Sobre a definição marxista da classe operária, de Osvaldo Garmendia (Rolando Astarita)

Waldo Mermelstein 

Os marxistas costumam debater apaixonadamente sobre como definir a classe operária, praticamente desde o início, desde os tempos de Marx. Não é um debate supérfluo: o que se discute é a definição da classe que pode, por sua natureza, força, concentração e combatividade, implantar o socialismo, dando uma solução positiva para as recorrentes crises que caracterizam o sistema capitalista e o sofrimento que provoca naqueles que vendem seu trabalho ao capital. É a classe em que os marxistas revolucionários precisam se implantar se quiserem ter algum sucesso em sua empreitada de acabar com o jugo do capital.

Uma aclaração: não há uma relação mecânica entre o tamanho e concentração da classe operária e a a evolução de sua consciência, que é outro tema: por exemplo, duas das maiores concentrações operárias do mundo, o Japão e os EUA, possuem uma das classes trabalhadoras menos radicalizadas em termos políticos. Claro que quanto mais forte for, quanto mais concentrada, culta, mais intensa será sua influência sobre o conjunto da sociedade, mais possível será que as ideias do socialismo sejam tornadas uma força material por sua ação coletiva.

O texto de Osvaldo Garmendia (Rolando Astarita) foi escrito para responder a uma organização trotskista da Suécia, que tendia a restringir a noção de classe operária aos trabalhadores de linha de produção das fábricas. Sua mensagem central é que o desenvolvimento do capitalismo, como Marx havia previsto, tornou a força de trabalho mais subordinada ao capital, diminuindo os setores de pequenos proprietários e profissionais liberais.

Uma recordação pessoal: estava militando na Bolívia com a pequena seção da LIT, em 1985, quando Moreno nos visitou. Organizamos uma pequena plenária com todos os militantes (umas vinte pessoas) e Moreno iniciou sua intervenção fazendo questão de dizer que a Bolívia era muito mais avançada em termos capitalistas do que a Rússia de 1917. Sinceramente, fiquei surpreso que tivesse feito isso, ainda mais em um país com mais de 50% vivendo no campo e com uma imensa quantidade de artesãos e vendedores ambulantes! A categoria operária mais importante, os mineiros, eram 50 mil à época, em um país com 5 milhões de habitantes. Essa posição de Moreno depois ficou muito clara com suas intervenções no Comitê Executivo Internacional da LIT e no artigo agora publicado, em uma revista diretamente dirigida por ele.

O que vemos no mundo e em nosso país confirma espetacularmente essa previsão: o número daqueles que vivem da venda do seu trabalho ao capital e têm sua rotina de trabalho estritamente controlada e subordinada a este não deixou de crescer. Por exemplo, no Brasil existem 1,4 milhão de trabalhadores de telemarketing, uma das maiores categorias, muito concentrados, com salários baixíssimos, com rotinas estreitamente determinadas pelos supervisores em nome das empresas. Não por acaso, os cerca de 2,2 milhões de professores do país (deixando de lado, por serem um caso mais complexo os professores universitários que são cerca de 300 mil) estão entre os mais explorados, que mais lutam, utilizando os mesmos métodos de lutas massivas que os seus irmãos na indústria. E observando as imensas quantidades de trabalhadores do comércio (o “proletariado comercial”, segundo Engels), em particular nos grandes supermercados, hiper-mercados, distribuidoras, etc., podemos perceber que o tamanho do proletariado vai além do chão da fábrica, que é, naturalmente, seu núcleo mais compacto, importante e decisivo.

O tema aqui é que o número dos que podem potencialmente lutar contra a dominação capitalista não cessou de crescer desde quando Marx escreveu seus textos fundadores. Isso é uma das razões para sermos otimistas que por meio de suas lutas, educação e perseverância, a classe operária, tomada em sentido amplo, tenha mais condições potenciais de oferecer uma alternativa à sociedade do que na época em que Marx elaborou sua teoria.

Uma constatação empírica: ao viajar por vários anos a vários países da Ásia, deparei-me com multidões de operários nas cidades. Shangai, Jakarta, Hanoi, Yangon, Ho-Chi-Min (mais conhecida pela velha guarda como Saigon), Bangkok, Teerã, Nova Deli. Em todos esses lugares vi uma imensa massa de trabalhadores, muito jovens, muito dinâmicos, confiantes. Uma diferença imensa de um século e meio atrás, ou mesmo do tempo da revolução russa. Só na China, 200 milhões de pessoas entraram na órbita de exploração direta do capital local e internacional nos últimos 30 anos. O tempo e as lutas contra a implacável dominação burguesa nos permitem ter enormes esperanças de que superarão seu grau atual de organização e consciência. A matéria prima está lá, em enormes e inusitadas quantidade.

Por tudo isso, é uma grande satisfação que o blog Convergência publique um artigo que me impactou muito quando o li e que valorizo cada vez mais todas as vezes que o releio. Desejo uma proveitosa leitura a todos. É um bom e sólido ponto de partida – não um dogma – para entrar no debate e estudar por sua conta a realidade!

 

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