidos ou decadentes. Quanto a isso, The walkind dead em nada lembra as produções de “filmes B” da indústria cinematográfica, muito ao contrário. Também embora seja entretenimento garantido, The walking dead não é diversão fácil, posto que seus personagens complexos, seus temas espinhosos, sua atmosfera sombria e sua distopia apocalíptica são um convite a reflexão e a busca de alternativas.

Dilemas morais

A temática central de The walking dead tem a ver com zumbis, mas é sobre o grupo de humanos que se colocam as principais questões. Considerando que os zumbis são apenas a carne podre de uma humanidade que deixou de ser humana, ou seja, na medida em que se tornam mortos-vivos os indivíduos não são mais portadores de qualquer humanidade, pois não têm memórias, valores, referências. São apenas movidos pelo desejo irascível e instintivo de mordiscar carne fresca, sem medir esforços ou temer perigos. Neste sentido, matar um zumbi não é apenas uma obrigação moral diante do ser que perdeu a humanidade e que necessita de compaixão para gozar do merecido descanso, é dever de sobrevivência de quem espera passar incólume diante das hordas famintas. Não obstante, se parece fácil matar um zumbi desconhecido, como lidar com entes queridos que foram transformados em mortos-vivos? Deve-se cravar uma faca ou enfiar uma bala no crânio de um ser que ainda guarda a aparência de seu pai, mãe, irmão, filho ou esposa? Ou deve-se preservar aquele ser bizarro a salvo, de modo a aguardar uma improvável cura para a “epidemia”? Como lidar com crianças que foram transformadas em zumbis? Será que se deve ter a mesma inclemência que se observa diante de mortos-vivos adultos e ameaçadores?

The walking dead aborda os dilemas morais com maestria, mas não faz concessões ou estabelece meios-termos diante de questões tão profundas que se tornam questão de vida ou morte para os personagens. Tanto que no primeiro episódio da série “Dias passados” (“Days gone bye”), após acordar do coma e encontrar o hospital revirado, Rick Grimes toma pé da nova realidade que o cerca e da ameaça persistente. Após se vestir novamente de policial, Grimes se depara com uma criança zumbi numa das cenas mais fortes da primeira temporada, após se espantar com o inusitado de uma menina que se agacha para pegar um brinquedo de pelúcia e depois se revela uma zumbi, Grimes mira com seu 38 o crânio do pequeno ser e lhe mete uma bala na cabeça. Situações deste tipo, que é a primeira cena da série, serão comuns nas temporadas seguintes e essa cena é apenas um aviso que sobreviver ao apocalipse zumbi não é para os fracos, assim como atravessar as temporadas também não é para corações mais frágeis e emotivos.

Na segunda temporada o tema retratado acima volta ainda com mais força, visto que a criança que se torna zumbi não é mais uma estranha, mas sim a filha de uma das protagonistas, Carol Peletier, interpretado pela atriz Mellissa McBride. Desde a primeira temporada somos tomados de grande empatia pela personagem Carol, na medida em que entendemos seu drama diante de um marido machista e violento. Este não demora muito na história e Carol segue na sua nova vida de “viúva” criando a única filha Sophia (Madison Lintz) que se desgarra do grupo numa situação de perseguição por zumbis para reaparecer no episódio 7, “Praticamente morto” (“Pretty much dead already) transformada num zumbi e preservada num celeiro pelo fazendeiro Hershel, patriarca de uma família que se junta ao grupo de Grimes na segunda temporada. Ao ser descoberta junto com mais de uma dezenas de zumbis que eram guardados por Hershel por compaixão e para uma possível futura cura, depois da fuzilaria de todo o grupo diante dos zumbis que vão saindo do celeiro, Sophia, que até então permanecia desaparecida, reaparece transformada em zumbi numa das cenas mais chocantes e pungentes de toda a série. Então parte para cima do grupo com a fome de uma pequena zumbi. Diante dela, apesar do desespero de Carol, sua mãe, que corre aos prantos na direção de sua filha até ser detida por Daryl (Norman Reedus),  apesar dos conflitos entre Rick e Shane (Jon Bernthal), policial parceiro de Rick e principal antagonista do herói nas duas primeiras temporadas, Sophia tem o destino de todos os zumbis e perece pela segunda vez com uma bala alojada na cabeça disparada por Rick Grimes.

O dilema enfrentado por Rick Grimes, que age como líder do grupo, não se resume à situação limite relatada. Há diversos outros dilemas que perpassam a história e atravessam as temporadas com soluções improváveis. A começar pelo triangulo amoroso surgido na primeira temporada, quando Shane assume uma relação com Lori Grimes (Sarah Wayne Callies), então esposa de Rick, enquanto este permanecia em coma e ninguém mais sabia seu paradeiro depois do apocalipse zumbi. Rick e Lori se reencontram para juntar toda a família que tem ainda o pequeno Carl Grimes (Chandler Grimes), filho do casal. Mas o que seria uma família depois de os zumbis tomarem conta do pedaço? Haveria espaço para a monogamia e para uma família nuclear? A reposta não parece fácil, já que não se pode criar um ser humano novo da noite para o dia e os personagens, por coerência da série e competência dos criadores, vão se descobrindo outros seres, com outra moral ao longo do tempo. Ainda assim a família é preservada e o triangulo amoroso vai se desfazendo a partir da escolha de Lori que termina por ficar grávida, tendo dúvidas quanto a paternidade do bebê.

Outros dilemas morais desfilam pela tela da TV ao longo das cinco temporadas, mas desde os primeiros momentos somos desafiados a pensar sobre o sexo, desejo, propriedade, família, aborto, suicídio, e homicídio. Quanto a este último tema, seria moral matar um ser humano que nos aparece como uma ameaça? Como educar uma criança nos marcos do mundo pós-apocaliptico? Seria correto ensinar-lhe a matar?

Que fazer?

The walking dead propõe questões de grande importância para quem quer que se importe com o mundo e principalmente para os que lutam pela sua transformação. Não por acaso, o sucesso da série já ensejou trabalhos filosóficos, como o livro The walking dead e a filosofia, publicado no Brasil em 2013.[i] Todavia, para os marxistas, há algumas questões que chamam atenção na série, pois se relacionam ao papel assumido pelo grupo de Rick Grimes, a importância da sua liderança, as dimensões do centralismo e da democracia, o papel e dimensão do indivíduo e da subjetividade na história que ensejam muita discussão e debate em sucessivos episódios.

Nas três primeiras temporadas há hesitações, disputas e tergiversações que ocorrem em função do papel de liderança que é assumido por Grimes. De certo que o policial não estava exatamente talhado para assumir tal papel diante de uma situação como a que ocorre na série. Paulatinamente, entretanto, vai tomando os desafios como sua responsabilidade e vai ganhando respeitabilidade e confiança do grupo. Isso porque exerce a liderança com sensatez, paciência, sabedoria e autoridade. Também se dispõe a assumir tarefas que a maioria hesita ou não parece apta a cumprir. O primeiro grande desafio enfrentado por Grimes é a disputa pela direção do grupo que trava com Shane nas duas primeiras temporadas. O parceiro de Rick, apesar do importante papel que havia cumprido na manutenção da coesão dos sobreviventes nos primeiros momentos pós-apocalipse, mostra-se um líder incapaz, tirânico, demasiado truculento. Diante da ascensão de Rick, ao lado da disputa amorosa, sente-se ameaçado e tenta desacreditar na capacidade de direção do parceiro. Shane desconfia e desdenha publicamente da liderança de Grimes, que é percebida como bastante frouxa e hesitante por Shane. No final das contas, Shane caminha para um beco sem saída quando, incapaz de se por à altura de Rick em importância e ascendência diante do grupo, inicia um processo de degeneração da sanidade mental, ficando praticamente incontrolável. O conflito entre os dois chega ao fim no penúltimo episódio da segunda temporada, intitulado “Melhores amigos” (“Better angels”), quando Rick mata Shane após uma luta corporal e após este dizer que era melhor pai para Carl e melhor marido para Lori.

Na terceira temporada a liderança de Rick Grimes se afirma, ainda que, vez por outra, ele se sinta incapaz ou seja desafiado pelos demais membros do grupo a assumir cada vez mais responsabilidades. Pelo desenrolar da história, percebe-se claramente a forma como os idealizadores da história pretenderam complexificar o personagem principal de The walking dead. Ao desenvolver os dramas, conflitos e dilemas da personalidade de Grimes, algo que se agiganta diante da imensa responsabilidade que a liderança lhe impõe, os autores criaram um dos mais importantes fios condutores da narrativa.

Para os que descreem nas vanguardas, costumo brincar dizendo que eu também não acredito em vanguardas, mas que elas existem, existem. Costumo citar que até mesmo no programa televisivo Big Brother Brasil é possível perceber a liderança depois de uma ou duas semanas de confinamento. Ou seja, as lideranças e vanguardas são necessárias e indispensáveis aos agrupamentos humanos e The walking dead desenvolve esse tema com maestria. Da mesma forma pode-se perceber como centralismo e democracia se combinam, redundando em coesão, em meio ao conflito e a cooperação, também indispensáveis na edificação das direções. Quanto a este tema, ante a principal ameaça humana à existência do grupo representada pelo Governador (David Morrissen), uma figura sinistra que dirigia a comunidade aparentemente saudável de Woodbury, Rick não hesitou em nenhum momento em baixar o centralismo e a “ordem-unida” quando seu grupo esteve prestes a se desfazer. Da mesma forma, quando parte do grupo foi aprisionado em Terminus, uma vã promessa de acolhimento e vida digna, Grimes proferiu a frase: “Eles mexeram com as pessoas erradas!”. Ou seja, diante das ameaças e da hostilidade do entorno, manter um grupo unido e coeso é tarefa das mais difíceis e é aí que se sobressaem as verdadeiras lideranças que são as partes principais das vanguardas. Com efeito, não apenas Rick Grimes é uma liderança política e organizativa fundamental, mas há outros personagens que se destacam pelo seu papel no grupo, como Michonne, que tem uma destreza impressionante com a espada e é capaz de solucionar conflitos e estabelecer pontes, Glen (Steven Yeun), que tem grande capacidade organizativa e espírito de corpo, Carol, que depois da morte do marido e da filha vai se revelar uma das peças mais importantes do grupo, tomando decisões difíceis e arriscadas e arcando com as sanções com a sabedoria de quem virá depois a compor com Grimes a melhor dupla de direção, e Daryl, que é o componente militar do grupo e capaz de executar tarefas como poucos, com imenso senso de disciplina, grande coragem e desprendimento. São essas qualidades que fazem do grupo de Rick Grimes aquilo que de melhor a humanidade foi capaz de produzir no pós-apocalipse zumbi e é nesse grupo de depositamos nossas esperanças de futuro.

A moral deles e a nossa

The walking dead também não teme tocar em outros temas espinhosos, como o racismo, por exemplo. Há vários personagens negros de grande importância que se sucedem na trama, como Michonne, T-Dog (Irone Singleton), Sacha (Sonequa Martin-Grenn), Tyreese (Chad Coleman) e na última temporada, Morgan Jones (Lennie James) que dá sinais de que vai rivalizar com Rick pela liderança do grupo em função do seu espírito pacifista que discorda dos métodos que lhe parecem excessivamente belicosos de Grimes que em muitas situações precisou matar seres humanos para preservar seu grupo e também a humanidade.

Na primeira temporada o racismo aparece em cores vivas na cidade sulista de Atlanta, capital da Georgia, quando Merle Dixon, personagem de Michael Rooker, irmão de Daryl, ao ser desafiado por T-Dog, ou Theodore Douglas, quanto as opções de fuga lhe dirige impropérios racistas e lhe agride brutalmente até ser impedido por Rick, que termina lhe algemando no encanamento do terraço de uma loja de departamentos que está cercada por zumbis. Acidentalmente, T-Dog deixa cair a chave das algemas e o grupo bate em retirada, deixando o racista Merle preso e a mercê dos zumbis que avançam e ameaçam derrubar a porta que os separa do irmão de Daryl. A cena é incômoda, tanto pelo racismo quanto pela solução que é oferecida ao telespectador, mas não há meio-termo na opção dos autores da série, pois a punição de Merle pelo crime de racismo é quase a imposição da pena capital.

Depois vamos reencontrar Merle e descobriremos que ele escapou amputando a própria mão. A atitude corretiva aplicada por Rick e T-Dog parece não ter surtido muito efeito, pelo que se pode ver nas sequências em que Merle aparece alinhado ao Governador. Mas o fato de que seu irmão Daryl é um dedicado membro do grupo que termina por contornar suas diferenças com Rick para vir a ocupar um papel-chave no coletivo e na trama demonstra que não há determinismo cultural, genético ou geográfico que faça com que alguém seja racista após crescer numa sociedade racista. Com efeito, Daryl, tendo passado pelas mesmas dificuldades do irmão e tendo crescido nas mesmas condições de idiotia que a vida rural num estado sulista dos estados Unidos proporciona, superou suas limitações e se tornou um homem melhor.

Se o racismo vai aparecer de forma incômoda em muitos episódios, o machismo também aparece e traz os mesmos traços de desconforto. Neste aspecto, o telespectador se reconforta quando Ed Peletier (Adam Monarovich), o marido machista e agressivo de Carol, que vez por outra a espanca, é mordido por zumbis. Da mesma forma, grupos hostis de humanos que não respeitam as regras de humanidade e civilidade que vão sendo estabelecidas no mundo pós-apocalíptico, também são retratados com extrema antipatia, pois se é necessário se criar novas regras pós-civilização burguesa, mesmo diante do caos e da barbárie, tais regras precisam levar em conta as necessidades dos indivíduos e as possibilidades de cada um.

The walking dead é uma série triste, porque a distopia é um elemento predominante e a solidão das multidões de walkers (andarilhos, caminhantes ou simplesmente zumbis na tradução mais conhecida no Brasil) não deixa de lembrar a solidão do mundo contemporâneo sob a égide do capital que aliena e atomiza o indivíduo. No que se refere a dimensão distópica da fantasia apocalíptica da série, não há como deixar de imaginar o quão desesperador seria o mundo dominado por seres sedentos de carne humana, um mundo sem governo, leis, ou regras mínimas de civilidade. Ainda assim é possível extrair esperança do quadro desolador que se vê em The walking dead, pois na série encontramos solidariedade, cooperação, amor fraterno e sensual entre indivíduos do sexo oposto e do mesmo sexo, organização e luta pela sobrevivência e por um mundo melhor. Posto que a humanidade só se coloca problemas que é capaz de resolver, o grupo de Rick Grimes é a expressão da sociedade futura, o embrião de um tempo novo, de uma nova humanidade dialeticamente superior a humanidade acossada pelo apocalipse zumbi e também pela civilização burguesa.

Os humanos sobreviventes do grupo que protagoniza a série, que poderia ser tomado como uma espécie de partido, com suas fronteiras, seus membros e seu programa em permanente (re)elaboração podem não saber, mas a solução para a epidemia se resume à máxima conhecida desde o início do século XX: socialismo ou barbárie!

[i] ROBICHAUD, Christopher (Org.). The walking dead e a filosofia. Espingarda. Revólver, Razão. Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.

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