Era Jesus um revolucionário? Apresentação e texto de Terry Eagleton

Lucas Martins (trad.) e Betto della Santa.

A edição de fim de ano da maior parte de publicações e dos portais das esquerdas socialistas brasileiras tradicionalmente são estendidas e coincidem com duas datas muito especiais: o Réveillon, festejo do calendário pagão que encontra algum equivalente geral em praticamente todas as formas históricas de sociabilidade conhecidas e o Natal que para as distintas denominações cristãs – religião majoritária no país – significa a comemoração do nascimento de Jesus Cristo. (Como Terry Eagleton explica – no texto a seguir – “Christos” desde o idioma grego quer dizer, literalmente, “Messias”.)

Sabemos que a grande maioria da classe trabalhadora brasileira, de alguma forma e em alguma medida, se relaciona com valores e crenças – concepções de mundo ou normas de conduta – que provém do ideário (e do imaginário) cristão; já seja o mundo católico, o universo protestante ou mesmo os mais diferentes modos de sincretismo religioso. E ainda mesmo nos grupos sociais em que religião não exerce influência direta, o cristianismo primício e o catolicismo popular se fazem presentes em noções fundamentais de justiça social, solidariedade; i.e., modos de sentir e agir.

Terry Eagleton se trata de um importante intelectual irlandês da corrente trotskista. Reconhecido em vários campos – da crítica literária, dos estudos de política e cultura e história marxista –, Eagleton veio de um ambiente de formação parecido àquele da esquerda católica que, no Brasil e na América Latina, se aproximou da assim-chamada “Teologia da Libertação”. Após os atentados às Torres Gêmeas, de 11 de setembro de 2001 nos EUA percebeu-se um crescimento alarmante da automática associação entre religião e fanatismo, por um lado, e a “Islamofobia”, por outro. Se aqui no Brasil o sentimento anti-Islã não adquiriu um caráter de massas, um de seus subprodutos – um novo ateísmo “proselitista”, de pessoas como Richard Dawkins e Christopher Hitchins – ganhou adeptos, à direita ou à esquerda, no país.

As campanhas anti-terror de Estados tal o estadunidense e o britânico – com sócios-menores como Alemanha, França e Israel – se valeu o mais ampla e difusamente da associação entre terror e Islã. De modo não-tão-discreto, mas tão ou mais eficaz, iniciou-se toda uma campanha a qual nos brindou com nova e bizarra combinação, cada vez maior, entre fundamentalismo extremo – como as seitas criacionistas, nos EUA, ou as bancadas obscurantistas, de Marcos Feliciano & Cia., no Brasil – e uma espécie de ‘neo-ateísmo’, no mundo.

Há toda uma série de questões em jogo quando se trata da real interação entre o marxismo revolucionário e as distintas religiões. Para um começo de conversa, é importante separarmos o quê forma a religião (“crença”) e aquilo que con-forma a Igreja (“instituição”). Em Karl Marx é nos textos juvenis, dos idos de 1840, que se encontram as mais importantes das referências a esse respeito: a) a crítica da religião como “gérmen de toda crítica”, b) a necessidade de irmos para além do questionamento às ilusões para negar as condições que, enfim, tornam tais ilusões necessárias, e, c) o “duplo caráter” da religião, que se torna a um só tempo: i) conformista, e ii) rebelde do “status quo”.

Recobrando a dita “tradição clássica” dos marxistas como a de Ulianov Lenin e Rosa Luxemburgo, e acrescentando temas e inovações de marxistas tais como Walter Benjamin e Ernst Bloch, Terry Eagleton se propõe a, desde uma releitura criativa e renovadora dos Evangelhos – e do Novo Testamento – da Bíblia (“livros sagrados”) retomar a relação realmente existente entre “Fé, Razão e Revolução”, naquilo que chamou “O Debate sobre Deus” (ver Ediouro/Nova Fronteira RJ 2013, 168 pp.).

O que aqui apresentamos é uma espécie de preparação de terreno à polêmica que o autor irá travar com os escritores de “A Ilusão Deus” e “Deus Não É Grande” o ‘duo intelectual’ que irá ser apelidado pelo mix de sobrenomes; “Ditchkins”. Um insubmisso (e pouco citado) marxista francorromeno Lucien Goldmann ao reler o texto de Meditações Pascalinas à luz da sua “metodologia genético-estrutural”, chegou à conclusão de que existiria uma afinidade oculta, ou o quê seria um “túnel subterrâneo que re-liga, por sob a grande Montanha das Luzes”, a visão religiosa de mundo ao chamado Socialismo Científico.

Assim como a própria “Aposta” de Pascal na existência de Deus não repousaria em uma comprovação empírica, a convicção íntima na possibilidade efetiva de um futuro comunista não se dá por evidência factual. Na História do Marxismo este subcapítulo do debate entre Razão e Fé tornou-se referência central. O que pode ser considerado uma blasfêmia à exegese de textos sagrados das letras marxistas é que uma forte propaganda ateísta – ou a agitação feroz contra visões religiosas de mundo – pode partir de organizações autoproclamadas enquanto socialistas e revolucionárias que, ao fim ao cabo, são autênticas ‘seitas’ do materialismo vulgar. O teor litúrgico do ‘marxismo acadêmico’, o moderno fetiche do progresso, o culto ao deus da não-falibilidade dos teóricos, a cega idolatria de novos líderes, a espera impaciente por uma versão mundana do Juízo Final – a “Revelação-Revolução” – e, finalmente, a conversão de determinadas organizações em fim (e não meio) para a auto-emancipação de trabalhadoras e trabalhadores são um forte indício de que tanto tais ‘marxismos’ viraram religiões quanto de que alguns agrupamentos se fizeram ‘novas Igrejas’. O fervor religioso característico de grupúsculos à margem das lutas das classes trabalhadoras são exemplo – gráfico – dessa triste afirmação.

O trecho a seguir é um excerto editado da obra «A Introdução aos Evangelhos», um pequeno livro de Eagleton (2007), que se voltou ao terreno mais inicial da polêmica com o neo-ateísmo pós-11 de setembro. Foi originalmente publicado, em encarte do jornal britânico The Guardian, em uma edição também de final de ano. O Blog CONVERGÊNCIA deseja a todos boas festas. Afinal de contas, nós já sabemos, «…Nem Só de Política Vive o Homem.». 

Jesus Era um Revolucionário?

O Evangelho, segundo Terry Eagleton*

«O Jesus Cristo dos Evangelhos foi/é – de fato – um revolucionário, mas de um tipo mais ‘milenarista’ e ‘messiânico’ do que propriamente ‘político-prático’.»

Ele muito certamente mantinha companhias políticas nebulosas. Uma delas, do seu círculo mais íntimo, era conhecido como ‘Simão, o Zelote’ – sendo o Zelotismo um movimento anti-imperial clandestino, empenhado em dirigir os romanos para fora do território palestino. Os Zelotes desejavam um Estado judaico teocrático, mais purificado e tradicionalista; e difundiram uma ideologia não muito diferente da ‘Al-Qaeda’ de hoje. Para uma audiência regular, os ensinamentos de Jesus podem ter soado como familiar propaganda Zelote.  Podemos tomar como óbvio que entre as massas que rodeavam Jesus havia Zelotes e outros dissidentes, comprovando quão “politicamente correto” ele soava.

Ainda assim, no entanto, é pouco provável que Jesus tenha tomado partido da resistência anti-imperial. Por um lado,  parece ter apoiado o pagamento de impostos (“A César o que é de César”), enquanto os Zelotes não o faziam. Por outro, cruzou sabres com os Fariseus,[1] que eram, de alguma forma e em alguma medida, algo como o que se pode dizer a ‘ala teológica’ dos Zelotes.

Outra razão pela qual Jesus parece não ter sido um Zelote é que seus discípulos não foram presos após sua execução. Fossem eles rebeldes presumidos e as forças de ocupação imperial, muito provavelmente, teriam se movido para varrê-los do mapa. Pode ser que tenha havido uma pitada de militantes políticos entre seus discípulos, mas as autoridades romanas parecem ter enxergado claramente que o movimento de Jesus não intencionava colocar o Estado abaixo. Não foi por isso que o seu dirigente máximo foi, por fim, crucificado.

Teriam certamente soado o alerta caso Jesus tivesse se proclamado ‘Messias’; já que o Messias era visto pela maioria como um militante político disposto a colocar o Estado de Israel de pé novamente. Mas Jesus não se proclamou Messias, exceto em duas ocasiões, ambas as quais historicamente ambíguas. De qualquer forma, a idéia de que um errante carismático e sua comitiva desarmada – grande, porém não massiva – pudesse destruir o Templo, ou derrubar o Estado é absurda, assim como as autoridades judaicas e romanas devem ter reconhecido à época. Havia forças suficientes para parar-lhes os pés: milhares de guardiães templários, para já não dizer nada sobre as guarnições romanas.

Pode ser que a ação violenta de Jesus – na tentativa de varrer do Templo os usurários cambistas, navegando nas adjacências das perigosas águas da Blasfêmia – tenha sido o suficiente para que seus antagonistas o pregassem na Cruz. Pôr para correr cambistas não foi, contudo, um gesto de intenção “anti-capitalista”. Jesus teria posto de pernas para o ar as mesas de cambistas e pequenos vendilhões, e, daí, declarado o lugar como um ‘covil de bandidos’; mas o excesso retórico de tais palavras é hoje, sabidamente, um acréscimo póstumo. Ele provavelmente significava não mais do que a destruição do Templo de um modo tão-só meramente simbólico, mais do que expressão de um intempestivo desgosto, para com esse ato de ganância mercantilista.

Ele – mais provavelmente – teria sido condenado por insubordinação e entregue à lei como um perigo à Ordem pública. Pôncio Pilatos provavelmente enviou Jesus à morte como um candidato a Messias mesmo que ele, ou o próprio Jesus, não acreditasse que assim o fosse. O ‘Messiah’ (ou “Christos”, em grego) era considerado pelos judeus como uma figura-guerreira, da alta realeza, ao passo que a satírica entrada de Jesus em Jerusalém, montado este no traseiro de um jumento, pode ser lida como um gesto anti-messiânico por excelência, um satírico tapa na cara ao gosto de todas essas distintas noções do que é soberania militar.

Era Jesus, então, um líder “espiritual” mais do que um dirigente político propriamente dito?

Para Jesus, não poderia haver negociação alguma entre o domínio da justiça – o chamado “Reino de Deus” – e os poderes deste mundo terreno. Neste quesito, ele confrontou seus próximos com absoluta decisão. Não importava se estes fossem a favor ou contra ele, não lhes foi permitido qualquer ‘meio-termo’ liberal. O que estava em jogo não era uma questão de  reformas – de “servir vinho novo em velhas garrafas” – , mas todo um inimaginável novo regime o qual, na visão de Jesus, já estava vindo à tona impetuosamente neste mundo; e do qual ele se considerava tanto prenúncio como encarnação. Neste sentido muito específico, foi um vanguardista revolucionário, e não-reformador social.

Tal qual o socialismo para Marx, o domínio da justiça é tanto imanente no presente quanto um objetivo a ser conquistado no futuro. Mas não pode haver transição suave – do velho para o novo –, à maneira de algum ‘socialismo evolucionário’ [à la Edward Berstein]. Dada a urgência, e a severidade, de nossa condição – a que os Evangelhos se referem como o “pecado do mundo” – alcançar uma Ordem social justa envolve passar pela morte, pela condição do nada mais absoluto, pela turbulência irascível e pelo auto-despojamento radical.

Uma razão essencial para que Jesus e seus seguidores esperassem a chegada iminente do Reino dos Céus é que eles não tinham sequer noção de que a atividade humana poderia jogar qualquer papel de auxílio em sua instauração na Terra. Para o cristianismo primício, tal reino era, sobretudo, um dom de Deus, e não um ato histórico. Não podia haver espaço para uma tal política teológica na visão dos Evangelhos, razão pela qual Jesus não foi um revolucionário no sentido em que Lenin o fora. Ele não poderia sequer ter sonhado em ser um leninista porque não estava disponível, à época, qualquer concepção de mundo afim à auto-determinação histórica. O único tipo de conceito de história que poderia importar era a Heilsgeschichte ou, trocando em miúdos, algo como História da Salvação ou História Sagrada [Ver Walter Benjamin, Tese 18].**

O cristianismo, portanto, pode ser considerado uma visão de mundo mais pessimista que o humanismo secular, ao mesmo tempo em que é infinitamente mais otimista. Por um lado, é de um severo realismo em relação à ‘teimosia’ da persistente condição humana – a perversidade do desejo humano, o prevalecimento da idolatria e/ou da auto-ilusão, o escândalo mesmo do sofrimento, a enfadonha continuidade da opressão e da injustiça, a carência de qualquer virtude pública, a insolência dos poderes, a fragilidade da bondade, e o insaciável apetite, por poder, e por interesses próprios.

Por um outro lado, sustenta que não só a redenção desta desafiante – e terrível – condição é possível mas que, surpreendentemente e, em certo sentido, já aconteceu. Nem mesmo o mais torpe mecanicista dos marxistas poderia proclamar – hoje em dia – que o socialismo é inevitável, e, muito menos, que ele já surgiu, sem que nos tivéssemos dado conta. Para a fé cristã, no entanto, o advento de tal reino é assegurado, uma vez que a vinda de Jesus do mundo dos mortos já o teria fundado. Uma nova polis – uma cidade futura – é possível em base a um corpus transfigurado. E isso é, tradicionalmente, concebido enquanto “ressurreição”.

Então, Jesus foi um revolucionário ou não? Não nos termos que um Lenin ou Trotsky o teriam reconhecido. Mas isso por que era menos revolucionário do que eles foram, ou ainda mais? Certamente menos, por que não defendia a superação da estrutura de poder que se lhe confrontava. Mas assim o fazia, entre outras razões, porque esperava que logo este seria varrido para longe por uma forma de existência mais perfeita em justiça, paz, camaradagem e exuberância de espírito do que até mesmo os camaradas Lenin e Trotsky poderiam ter sequer imaginado. Quiçá a resposta desconcertante não seja que Jesus era menos ou mais revolucionário, mas que era tanto mais quanto menos. (Terry Eagleton)

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* Trecho reduzido de ‘Introduction to the Gospels’, por Terry Eagleton (Verso : London, 2007), publicado em encarte do jornal britânico The Guardian, ao dia 04/Dez./2007. Trad. Lucas Martins. Revisão técnica de Betto della Santa. Versão disponível na Internet; In: <http://www.theguardian.com/commentisfree/2007/dec/04/jesusmessiahorbolshevik> (em 25/Dez./2015).

**A crença da história salvacionista foi derivada do Islã e o Cristianismo do Judaísmo e do profeta Zaratrusta, o Persa.

[1] É no mínimo curioso notar que o vocabulário político tanto das organizações revolucionárias quanto das vanguardas artísticas herdaram do velho legado judaico-cristão adjetivos figurativos como “Farisaísmo” – querendo dizer “hipocrisia” e “desfaçatez” –,  e “Filisteísmo”, enquanto sinônimos de estreiteza de visão ou convencionalismo torpe. O excesso retórico do bolchevismo-leninismo, e/ou mesmo das principais correntes surrealistas, por exemplo, empregavam tais noções em suas batalhas de ideias já fosse contra o centrismo, por um lado, ou o real-socialismo, por outro.

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