Jessica Jones: os superpoderes da violência machista e seu combate

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Natalia Conti.

Jessica Jones é uma série produzida em parceria entre Marvel – desde os HQs de  Brian Michael Bendis e Michael Gaydos – e Netflix. Trata-se de uma saga que reflete o embate entre anti-heróis, a princípio todos eles mutados por circunstâncias derivadas de situações vividas na infância, submetidos a testes conscientes ou acidentes. Jessica (Kristen Ritter) é uma anti-heroína, possui poderes físicos não-inatos, e, tendo sido dominada por um vilão possuidor de uma “dotação” de controlar mentes humanas, teve sua vida destruída em todos os âmbitos; psicológico, social, profissional, moral e ético. Sua busca transita entre o confronto com seu agressor e o dilema existencial sobre como utilizar seus superpoderes, mantendo-se no anonimato ou se transformando em heroína.

O enredo desenvolve, sob o prisma dos superpoderes, problemas gritantes da contemporaneidade, vivenciados por pessoas comuns. A violência psicológica, o controle, o sentimento de rejeição super-dimensionado nas relações afetivas. Na série, Jessica é vítima de violência psicológica e física por parte de um obsessivo, Kilgrave (o Homem-Púrpura dos quadrinhos, representado por David Tennant). Este, dotado do poder do controle psicológico, se apaixona por Jessica e não prevê a possibilidade de relacionar-se com ela sem usar os seus poderes. Sorria! Beije-me! Use os seus poderes à exaustão! São parte dos “pedidos” de Kilgrave à Jessica, que não consegue negá-los e se vê escravizada. A luta de Jessica é pela sobrevivência, e pela salvação das pessoas envolvidas por Kilgrave na trama obsessiva, contra a escravidão imposta pelo controle psicológico e pela dinâmica imposta pelo medo e o ciclo da violência.

É interessante o retrato de Jessica já momentaneamente livre da influência direta de seu agressor. A personagem apresenta personalidade reclusa, uso abusivo de álcool, dificuldades em se envolver afetivamente. O trabalho como investigadora particular reflete suas habilidades desenvolvidas para a fuga do controle de Kilgrave e para os métodos escusos de autoproteção ou para identificar a degeneração moral dos sujeitos em suas relações. A mentira é presente em sua atividade profissional, no contato com seus clientes e também no trato que a personagem tem com os próprios traumas. São nítidos os sintomas de vítimas de violência machista, seja ela psicológica ou física.

Sem dar spoilers, é preciso apontar a fineza do argumento roteirista na caracterização do personagem-vilão. Kilgrave é sujeito agressor e em alguma medida vítima da sociedade que o produziu como tal, a qual lida com a saúde e com a afetividade de forma desumana e experimental (no mau sentido). As artimanhas da ficção científica para dialogar com a realidade de barbárie social, do imperativo da indústria farmacêutica e da lógica mercantilização da saúde mental se faz presente. De maneira nenhuma a abordagem dos personagens é maniqueísta, mas se vale de uma caracterização que parte das contradições da natureza e formação de cada um, sem tipificações e facilismos. Kilgrave é patético como qualquer rejeitado que não aceita sua condição, e duramente ameaçador como qualquer agressor. Jessica vive uma situação de opressão diretamente ligada a Kilgrave, este também produzido como opressor a partir de vivências como oprimido. Ambos apresentam fragilidades e potências em suas condições.

Há, por outro lado, dois personagens que de alguma maneira furam o bloqueio das relações contaminadas, Luke Cage (Mike Colter) e Trish, ou Patsy Walker (Rachael Taylor). A figura da irmã e parceira e de um possível parceiro de afeto e combate abrem um flanco de possibilidade no marco das afetividades embrutecidas de Jessica. Fundamentalmente são as relações que, sobretudo seguindo a tendência no cinema e animações das parcerias entre mulheres no sentido de sua emancipação, indicam a possibilidade de transformações nas relações humanas.

A rede de controle constituída por Kilgrave é uma forte metáfora do poder ideológico e de como os indivíduos se relacionam e se movimentam alheios a sua própria condição de sujeito. Desde uma perspectiva da alienação social, a série sugere, relacionado ao poder de Kilgrave, como se formam redes de controle e culpabilização dos oprimidos. A ideia de uma sociedade vigilante, sempre pronta a julgar e condenar as mulheres, produzindo práticas alienadas à raiz do problema da opressão. Ainda que não seja abordada esta face das relações de forma direta, a sua composição diante das câmeras evidencia a possibilidade de manipulação de opiniões e de atitudes a partir de comandos de ação muitas vezes desconhecidos ou impessoais. Kilgrave pode, a qualquer momento, impelir que uma pessoa na rua corte a própria jugular, ou vá à caça obsessiva de Jessica ou de seus aliados. A influência dura certo tempo, e passado o período de controle, esta pessoa fica à deriva, sem saber exatamente o que se passou.

Poderia, ainda, ser uma metáfora de como as redes – atualmente muito mediadas pela internet – possibilitam não somente margem de ação e associação, mas também a não-memória social e o controle de nossas ações e discursos.

Assim como a maior parte das vítimas de violência física e psicológica, do sentimento de rejeição super-dimensionado, fruto da violência machista, Jessica se sente solitária no combate a Kilgrave. Nenhum outro poder, a seu juízo, pode controla-lo e combate-lo. É necessário, a seu ver, não ter cobertura, não envolver mais ninguém, para que nenhum outro amigo ou ente querido seja vítima das violências vivenciadas por ela. Representa, desta forma, a individualização do problema e o super-poder demandado pela mulher no enfrentamento a sua condição de oprimida, a fim de não desmoralizar-se e de manter na esfera privada aquilo a que o Estado, as leis e as forças de controle não dão conta e não estão interessados em dar cabo. Jessica diz claramente: “Nada de envolver a polícia”. E isso diz muito do papel cumprido por esta instituição no trato da violência contra a mulher, de total negligência.

Desse modo, a série traz à superfície de uma página acessada massivamente – o Netflix – um tema candente de nosso tempo, cada vez menos invisível, graças à luta contra o machismo, e pauta desde a linguagem televisiva a necessidade de mantê-lo sob os holofotes, na mesma medida em que o combate nos âmbitos político e social é travado. Faz parte de uma movimentação coletiva e internacional no sentido de tirar da esfera privada o problema da violência machista, de apontar responsáveis e de combater a sua raiz, que de modo algum pode se tratar apenas do combate nos marcos culturais e dos costumes, mas do enfrentamento contundente às formas de organização social/econômica/política que produzem opressores e o oprimidos.

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