O «espectro da autodeterminação» 3: (re)conhecer-se a si e mudar o mundo

Perry Anderson (Ent.) | Betto della Santa (Org.) |

Ou o «espectro da autodeterminação» no marxismo-mundo de Perry Anderson* (3 de 3)

“Isso significa que todo o campus universitário estava em apaixonante fúria, eu diria, com discussão política, tensão e polêmica. Não se tratava de um ‘movimento de questão única’, tal como foi com a Guerra do Vietnã […] você tinha estes dois acontecimentos completamente diferentes – o que estava acontecendo na Europa, ou o quê era o comunismo, e qual era o seu destino –, e, ao mesmo tempo, o que estava acontecendo no Oriente Próximo, relativo ao colonialismo, ao imperialismo e aos seus desdobramentos. Então foi virtualmente impossível – para qualquer jovem ser vivo deste então – não ser, rápida e profundamente, politizado radicalmente pela experiência histórica.” (Entrevista de Anderson para o Programa de Berkley Conversations with History, UCLA, 27 de Abril de 2001.)

Existe alguma garantia de que o relato, oral, autobiográfico, de um historiador, profissional, de ofício, possa ser humanamente mais objetivo por conta de uma sua especialização técnico científica? A resposta é, obviamente, um rotundo não. Historiadores não tem qualquer salvo-conduto corporativo para se livrar tão candidamente à tão-citada advertência metodológica, por razão de quaisquer «carteiradas» de área, por assim dizer. Tampouco podem suspender-se da condição de indivíduos do gênero humano, assim como o Barão de Münchhausen não é capaz de soerguer-se do banco de areia movediça puxando-se pelos próprios cabelos. Já se disse que não se deve julgar ninguém baseado naquilo que concebe sobre si próprio. Sábia decisão. Entre aquilo que já foram e o que virão a ser as pessoas dificilmente podem ter uma clara percepção sobre como, e quanto, mudam. São, portanto, maus juízes de si mesmos. Até porque Paulo só se dá conta de sua natureza paulina quando confrontado ao joseano caráter de José. E viceversa. Nenhum homem é uma ilha. Mas todos têm uma história.

A série de artigos que aqui/agora chega ao fim tratou de acompanhar o tema do assim-chamado espectro da autodeterminação ao largo de alguns colóquios, trabalhos e entrevistas que perfazem a obra ampliada do marxista angloirlandês Perry Anderson. Na primeira nota versamos, de modo mais leve e descontraído, sobre uma introdução, quase como em uma coloquial conversação, a respeito do que se poderia entender sobre o “fazer história”. No ensaio subseqüente enfrentamos, de forma mais rigorosa e atentiva, à maneira de uma investigação historiográfica, ao quiçá ponto mais alto de sua produção teórica a respeito de assunto tão candente. E no conclusivo tertium datur, ora em tela, vamos tentar observar algo mais de perto como Anderson narra e descreve acontecimentos e processos que levaram à sua própria radicalização política. Mais do que aproximar a distância de um Oceano que separa Europa e América trata-se aqui de fazer falar às fontes. Agora, fazendo o uso de não-tão-poucas palavras, seu concidadão histórico-mundial, Perry R. Anderson.

O autor fala sobre o campus de Oxford, a formação da Nova Esquerda durante os anos rebeldes na Inglaterra, o nascimento da revista de ideias New Left Review (NLR), as polêmicas historiográficas (e diferenças geracionais) entre Thompson e ele, o trabalho da NLR na Inglaterra e no mundo e, por fim, a forma e o sentido de seus próprios escritos. O material a seguir pode ajudar a elucidar algumas questões pouco conhecidas de sua trajetória.

[Nota preliminar: o material que segue se trata de uma edição de três entrevistas distintas, concedidas em variadas ocasiões, e com formatos diversos: i) a primeira ao Programa University of California Conversations with History (Berkeley, California, 2001), ii) a segunda ao Programa Café Filosófico CPFL/TV Cultura (Campinas, São Paulo, 2013) e iii) a terceira ao Programa Fronteiras do Pensamento UFRGS/PUCRS (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 2013) além de lectures, palestras e uma breve conversação que tivemos com o autor à altura da qualificação da tese de doutorado apresentada sobre sua vida intelectual e política (Unesp, São Paulo, 2014). Não se trata, obviamente, de um texto, como se diz, pronto e acabado. E tampouco foi submetido a uma qualquer revisão do entrevistado/palestrante/interlocutor. Mas aproxima, um pouco mais, o público brasileiro de seu perfil político-intelectual.

O reagrupamento de matéria intenta, contudo, seguir o ritmo do pensamento do intelectual angloirlandês nas muito raras oportunidades em que se deteve, mais acuradamente, sobre sua própria trajetória: Anderson literalmente odeia entrevistas desse tipo. À história das ideias de suas próprias ideias, já bastante arriscada, acrescentamos, portanto, novos perigos. A cautela fornecida, não obstante, provém de uma investigação, paciente e meticulosa, que não começou ontem e não terminará amanhã. A advertência editorial é amiga, justamente, porque avisa. Fôssemos adjudicar algum gênero póstumo para a presente entrevista seria a do autorrelato tópico. Aqui o interesse é pelo processo de formação política e atividade intelectual, na esfera pública, do autor. Trata-se, propriamente, de nossa área de especialização. Por fim, a tradução e a adaptação de cada excerpto correm aqui por nossa própria conta e risco.

O resultado final não deixa de ser atípico, pouco usual e quiçá algo heterodoxo. Para um público leitor acostumado com as intervenções e escritos de Perry Anderson muitas informações podem soar surpreendentes. E também a forma de enunciá-las. Pouca gente imaginaria um jovem Anderson que odiasse trigonometria ou não-graduado na área de História e, sobretudo, sem qualquer credencial acadêmica além de seu curso em Letras. Vamos a ele:]

***

0.

«Bem, deixe-me tentar responder, enquanto um historiador, primeiramente, com algumas notas preliminares. Vejamos. O que é o domínio ou o campo da política nas sociedades humanas? O que queremos dizer quando falamos em política? Não se trata da sociedade como um todo, mas uma área específica dela. A política se refere ao sistema de relações afins ao poder no interior de determinadas sociedades. Tudo o que tem a ver com desigualdade e equitatividade de estruturas de poder.

Há muitas outras formas de relações numa sociedade. Por exemplo, as relações de significação, que tem a ver com a cultura, podem se sobrepor à política, mas não residem propriamente em seu interior. É importante ser claro sobre o que se está tratando. Como um indivíduo passa a agir politicamente? Ter ideias políticas? Ou, como alguém se politiza? Isso, no mais das vezes, depende das circunstâncias histórico sociais de um dado tempo e espaço. Muito mais do que escolhas pessoais ou vontade individual. O individuo é importante, claro. Certamente conta nos processos e acontecimentos. Mas o ambiente exterior é o que é determinante, decisivo, para a politização de qualquer pessoa. E talvez não exista material mais inflamável para a ação política coletiva do que a injustiça. O verdadeiro detonador que engatilha esta explosão é moral.

E o que deveria ser um intelectual de esquerda, marxista? Tratar-se-ia primeiro, e mais importantemente, de cumprir a função de interpretar criticamente a sociedade na qual se vive e em segundo lugar propor ideias politicas que poderiam levar à sua transformação social. É preciso estudar e conhecer o passado social e político imediato, quais são as tradições de esquerda e marxistas disponíveis – com todas as suas limitações e problemas inerentes – se não fazer tábula-rasa disso, «deixar aos mortos enterrarem seus mortos» – o que redundará numa atitude mortuária. É preciso preservar uma memória político-histórica enquanto se faz o próprio trabalho. Nós vivemos numa sociedade muito futurocêntrica, sem senso de história. Olhar para frente com inteligência só é possível debruçando-se com força para trás.

Por outro lado envolve também um forte sentido de alteridade radical que só se obtém com deslocamentos duradouros do espaço nacional do qual se é autóctone. Para além da mera visitação turística, digamos. A internacionalização da experiência vivida, como já disse, não só como turismo ou viagens esporádicas, é o que garante a não-adesão automática a identidades nacionais que implicam a problemáticas, e questões, das quais se faz necessário o distanciamento crítico. Há sociedades inteiras que não conseguem olhar para fora e para além de si mesmas. Acontece muito com países de dimensões continentais com forte presença no mundo. Um intelectual crítico precisa se tornar concidadão do mundo inteiro. Vencer, assim, o seu próprio provincianismo.

I.

Tão logo cheguei a Oxford, em Setembro de 1956, e em menos de três semanas a invasão moscovita da Budapeste revolucionária tinha tomado lugar. Isso representou, obviamente, um gigantesco acontecimento internacional. Constituiu-se como uma enorme causa, qual seja, a de ser a favor da revolução húngara e estar contra a supressão soviética. E não parava por aí. No mesmo ano aconteceu a ocupação anglo-franco-israelense do Canal de Suez no Egito de Nasser.

Não se tratava de uma conjuntura unívoca, como a que animou a Campanha de Solidariedade ao Vietnã. Na Inglaterra em 1956 o País estava em guerra com o Egito, e um grande número de estudantes e ativista, com efeito, comprou a linha do governo: “Nasser é um novo Mussolini ou Hitler. Estamos lutando heroicamente contra os perigos de uma ditadura fascista e, portanto, defendendo a liberdade“. O que era um pacote cheio de mentiras, é claro! Mas o fato é que isso significava que em nossa faculdade havia uma atmosfera muito, muito tensa entre estes dois campos: aqueles que eram contra a guerra e aqueles que apoiaram a guerra. Essa é uma experiência memorável.

Lembro-me de ir para minha faculdade, eu estava em um dos dois colégios mais conservadores em Oxford, e havia, penso eu, apenas cerca de três ou quatro de nós [contra a guerra]. Então você entrava no bandejão, todos sentados em suas mesas, e você podia sentir a atmosfera pesada, o isolamento e a hostilidade, porque você era contra a guerra. Todo mundo estava a favor. A universidade como um todo ficou dividida mais ou menos igualmente, mas, nesta faculdade, estávamos em uma minoria muito diminuta.

Deixe-me reconstruir o período formativo em torno de finais dos anos cinquenta/sessenta na Inglaterra. O que adveio da crise e o fermento da finais de 1956 foi, entre outras coisas, o que veio a ser o fenômeno conhecido como Nova Esquerda, que, originalmente, era inglesa. Claro, os norteamericanos também falaram sobre uma, sua, Nova Esquerda do outro lado do Atlântico, e este espectro rondou o mundo inteiro. Há inclusive [desde os anos 2000] uma muito animada Nova Esquerda causando problemas às autoridades chinesas. Mas a inglesa foi de fato a primeira delas, e ela nasceu de uma negação de duplo caráter. Nasceu justamente daí.

II.

Você estava dentro da New Left se estivesse contra o que os russos estavam fazendo na Hungria e se também estivesse contra o que os governos europeus, e não o governo norteamericano, neste caso, mas os governos britânico e francês, estavam fazendo no Egito. E daí veio a necessidade de reclamar às ruas. E veio, também, uma tentativa de compreender o que são as grandes estruturas histórico-mundiais que produziram esses acontecimentos, ou, afinal, que tipo de esquerda é essa.

Foi um primeiro-ministro social-democrata francês, por exemplo, que lançou o ataque contra o Egito. E, claro, é a tradição oficial comunista, stalinista para ser mais exato, que produziu essa monstruosidade, a brutal supressão da revolução húngara. Esse foi o background. E assim sendo isso significava que você tinha que tentar enfrentar-se a uma série de questões públicas e políticas, que também foram questões intelectuais e teóricas: a história da esquerda e a história do império, já fosse o novo império soviético ou o velho império britânico.

Eu faço parte desta tradição, a Nova Esquerda inglesa, que nasceu da confluência de duas correntes, muito distintas, políticas e intelectuais, baseadas na Inglaterra, ambas cristalizadas em meados do ano de 1956. Foi esse o ano das duas grandes crises histórico-mundiais. Essas duas enormes crises, a de Suez e a de Budapeste, engatilharam, daí, dois grandes êxodos, de um lado, a revolução húngara deu lugar ao êxodo dos maiores intelectuais do Partido Comunista da Grã-Bretanha, e eles tinham muitos intelectuais no bastante pequeno PCGB; e, de outro, o ataque anglo-franco-israelita ao Egito sucedeu um êxodo desde a tradição socialdemocrata na Inglaterra, que era a do Partido Trabalhista, o Labour Party.

A partir daí, as duas correntes, uma bem mais velha em idade (PCGB), advinda da ruptura com o stalinismo, e política, e a outra bem mais jovem, e acadêmica, oriunda da ala esquerda da tradição trabalhista (LP), se fundiram, em 1960, para criar os Clubes da Nova Esquerda, os Comitês de Campanha Antinuclear e, ao fim e ao cabo, a Revista da Nova Esquerda, a New Left Review (NLR). O movimento de massas que alentou todo esse processo, de 1958 a 1961, foi a Campanha pelo Desarmamento Nuclear.

Um movimento muito massivo e muito combativo, enraizado e militante, com mobilizações multitudinárias, que escapavam às direções majoritárias. Contudo, esse movimento, de repente, colapsou. E o colapso do movimento logo levou a uma crise das duas correntes fundidas na Nova Esquerda e seu respectivo legado institucional, sua face pública, a sua revista. Diferentemente do que muitos pensam, não foi propriamente um golpe de Estado. Tratava-se de um navio abandonado. Dívidas, crise e muitos dilemas. Queda nas vendas e na circulação. Sem saber bem o que fazer, a equipe editorial que nos precedeu decidiu colocar o seu futuro coletivo em nossas mãos. Olharam para o lado e viram esses jovens… Alguns amigos e eu de vinte e poucos anos. Aconteceu de sermos os únicos com vontade de assumir a função. E assim o fizemos.

Para nós os anos 60 não foram percebidos como uma década de derrota política. Para os mais velhos sim. Eles tinham enorme expectativa nessa campanha de massas. Genuinamente acreditaram que levaria a um giro à esquerda na Inglaterra. Isso não aconteceu. Isso os desanimou, por assim dizer, e em parte os desmoralizou. Mas para os jovens de minha geração, os anos de 62-64, o que estava acontecendo, era a revolta cultural dos estratos sociais da classe trabalhadora! A Era dos Beatles e dos Rolling Stones. Isso era o que estava rolando de verdade. Era, portanto o “nosso” momento, nos sentíamos nas nuvens!

Fantástico! Todos os velhos tabus sendo quebrados, uma grande reviravolta,… nós somos a onda do futuro!! Um tremendo espírito de arrogante confiança, eu diria. Uma espécie de sectarismo da juventude, o que os norteamericanos chamam ‘Ageism’. Eu me lembro perfeitamente de pensar aos 24: qualquer pessoa saindo da casa dos trinta é um cadáver, está morta, não existe!!! Só nós importamos! Naturalmente, ainda tínhamos muito o que aprender com aquilo que chamamos ‘vida’.

O que nos sacudiu é que assim que nós iniciamos a ter nossas próprias ideias e programas sobre cultura, política e sociedade inglesa, e as publicamos, nós recebemos um magnífico ataque do que era a figura de liderança da intelectualidade ex-comunista, e grande historiador, E. P. Thompson. Ele escreveu, muito ironicamente, a peça As Peculiaridade dos Ingleses, nos atacando brutalmente. Mas isso meio que nos acordou. Nós não podemos desprezar nossos ancestrais desse modo blasé e arrogante! Essa formidável herança, essas grandes figuras! Essa magnífica cepa de historiadores de esquerda marxistas! Nós temos mesmo que nos apropriar criticamente acertar as contas com esse precioso legado.

O que fazer? Nós ainda nos sentíamos muito diferentes desse grupo intelectual. E.P.Thompson, R.H.Williams, E.J.Hobsbawm, J.E. Christopher Hill, e por aí vai. Figuras, mesmo, distintas. Como nós nos diferenciávamos deles, subjetivamente? Nós pensávamos que: i) eles são grandes historiadores, mas eles não tem uma teoria própria, são empiricistas, “não sabem, mas o fazem”, não tem um grande background teórico-filosófico; ii) o marxismo deles era muito inglês, mesmo antes de assumir a NLR – os meus amigos e eu –, o que realmente odiávamos era a insularidade/isolamento da cultura teórico-política britânica à época, autossatisfatória, um provincianismo não propriamente de uma pequena nação oprimida mas a autocondescendência típica do provincianismo de um Império que uma vez já dominou um quarto do globo e ainda tinha colônias em África, Ásia, Caribe e, daí por diante, no final dos 1950.

Então era uma cultura muito autocomplacente que acreditava que não precisava saber o que ocorre na Alemanha, França ou Itália, achava irrelevante, cria ter tudo o que necessitava no interior de suas fronteiras e se achavam os melhores. Era algo que todos nós odiávamos e, assim sendo, nós nos orientamos muito fortemente em direção às culturas continentais europeias: França, Alemanha, Itália, Rússia e outras. Isso é muito, muito, muito importante. Último ponto: iii) uma diferença política.

Os intelectuais comunistas da geração anterior – Thompson, Hobsbawm e essa gente – eram um produto de uma muito peculiar experiência histórico política no final dos anos 30/40, que era a experiência da «frente popular». O mobilizador-chave das demandas, o eixo central que os animou era: precisamos derrotar o fascismo. Tanto durante a Guerra Civil Espanhola (1936-7) e, é claro, durante a Segunda Guerra Mundial (1940-5) o tema principal era a necessidade de ser, primeiramente, antifascista.

A ideia central «frentepopulista» era essa: nós temos que nos unir com quem quer que seja – não interessa se é a Churchill ou a Roosevelt, não interessam as posições político-sociais sobre qualquer outro assunto – o único critério é que se deveria ser contra o fascismo. Então, de alguma maneira, era um tipo defensivo de comunismo. Não se tratava de lutar por um Outro mundo, mas apenas e tão-somente parar os pés da ameaça fascista.

Quando nós nos politizamos no final dos anos 50 nós não simpatizamos nem um pouco com esse espírito, em parte porque as «frentes populares» eram sempre muito patrióticas a respeito de seu próprio país: lutando contra os alemães, lutando contra os britânicos, e por aí vai. E nós suspeitávamos muito desse tipo de patriotismo. Em segundo lugar, era muito defensivo e levava a borrar as diferenças políticas. Nós pensávamos que se algum comunismo nos interessava – nós nunca entramos no PCGB: liliputiano, sempre filisteu e que recém-havia perdido seus intelectuais mais interessantes – era o momento radical – e internacionalista – da revolução bolchevique, é o que era importante, e não a «frente popular»defensiva.

Isso é muito, muito importante, não esqueçam, quando foi fundada a União Soviética por Lenin e os seus camaradas – a «União Soviética das Repúblicas Socialistas» –, não havia uma só marca de enunciação, étnica ou geográfica que fôsse, em si. Foi o único período da história da humanidade em que o nome de um Estado foi verdadeiramente tão-só uma pura descrição política, nada mais. Esse era o espírito, internacionalista, com o qual nós simpatizávamos. Nós precisávamos buscar um espírito ofensivo para a época que nos tocava viver: das revoluções algeriana, cubana, vietnamita, os grandes acontecimentos na China, isso era o que nos guiava, e não as batalhas de «frente popular», antifascistas, da Segunda Guerra Mundial.

III.

Antes e mais importante do que a formação universitária creio que sou um produto do muito peculiar e famoso sistema privado de Boarding Schools [Nota do Organizador: escolas privadas de alto nível com regime de internato típicas da Inglaterra] da Inglaterra. Isso teve um efeito esplêndido em mim, talvez não funcione para outros, mas o desdobramento disso foi que assim que fiz catorze anos eu pude me especializar, digamos, da mesma forma que se faz na universidade, eu apenas tive aulas de História Mundial e Letras/Espanhol: não mais física, biologia, química, trigonometria… Foi um dos dias mais felizes de minha jovem existência! Apenas estudar o que gosto! Por ter estudo de forma bastante intensiva e elevada História na escola quando cheguei à universidade eu me lembro de olhar o currículo da cadeira e pensar: que coisa chata e insossa! Isso não é nem um pouco cosmopolita ou europeu quanto o que estudei na escola! É provinciano! Nada disso!

Ao invés de estudar História fui para a área de Letras. Estudei literatura francesa e russa em Oxford. Por sorte tive dois excelentes professores que dominavam áreas, àquela altura, totalmente desconhecidas na Inglaterra. Por um lado tive aulas de Estilística francesa, essa grande tradição europeia de estudar apenas o estilo de cada texto, e, por outro, Formalismo russo, essa outra grande tradição europeia de estudos em literatura. Meus anos na universidade foram de trânsito entre História e Letras, por assim dizer.

Em 1960, após a graduação em Oxford, eu entrei para o corpo da revista. Em 1961, escrevi meu primeiro artigo. Em 1962, me tornei seu editor. Quando minha equipe e eu assumimos a revista, um par de anos após sua fundação, o nosso objectivo era produzir um periódico que tivesse seriedade, capacidade de publicar algo que deveria apresentar argumentos sofisticados, o que normalmente está relacionado com revistas da academia, não propriamente materiais jornalísticos ou educativos. Mas, ao mesmo tempo, queríamos evitar o aparato profissional, os aspectos de ‘torre de marfim’ necessárias a qualquer periódico puramente acadêmico. Por isso, foi uma tentativa de produzir algo jornalisticamente radical e editorialmente acadêmico, um híbrido de novo tipo, e, ao mesmo tempo, que visasse um público intelectual mais geral.

Fôsse responder o que me animou a respeito da nova função, de modo curto, é que foi, mesmo, muito divertida. Claro que, na casa dos vinte anos, é assim que se sente o peso do mundo. Portanto, há um elemento, olhando para trás, eu diria que nós fizemos coisas que estavam em um tipo de espírito irresponsável, por vezes, porque estávamos despreocupados, mas, ao mesmo tempo, muito, muito apaixonadamente envolvidos naquilo que estávamos tentando fazer. Outra característica da revista, devo explicar, é que nós sentimos fortemente que a Língua Inglesa [English], a cultura anglossaxônica dos dois lados do Atlântico, tornou-se uma forma muito provinciana após a Segunda Guerra Mundial. Ficou fechada em si mesma, autorreferenciada no mundo de fala inglesa, em todas as esferas da vida.

E nós pensamos: que absurdo! Aqui estávamos, sentados em Londres, e havia este enorme continente europeu, com incrivelmente ricas tradições intelectuais próprias, muita coisa acontecendo politicamente, fascinante histórias de longa duração. França, Itália, Alemanha, Rússia, Espanha e assim por diante… Nós pensamos: nós realmente temos que tentar trazer isso de volta à nossa cultura, tornar isso um conjunto vivo de referências para a nossa geração. E isso foi muito importante, em termos do compromisso, comparado e internacional, da NLR, a sua missão, por assim dizer. Esta é uma das tarefas mais importantes a que nos propomos, e eu acho que nós fizemos esse trabalho muito bem feito.

A NLR foi fundamental para mim. Eu diria isso: editar um periódico por um longo período de tempo cria um tipo particular de trabalhador intelectual – se é feito de maneira séria. (…) Eu comecei na primavera de 1962 e continuei ininterruptamente até 1982, por vinte anos, e depois fui membro pleno do comitê editorial – tendo assumido novamente após o relançamento da NLR em nova série redesenhada e refundada em 2000 por mais três-quatro anos – e, desde então, venho sendo ativo em seu interior. Então fui responsável pela publicação da revista por mais de 50 anos, basicamente. Mas o que eu diria é o seguinte. Os intelectuais, em meu julgamento, ao menos os interessantes, têm pelos menos dois tipos de mentes.

O primeiro, bastante distinto e poderoso grupo de mentes, desenvolve o seu próprio conjunto individual de ideias. E de certa forma só está interessado em suas próprias ideias. Ou seja, ele registra o que são as ideias dos outros, no passado ou no presente, mas sua atitude em relação a elas é puramente apropriativa. Isto é, irá tirar delas apenas aquilo que interessa a seu projeto intelectual. Mas definitivamente não se interessará pelo corpus de obras que não são a sua.

Serão seletivos e irão tomar o que lhes serve. Os franceses – Montaigne, no Séc. 16 – tinham um dístico para isso: «Je reprends mon bien où je le trouve» (“Eu pego o que é útil para mim onde eu encontro”). Uma atitude de tipo cléptico, de ‘pegar’ àquilo que lhe serve onde quer que esteja. Eu respeito muito essa atitude, e tenho muito bons amigos que trabalham nos campos da cultura, política ou economia que têm exatamente esse modo de procedimento como norma de conduta. Você nunca pediria, ou muito raramente, a eles para que resenhassem [“to review”] o livro de outras pessoas. Eles não estão interessados nisso. De modo algum. Eles querem trabalhar suas próprias ideias.

E há outro tipo, e se trata de um tipo que mais ou menos você tem de ser se está editando um periódico: você também quer desenvolver suas próprias ideias, mas você se interessa apaixonadamente pelas ideias dos outros enquanto tais. Não apenas como matéria-bruta de seu próprio pensamento, mas respeitando a relativa autonomia e a intrínseca complexidade dos outros. Se você é um editor você recebe contribuições do mundo inteiro – pessoas diferentes, gerações diferentes –, você não pode apenas encaixá-las como se fôsse matéria-bruta para suas próprias coisas.

Respeitar tal variedade é a razão-de-ser de uma revista. Isso sempre foi muito importante para mim e me formou, o que foi uma tremenda sorte, tendo a chance de ter me tornado editor muito jovem e constituindo-me intelectualmente por toda a vida. (…). O primeiro corpus de ideias que recebeu esse tratamento, de introdução, e não apenas tradução, tentando explicá-los a uma audiência de fala inglesa que não conhecia nenhum deles, foi o que chamei substancialmente de a tradição do “Marxismo Ocidental” [“Western Marxism”], se trata de um termo um pouco fora-de-lugar, porque na verdade se trata de um Marxismo da Europa Central e Ocidental.

Trata-se de uma tradição que tem início com Lukács e Gramsci após a derrota da revolução russa, continua com a geração de Adorno e Sartre e por aí vai e tem seu fim, poder-se-ia dizer até certo ponto, nos anos 60, com Althusser. Mas uma questão existencial central dessas referências fundamentais e históricas para nós é que algumas delas estavam vivas e nós fomos contemporâneos delas.

Eu me lembro de entrevistar Lukács em Budapeste, entrevistar Sartre em Paris, eu me lembro de Adorno e Habermas sendo atacados pelo movimento estudantil de 1968 em Frankfurt – e não incorretamente, devo dizer. Era muito excitante! Eles não eram só parte do passado mas parte importante de nosso presente. Muito importante e excitante para nós. E aí, é claro, nós não apenas assimilamos acriticamente. A ideia era apresentar a obra de Adorno, Benjamin, Lukács, Sartre enquanto tal mas também dizer algo crítico a respeito, não tratá-los como qualquer tipo de palavra de salvação.

Um dos argumentos era que essa era uma tradição que adveio de um conjunto de derrotas políticas e, portanto, apresentava um subtexto pessimista em praticamente todos autores, um grande tema teórico trágico – fôsse Adorno, Sartre, Benjamin, Althusser ou quem quer que seja –, seus principais temas eram trágicos, e que isso nasceu de uma experiência histórica particular. Eu não os critiquei por isso pois, como você sabe, foi a história que produziu este tipo de pensamento; que era bastante criativo enquanto corpo de ideias. O que eu fiz foi um contraste entre essa tradição e o marxismo clássico – o marxismo do início do Séc. 20, da Segunda e Terceira Internacionais. Eu não era um crítico desta tradição. O que eu enfatizei fortemente foi que este tipo de marxismo, o marxismo ocidental, nasceu em um momento em que não havia mais um movimento social revolucionário de massas. Havia uma teoria revolucionária mas não um movimento revolucionário. Adorno escreveu muito eloquentemente a este respeito e tinha uma grande consciência disso.

O único para quem isso não era de fato verdadeiro foi Antonio Gramsci que, de fato, tinha uma teoria para a conquista revolucionária do poder e a transformação socialista da sociedade. Mas mesmo em seus últimos dias no cárcere fascista sua visão se tornou mais soturna. As condições objetivas não poderiam ser vencidas pelo otimismo da vontade mas ainda assim se pôde realizar um trabalho criativo em seu interior. Quando eu escrevi esse editorial – que, de fato, tinha essa característica, de manifesto – muitas pessoas ficaram chocadas por eu ter escrito coisas tais como “o neoliberalismo é a ideologia de maior sucesso em tôda a história mundial”, “a esquerda foi derrotada nos mais diversos aspectos por essa e aquela razão”, e eu os desenvolvi, como se isso fosse algum tipo de rendição. Mas a razão-de-ser do editorial não era esse [a rendição], de modo algum. A verdadeira rendição seria uma atitude autocondescendente para com uma situação adversa. A resistência correta e real se trata de enfrentar a realidade de frente, descrevendo-a efetivamente, e não se rendendo a ela. Essa é a mensagem deste editorial, a qual eu suporto muito fortemente: o realismo. E por realismo entenda-se conhecer as fortalezas do inimigo e não subestimá-las. Tratando de compreender qual é – ou deveria ser – a posição da esquerda hoje em dia.

Tentamos demonstrar quais eram suas fortalezas e debilidades. Então uma segunda coisa, poder-se-ia dizer, era um balanço sistemático e acerto de contas com a tradição do marxismo inglês. E isso significou engajar-se em profundidade e extensão com o pensamento das figuras que eu mencionei.

Após uma polêmica inicial bastante aguda com Thompson nos anos 60 tratei da obra de Thompson em detalhe nos anos 80 [Arguments within English Marxism], num espírito mais generoso e construtivo. Sobre Raymond Williams dedicamos tôdo um livro-entrevista que cobre praticamente o arco de sua obra inteira – A Política e as Letras (Unesp, 2013) –, fiquei bastante surpreso e grato com a notícia da recém-tradução brasileira. E mais recentemente Eric Hobsbawm que, é claro, se tornou o mais famoso destes historiadores globalmente, foi tratado em dois ensaios nos quais tento descrever, e também criticar, o tipo de historiografia, primeiro, e a a autobiografia, depois, por ele produzidas. E assim foi.

IV.

Deixe-me tentar situar como gostaria de ver a minha própria escrita, o meu próprio trabalho, em relação com a tradição intelectual da qual provém. Você tinha mencionado que esta era uma tradição marxista. A Inglaterra é famosa por ter tido a cepa mais talentosa, extraordinária, de historiadores marxistas. Não filósofos marxistas, mas este muito, muito importante grupo de historiadores marxistas. Edward Thompson, Eric Hobsbawm, Rodney Hilton e muitos, muitos outros. E isso foi uma influência muito direta, um modelo de atração para os jovens da minha geração. Agora, este marxismo ficou concentrado, principalmente, eu diria, em duas áreas, uma das quais era a história econômica tradicional. Afinal de contas, é o que todos pensavam de que o marxismo se tratava. Determinação econômica. A maneira pela qual a produção material da vida cotidiana é a base de todas as outras instituições e ideias na sociedade.

Você tem que olhar primeiro para o modo pelo qual os bens materiais são produzidos. E a história econômica marxista era um campo muito grande. Outros historiadores marxistas reagiram contra isso. Edward P. Thompson é o mais famoso: “Não, o marxismo não é o determinismo econômico apenas. Na verdade, é uma tentativa de compreender como as pessoas vivem, e não apenas do que elas vivem.” Isso significa que você deve olhar para sua cultura, suas mentalidades, suas perspectivas, suas esperanças subjetivas e sonhos. E então você tem um muito, muito rico marxismo cultural aberto, que olhou para os costumes do povo, a maneira como as pessoas vivem, e assim por diante; a forma como construíram sua vida privada etc.. Portanto, estas são as duas vertentes que formaram a base intelectual na qual eu cresci: o cultural e o econômico.

Meu próprio temperamento, suponho (não foi realmente uma escolha tão consciente) mas a minha preferência temperamental foi para a política em um sentido um tanto mais tradicional. O que os marxistas não eram muito bons era discutir a própria vida política, e não a cultura como tal, e não a economia, mas a história do Estado e também a história das ideias políticas. Essas são as duas áreas que senti um pouco falta. Então é isso o que eu tentei fundamentalmente fazer. Se você me perguntou o que é a ênfase do meu trabalho, eu diria que são as transformações da autoridade política, as estruturas do Estado, por um lado, e tentar vê-los desde uma perspectiva ampla, internacional e comparativa. Por outro lado, quais são os grandes momentos, aventuras e desventuras, de diferentes corpos de idéias políticas que acompanharam estas transformações histórico sociais?.

V.

Eu nunca utilizo os termos “otimismo” ou “pessimismo” sobre mim mesmo. Havia muitas pessoas que se radicalizaram na década de 1960, com cinco ou dez anos a menos do que eu e os meus contemporâneos, que tiveram incrivelmente grandes esperanças de que o mundo inteiro teria de ser alterado através da turbulência dos anos sessenta e início dos anos setenta. Quando isso não aconteceu, eles foram completamente esmagados, eles foram totalmente decepcionados, e tornaram-se passivos ou muito pessimistas. Esse foi um fenômeno muito amplo, comum.

Eu nunca senti isso porque me formei, eu suponho que você poderia dizer que criei consciência política, alguns diriam consciência histórica, no período em que a ordem estabelecida era muito, muito forte. Não parecia algo que fosse mudar do dia para a noite, se transformar radicalmente. Você estava ciente, se você concebesse a história como processo de longa duração, que as grandes mudanças históricas tem uma temporalidade muito longa para abrir caminho.

Portanto, o fato de que a esquerda era muito forte internacionalmente entre os anos cinquenta e setenta, e então tem sido muito fraca desde então, isso é apenas parte do fluxo do tempo. Nunca me senti intimidado ou desencorajado. Eu não diria que eu virei um “pessimista histórico”, ou “político”, em seguida, assim como eu não teria dito, se você me perguntasse no final dos anos sessenta, “Olhe para tudo isso que está acontecendo ao redor do mundo, as irrupções, insurgências em todos os lugares. Está otimista?”. Eu teria sido bastante cauteloso e contestaria: “Bem, não, é grande o que está acontecendo agora, mas, pode não durar. Nós temos que esperar e ver o que o próximo giro da roda viva nos trará.”»

***

Chegamos por ora ao fim da série sobre o espectro da autodeterminação com o autorrelato tópico feito pelo próprio Anderson sobre como e porquê se deu seu processo mesmo de radicalização política e como ele mesmo vê sua atividade intelectual na esfera pública. Se sua politização radical se confunde com os anos rebeldes em Oxford, a sua formação intelectual se imiscui à atividade editorial da New Left Review. O recorte realizado, pelas razões expostas, deixou de lado os anos formativos (juventude), por um lado, e o período mais recente (maturidade), por outro. Algumas questões de sua trajetória pública e política, bem como intelectual e teorética, são aqui exploradas. Inclusive alguns temas e problemas que não são comumente tratados nos escritos de P.R. Anderson foram trazidos à baila por ocasião das distintas conversações que confluem na presente peça. O historiador intelectual marxista angloirlandês revela aqui algo do que Brecht chamaria “o sexto sentido” humano-social, qual seja, o próprio “senso de história”, neste caso, sobre si mesmo. Oxalá seja de interesse e utilidade para as pessoas efetivamente interessadas em interpretar e transformar o mundo, e, por que não?, também a nós mesmos: o socrático “conhece-te a ti mesmo” como um princípio que em parte joga nova luz sobre a (auto)produção política e intelectual do próprio autor.

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