Infância clandestina: um olhar engajado

Rejane Carolina Hoeveler

Poderia ser só mais um filme sobre “o olhar infantil” ou “a perda da inocência” perante uma ditadura. Mas Infância Clandestina vai um pouco além de seus similares, como o excelente Machuca (Andrés Wood, 2004), e é mais politizado, por exemplo, que o brasileiro O ano em que meus pais saíram de férias (Cao Hamburger, 2006), a começar pelo fato de ser explicitamente engajado. Embora o tema central ainda seja o da vivência psicológica de uma criança inserida em uma situação de repressão política, com pais militantes, etc., e afora o formato estético e os dramas pessoais retratados, a abordagem do filme difere de forma sutil, porém substancial, de outros filmes do gênero.

O ano é 1979. O cenário, Argentina. O personagem principal é Juan, menino que foi assim chamado numa óbvia referência a Perón, mas que, na clandestinidade, passa a se chamar Ernesto – numa referência também óbvia a outra figura, esta mundialmente associada ao socialismo internacionalista. O menino Juan-Ernesto é um alter-ego do diretor do filme, Benjamín Ávila, que reencontrou através das avós da Praça de Maio seu irmão mais novo, sequestrado pela ditadura de 1976, uma das mais sangrentas de toda a história latino-americana. É desta forma, um tanto sutil, que o filme Infância Clandestina deixa transparecer a influência que a Revolução Cubana teve sobre um dos principais grupos da esquerda peronista, os Montoneros, uma das organizações com maior número de desaparecidos políticos na Argentina até hoje. Os acontecimentos que o filme retrata se dão no período posterior ao exílio dos Montoneros em Cuba, quando estes retornam ao país para dar continuidade ao grupo, e são quase todos assassinados. Inicialmente, causa certa estranheza ver certos postulados socialistas conjurados com palavras de ordem como “Tudo por Perón” e “Pátria ou morte”, como aparece no filme. No entanto, se adentrarmos um pouco na complexa história do peronismo e da esquerda na Argentina, talvez esta estranheza encontre pelo menos, uma explicação.

A esquerda montonera

Organização surgida no início dos anos 1970, os Montoneros tinham uma característica muito peculiar, bastante sui generis, pois embora primordialmente peronista e nacionalista, também era marcado por fortes influências socialistas e terceiro-mundistas. Seu nascimento nos remete ao golpe de 1955, quando após dois mandatos, Perón perde seu apoio militar e renuncia. Em seu último discurso, Perón havia dito que: “À violência temos que enfrentar com uma violência maior. E quando um de nós cair cairão cinco deles”, convocando uma vigília em armas contra as oligarquias entreguistas (com as quais tentara conciliar, sem sucesso) e o imperialismo, no auge de seu prestígio popular. Neste período o Partido Comunista e o Partido Socialista formavam ao lado da UCR, Partido Democrata Progressista, a Igreja católica e o resto da direita tradicional, a oposição contra Perón, o que fez com que setores significativos do movimento operário desprezassem a tradição marxista por associá-la à “traição”.

A primeira ação pública dos Montoneros, realizada em 1º de junho de 1970, foi o sequestro seguido de justiçamento do general Pedro Eugenio Aramburu, um dos principais líderes do golpe de 1955 contra Perón, e que ficou conhecido por ter sequestrado os restos mortais de Evita. No mês seguinte, os Montoneros protagonizariam outra ação, a chamada Tomada de La Calera, em Córdoba, onde tomaram a central telefônica, e assaltaram o Banco da Província de Córdoba, deixando no local uma caixa que pensou-se conter uma bomba, mas que na verdade continha um gravador com a marcha peronista. A ação, porém, custou a morte de um dos seus principais líderes e a prisão de outros tantos. Foi após essas primeiras ações que o grupo procurou reforçar a captação de quadros da juventude peronista, que no período tinha como principais lemas “Pátria o muerte” e “Luche e vuelte” (Perón encontrava-se exilado na Espanha franquista). Neste período, o grupo tinha anuência oficiosa do próprio Perón. Com seu retorno ao país, em 1973, no entanto, desencadeou-se uma violenta repressão às alas mais radicais do peronismo, pela ação de suas alas mais reacionárias, especialmente a Triple A (Aliança Anticomunista Argentina). No próprio dia de sua chegada ao país, em 20 de junho de 1973, um episódio singular já anunciava o triste fim da esquerda peronista: por ordens de Perón, instituiu-se como responsável pela segurança do operativo o Coronel Jorge Osinde, pertencente à direita peronista, e então, uma gigantesca manifestação popular, que contava com uma enorme coluna montonera, deu lugar a um conflito aberto noite adentro, com centenas de mortos e feridos, obrigando o próprio Perón a desembarcar noutro aeroporto.

A partir do momento em que se instalou no país, Perón se afastou cada vez mais da esquerda peronista, e pouco antes de sua morte chegou a pronunciar xingamentos públicos aos Montoneros, pois estes faziam forte campanha contra José Lopez Rega, ex-cabo da Polícia Federal Argentina, nomeado ministro do Bem-estar social e dirigente da Triple A, e que seria o principal quadro político no governo de sua segunda mulher. O episódio do xingamento público, no dia 1º de maio de 1974, marcou o retorno dos Montoneros à clandestinidade, agora já em oposição aberta. No ano seguinte, o grupo faria conversações com a ERP (Exército Revolucionário do Povo), braço armado do trotskista PRT (Partido Revolucionário dos Trabalhadores), e que seria totalmente dizimado em 1975.

O filme La Hora de Los Hornos, de 1968, realizado pelo mais conhecido diretor de cinema da Argentina, Fernando “Pino” Solanas, é uma preciosa fonte histórica sobre as origens ideológicas dos Montoneros. Nele, fica explícito o balanço da esquerda peronista acerca do próprio peronismo: a ideia de que, para ser consequente, a luta pela libertação nacional teria que desembocar na expropriação da burguesia – em outras palavras, no socialismo. A derrota de 1955, afinal, já tinha provado a incapacidade da burguesia nacional de levar adiante um programa de reforma social radical; e a própria experiência da Revolução Cubana, dirigida por um grupo que não era socialista a princípio, mas que foi levado ao socialismo para defender-se do imperialismo, também influiu nesta mudança sofrida no interior da organização montonera.

Embora o filme não trate dessas questões, fornece alguns elementos sutis a partir dos quais é possível uma análise acerca da trajetória dos Montoneros; porém fundamentalmente diz respeito a uma batalha de memória muito cara até hoje à esquerda argentina.

A disputa pela memória

Uma das discussões mais interessantes que o filme traz é sobre o ensino de História nas escolas básicas, no período ditatorial, cuja orientação se expressava na exaltação dos espanhóis como aqueles que trouxeram a “civilização” e o cristianismo, superando o passado de barbárie indígena. O âmbito escolar se revela um local privilegiado da batalha de memória.

Infância clandestina, que já é a indicação argentina ao próximo Oscar, é uma homenagem explícita a “todos os militantes sociais e revolucionários”, inserindo-se, portanto, na histórica disputa de memória no país em que se tentou implantar a “desperonização” (proibição de símbolos peronistas e mesmo de pronunciar seu nome) após o golpe “Gorila” de 1955 e que afinal, para manter as condições para a acumulação capitalista, teve de pactuar com o velho caudilho para que este estabilizasse o país nos anos 1970. Após o evidente fracasso dessa “estabilização”, a contrarrevolução terrorista se implantaria a partir de 1976, com uma ditadura que disputou o lugar de uma das mais brutais no século XX e que deixou um saldo de 30 mil mortos e “desaparecidos”, como foi o caso da mãe do pequeno Juan-Ernesto.

A despeito de não tocar (nem se propor a tocar) numa série de questões, a produção é uma oportunidade interessante de se discutir História e política através do cinema.

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