Antarsya: Entrevista com a esquerda revolucionária grega

Aldo Cordeiro Sauda

A exceção da Argentina, a Grécia é provavelmente o país com a maior esquerda anti-capitalista do mundo. São dezenas de organizações, grupos, partidos e círculos políticos que reivindicam em seu programa a revolução socialista. Para uma melhor compreensão deste universo, trazemos abaixo as perspectivas do principal grupo da extrema-esquerda grega que existe do lado de fora do Syriza, o NAR. Ruptura da juventude do partido comunista no inicio dos anos 90, o NAR é a maior corrente da frente anti-capitalista Antarsya, tendo algo em torno de 600 a 700 militantes.

Nosso entrevistado foi Thanos Andritsos, dirigente da juventude da corrente e membro da coordenação nacional do Antarsya. Rápido e inteligente, Thanos me recebeu no escritório de arquitetura no qual trabalha, onde debatemos a conjuntura grega e europeia horas a fio. Na entrevista abaixo está exposta um pouco desta conversa.

Aldo Sauda: Na esquerda brasileira, se ouve muito falar do Syriza e o KKE, porém, sempre é deixado de lado o Antarsya. Quem é, afinal, o Antarsya?

Thanos Andritsos: Antarsya, cuja sigla significa Esquerda Anti-capitalista pela Insurgência – é uma coalizão que reúne grupos revolucionários, radicais e organizações ecológicas anti-capitalistas da extrema esquerda. Surgimos logo após a revolta de 2008 [contra a violência policial] como uma frente unificada, porém a maior parte de nós já atuava juntos, de diferentes formas, em frentes de intervenção no movimento operário, estudantil e popular. O surgimento do Antarsya foi provavelmente o maior passo para a organização de uma coalizão unitária de revolucionários da esquerda anti-capitalista, ao menos desde os anos 90.

Reunimos forças políticas e ativistas independentes, funcionando segundo a lógica de que o poder de voto para deliberar os rumos do Antarsya se dá por voto de seus membros, e não segundo o posicionamento tomado pelos grupos que o integram. Ao mesmo tempo, a identidade de membro de uma organização revolucionária não entra em conflito com a identidade de membro da Antarsya.

A coalizão se baseia principalmente em comitês locais em bairros ou cidades, e em alguns casos por localidade de trabalho, mas a estrutura organizacional central é territorial. Em termos de instancias deliberativas, temos um comitê pan- helênico de coordenação nacional e um Comitê Central.

A: Da perspectiva do Antarsya, qual sua opinião sobre a Esquerda do Syriza, qual politica vocês propõem hoje para a esquerda que esta rompendo com o governo?

T: Nos, do NAR e do Antarsya, defendemos que é preciso iniciar um debate para formar uma frente política e social de esquerda. Esta é uma iniciativa que já iniciamos, chama-se “OXI até o final”. Isto é uma iniciativa política, mas que não se iniciou por cima, ela vem da base. Queremos construir esta frente com as forças de esquerda dispostas a lutar contra o Euro e as politicas de austeridade. Nossa proposta é que esta frente social e politica venha propor uma transformação programática anti-capitalista.

Queremos construir este novo bloco não apenas com a esquerda do Syriza, mas com todos que querem construir novas coisas, que compreenderam que não há outra saída a não ser a ruptura, a saída da zona do euro, e de adotar uma estrada anticapitalista. Temos agora que sentarmos juntos e trabalhar.

E digo isto pensando também nas outras forças da esquerda extra-parlamentares, dos movimentos, as outras correntes revolucionárias, forças da esquerda e inclusive o KKE, que precisa superar esta politica falida de sua direção.

Chamamos a todos para construir esta nova frente política e social de luta contra este governo, que de esquerda não tem nada. Hoje, esta é a única proposta viável. Sei que não é a única alternativa, mas esta me parece ser a mais viável. A de um programa político de ruptura com a União Europeia como um sentido social, operário e anti-capitalista.

Eu não posso dizer oque ocorrerá nas próximas eleições. Acho, pessoalmente que há uma oportunidade. É preciso ter um bom programa politico, e não mais um programa mínimo, como fez o Syriza.

A ideia seria uma frente apenas com um primeiro acordo geral, para tomar o governo. E se ganharmos o governo e não conseguirmos implementar uma politica de esquerda, depois veremos para onde evoluir, porque você não pode criar uma nova esquerda, uma grande frente política e social só com táticas, só com o primeiro passo, com pequenos acordos e coisas assim. É preciso criar espaços de debate para as pessoas da esquerda e dos movimentos sociais. As pessoas querem debater porque o Syriza fracassou. Precisamos debater isto.

É central que a esquerda do Syriza não feche esta discussão para dentro do partido. E que eles não apenas rachem com o Syriza, mas juntem-se a nós para construir uma esquerda verdadeiramente anti-capitalista e marxista. Não repitam o erro de fazer um novo Syriza apenas com a demanda de ruptura com o Euro.

A: O que você acha que ocorrerá com a esquerda do Syriza?

T: Ninguém sabe oque ocorrerá com o Syriza. Há muitas pessoas discordando das políticas de Tsipras, muitos dirigentes importante, e esperamos que algo aconteça nos próximos meses, se não nas próximas semanas.

Acredito que as rupturas no Syriza, algo que será muito bom para esquerda, ocorrerão. Seria um tremendo erro eles ficarem lá para sempre, numa tentativa de retomar o partido, até mesmo porque isto nunca dá certo.

O Syriza, é claro, não é o partido bolchevique. Ele não tem relações sólidas com os setores mais importantes da classe trabalhadora, ele não fez uma revolução e acho que esta popularidade do Tsipras é apenas temporária. E é importante a esquerda do Syriza compreender isto. Precisamos ver o que vai ocorrer nos próximos meses quando as medidas forem aplicadas. Quanto as pessoas não tiverem dinheiro para moradia ou uma vida digna. Todo este apoio, quando confrontado com esta realidade acho muito possível que vá sumir.

E se isto ocorrer, ninguém se preocupará com uma oposição de esquerda que ficou dois anos em um partido que aplicou a politica de austeridade. Ninguém se lixará por eles. E ainda pior é que toda esta vontade por mudança gire para a extrema direita. Isto não ocorrerá da noite para o dia, e não acho que o Aurora Dourada vai crescer muito rápido no curto prazo. Mais o crescimento deles não esta tão improvável.

Temos hoje 62% dizendo que não querem austeridade e um governo de “esquerda” aplicando esta politica rejeitada pela massa. Então, tem este enorme buraco social. O período próximo certamente não será um período normal ou estável. Quando a sociedade grega reagir, queremos que reaja de forma progressiva, e se possível, revolucionária. Se ela for reagir pela extrema direita contra um governo “da esquerda” será o pior dos mundos, uma derrota para todos nós.

A: Queria voltar um pouco ao ponto inicial da nossa entrevista, em que você me contava do Antarsya. Conte um pouco sobre a sua corrente dentro do Antarsya, o NAR. De onde vem esta corrente?
T: A Nova Corrente de Esquerda, (NAR, em grego) é um dos principais grupos do Antarsya. Nossa origem vem de uma ruptura à esquerda com o Partido Comunista (KKE) e principalmente com a juventude do partido comunista. Ela ocorreu na virada entre o final dos anos 80 inicio dos 90, durante um período muito particular.

De um lado tivemos a derrota do “socialismo realmente existente” e todo o debate do futuro do comunismo. Se o comunismo havia morrido ou não, ou, quando feito de forma mais refinada, se isto era ou não o comunismo. A ruptura também ocorreu em um momento importante para a esquerda grega. Sua gota d’água foi o ingresso do KKE a um governo de unidade nacional, descrito como um governo “ecumênico”, dirigido pela direita. Foi a versão grega do “compromisso histórico” [assumido pelo PC italiano, quando o mesmo se aliou à centro-direita em 1977, abandonando qualquer perspectiva de transformação revolucionária na Itália].

Pode-se dizer que nossa crença, desde o inicio, é a refundação do comunismo. A ideia é que o novo programa revolucionário, as novas ideias do comunismo, devam estar envolvidas com as correntes do movimento comunista, mais que também sejam repensadas e reconstruídas. Defendemos a ideia, sem sermos inocentes, de que não devemos ser parte de uma corrente histórica especifica da tradição do movimento comunista – seja ela estalinista, trotskista ou maoista.

Há uma enorme discussão entre nós se isto é algo positivo ou não. Porem, não afirmamos que estas correntes não são importantes, ou que o passado não é importante. Mas acreditamos na necessidade de algo novo, por isso nosso nome de “nova corrente da esquerda” – que tem que ser novo – como queriam Marx ou Lenin, como eles recriaram o marxismo e o pensamento revolucionário.

A: Como o NAR interpreta o fim da União Soviética?
T: Dizemos que os regimes do leste eram, se tivesse que traduzir a terminologia que usamos em grego, “regimes peculiares de exploração”. O problema de expressões como estas é que não debatemos muito com a literatura internacional que versa sobre o tema. Mas é claro, não dizemos que aqueles regimes eram socialistas. Dizemos que depois dos primeiros anos de poder soviéticos, foram tomadas medidas para a constituição de uma nova burguesia e de uma classe burguesa que tinha relações com o partido e começou a explorar os trabalhadores. Não acreditamos, é claro, que eram socialistas.

Temos debates com as tradições que afirmam que estes países eram “capitalistas de estado” [como afirma a corrente do trotskismo hegemônico na Grécia]. Mas, enquanto NAR, não temos esta ou aquela interpretação especifica sobre o papel da burocracia na antiga União Soviética. Temos, porém, uma resolução política, publicada na forma de um livro, infelizmente nunca traduzido do grego, no qual apresentamos nossas ideias gerais sobre a URSS.

Acreditamos, porém, que o retorno do capitalismo não foi apenas produto de diferentes períodos, ou diferentes direções, do período stalinista ou pós-stalinistas. Foi um problema ligado ao abandono do objetivo de transformar a economia da Rússia em uma economia socialista, que abriu o caminho para a emergência de formas de exploração e o retorno a formas capitalistas de dominação.

A: Nos anos 90, houve um grande giro à direita da esquerda europeia. Como foi este processo na Grécia? Por que a impressão que tenho é que a Grécia conseguiu manter uma esquerda muito mais dinâmica que o resto do continente.

T: Tivemos uma enorme derrota da esquerda nos anos 90 na Grécia. Não podemos dizer que foram bons anos. E esta capitulação que ocorreu quando o KKE integrou o governo ‘ecumênico’, foi uma enorme derrota da esquerda.

De lá para cá o KKE deu um giro dramático. O que é importante é que o PC grego já em meados dos anos 90, não seguiu o caminho trilhado pelas principais organizações comunistas da Europa, e da esquerda reformista, em geral de adaptação ao regime.

É difícil explicar o porquê disso, mas gosto de pensar que o próprio NAR teve um papel neste processo. Não enquanto um holofote que guiou a esquerda para outra direção, mas porque o movimento social não permitiu à esquerda ceder tanto a direita como ocorreu em outros lugares. A principal razão para isto é que no movimento de juventude tivemos enormes lutas de grande importância, das quais saímos vitoriosos, inclusive no inicio dos anos 90.

A criação do NAR é, de certa forma, simultânea a um dos principais movimentos da juventude da década, que foi um combate a uma lei na educação em 1990/91. Isto foi um momento crucial e acredito que as novas tradições da esquerda na Grécia de certa forma relacionam-se a isto.

Mesmo que aqueles movimentos entre os estudantes fossem menos fortes que os dos anos 70 ou 80, eles foram muito poderosos e nunca foram derrotados. Portanto, em algumas áreas da vida social, nas universidades, no setor público, parte dos setores privados e em alguns bairros, as forças da esquerda, inclusive a esquerda radical, consegue manter bastiões importantes.

Acredito, é claro, que na Grécia, a estrada dos anos 70 e 80 não foi a mesma que o resto da Europa. Talvez os processos chegaram aqui mais tarde. Em meados de 70 o movimento revolucionário europeu já havia sido derrotado, ou caminhava para uma derrota no início dos anos 80. Já nós tivemos uma enorme vitória histórica sobre a ditadura militar naquela mesma época.

Claro que em Portugal [durante a Revolução dos Cravos] algo semelhante ocorreu, mas para a historia grega estas vitórias da esquerda foram muito importantes. E também temos legado da 2ª guerra, que ainda está presente na memória popular até hoje.

A: Qual foi o significado da queda da ditadura dos coronéis [de 1967 a 1976] para a atual conjuntura política? 

T: A vitória sobre a junta militar, de certa forma, deu um sentido geral à sociedade no período posterior, definindo os parâmetros do debate politico. O PASOK [Movimento Socialista Pan-Helenico, uma espécie de PT grego] apenas nos anos 80 foi capaz de canalizar e institucionalizar as mobilizações populares para dentro do estado. Apenas ele, seguindo o modelo clássico social democrático, conseguiu impor uma derrota parlamentar ao movimento.

As forças da direita neo-liberal sempre afirmaram que este período, o período que se abre com o fim da ditadura militar, conhecido na Grécia como Metapolitapsi, era de hegemonia da esquerda. Isto não é verdade, é claro, mas foi um período em que você poderia ter greves, sindicatos, coisas que não foram destruídas na Grécia nos anos 80 e 90, mas foram no Reino Unido ou na Alemanha. Nos primeiros anos dos acordos dos memorandos com a Troika, falava-se que o Metapolitapsi chegaria ao fim.

A luta dos últimos anos, portanto, não é apenas contra medidas econômicas ou políticas específicas, ele é também uma luta que busca colocar uma derrota total, uma derrota final sobre qualquer esquerda que use resistir.

A: é possível falar em revolução socialista na Grécia? Não como algo distante no horizonte, mas como algo palpável?

T: Sim, é possível se falar de revolução na Grécia. Principalmente, é mais possível falar em revolução aqui do que em qualquer outro país do mundo, ou ao menos, qualquer país europeu. Inclusive nós vimos revoluções, ou rebeliões que se aproximaram de revoluções, muito recentemente em outras partes do mundo. Então, sim, é possível falar dela na Grécia.

Para isto, é preciso ter claro a posição da classe trabalhadora e de suas organizações na Grécia. Estamos, simultaneamente, em uma posição boa e ruim. Há coisas muito positivas ocorrendo, que nos dão esperança para os próximos anos, mas também há coisas que não foram feitas ainda, que não permitem com que o tema da revolução esteja presente no nosso dia a dia.

Por que isto? Vejamos o que aconteceu nos últimos cinco anos. Esqueçamos os últimos meses. Mas olhemos à imagem maior, o que aconteceu é que o caminho escolhido pela burguesia, pela elite politica e econômica do país, fracassou. A estrada escolhida pelos últimos 40 anos, não os últimos 10 anos, os últimos 40, e se quiseres, os últimos 200 anos, fracassaram por inteiro. Fracassou mais que em qualquer outro país da União Europeia. E o povo entendeu este fracasso.

Qual a proposta da burguesia grega? Temos que ter a “estrada europeia”, que a estrada europeia é a estrada da zona do Euro, que temos que nos adaptar a todas as suas exigências, e que, de alguma forma, isto se dará para o nosso bem. E isto deu em uma catástrofe total.

O que ocorreu nos últimos cinco anos na Grécia, esta queda brutal no nível de vida da população, foi algo extremamente grave. Uma realidade muito dura para o povo. Não estou dizendo que nos rebaixamos à pobreza africana. Mas o que eu digo é que o buraco que separa a forma com a qual vivíamos há cinco anos, e como vivemos hoje, é extremamente grande. Por isso há esta enorme distância entre o sistema político, os partidos políticos tradicionais que representavam a maioria do povo grego – Nova Democracia e PASOK –e sua base social, e não só ela, como toda a sociedade.

Esta situação, combinada com a tradição das lutas sociais, como uma esquerda ainda importante, que ninguém poderia subestimar, nem há cinco anos atrás, criou uma situação de lutas sociais extremamente importantes. Isto gerou também uma total transformação, não só do sistema politico, mais uma mudança total na conjuntura. O que ocorreu foram dois anos em que tudo mudou na Grécia.

As forças politicas que antigamente dominavam este país desde sempre, e representavam algo entre 80 e 90% da população, foram se tornando menores e menores. Até a burocracia operaria, que expressava parte das vontades dos trabalhadores, começaram a perder mais e mais espaço na consciência operária. As pessoas começaram a construir suas próprias organizações. Não ir apenas uma vez a uma manifestação, mas ir mais e mais à rua, em busca de mudanças concretas.

Foi isto o que aconteceu com o movimento das praças, e não foi apenas o movimento das praças. Quando falamos das mobilizações de 2011-2012, tipicamente falamos só das praças. Mais houve greves, mobilizações estudantis, ocupações de fábricas, enfrentamentos com a policia. Foi um enorme levante.

A: Quais foram, neste sentido, as limitações da esquerda revolucionária?

T: O problema, ou um dos problemas, foi que a esquerda revolucionária grega, assim como a situação no interior do movimento operário e popular, produto da situação daquele momento de dois ou três anos atrás, não permitiu uma posição para mover a vontade popular e transformá-la em uma consciência radical e um projeto revolucionário. Digo isto não imaginando que isto ocorreria na lacuna de um ou dois dias, mas na abertura de um processo que desembocasse em uma derrubada anti-capitalista e uma situação revolucionária.

Também tivemos um vácuo (em alguns casos e períodos especiais, pois não era algo que acontecia uniformemente o tempo todo) em que havia vontade popular por fazer algo a mais e ao mesmo tempo incapacidade ou medo da esquerda de elevar isto a um nível superior. Isto culminou contraditoriamente na proposta do Syriza, que se saiu vitorioso. De alguma forma, o Antarsya também tem de fazer sua autocrítica. Tínhamos que ter sido mais capazes de nos transformar e de alguma forma dirigir este caminho. Este é o papel das organizações revolucionárias. Mais não tínhamos esta força, e portanto somos parte, mesmo que limitada, deste problema.

A: Como, exatamente, você enxerga o papel desempenhando pelo Syriza?

T: O problema do Syriza e de sua proposta se liga à questão da esperança. Basta pegarmos seu slogan nas eleições – a esperança está chegando – o Syriza centrou a questão da esperança na campanha eleitoral. A esperança, para os marxistas, para os revolucionários, não se dá pela chegada de um partido ao parlamento, ela se dá pelas lutas sociais, as ações diretas do operariado, da juventude, que criam estas situações.

A proposta do Syriza era construir um governo de esquerda dentro do arcabouço da União Europeia, do Euro, sem grandes conflitos, sem violência, sem choques com as forças armadas, apenas pela via parlamentar. De fato, não anunciavam que pretendiam trazer o socialismo, mas sim construir uma sociedade mais justa, mais igualitária, ou ao menos parar o desastre social da austeridade.

Isto era, sejamos honestos, uma decisão fácil de se fazer. Até mesmo porque ela carregava um radicalismo, pois não é típico se propor ser um governo da esquerda. Hoje quando os partidos da esquerda se propõem a serem governo, eles apenas fazem isto de forma agitativa, sem estar de fato dispostos a governar.

De certa forma foi uma enorme proposta. Foi dizer aos gregos, vejam, para mudar, não será apenas protestando, é preciso tomar o governo, que obviamente é algo muito diferente de tomar o poder, mas que é algo que o PC nunca se propôs a fazer.

Basicamente, o que o KKE dizia é que é preciso fazer algo para parar com os ataques, sem propor, ao mesmo tempo, ser governo. Afirmavam que as medidas e os ataques vão continuar vindo e portanto é preciso seguir firme na luta, resistido ao máximo, porem se encerrava por ai seu discurso.

Portanto a proposta do Syriza tinha este elemento radical, este elemento drástico, de mudar os termos do debate ao colocar a proposta de se construir um governo de esquerda. Mas desde o inicio, não posso dizer exatamente que isto foi uma mentira, mas posso afirmar que a proposta do Syriza tinha problemas óbvios, e não apenas em termos abstratos.

A: Quais eram, exatamente, estas divergências?

T: O principal argumento político do Syriza, defendido veementemente pela direção majoritária, é que era possível fazer reformas dentro dos marcos da União Europeia. Que o Antarsya era sectário, existia fora do mundo real e concreto, imerso em abstrações. Entendo que o Syriza tem problemas como qualquer partido tipicamente reformista, mas não quero discutir isto em abstrato. Como NAR, como Antarsya, temos estes debates teóricos com o Syriza, sobre a questão do poder, da via do parlamentarismo em oposição à via revolucionaria. É claro, este é um debate de fundo, mas no contexto atual, as argumentações do Syriza se provaram erradas.

Afirmávamos que mesmo que uma vírgula seja mudada nestas medidas de austeridade, vocês terão de se chocar, de alguma forma, com a zona do euro. Se quiserem mudanças terão de responder à União Europeia.

Não é uma questão monetária, não é tema técnico. Como se fosse um debate formal em que alguns defendem uma moeda nacional, outras o euro. Este tema não é técnico. É um tema das classes. Da luta de classes. Hoje na Grécia, a classe trabalhadora não é apenas explorada pelos capitalistas e pela burguesia grega. Ela é explorada de forma dupla, também pelas classes dominantes europeias. Não podemos fechar os nossos olhos para isto.

O importante é que a economia grega, as relações de classe na Grécia e sua estrutura, assim como o capitalismo grego, explora os trabalhadores de forma combinada ao Euro e à zona do Euro. Você não pode ter politicas nacionais em defesa dos trabalhadores sem se enfrentar com o Euro e a EU. E isto se provou o principal problema da estratégia do Syriza.

Veja o que esta ocorrendo agora com o Syriza. O Syriza está sendo forçado a tomar não apenas medidas ruins. Estão forçando o Syriza a cancelar as medidas iniciais tomadas pelo governo, que votaram no parlamento, que não foram, diga-se de passagem, nada radicais.

Nossa tarefa, mesmo dentro dos limites de nossos próprios problemas e limitações, não é apenas ganhar as pessoas para votar em nossas ideias. Precisamos prepará-las, ajuda-las a se organizar nos sindicatos, bairros, seja lá aonde for, para implementar um programa político que tem como primeiro ponto a ruptura com o Euro. Isto não é o programa máximo do socialismo, é apenas para dar um pequeno passo, por pacotes de medidas para melhorar a vida do povo.

A: Qual que é, de forma mais precisa, a posição do Antarsya frente à questão do Euro?

T: Há um ano, quando a direção majoritária do Syriza vinha debater conosco o tema do euro, tratavam-nos como se estivéssemos estacionado no tema da moeda nacional. Era como se tivéssemos uma obsessão, ou fetiche. Nós nunca tivemos isto.

Temos consciência de que tivemos o Dracma como nossa moeda nacional há 10 anos e não tínhamos o socialismo. Sabemos disto, este não é nosso argumento. Mas é possível ter um programa radical ou revolucionário sem controlar sua própria moeda? Como um governo, o Syriza não pode fazer nada, absolutamente nada. Novamente, na pratica, nosso argumento, descrito como dogmático, provou-se correto.

A crise do capitalismo grego e do nosso sistema político é muito profundo e não vai se resolver sendo jogada mais para frente. Portanto, é partindo desta realidade que lançamos nossa proposta política. Ela se inicia com a ruptura com o Euro e vem com uma serie de medidas programáticas que precisam ser implementadas por dentro do movimento operário como parte de seu programa geral.

A: Nestes marcos, de uma política anti-Euro, qual é, exatamente, o programa defendido pelo NAR:

T: Primeiro, é preciso dar o calote na divida, cancelá-la, rejeitá-la. Não há sobrevivência da sociedade grega com este tamanha de divida. Os povos da América Latina chegaram a esta conclusão antes de nós, e os povos da África e da Ásia também. Está claro para nós que não há outro caminho que não seja parar de pagar a dívida.

O segundo ponto se remete à questão do mercado financeiro. Não dá para acreditar que a direção do Syriza não viu isto. Você não precisa ser um gênio para saber que a principal arma da burguesia europeia para estrangular o governo grego seria o sistema bancário. Isto sempre esteve muito óbvio. Que eles te sufocariam controlando a circulação de dinheiro.

Não é por acaso que uma das mais típicas propostas da esquerda ao longo dos últimos 200 anos é nacionalizar e controlar os bancos. Hoje, o Estado é quem financia diretamente os bancos. Pagou a eles mais e mais dinheiro, algo como 200 bilhões de euros para recapitalizar os bancos. O Estado é o dono dos bancos, pois eles estão totalmente falidos.

É preciso, portanto, ter apenas um banco que garantiria o dinheiro e os depósitos dos trabalhadores. Hoje, nas mãos da burguesia, é que os depósitos estão inseguros, sob controle do setor privado e está se discutindo tirar mais dinheiro do povo para dar aos bancos.

Então, você precisa nacionalizar os bancos; nacionalizá-los sob controle operário. Não apenas controlados pelo Estado mas também pelos trabalhadores. Isto junto a uma moeda própria. Não sou um especialista para dizer o que ocorreria com a desvalorização, mas há diversos estudos que apontam que tal processo não será algo tão difícil, tão dramático, como vem sendo apresentado.

Agora, se você nacionaliza os bancos, na prática está nacionalizando muitos outros setores da economia grega – os principais. A razão para isto é que a grande maioria dos grandes capitalistas estão hoje endividados com os bancos gregos. E os bancos apenas apoiam estes empresários porque eles integram a classe dominante grega.

Temos que não apenas parar a venda e privatização das riquezas nacionais, que estão sendo atualmente feitas pelo próprio governo Syriza, mas nos primeiros dias da aplicação deste programa anti-capitalista precisamos assumir o poder de controle sobre os principais fatores da economia grega.

É preciso haver uma total transformação da relação entre lucros e salários. Um governo de esquerda, logo de inicio precisaria reduzir o desemprego, dar um grande aumento real nos salários e uma reorientação geral da economia em direção aos interesses dos trabalhadores. A agricultura grega, por exemplo, ainda é capaz de alimentar seus próprio povo, mas é preciso reorganizá-la.

Há um debate feito por muitos, sobre a questão da defesa da “economia nacional”, Há bons argumentos nesta discussão, e adotamos alguns deles. É obvio que com uma política destas é possível melhorar as exportações. Ter novas relações internacionais como outros estados do mundo e não apenas a União Europeia ou através da União Europeia, que é também desigual e dirigida para fortalecer a burguesia da Europa. Mas o foco principal de nosso programa é mudar a relação social das classes e mudar a localização das classes sociais na Grécia.

Temos visto que todas as diferentes frações da burguesia grega se alinharam na campanha pelo “SIM” no referendo, reivindicam fortemente a União Europeia, e fizeram de tudo para derrotar a campanha do OXI. Não que não possa haver um setor das oligarquias que se beneficiaria de uma moeda nacional, mas, pelo jeito, nenhum destes setores apareceu. Portanto, a afirmação de que o retorno ao Dracma expressa as ideias de uma fração burguesa me parece inteiramente incorreto.

A: Para fechar, há hoje uma enorme crise dos refugiados chegando às ilhas gregas, qual a proposta da esquerda revolucionária para estes imigrantes, que na verdade são refugiados? Qual a política do Antarsya para eles?

T: Nossa politica neste sentido é muito clara. Queremos que os refugiados recebam todos os direitos sociais existentes, queremos que eles sejam legais, que a sociedade dê a eles comida, empregos, casas, saúde.

Lutamos contra que sejam presos ilegalmente, explorados das piores formas possíveis. Esta é a única resposta minimamente humanitária. Não é possível assistir as pessoas morrerem nas fronteiras de seu pais, passando fome e sede debaixo do calor de 40 graus na Grécia. É preciso denunciar que esta politica minimamente humanitária nunca foi aplicada, e isto continua agora sob o governo Syriza.

Além do mais, precisamos lutar contra as guerras imperialistas. As intervenções militares do ocidente e da Europa, incluindo do estado grego, que ainda apoia a OTAN, apoia o exército europeu, e apoia toda a política do imperialismo para África e Ásia.

É hipócrita esquecer as razões por trás dos milhares de sírios e líbios que estão na nossa fronteira. O ocidente bombardeou o Iraque, depois da guerra e total destruição do país. É obvio que milhares e milhares de iraquianos tentaram entrar aqui. Se você faz a Europa e os EUA fortalezas globais, e do lado de fora é caos total, guerra, fome e tragédias, ai é claro que as pessoas vão querer fugir.

Outro ponto a lembrar é que os acordos europeus sobre imigração, como o W2, proíbe as pessoas que entram na Grécia de ir a outros países europeus em busca de emprego. Então, além de bombardear, o norte da Europa também faz com que estas pessoas estejam presas na Grécia sem querer estar aqui, empurrando a crise humanitária nas costas da sociedade grega.

Obviamente que é difícil para um pais lidar com esta situação enfrentando ao mesmo tempo uma enorme crise social. Há muito desemprego na sociedade grega. Não é fácil para os imigrantes acharem emprego. Mas o que se pode fazer? De uma perspectiva minimamente humana? Assisti-los morrer nas suas fronteiras ou de fome no seu próprio pais?

Problemas como o do da crise humanitária que abala a Grécia e a Europa, em ultima instância, apenas serão resolvidos em uma sociedade e economia voltada aos interesses sociais dos trabalhadores, da maioria das pessoas, seja lá de qual cor ou nacionalidade, pois são os trabalhadores que produzem a riqueza do mundo.

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