Numa escola em Havana: a geração pós-restauração em Cuba

Jorge Badauí 

Crianças encantadoras e sensíveis, submetidas à rispidez da vida. A professora maternal e cativante, que faz do seu ofício uma luta por seus alunos. Há uma infinidade de filmes que partem desse contexto. O risco do clichê é sempre desencorajador.

A proeza de “Numa escola em Havana” é, precisamente, ser original ao falar do que, à primeira vista, muitos já falaram. O diretor Ernesto Daranas oferece-nos, desde uma escola cubana, símbolo de uma das maiores conquistas da revolução socialista de 1959, um comovente retrato dos dilemas da geração que vai crescer sob o retorno do capitalismo à Cuba.

Em cartaz no Brasil, lamentavelmente em circuito bastante restrito, o longa tem como protagonista o pequeno Chala (Armando Valdés Freire). Pobre e filho de pai desconhecido, o menino dedica-se à criação de pombos e envolve-se com o perigoso universo das apostas ilegais em brigas de cães, como meio de levar sustento à sua mãe – com quem tem uma relação conturbada e pouco afetuosa. Na escola, seu comportamento agressivo e rebelde o faz sofrer a tentativa de marginalização por parte de um burocrático sistema de ensino.

Quando o núcleo dirigente de seu colégio o quer encaminhar a um reformatório, Chala encontra em Carmela (Alina Rodríguez) sua única defensora. A mais experiente professora da escola passa, então, a arriscar seu próprio emprego em um confronto aberto com suas chefes, contra aquilo que interpreta ser uma sentença que condenaria de vez seu aluno a um futuro tão amargo quanto a sua infância.

Como pano de fundo de um drama bem recortado e de roteiro com boa cadência, estão as mazelas geradas pela restauração do capitalismo em Cuba. Chala, bem como todos os seus colegas da escola, vive sob a pobreza severa e a desesperança de um futuro distinto. O bairro onde vive não está tão distante das favelas brasileiras, com suas moradias precárias e urbanização improvisada.

Sonia (Yolet Cruz), a mãe de Chala, além de viciada em drogas, é prostituta. Em uma das cenas mais comoventes do filme, tenta ocultar do filho a marca de uma agressão no rosto após mais uma madrugada de trabalho. A prostituição é, hoje, uma das feições mais brutais da condição social cubana, quando o capitalismo restaurado concorre com a opressão sobre as mulheres.

O caráter autoritário do regime cubano está, também, em evidência no conflito central do longa-metragem. Ao se confrontar com a jovem geração de dirigentes da escola, Carmela sabe que está diante de um juízo inquisitório, que não hesitará em utilizar qualquer deslize para lhe fazer se curvar. Ao ser interpelada com a insinuação de que estaria ultrapassada, já que talvez já houvesse lecionado por tempo demais, a velha professora corajosamente reage com uma provocação: “E os que governam este país? Já não terão tido tempo demais?”.

Assim, a familiaridade desde cedo com a literatura e as lições sobre o pensamento de José Martí que Chala encontra na escola, reflexo das conquistas do passado, contrastam com a vida que leva do lado de fora. A pobreza, suas relações familiares deterioradas e o contato com o crime organizado o conduzem a uma situação que o Estado responde acenando com a repressão precoce. Em tempos de ameaça de redução da maioridade penal no Brasil, é difícil não se comover com a história de Chala.

Há uma nova geração crescendo em Cuba, após a restauração do capitalismo naquele país, cujos dramas e as dores se assemelham, cada vez mais, aos das crianças dos demais países latino-americanos. Em “Numa escola em Havana”, isso já se vê refletido de forma aberta no cinema cubano. Quem ainda insiste em ocultar isso é uma esquerda tão decadente quanto o próprio regime castrista. A geração simbolizada por Chala terá a chance de resgatar a utopia socialista na América Latina.

 

FICHA TÉCNICA

Título original: Conducta

País: CUBA    Ano: 2014

Duração: 100 min

Diretor: Ernesto Serrano Daranas

Roteiro: Ernesto Serrano Daranas

Música: Juan Antonio Leyva, Magda Rosa Galban

Fotografia: Alejandro Perez

Elenco: Armando Valdes Freire, Alina Rodriguez, Amaly Junco, Miriel Cejas, Yuliet Cruz, Armando Miguel Gomez, Silvia Aguila, Idalmis Garcia, Thomas Cao, Hector Noas, Aramis Delgado

Primeiro prêmio Coral do Festival de Havana 2014 – longa-metragem de ficção

Escreva um comentário

Seu e-mail não será divulgado


*


[email protected] [email protected]