Sem lhes pedir licença

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Fábio José de Queiroz e Lucas Scaldaferri |

A abordagem selvagem a Chico Buarque por parte de filhos de empresários e afins, de certo modo, impõe algumas considerações, que se estendem além da conjuntura política, e evoca até mesmo a questão de se as pessoas devem ser açodadas nas ruas por delito de opinião.

Qualquer pessoa lúcida sabe do desgaste do governo Dilma, sabe também que uma parte ponderável da população quer vê-la longe do Palácio do Planalto. O aprofundamento das políticas neoliberais, e, consequentemente, a ofensiva contra os direitos da classe trabalhadora, incluindo o seu emprego, explica a erosão da base social da Frente Popular.

Não somente Chico Buarque, mas um amplo arco de artistas e intelectuais, no entanto, entendem que há um “golpe” em curso contra o governo e o defendem. Abre-se então um processo de polarização política que situa de um lado os setores governistas e de outro a oposição de direita, com atos de rua, guerra virtual e outras escaramuças.

Nesse sentido, a polarização política que perpassa o país conduz grupos, ideologicamente comprometidos com a oposição de direita, a cercear coletivos e personalidades por meio de ações delinquentes, como a ocorrida no Leblon, às vésperas do natal. Os médicos cubanos, Stédile, e agora Chico Buarque, compõem a ampla galeria de presas de um execrável processo de tutela ideológica e de constrangimento físico e moral.

Evidentemente, os artistas e intelectuais que apoiam o governo do PT, em geral, são tímidos para criticá-lo e excessivos para defendê-lo. Nesse caso, as críticas pontuais não só não apagam o apoio, como são compatíveis, com a adesão fulgurante e exagerada às teses governistas. Tal atitude dificulta a construção de um terceiro campo, oposto ao do governo e o da oposição reacionária. Esse fato, entretanto, não pode significar o silêncio perante o uso de métodos fascizantes como medida de solução das contendas políticas.

Nota-se que no campo da oposição burguesa, cresce um setor ideologicamente comprometido com as teses mais retrógradas da velha direita, não somente no terreno econômico, mas no campo político, o que resulta na constituição de grupos que pregam soluções autoritárias e métodos de guerra civil para combater os seus adversários políticos. A tentativa de intimidação a Chico Buarque se inscreve nesse panorama concreto de formação de agrupamentos – formais e informais – com esse tipo de técnica de intervenção fundada na intolerância política.

O Chico Buarque não tem porque pedir licença aos marxistas, aos centristas, aos pós-modernos, à direita de verniz liberal, aos pró-militares e protofascistas, ou a quem quer que seja (independentemente do espectro ideológico), para opinar e se posicionar com relação aos acontecimentos políticos. Digo isso, pois, por exemplo, temos outra opinião e outro posicionamento com relação ao governo do PT. Há marxistas que defendem esse governo e outros, como nós, que se opõem a ele. Os motivos que fundamentam a nossa oposição, indubitavelmente, são de natureza oposta aos dos que o criticam e o atacam pela direita. Não pretendemos aqui nos reportar a esse aspecto do problema, uma vez que já o fizemos em outros trabalhos. Interessa-nos ressaltar que ninguém tem que pedir licença a quem quer que seja para expressar o seu ponto de vista. No caso em tela, o genial artista carioca tem a prerrogativa, com relação aos seus oponentes, de se manifestar politicamente “sem lhes pedir licença”. Com estrita objetividade, essa é a chave do problema.

Por fim, há certa ironia no episódio, malgrado o seu caráter repulsivo. Lula da Silva foi um dos primeiros a se pronunciar em defesa de Chico Buarque de Holanda, que sofreu ofensas como a de ser chamado de “merda”. Acontece que a afronta foi proferida exatamente pelo ilustre filho de uma família de usineiros, os mesmos que Lula alcunhou de heróis nacionais. Acontece que não há heróis nas classes dominantes, mas exploradores, antes de tudo, e os seus filhos agem como se o mundo social fosse uma extensão de sua usina. A esse respeito, a madrugada do Leblon se revelou uma loquaz testemunha.

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