100 anos de Zimmerwald e a luta pela reconstrução do Marxismo Revolucionário

Hotel Beau Séjour, espaço em que ocorreu o congresso de Zimmerwald em pintura a óleo.

André Freire

 

Há exatos cem anos, em setembro de 1915, acontecia um importante encontro internacional, que acabou se transformando em um primeiro passo fundamental para a reconstrução do Marxismo Revolucionário. Totalmente abalados e divididos, os marxistas se encontravam em uma encruzilhada, diante traição da Internacional Socialista (II Internacional) e a maioria das direções de seus partidos, especialmente o SPD Alemão, o mais importante e com mais tradição deles, que acabaram apoiando as burguesias de seus respectivos países na I Guerra Mundial. Inclusive, seus deputados nacionais votando a favor, nos parlamentos, da ampliação dos Orçamentos de Guerra (os chamados “créditos de guerra”).

Para se contrapor a política de captulação da maioria da direção internacional, se realizou, entre os dias 5 e 8 de setembro de 1915, a chamada “Conferência Socialista Internacional”, na cidade de Zimmerwald, na Suíça. As discussões na “Conferência de Zimmerwald”, como ficou historicamente conhecida, foram importantes para a afirmação de que as idéias marxistas revolucionárias não tinham morrido, junto com a enorme traição ao proletariado representado pela política da II Internacional na I Guerra Mundial.

Sem dúvida, essa reconstrução de uma internacional revolucionária era uma tarefa de grande magnitude, mas que ficou nas mãos de poucas organizações, agrupamentos e dirigentes marxistas, que naquele momento representavam um setor extremamente minoritário no interior da “poderosa” Internacional Socialista. É impossível, porém, entender à fundo os fatos mais importantes da luta de classes que se seguiram a realização da “Conferência de Zimmerwald” e o papel de enorme relevância que seus participantes jogaram neles, especialmente no desfecho da I Guerra, na Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, na derrota da Revolução Alemã na passagem da primeira para a segunda década do século XX e na construção da III Internacional (a Internacional Comunista – “Comintern”).

Daqui há dois anos vamos comemorar o primeiro centenário da Revolução Bolchevique de outubro de 1917. É justo incorporar nessa comemoração histórica, o relevante papel que o Partido Bolchevique jogou – quando ainda era uma organização minoritária (embora, já muito importante) no interior da própria Rússia – na luta contra a traição da social-democracia e nos passos decisivos dentro do movimento dos “Zimmerwaldianos” para a construção da III Internacional, uma superação da já falida II Internacional, desde o ponto de vista da luta revolucionária.

Organizando o encontro

O Partido Socialista Italiano, depois de ter expulsado um ano antes o próprio Mussolini do partido, optou pela neutralidade na guerra, e junto com os socialistas suíços, foram os principais organizadores da “Conferência de Zimmerwald“.

Os dados não são totalmente precisos, mas nela compareceram algo entre 36 e 42 delegados(*1), representando partidos e/ou grupos minoritários no interior dos partidos, de pelos menos 19 países, entre os principais estavam: Itália, Suíça, Alemanha, França, Holanda, Suécia, Romênia, Bulgária, Polônia e Noruega; da Rússia, compareceram três organizações – os Bolcheviques, os Mencheviques e a ala esquerda dos Socialistas-Revolucionários; e os representantes ingleses, do Partido Trabalhista Independente e do Partido Socialista Britânico, não puderem sair do seu país. O Grupo Espartaquista alemão, onde militavam Rosa de Luxemburgo e Karl Liebknecht, não esteve presente.

Ao final dos trabalhos, foi aprovado um Manifesto, elaborado por Leon Trotsky, que condenava a política da II Internacional na I Guerra Mundial, apesar de importantes polêmicas sobre seu conteúdo. Foi constituído também uma Comissão Socialista Internacional (ISK), que representou, na prática, um novo agrupamento internacional. Ou, nas palavras de Lênin “… um novo Birô Socialista Internacional, contra a vontade do velho Birô e sobre a base de um manifesto que condena abertamente a sua tática”.

A ISK representou um passo no sentido da reorganização, à escala internacional, das forças que reivindicavam o marxismo e se opunham a traição a II Internacional. Embora não tenha adotado a estratégia de ruptura com a Internacional Socialista, além da aprovação do seu Manifesto, deu passos também organizativos, como publicações de declarações, boletins e circulares, que informavam ao movimento operário e aos militantes das organizações que nela participavam sobre suas reuniões e iniciativas.

Polêmicas principais

Embora houve um ponto em comum entre seus participantes – a condenação da política da maioria da direção da II Internacional na Guerra – a Conferência de Zimmerwald foi marcada por fortes polêmicas desde o seu início.

Se estabeleceu, nos principais debates, dois agrupamentos. Um majoritário, com posições mais moderadas em relação ao programa a ser adotado pela Conferência; e uma ala esquerda, que expressava de forma mais contundente as posições do marxismo revolucionário. À frente da chamada “esquerda de Zimmerwald” se encontra o Partido Bolchevique russo.

A principal polêmica acabou se concentrando na definição do Manifesto Final da Conferência. Uma proposta majoritária unificou os setores mais moderados e centristas, e contou com 19 votos, contra a proposta apresentada pelos Bolcheviques e alguns aliados internacionais (os Internacionalistas), que contou com 12 votos.

Após intensas discussões, o Manifesto Final acabou incorporando algumas idéias defendidas pelos Bolcheviques, em especial, sobre a definição do caráter imperialista da I Guerra Mundial e a condenação veemente da política “social-chauvinista” (nacionalista) da direção da II Internacional na Guerra.

Porém, mesmo levando em consideração os avanços no conteúdo do Manifesto Final, ainda se mantiveram polêmicas importantes. Entre elas, a negativa da maioria em incorporar no manifesto uma condenação política dos setores pacifistas e centristas que vacilavam a romper por completo com a política majoritária na II Internacional. E, principalmente, a hesitação absoluta da maioria dos presentes em apontar a necessidade urgente de romper com a Internacional social-democrata, dando os primeiros passos para a construção da III Internacional. Política, que era, já naquela altura, a principal preocupação estratégica dos Bolcheviques.

Os Bolcheviques fizeram um balanço positivo da sua atuação na Conferência de Zimmerwald, apesar dos limites programáticos apontados no seu manifesto. Para Lênin, o manifesto significou “um primeiro passo” importante na luta contra o social-chauvinismo da II Internacional e de afirmação de uma alternativa, que se concretizou na montagem da ISK, que na prática aparecia com uma alternativa diante da bancarrota para o projeto revolucionário da direção do antigo Birô Socialista (direção da II Internacional). Em relação ao balanço da atuação dos Bolcheviques em Zimmerwald, Lênin afirmava:

Devia nosso Comitê Central ter assinado um manifesto que possui inconseqüências e timidez? Cremos que sim. Do nosso desacordo – do desacordo não só do Comitê Central, senão de toda a ala esquerda, internacional, marxista-revolucionária da Conferência – falamos francamente tanto na resolução especial, como no projeto especial de manifesto e na declaração especial com motivo de votação em prol de um manifesto de negociação. Não ocultamos nada de nossa opinião, palavras de ordens e táticas. Na Conferência distribuímos a edição alemã do folheto <O Socialismo e a guerra>. Temos divulgado, divulgamos e divulgaremos nossas opiniões não menos do que se divulgará o Manifesto. É um fato que este Manifesto dá um passo adiante até a luta autêntica contra o oportunismo, até o rompimento com ele e a separação dele. Seria sectarismo negar-se a dar esse passo adiante junto com a minoria dos alemães, franceses, suecos, noruegueses e suíços quando conservamos a plena liberdade e a plena possibilidade de criticar a inconseqüência e conseguir mais. Seria uma má tática militar negar-se a marchar junto com um crescente movimento internacional de protesto contra o social-chauvinismo pelo fato de que este movimento seja lento. De que dê unicamente um passo adiante … Em Setembro de 1915 nos unimos estreitamente no grupo da esquerda internacional, expomos nossa tática, conseguimos que toda uma série de idéias fundamentais nossas fossem reconhecidas em um manifesto comum, participamos da formação da ISK (Comissão Socialista Internacional), quer dizer, de fato, na organização de um novo Birô Socialista Internacional, contra a vontade do velho Birô e sobre a base de um manifesto que condena abertamente a sua tática”. (LÊNIN, 1985 [27], pp 39-45).

Lênin valorizou especialmente o fato de os Bolcheviques não esconderem as suas importantes diferenças com o conteúdo do manifesto de Zimmerwald para se manter participando dos seus fóruns. Ao contrário, eles fizeram as polêmicas durante a Conferência, conseguiram incorporar várias de suas teses no próprio manifesto comum e fizeram ainda uma declaração pública , ao final, deixando explícito o que para eles eram os limites daquele documento. Agora, como afirmou Lênin, seria um erro sectário romper precipitadamente com Zimmerwald, pois a participação dos Bolcheviques nessa Conferência significou um passo adiante para a reconstrução o marxismo revolucionário ao nível internacional.

A divulgação do manifesto comum não significou que as polêmicas tenham se encerrado, ao contrário, na verdade, elas se aprofundaram no interior do grupo Zimmerwaldiano e no interior de seus fóruns, principalmente na ISK.

As polêmicas cresceram no final do ano de 1915 e no começo do ano de 1916. As divergências eram consequência do prolongamento da Guerra e da política traidora da II Internacional, que deixava mais evidente os limites programáticos do primeiro manifesto e, especialmente sobre a necessidade de uma ruptura contundente com os setores social-chauvinistas, e também com os pacifistas e centristas, rumo a construção da III Internacional. A intensificação das polêmicas precipitaram a convocação da II Conferência Socialista Internacional, que acabou acontecendo entre os dias 24 e 30 de abril de 1916, na cidade suíça de Kiental.

Rumo à terceira

O Comitê Central dos Bolcheviques escreveram uma proposta prévia para a Conferência de Kiental, criticando duramente a postura vacilante da maioria do grupo Zimmerwaldiano e reafirmando a necessidade da ruptura completa, política e organizativa, com a II Internacional. Inclusive, a proposta dos Bolcheviques apontava que essa ruptura já estava se dando naturalmente e na prática em vários partidos nacionais. Portanto, era necessário passar imediatamente ao trabalho prático de construção da III Internacional, como afirmava o documento Bolchevique:

Na realidade, a ruptura existe já em todo o mundo; se cristalizou duas políticas da classe operária a respeito da guerra, absolutamente irreconciliáveis. Não devemos fechar os olhos diante deste fato; isso só levaria confusão as massas operárias, obscurecer sua consciência, dificultaria a luta revolucionária de massas com a qual todos os de Zimmerwald simpatizam oficialmente … Os social-chauvinistas e Kautskistas de todos os países são os que se dedicam a reconstruir o fracassado Birô Socialista Internacional. A tarefa dos socialistas é explicar as massas a inevitabilidade de uma ruptura com quem aplica a política da burguesia sob a bandeira do socialismo. (LÊNIN, 1916).

Apesar do recrudescimento da I Guerra Mundial e do papel cada vez mais nefasto da política social-chauvinista da direção da social-democracia, mais uma vez a maioria do grupo Zimmerwaldiano hesita, e não adota as propostas dos Bolcheviques. Principalmente, se nega a apontar a necessidade de uma III Internacional.

Os Bolcheviques fazem um duro balanço da postura vacilante da maioria da segunda Conferência, mas optam por continuar atuando no seu interior, para batalhar pela construção de uma nova organização internacional revolucionária, diante do fracasso evidente da II Internacional.

No entanto, a manutenção dos Bolcheviques na ISK, na prática, foi acompanhada de uma intensificação da luta política, teórica e programática contra a maioria do grupo de Zimmerwald. Afinal, embora o Manifesto de Kiental condenasse mais uma vez a política da II Internacional na Guerra, a maioria de seus grupos e dirigentes já tinham consolidado uma postura pacifista e já ensaiavam os primeiros movimentos que buscariam no futuro uma recomposição política com a velha direção da II Internacional. Neste momento, a conclusão dos Bolcheviques era a seguinte:

Estamos profundamente convencidos de que agora se colocou em evidência, e de forma definitiva, que a maioria de Zimmerwald, ou a direita de Zimmerwald, deu uma virada completa não até a luta contra o social-chauvinismo, senão até a sua total subordinação a ele, até a fusão com ele, sobre a base de uma plataforma de frases meramente pacifistas. Consideramos, pois, que é nosso dever declarar abertamente que, nestas circunstâncias, manter ilusões a respeito da unidade de Zimmerwald e da luta zimmerwaldista pela III Internacional causaria maior dano ao movimento operário. Declaramos, não como ameaça nem como ultimato, senão como notificação pública de nossa decisão, que, ao menos que se modifique esta situação, nós não seguiremos sendo membros do grupo zimmerwaldiano”. (LÊNIN, 1985 [30], página 449).

O retrocesso político da maioria do grupo Zimmerwaldiano até posições pacifistas fica mais explícito ainda nos acordos que eles começaram a concretizar, em vários partidos nacionais, com a velha direção social-democrata, isolando os agrupamentos internacionalistas que se organizavam na esquerda de Zimmerwald.

A intensificação da polarização dos debates no interior do grupo Zimmerwaldiano se combina com a reabertura do processo revolucionário na Rússia. Em fevereiro de 1917, uma revolução derruba finalmente o Czar russo, os Soviets voltam a se organizar e instala-se um governo provisório, de maioria Liberal (Kadetes) mas já com o apoio – e posterior presença no seu interior – de elementos Mencheviques e Socialistas-Revolucionários.

Os Bolcheviques concluem que é necessário aproveitar, inclusive, a abertura política na Rússia, com a queda do Czarismo, para trabalhar abertamente pela construção da III Internacional, rompendo definitivamente com a direita e o centro de Zimmerwald, permanecendo na ISK somente por algum tempo, para deixar nítida suas posições. Afirmavam:

Não podemos tolerar por mais tempo a charca zimmerwaldiana. Não podemos permitir por culpa dos Kautskyanos de Zimmerwald sigamos aliados a medidas com a Internacional chauvinista dos Plekanov e dos Scheidemann. Temos que romper imediatamente com essa Internacional, continuando em Zimmerwald somente com fins de informação … Não esperar, senão proceder imediatamente a fundação da III Internacional: tal é a missão de nosso partido”. (LÊNIN, 1985 [31], pp 178-190).

Ainda foi realizada uma terceira Conferência Socialista Internacional, em setembro de 1917, em Estocolmo (Suécia), mas já sem o apoio e a presença do partido Bolchevique. Este foi o último encontro internacional convocado em nome do Grupo Zimmerwaldiano.

As tarefas práticas do processo revolucionário russo e os debates com aliados internacionais que resistiam ainda em concordar explicitamente com a fundação da III Internacional, em especial com os Espartaquistas alemães (grupo político de Rosa de Luxemburgo e Karl Liebknecht), acabaram por postergar ainda por dois anos a sua criação oficial. O extraordinário impulso da conquista do poder pelos Bolcheviques na Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, primeiro Estado Operário da História, permitiram uma situação favorável para a construção de uma nova internacional revolucionária. A III Internacional é fundada então em março de 1919.

O impacto da Revolução Russa no movimento operário internacional e o ascenso revolucionário que sacudiu parte importante da Europa no final da I Guerra Mundial abriram as condições para que a III Internacional se transformasse, em curto espaço de tempo, em um verdadeiro partido mundial da Revolução, com fortes partidos nacionais, que conquistaram grande influência política e número de militantes nos principais países europeus.

Para isso, em primeiro lugar, a inflexibilidade programática e de princípio pela construção de uma verdadeira Internacional Revolucionária, aliada a flexibilidade tática de saber lutar por esta proposta implacavelmente no interior do grupo Zimmerwaldiano e da ISK, foi um importante processo de acúmulo de forças, pelos Bolcheviques e os Internacionalistas, para a construção da III Internacional.

A força política e programática e a dimensão que a “Comitern” adquiriu já no início da década de 20 do século passado não podem ser compreendidas sem um rigoroso estudo da irreconciliável luta política e teórica que os Bolcheviques fizeram no interior da social-democracia e do grupo de Zimmerwald, quando ainda eram uma organização minoritária no interior do marxismo, pela ruptura e superação da II Internacional, frente a sua traição na I Guerra Mundial, e a urgente construção da III Internacional.

Essa é a importância de recordarmos e comemorarmos o centenário da Conferência de Zimmerwald, pois, nos dias de hoje, a defesa do marxismo revolucionário também nos exige a mesma firmeza ideológica e de princípios, aliada a flexibilidade nas táticas políticas, que os Bolcheviques tiveram diante da enorme traição da social-democracia na I Guerra Mundial e nos passos que foram necessários adotar para lutar, em melhores condições, para a construção da III Internacional.

Nota:

(*1) – TAU GOLIN, no seu texto “Introdução aos anais do partido mundial da revolução”,  fala em 42 delegados; já PIERRE BROUÉ, no seu livro “História da Internacional Comunista”, fala em 36 delegados, vindos de 19 países diferentes;

Bibliografia:

BROUÉ, Pierre, “História da Internacional Comunista“, Sundermann, São Paulo, 2007.

GOLLIN, Tau, “Introdução aos anais do Partido Mundial da Revolução, publicado em “III Internacional Comunista“, Brasil Debates, São Paulo, 1988.

LÊNIN, Vladimir, “O Primeiro Passo”, Editora Progresso, Tomo 27, Obras Completas, Moscou, 1985.

LÊNIN, Vladimir, “Proposta do Comitê Central do POSDR a Segunda Conferência Socialista”, Boletim número 3 da Comissão Socialista Internacional, 29 de fevereiro de 1916.

LÊNIN, Vladimir, “O Primeiro Passo”, Editora Progresso, Tomo 27, Obras Completas, Moscou, 1985.

LÊNIN, Vladimir, “Rascunho do projeto de teses para uma mensagem a Comissão Socialista Internacional e a todos os partidos socialistas”, Editora Progresso, Tomo 30, Obras Completas, Moscou, 1985.

LÊNIN, Vladimir, “As tarefas do proletariado em nossa revolução”, Editora Progresso, Tomo 31, Obras Completas, Moscou, 1985.

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