“O princípio era a ação” A trajetória de Carlos Marighella

Américo Gomes

Em dezembro do ano passado produzimos um artigo para o site do jornal Opinião Socialista sobre Carlos Marighella. Agora damos continuidade aquele material, abordando outros aspectos de sua vida e militância.

Não é fácil escrever sobre um homem que é quase um mito, e teve uma vida agitada e polemica através dos acontecimentos da luta de classes.

Marighella era um homem do partido em seu tempo. Colocou a construção daquela que ele acreditava, como sendo uma ferramenta fundamental para a revolução, acima de divergências ocasionais e as custas de um sacrifício pessoal que poucas vezes observamos.

Até romper com o PCB e sua linha pacifista, Marighella concordou e aplicou disciplinadamente toda a política do partido. Rompeu com a política pacifista, mas não com as concepções frente populistas de alianças estratégicas com a burguesia progressista; e nem com a teoria da revolução por etapas, priorizando a etapa da libertação nacional, antes da luta pelo socialismo.
Desiludido quando rompe com o partido, rompe também com a concepção leninista de organização centralizada centrada na classe operária, defendendo uma organização horizontal, sem centralização. Passando a ser o maior mentor intelectual da luta armada. Inimigo “número um” no regime militar.

Defendeu a luta armada, o terrorismo e a violência revolucionária. Introduziu na guerrilha urbana a metralhadora nos assaltos a bancos, o ato de atirar nos pneus para evitar perseguição e o de fechar as pessoas no banheiro para consumar os assaltos.

Não era um administrador burocrático de militantes, elaborava, propunha e aplicava o que dizia; torturado barbaramente pela ditadura Vargas nunca entregou nada; quando opta pela luta armada participa pessoalmente das ações, com mais de 55 anos de idade. Por mais divergências que tenhamos com sua política e seu método, sem dúvida nenhuma foi um homem digno de admiração.

1935 sem classe operária

A aventura comunista em novembro de 1935, orientada diretamente pela Internacional, foi feita basicamente pelo setor militar. Os militantes civis e a classe operária em particular, de maneira geral não participaram dela. Nem mesmo os comitês regionais ou as células de base.

No entanto, a repressão se abateu sobre todos. Os presos políticos eram tantos que as celas normais não foram suficientes. Passaram a utilizar as prisões de Ilha Grande, e quando estas lotaram, utilizaram o navio flutuante Pedro I e em São Paulo a tecelagem Maria Zélia.

O PCB estimou 15 mil presos. Mais de 7 mil somente no Rio de Janeiro. O secretário geral do PCB, Antônio Maciel Bonfim, o Miranda, foi muito torturado e preso por vários anos. O representante da Internacional, Arthur Ernest Ewert foi torturado até a loucura. Sua esposa Elise Saborovsky Ewert, chamada Sabo, junto com Olga Benário foi presa, torturada durante semanas, espancada, eletrocutada e estuprada diante do marido, depois, Getúlio Vargas deu ordem para deportá-las para a Alemanha Nazista, Olga estava grávida de 7 meses. Ambas foram assassinadas.

Os membros da direção que não foram presos fugiram para Salvador e Recife. Marighella passa a assumir um papel de primeira linha na organização em São Paulo, encarregado das finanças, produção gráfica, literatura e propaganda, na mais dura clandestinidade. Até o fim da vida Marighella reivindicou o levante.

Prisão e tortura

A segunda prisão de Marighella foi em 1936, após o 1º de maio, durante a ditadura de Getúlio Vargas. Ele foi violentamente torturado pela polícia de Filinto Müller durante 23 dias e, por sua resistência, de maneira grotescamente machista por seus carrascos “como o único macho do PCB” . Nunca falou nada, por isso ganhou fama na esquerda, no partido e na polícia. Permaneceu preso por um ano. Ao sair da prisão entrou para a clandestinidade.

Combate aos dissidentes trotskistas

Neste período, militando na clandestinidade Marighella, foi enviado a São Paulo para combater os “dissidentes” trotskistas “inimigos do partido”, “Dentro da concepção própria do stalinismo, o trotskismo seria uma doutrina de espiões, de agentes policiais e de lacaios da burguesia” Atuou em parceria com Joaquim Câmara.

Fez parte da equipe que expulsou os “hereges”, “renegados trotskistas”, e manteve o partido fiel a linha nacional.

Dentre eles Hermínio Sacchetta, que vinha rompendo com a política stalinista de apoio as burguesias nacionais. Após a derrota do levante de 1935, Sacchetta, que dirigia o Comitê Regional de São Paulo e participava do Bureau Político Nacional, começou a tecer críticas à política da Direção Nacional. Particularmente a partir de 1937 divergindo do Comitê Central a respeito da política para as eleições presidenciais. O PCB passou a apoiar o candidato de Getúlio, para eleições de janeiro de 1938: Jose Américo de Almeida. Era a “união nacional contra o fascismo”. O baluarte da defesa desta política era o secretário geral do partido Lauro Reginaldo da Roca (Bangu), seu maior opositor era o Comitê Regional de São Paulo, com Sacchetta a frente.

Mario Magalhaes cita em seu livro que Marighella foi responsável pela edição impressa do Boletim Interno Regional onde apareceram os nomes de Sacchetta, Hélio Mana e Heitor Silva como divisionistas, sabotadores, espiões e provocadores fascistas e que o Komintern utilizou este Boletim para atacar Sacchetta em um comunicado pelo rádio. Para Magalhaes um golpe baixo, pois o PCB com isso identificou publicamente, com os nomes legais, três (ex-) militantes de uma agremiação proscrita.

O historiador Luiz Henrique de Castro e Silva escreveu em seu livro que tempos depois Joaquim Câmara contou a Sacchetta que o Bureau Político mandou matá-lo no auge da luta interna. Câmara foi o encarregado mas não o fez em nome do velho companheirismo. Ambos eram jornalistas.

Marighella sentiu na pele o mesmo tratamento quando apresentou suas divergências duas décadas e meia depois e foi tratado da mesma maneira pela direção nacional, sofrendo na mão do interventor Hercules Correa.

Três décadas depois se encontrou com Sacchetta novamente através de Câmara para pedir ajuda em uma empreitada contra a ditadura, no que foi auxiliado pelo velho trotskista.
Expulso do PCB, Sacchetta esteve entre os fundadores do Partido Socialista Revolucionário (PSR), ligado à Quarta Internacional (trotskista).

Marighella passou a ser o principal organizador do partido no estado de São Paulo, perseverante, não era da direção nacional, não era considerado um intelectual como Câmara ou Noé Gertel, mas disciplinado e sistemático. Foi novamente preso em janeiro de 1939.

União com Vargas e Dutra

Marighella fica na prisão até 1945, quando foi beneficiado com a anistia pelo processo de redemocratização do país. Na prisão aceitou as justificativas para o pacto Molotov-Ribentropp, em 1939 (o acordo de paz da URSS com a Alemanha), como um expediente de Stalin para ganhar tempo para depois atacar Hitler.

A partir de 1943, após a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial para combater o nazi-fascismo, o PCB adotou a tese da “união nacional”, afirmando que todos os brasileiros deveriam dar apoio à política de guerra do governo Vargas e lutar pela normalização democrática do país.

No primeiro semestre de 1945, Vargas anistiou os presos políticos. O PCB foi legalizado. Na legalidade conseguiu grande visibilidade. Chegou a contar com mais de 100 mil filiados. Nas eleições de 2 de dezembro de 1945, concorreu à presidência da República e à Assembleia Nacional Constituinte, alcançando um resultado surpreendente. Obteve 10% da votação nacional e, elegeu 15 deputados federais e um senador. Luís Carlos Prestes foi o segundo mais votado no país, suplantado apenas por Vargas, também eleito senador. Entre as 13 agremiações partidárias, o PCB tornou-se a quarta força eleitoral, atrás do Partido Social Democrático (PSD), da União Democrática Nacional (UDN) e do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

Foi neste período que Marighella escreveu “A Democracia Está em Marcha”:

“A única legalidade que hoje é capaz de vigorar é a legalidade democrática. (…) Os golpes armados, a desordem, a violência não ajudarão a marcha da democracia para a frente, que deve ser feita sem esses atropelos. (…)
Num clima de ordem, paz e tranquilidade, é possível fazer a unidade do povo e resolver nossa grave crise econômica.”

Com o avanço da redemocratização, o movimento operário ganhou força, o número de sindicalizados cresceu e várias greves aconteceram. Para barrar o avanço da classe trabalhadora, o novo governo Dutra, baixou um decreto proibindo o direito de greve.

No final de 1946, a direção do partido defendia a tese sobre a possibilidade da conquista do poder, através de meios pacíficos e legais, uma “democracia progressista capaz de assegurar a solução progressista dos mais sérios problemas do nosso povo”.

Mas o partido continuou a apoiá-lo. Em 1946, Marighela foi eleito deputado federal constituinte pelo PCB da Bahia. Sendo um exemplar representante do Partido Comunista, Marighella apresentou em junho/julho de 1947 um projeto sobre o petróleo, que formava uma autarquia: o Instituto Nacional de Petróleo, uma sociedade de economia mista para exercer atividades relacionadas com o abastecimento nacional. O governo somente deteria 51% das ações, deixando o resto para a iniciativa privada, excluindo os capitalistas estrangeiros, mas não defendendo o monopólio estatal. A emenda 3259 da constituinte apresentada por Prestes, Marighella e Grabois, entre outros, estabelecia o direito de exploração dos estrangeiros igual ao dos brasileiros, independente do domicilio eleitoral.

Atitude completamente distinta a que teve na década de 50, quando Marighella e o partido estiveram na vanguarda da campanha “O Petróleo é nosso”.

Como homem do partido Marighella recebia no cargo de deputado constituinte o equivalente a 34 vezes o valor de um salário mínimo, mas não tinha dinheiro para comprar um cinto. “Nem via a cor do dinheiro. Os comunistas assinavam uma procuração para a tesouraria do partido, que sacava os salários na boca do caixa e lhes entregava 1.200 cruzeiros. (…) Ele renunciava a 92% dos ditos subsídios do deputado”.

Em 1946, no mês de março, representantes da burguesia entraram com um pedido de cassação do registro partidário. A direção nacional não deu muita atenção àquela solicitação, de tão adaptada que estava a democracia burguesa. Prestes falava que isso era demonstração de fraqueza. “O imperialismo está com os dentes quebrados” Meses mais tarde, o Ministério Público apresentou as acusações de que o “partido era comunista e era do Brasil, não brasileiro”.

As mudanças no cenário internacional influenciaram a realidade brasileira. A aliança entre os Estados Unidos e a União Soviética começou a ser desfeita. Era o início da Guerra Fria. Conclusão: no dia 7 de maio de 1947, o PCB teve seu registro cassado. O Ministério do Trabalho decretou a intervenção em vários sindicatos e fechou a Confederação Geral dos Trabalhadores do Brasil, criada em setembro de 1946. Em outubro de 1947 romperam-se as relações diplomáticas do Brasil com a União Soviética.

Em seguida, os comunistas tentaram organizar uma nova agremiação partidária, o Partido Popular Progressista (PPP). O TSE também negou o registro para o PPP. A exclusão dos comunistas do sistema político- partidário culminou com a cassação dos mandatos de todos os parlamentares que haviam sido eleitos, em janeiro de 1948. Marighella perdeu o mandato e retornou para a clandestinidade.

E o partido lançou um manifesto pregando a derrubada imediata do governo Dutra, considerado um governo “antidemocrático”, de “traição nacional” e “a serviço do imperialismo norte- americano”. Era o “Manifesto de Agosto”, lançado em 19 de agosto de 1950. Prega o “armamento geral do povo” e defende a criação de um “exército popular de libertação nacional”. O manifesto, entretanto, não teve a menor ressonância. A classe operária, contrariando a indicação de votar em branco, votou maciçamente na chapa encabeçada por Getúlio Vargas.

Participaram de conflitos no campo, como em Porecatu, no Norte do Paraná; Capinópolis, no Triângulo Mineiro; e na região de Trombas e Formoso, em Goiás. Chegaram a formar um “território livre” de 10 mil km2, com governo paralelo e milícias armadas.

O novo governo de Getúlio Vargas vacilava entre o nacionalismo, o entreguismo e o estatismo. Getúlio deu a pasta da Fazenda para Oswaldo Aranha e a do Trabalho para João Belchior Marques Goulart. Foi apresentado ao Congresso, em 5 de dezembro de 1951, o Projeto de Lei número 1516 que criava o monopólio estatal do petróleo.

Goulart apresentou em janeiro de 1954 a proposta de aumento de 100% de aumento no salário mínimo e os militares pediram sua derrubada em fevereiro, com o “Manifesto dos Coronéis”, assinado, entre outros, por: Golbery de Couto Silva e Sílvio Frota. Getúlio demitiu Goulart, mas no 1o de maio concedeu o aumento do Salário Mínimo por ele proposto.

O PCB agitava que “O governo Vargas é um governo de traição nacional” . Com certeza era correto ser oposição a Vargas, mas a agitação tinha que levar em conta as ilusões que os trabalhadores tinham com o governo e deveria delimitar-se dos golpistas como Lacerda. Quando, em agosto de 1954, Getúlio cometeu o suicídio, as massas trabalhistas saíram às ruas em protestos contra seus opositores, os comunistas foram empurrados novamente para outro caminho.

Marighella atuou na organização da greve dos 300 mil e permaneceu em São Paulo trabalhando no setor operário até 1953. Depois, foi convidado pelo Comitê Central a conhecer a Revolução Chinesa e passou na China os anos de 1953 e 1954.

A volta à atuação dentro do regime e da ordem

Depois da guinada à esquerda, o PCB volta ao leito da ordem e da democracia burguesa com o apoio a Juscelino Kubitschek. Clara Charf afirma que Marighella participou diretamente das negociações do apoio.

JK tomou posse com dificuldade , necessitando do apoio do ministro da Guerra, general Teixeira Lott. Começou seu governo com o Plano de Metas. O governo de JK caracterizou-se pela ausência de presos políticos e pela liberdade de imprensa.

Então o PCB defendeu que o governo de JK apresentava a perspectiva de um desenvolvimento progressista do país. De acordo com a análise da direção do partido, o governo de JK era um governo em disputa entre duas alas: uma nacionalista, outra entreguista. A ala nacionalista tinha o general Lott como seu representante, ao passo que o representante da entreguista era o ministro Roberto Campos, superintendente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE)5, apelidado de Bob Fields.

A crise estalinista

Neste período uma enorme crise atinge a Internacional Comunista, a partir da realização do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), em fevereiro de 1956. Nikita Kruschev, então secretário geral do PCUS, aproveitaria o encontro para apresentar um relatório sobre a “Era Stalin”.

No documento, Kruschev acusava o ex-líder soviético pelo uso indiscriminado de violência, execuções, processos fraudulentos contra adversários políticos, violando todas as normas de legalidade revolucionária. O “Relatório Secreto”, como ficou conhecido, discutia ainda o culto à personalidade, construído por Stalin.

Kruschev com este Relatório pretendia embasar as mudanças na política internacional soviética, no sentido da coexistência pacífica, e buscava neutralizar as denúncias contra a burocracia para não perder o controle e direcioná-la segundo os seus interesses, em um momento de ascenso da luta contra a burocratização.

No Brasil, o Partido Comunista do Brasil (PCB), acusa sua publicação pela imprensa burguesa como “provocação do imperialismo”. Mas logo Prestes, por meio de um artigo publicado em fins de abril adapta-se à linha política de Kruschev (transição pacífica ao socialismo, superação da inevitabilidade das guerras dada a fraqueza do imperialismo etc.), critica o período stalinista repetindo os argumentos do Informe (público) de Kruschev. Diógenes Arruda, tentaria passar-se por crítico do stalinismo, mas sofre uma saraivada de críticas.

Marighella ficou muito abalado com estas revelações, chorou no Pleno e teve uma crise nervosa, não pode sequer concluir sua intervenção . Para Clara Charf, Stalin era para Marighella a figura heroica de um gênio militar , “de tal maneira a figura o inspirava” .

João Amazonas, Maurício Grabois, Pedro Pomar e Diógenes de Arruda Câmara (responsáveis, com Prestes e Marighella, pela reorganização do Partido desde os anos 1940), foram identificados como o grupo “conservador” e “dogmático”. Perderam seus postos na Comissão Executiva e foram deslocados para outros Estados por decisão do colegiado do CC.

O núcleo dirigente central consolidou-se em torno de Giocondo Dias, Mário Alves, Jacob Gorender e Armênio Guedes, que se juntaram a Prestes e Marighella, recusando a crítica aberta dos “renovadores”, ao mesmo tempo em que aceitavam, com cautelas, críticas ao período de Stalin. Prestes dizia-se a favor da discussão, mas que eram inadmissíveis críticas ao PCUS e a União Soviética. Marighella escreveu um artigo “A carta de Prestes e o Internacionalismo Proletário” em que se coloca ao lado de Prestes e defende que era inevitável que se tivesse cometido erros, por isso necessário fazer autocrítica, mas com os limites devidos.

A declaração de 1958

A “Declaração de março de 1958”, representou uma mudança na linha de ação do partido, A proposta de “união nacional” com a burguesia consolidava-se como parte fundamental do projeto de revolução democrático-burguesa A matriz ideológica deste pensamento encontrava-se nas diretrizes políticas adotadas a partir do VI Congresso da Internacional Comunista, com vistas a orientar a atuação dos partidos comunistas nos países que viviam sob regime colonial, semicolonial ou eram dependentes economicamente dos centros capitalistas.

No ano de 1960, o PCB realiza o seu V Congresso. A diferença ficou ainda maior entre o “núcleo hegemônico” (Prestes, Dias, Marighella, Gorender, Alves, Armênio Guedes, etc.) e, a “oposição dogmática”: Maurício Grabois, Pedro Pomar e João Amazonas, que, derrotados no Congresso, fundariam o PC do B dois anos depois. Arruda Câmara passou a se posicionar ao lado da direção.

Em setembro de 1960 o PCB decide instituir a campanha para a conquista da legalidade. Adequa-se juridicamente, alterando sua denominação de Partido Comunista do Brasil para Partido Comunista Brasileiro. Marighella é um dos maiores defensores da luta pela legalidade.

As primeiras críticas

Aparentemente as primeiras críticas com profundidade de Marighella à política da maioria da direção, surgem em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros e a política de apoio da maioria da direção a uma política pacifista de não resistência. Ao Brizola garantir a posse de Goulart através do enfrentamento e da resistência armada no Rio Grande do Sul, há uma maior identificação de Marighella com Brizola, como um verdadeiro burguês progressivo.

Em 1962 Marighella critica a política do partido em um Comitê Central, a imprensa tem acesso a esta notícia e publica a “Denuncia de Prestes”. Praticamente sozinho ele defendia a possibilidade de um golpe de direita e a necessidade da resistência.

A política de Prestes é de capitulação total ao governo Goulart e de adaptação a democracia burguesa. Afirma que o PCB já governa com Goulart e seria impossível um golpe militar.

Prestes tinha ilusões em um esquema militar nacionalista que resistiria dentro das FFAA contra o golpe, afirmava “se a reação levantar a cabeça, nós a cortamos de imediato” ; Marighella apostava mais na expectativa de que os Grupos dos Onze, organizados pelo Brizola o fizessem, e que grupos de esquerda pudesse retomar a resistência de 1961 ao golpe.

Mas todas ilusões foram rapidamente desfeitas, os militares se impuseram rapidamente. Não houve praticamente resistência, a maioria não estava politicamente ou militarmente preparada para o golpe. A ocupação dos sindicatos, das sedes das entidades estudantis, dos rádios, foi fulminante, deixando a esquerda sem ação e sem voz. Foi por terra também a caracterização de que uma “burguesia progressista” apoiava o governo. O grande empresariado apareceu apoiando em massa o golpe e a ditadura. Em total conexão com o imperialismo norte-americano.

O início da ruptura

Marighella resiste a prisão. Em maio de 1964 foi baleado e preso dentro de um cinema no Rio, por agentes do DOPS, sendo libertado em 1965.

Em “Por que perdemos?” Marighella estabelece suas respostas para os fatos ocorridos partindo de uma crítica e de uma autocritica da esquerda, do PCB e dele mesmo como dirigente. “A grande falha deste caminho era a crença na capacidade dirigente da burguesia, a dependência da liderança proletária a política efetuada pelo governo de então. A liderança da burguesia nacional é sempre débil e vacilante. (…) A nenhuma resistência organizada no golpe de 1º de Abril, exceto a greve geral, foi resultado mais sensível do erro tático de confiar na capacidade da direção da burguesia sem apelo a organização de massas e a ação vigilância independente”. Mas ainda afirma que: “É impossível rejeitar a aliança com a burguesia nacional, mas também não se pode cruzar os braços e render-se à vontade e discrição.”

Passando a ver a necessidade da derrubada da ditadura através da violência revolucionária, Marighella vai evoluindo para a necessidade da luta guerrilheira, embora ainda vinculada e conjunta com o movimento de massas. Depois avança mais ainda para chegar a estratégia da luta através da guerrilha, como elemento de atuação de vanguarda, baseado na experiência cubana.

“Por que resisti à prisão” começou a circular no segundo semestre de 1965. A publicação em livro impresso, nas condições de clandestinidade, já era uma façanha. Os dois últimos capítulos exibem as maiores diferenças. Põe em descrédito a possibilidade do caminho pacífico e condena as ilusões no potencial revolucionário da burguesia nacional. Salienta o erro da subestimação do aliado camponês, destaca a lição de Cuba e afirma que a luta revolucionária no Brasil poderá levar ao aparecimento de guerrilhas.

Depois vem “A crise brasileira”, principal escrito de 1966. Ainda se conserva longe do militarismo agudo e da negação do princípio do partido. Mas é mais contundente nas críticas à direção do PCB. Investe contra as ilusões na “tradição democrática” das Forças Armadas e o vício de só confiar nos entendimentos de cúpula com a oposição burguesa, nos jogos eleitorais e parlamentares. Enuncia a proposta de luta de guerrilhas acopladas ao movimento camponês. Mas a guerrilha rural é declarada segunda frente, complementar às lutas do proletariado nas cidades.

Entre 1965 e 1966, Marighela passa a procurar adesões às suas posições políticas dentro do partido. Enquanto isso a ditadura endurece com a publicação do AI-2, a eliminação dos partidos e a prorrogação do mantado de Castelo Branco. Por outro lado articula-se a Frente Ampla, a partir de Carlos Lacerda e JK, que buscam João Goulart, Brizola e o PCB.

Logo a direção do partido apontou para a resistência democrática nos espaços legais, juntando-se aos políticos tradicionais que se articulavam na oposição legal – JK, Adhemar de Barros, Carlos Lacerda. Mario Alves e Marighella divergiram frontalmente desta linha, considerada moderada, assim como Brizola.

O partido se dividiu. Duas alas na oposição pregaram a luta armada. Uma, pregava a resistência armada vinculada à construção de um partido revolucionário – conduzida por Mario Alves, Jacob Gorender e Apolônio de Carvalho, que desembocaria na fundação do PCBR. Outra, a de Carlos Marighella e Joaquim Câmara, que se aproximava mais da política do foco guerrilheiro, apesar de negarem isso.

Nos marcos de defender ainda alianças com a burguesia progressiva Marighella defende a hegemonia do proletariado nesta frente, e seu papel protagonista. Assim como opta contra o conciliacionismo e pacifismo da direção pela ação armada e violenta “Trata-se da revolução, da preparação da revolução armada. Trata-se do caminho não pacifico, violento – até mesmo da guerra civil. Sem o recurso da violência por parte das massas, a ditadura será institucionalizada por um período maior ou menos duração”.

Ele renunciou à Executiva do PCB. Consolida sua ruptura com o partido em agosto de 1967, quando participou da I Conferência da OLAS (Organização Latino-Americana de Solidariedade), realizada em Havana, Cuba, contra a orientação contrária do PCB.

Depois da expulsão do partido forma o Agrupamento Comunista de São Paulo, junto com Rolando Frati, Raphael Martinelli, Adolfo Costa Pinto, Câmara Ferreira e Oswaldo Lourenço.
Em fevereiro de 1968, o “Pronunciamento do Agrupamento Comunista São Paulo” expressa o modelo de organização moldado para a luta armada. O Pronunciamento afirma que a organização de um partido político implicaria o retorno à rotina burocrática e serviria de emperramento à luta revolucionária.

Ação Libertadora Nacional

Surgiu entre o fim de 1967 e início de 1968. Chegou a ser a organização mais estruturada da guerrilha urbana, sendo também aquela em que a quantidade de mulheres vinculadas era proporcionalmente maior do que em outras organizações. Fundam o jornal “O Guerrilheiro” (abril de 1968), onde procuram adaptar o modelo castro-guevarista a certos dados da experiência brasileira.

O primeiríssimo princípio é o da ação. É a ação que faz a organização e a desenvolve. Ação significa violência revolucionária, luta armada, guerrilha. A ação cria tudo a partir do nada, do zero. A teoria é vista como conversa fiada burocrática, em torno de mesas de discussão. Supostamente as necessidades teóricas do presente já estão supridas pelo leninismo e pelo castrismo, nada há a acrescentar.

Marighella foi o líder revolucionário dos anos 60 que mais explicita e que mais reiteradamente pregou o terrorismo de esquerda. Neste campo, mesmo diferente de Guevara, que advertiu contra os prejuízos do terrorismo, Marighella o incorporou: “Quando nós recorremos aos atos terroristas, sabemos que eles não nos levam diretamente ao poder.

Todo ato terrorista revolucionário é uma operação tática tendo por objetivo a desmoralização das autoridades, o cerco das forças repressivas, a interrupção de suas comunicações, o dano às propriedades do Estado, dos grandes capitalistas e latifundiários.

Os atos terroristas revolucionários e a sabotagem não visam a inquietar, amedrontar ou matar gente do povo. Eles devem ser utilizados como tática para combater a ditadura que lança contra o povo as organizações de extrema direita, tais como o CCC (Comando de Caça aos Comunista) e o MAC (Movimento Anticomunista). Implacável e impiedosa, a ditadura recorreu à violência brutal.

(…) Nos cárceres, as torturas são indescritíveis. Prisioneiros e suspeitos são assassinados e fuzilados.

Ao terrorismo que a ditadura emprega contra o povo, nós contrapomos o terrorismo revolucionário.

Os revolucionários, que praticam o terrorismo e a sabotagem, devem construir uma infraestrutura adequada à execução de sua tarefa. Eles necessitam de meios próprios de fabricação de material bélico e eles devem dividir seu trabalho. Os nomes, endereços, números de telefone, itinerários, nada deve ser escrito. Deve-se comunicar os planos à pessoa indicada: somente os que tem algo a fazer devem saber de sua tarefa.

A arma privilegiada do terrorista revolucionário é a capacidade de iniciativa que o engajará numa atividade permanente. Quanto maior for o número de terroristas decididos e de grupos revolucionários empenhados no terror contra a ditadura e a sabotagem, maior o tempo que o poder militar perderá à procura de pistas, maiores seu medo e angústia por não saber onde o próximo golpe será dado e qual o objetivo escolhido”.

A ALN rompe com a estrutura de partido leninista. Nada de direções centralizadoras e de escalões intermediários. A organização revolucionária se compõe de grupos com inteira liberdade de iniciativa. Os comandos ou coordenações só existem para articular ações de maior envergadura, que envolvem mais de um grupo.

Mas do ponto de vista dos objetivos estratégicos, a ALN herdou do PCB a teoria das duas etapas da revolução. Colocou a libertação nacional como primeiro objetivo, para depois a tomada do poder pelo proletariado.

A guerrilha rural é elevada à condição primordial de tarefa estratégica. Após o fracasso, no Brasil, do foco de Caparaó e a derrota de Guevara, na Bolívia, o foquismo puro e simples entra em baixa. Por isso Marighella se declarou contrário aos focos e, inspirado na experiência histórica brasileira (das lutas contra os holandeses ao cangaço de Lampião), apresentou a tarefa das colunas guerrilheiras móveis, que se deslocariam contando com pontos de apoio de antemão assentados. O foquismo se mantém, de fato, na medida em que a guerrilha começa do zero, dissociada de qualquer movimento de massas, e incorpora a função de vanguarda política e localizada em um determinado território.

A guerrilha urbana é somente considerada uma tarefa tática (fornecimento de quadros e armas, fustigamento do inimigo, etc.). Mas não é alvo de zombaria, como foi feito por Debray.

Sua valorização e a experiência concreta acumulada no Brasil resultarão no Mini manual do Guerrilheiro Urbano, escrito por Marighella em meados de 1969 que inspirou organizações em todo o mundo, e é considerada a maior obra sobre o tema. A analista internacional Claire Sterling, que faz várias observações sobre a experiência brasileira, no período 1968-1974, no livro de sua autoria “A Rede do Terror; a Guerra Secreta do Terrorismo Internacional”, registra: “O Mini manual do Guerrilheiro Urbano, do brasileiro marxista-leninista Carlos Marighella, foi a espinha dorsal doutrinária para as atividades terroristas das seguintes organizações: o grupo irlandês Irish Republican Army (IRA); o alemão Baader-Meinhoff; o palestino Setembro Negro; o italiano Brigadas Vermelhas; o basco Euskadi ta Askatasuna (ETA); e outros.”

A ALN iniciou ações para sua estruturação, denominadas de expropriações, como assaltos a bancos, carros e trens pagadores. A maioria de seus militantes eram estudantes que foram a linha de frente da organização. Dos quatro sequestros de diplomatas realizados na história do país, a ALN participou de dois. O primeiro, do embaixador estadunidense Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969, conseguiu a libertação de 15 presos políticos. O segundo, o do embaixador alemão Ehrefried Von Holleben, libertou 40 presos políticos.

Charles Burke Elbrick foi sequestrado em uma ação conjunta da Dissidência Comunista da Guanabara, com o nome de MR-8, e pela Ação Libertadora Nacional. A Dissidência pediu ajuda logística e militar à ALN, de São Paulo, que enviou um de seus líderes, Toledo (Joaquim Câmara Ferreira), justamente com uma equipe chefiada por Jonas (Virgílio Gomes da Silva), e integrantes dos Grupos Táticos Armados (GTA).

O sequestro de Elbrick, comandado por Jonas, no dia 4 de setembro, durou vinte minutos e não houve feridos, salvo uma coronhada na testa do próprio Elbrick. O primeiro cativeiro foi na casa nº 1026 da rua Barão de Petrópolis, no Rio Comprido.

O sequestro teve muitas falhas, que permitiram ao governo localizar o cativeiro, possivelmente através do Cenimar (somente não o estourou em virtude da insistência do governo norte-americano de garantir a vida de seu embaixador) e depois permitiu a prisão da maioria dos sequestradores.

Marighella só soube do sequestro depois de consumado, foi contra, porque acreditava que o sequestro de um embaixador dos Estados Unidos provocaria retaliações extraordinariamente superiores, em intensidade e violência, ao poder de fogo da guerrilha. No entanto Câmara não pode ser desautorizado “pois um revolucionário não precisa pedir autorização para tomar ações revolucionarias”

Após o sequestro, de fato, o regime militar e os órgãos de repressão aumentaram a repressão e concentraram esforços em sua captura.

Marighella foi surpreendido na Alameda Casa Branca na cidade de São Paulo, na noite de 4 de novembro de 1969. “Ele foi morto a tiros por agentes do DOPS, em uma ação coordenada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury”.

Joaquim Câmara Ferreira (o “Velho” ou “Toledo”), dirigiu a ALN a partir daí até a sua morte, em 23 de outubro de 1970, quando foi delatado por José Silva Tavares, o “Severino”. Joaquim Câmara foi torturado até a morte pelo delegado Fleury e membros de sua equipe.

Bibliografia Básica

Marighella, O Guerrilheiro que incendiou o mundo, Mario Magalhães, Companhia das Letras, 2012

Carlos Marighella, O homem por trás do mito. Organizadores: Cristiane Nova e Jorge Novoa, Editora Unesp, 1999

Combate nas Trevas, A esquerda brasileira: das ilusões perdidas a luta armada, Jacob Gorender, Editora Ática, 1987

Memorias de um stalinista, Hercules Correa, Opera Nostra, 1994

Autopsia do Medo, Vida e Morte do delegado Sergio Paranhos Fleury, Persival de Souza, Editora Globo, 2000

A Revolução Impossível, Luís Mir, Editora: Best Seller, 1994

Mulheres Que Foram à Luta Armada, Luís Maklouf Carvalho, Editora Globo, 1999

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