Uma concepção marxista de homem

Antonio Rodrigues Belon  |

 

Existirmos: a que será que se destina?

(…)

Apenas a matéria vida era tão fina

E éramos olharmo-nos intacta retina

(…)

Caetano Veloso – Cajuína

Desvendar o título geral vale como uma introdução. Quando se fala de uma concepção marxista, se fala de uma concepção singular, entre outras, as não marxistas, em geral. O objeto da concepção apresentado no título por uma preposição entre o antecedente, a concepção marxista, e o consequente, o homem, sem o artigo, indica o caráter geral dele. Uma concepção singular, a marxista, de um objeto geral, posto como o homem, genericamente. Em nome da clareza, a explicitação cabe: o homem aqui é mulher e é homem.

Uma concepção é um conceito, no ponto de partida, e uma palavra, um termo no ponto de chegada: isto de dentro para fora. Ou uma palavra, um termo, um conceito, uma ideia, uma noção, de fora para dentro, e em alargamento. Uma concepção marxista, no interior de uma tradição, de uma corrente, com a referência máxima e central, em Karl Marx (1818-1883). O título abriga relações, diretas, e antecipadamente explícitas, entre dois polos – o polo da concepção marxista e do objeto dela, o homem.

 Ontologia do ser social

O homem como um ser material e vivo e social e histórico: primariamente a materialidade, e nela, a vida; e, na vida, o homem, social e histórico. O homem material, vivo e social. Repetições impostas pelo processo de concepção e consolidação das esferas da ontologia: matéria, vida e sociedade.

Isto permite o estabelecimento das bases de uma ontologia: uma ontologia do ser social. Dito de outro modo, com simplicidade, e explicitamente: o homem é um ser social, vivo e material. Sem tirar, nem pôr.

Os pilares do homem

Cumpre apontar os três pilares do ser social, do homem: o trabalho, a sociabilidade e a consciência. Pelo trabalho o homem torna a natureza, sempre material, e às vezes, viva, em objeto apropriado à sua existência. Previamente a esta objetivação ocorre a idealização, dos objetos e dos processos, ou seja, a consciência entra em movimento. Para isto ocorrer os homens, agora no plural, contraem relações com outros homens, a sociabilidade. Trabalho e sociabilidade implicam em atividade. Atividades em desdobramentos: a essência humana é a autoatividade criadora da subjetivação. As objetivações multiplicam os objetos; os processos de subjetivação, simultaneamente, multiplicam as subjetividades, os sujeitos.

Temas relevantes

No estudo do homem, o aprendizado e o conhecimento, o concreto e o abstrato, a alienação e a liberdade constituem um arco de temas relevantes.

O aprendizado concebe-se como uma atividade investigativa nos aspectos subjetivos e objetivos. O conhecimento, agora já sob as exigências contemporâneas, no capitalismo, requer o encontro de suas linhas fundamentais no interior de bases materiais e das classes sociais. Percorre as instâncias do concreto e do abstrato. O concreto configura-se como síntese, totalidade. Da análise, do inventário dos elementos, em passagem pelo abstrato, chega-se ao concreto, ao conceitual. As categorias fundamentais – natureza, trabalho e sociedade – permitem uma síntese totalizadora, da discussão ontológica em andamento.

 Idolatria e alienação: o despedaçamento do homem

Na idolatria, conceito amplamente circulante no senso comum, sabe-se da transferência para objetos sem vida, da vida e do ânimo, dos seres vivos, especialmente, os seres humanos. Caracteres próprios do homem tornam-se alheios, alienados. Ocorre um estranhamento; uma alienação. Uma primeira aproximação do problema legitima a evocação de elementos tão singelos. Da idolatria à alienação – o fetichismo, o animismo, o estranhamento, são pontos intermediários. O fetichismo, o animismo, atribuem alma, vida e ação, onde e quando não existam.

Na organização social da independência dos produtos do trabalho em relação a quem trabalha, novamente a separação, o estranhamento, a alienação em formas desdobradas.

Nas relações sociais como coisas, face inversa e complementar da alienação, a totalidade do homem transforma-se em parcialidade. E mais: o homem como a coisa do homem replica o trabalho como coisa. O despedaçamento do homem assume o primeiro plano. Ocorre a separação e a oposição entre o gênero humano (omnilateralidade) e os indivíduos humanos (unilateralidade). Ninguém é ninguém; nada. A plenitude dissipa-se; tudo inviável. Sem humanização; nela, a coisificação. O vazio apaga o pleno; o humano, feito planta sem água, seca.

Na concepção marxista de liberdade, ela é humana e estreitamente articulada à atividade, diferente da adaptação das espécies – da vida animal à vida humana – o trabalho livremente associado abre-se na condição de horizonte de estabelecimento da plenitude do homem, omnilateralmente.

 Dialética, materialismo e consciência  

Para deslindar o par dialética e materialismo importa ponderar o ser em movimento, em processo e nas contradições. As contradições, as quantidades e as qualidades e as negações estabelecem um âmbito lógico específico. Para além da lógica formal. Um percurso efetivando-se do senso comum à lógica dialética. Mas e o materialismo? Materialismos? Os materialismos – o clássico, o mecanicista, o vulgar, o metafísico, o dialético… Para recuperar o materialismo dialético: o ser em sua materialidade, em seus movimentos, em seus processos.

A consciência como um reflexo – mas o que é um reflexo? – a práxis e a totalidade articulam-se na terminologia e nas concepções da dialética. Ou, retomando a frase e a interrogação: um reflexo, na lógica dialética não é especular somente, como se fosse um espelho qualquer, mas é interdependente da práxis e posto no interior da totalidade. Carrega as tensões do real. Carrega-se nas tensões do real. Assim a consciência como reflexo irrompe em sua força.

A consciência, a subjetivação e a objetivação, põe, centralmente, a práxis e a inseparabilidade entre a teoria e a prática. Põe e repõe, repetidamente, repetitivamente, o caráter mundano, terreno, do pensamento. Consciência, práxis, totalidade, na esfera de suas relações e de seus movimentos, exigem uma reafirmação, uma explicitação:  o marxismo é uma totalidade aberta como um ser vivo. Material, vivo, social, é o ser, é o real: aberto e em processo.

As ideologias e as classes sociais

No labor por uma concepção marxista de homem não se pode desconsiderar as ideologias e as classes sociais. Embora a importância das relações de produção, ir além do econômico é uma necessidade. Claramente, uma concepção materialista das ideologias incorpora a inseparabilidade – sem a identidade – do fazer e do pensar. Isto não é redução ao econômico, mas compreender a extensão e a abrangência das relações de classes e as ideologias.

O aspecto da realidade mais penetrante para o ser do homem é o das classes sociais. Os aspectos históricos e os estruturais das classes sociais – em outros tempos e lugares, camadas, estamentos, castas… – estabelecem relações estreitas com os modos de vida respectivos.

Agora, na contemporaneidade, as classes sociais fundamentais – a burguesia, os latifundiários, o proletariado, ou, a força de trabalho e a prole – na dimensão classista, permeiam o modo de vida no capitalismo. Permeiam contraditoriamente; em dinâmica aberta sob os pontos de vista social e histórico.

Metáforas para organizar a casa

No marxismo, com alcance necessário na generalidade das concepções desta tradição, infraestrutura, estrutura e superestrutura, são três palavras, termos e conceitos. Uma metáfora para apreender, comparativamente, o real como costuma acontecer. Para aclarar as dimensões de uma metáfora, ou metáfora para uma metáfora: como uma casa construída por alicerces, paredes e telhado. A casa é a totalidade. Nem alicerces, nem paredes e nem telhados ganham razão de ser sem cada um relacionar-se aos dois restantes e, simultaneamente, à casa inteira. Ou seja, relações no âmbito da totalidade.

Como conceber o homem, afinal?

Uma concepção marxista de homem encara as correntes no pensamento contemporâneo: reacionárias, contrarrevolucionárias, conservadoras, reformistas, individualistas, anarquistas, multiculturalistas, pós-modernistas… e revolucionárias. Muito difícil é andar por uma floresta de termos sem pisar em espinhos.

Para conceber o homem, o marxismo concebe de forma intrinsecamente articulada uma gama de aspectos das muitas esferas do ser, da realidade. Para recuperar o percurso de uma ontologia a uma proposta de ação, apreende a essência humana na autoatividade criadora da subjetivação: este é o conceito de homem no marxismo.

REFERÊNCIAS

PEÑA, Milcíades. O que é marxismo? Notas de iniciação marxista. Tradução Paula Maffei. São Paulo: Sundermann, 2014.

MÁRKUS, György. Marxismo e antropologia: o conceito de “essência humana” na filosofia de Marx. São Paulo: Expressão Popular; Criciúma (SC): EDIUNESC, 2015.

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