Contribuição ao Blog Convergência: Manifesto por uma universidade dos trabalhadores

Este Manifesto foi redigido por Nazareno Godeiro em colaboração com operários metalúrgicos de São Paulo e Osasco (Charles Tartarelli, Paulo Prado, Rafael Pereira, Rodrigo Maciel, Emília Guimarães e Rodrigo Morais) como projeto de estudo para uma Nova Escola, na turma inicial do curso universitário experimental de Ciências do Trabalho do DIEESE, em novembro de 2012.


A Escola tem sido um meio eficaz de disseminação da ideologia burguesa para o conjunto da sociedade, especialmente para a classe trabalhadora. Em uma ponta do sistema educacional, “universal e gratuito”, deforma mão-de-obra, barata e abundante, para mover a sétima economia do planeta. Na outra ponta, elitizada e privatizada, forma uma legião de doutores que vão produzir Conhecimento e ocupar altos cargos empresariais e governamentais.

Esta escola está em crise: forma homens cada vez mais obtusos, enquanto as máquinas se universalizam. O homem embrutece, a máquina se humaniza. A Educação e a Ciência, aprisionadas em esquemas mercantis, se chocam com a efervescência da vida social global.

O Saber dos trabalhadores e das suas organizações já é suficiente para implantarmos a Escola dos Trabalhadores, oposta pelo vértice à escola tradicional. Só a classe trabalhadora pode produzir Educação que liberte a Humanidade do sistema capitalista. A ela não interessa camuflar, esconder, alienar, mentir: ao contrário, a verdade é revolucionária!

Conhecer para transformar

Não acreditamos que vamos mudar o Brasil a partir dos bancos escolares, mas estamos convencidos de que a classe trabalhadora tem capacidade para revolucionar o sistema educacional que, por sua vez, servirá de alavanca para mudar as relações sociais.

O movimento operário, nos seus 200 anos de existência, formou “universidades operárias”, patrocinadas por Partidos Comunistas e Socialistas. Fez experimentos, como as “150 horas” de Turim na Itália, em 1973, onde mais de 100 mil operários fizeram cursos especiais, com currículo e metodologia própria, conquistados através de negociação entre sindicatos e patrões. Todo o processo de concepção, implantação e execução dos cursos, consistiu em ação coletiva dos trabalhadores organizados pelos sindicatos, os quais exigiram do sistema educacional institucionalizado o rompimento com os velhos modelos escolares.

No Brasil, a classe trabalhadora organizada criou escolas ligadas às Centrais Sindicais em vários Estados. Também têm iniciativas inovadoras, como a Escola de Ciências do Trabalho do DIEESE, partindo da centralidade do Trabalho na Sociedade e do aluno/trabalhador como sujeito produtor de Conhecimento.

Porém, todas estas experiências, dispersas, podem e devem ser unificadas, baseadas na máxima dos operários turinenses: conhecer para transformar. O projeto desta Nova Escola selará a união entre intelectuais de esquerda e os setores mais conscientes da nossa Sociedade. O movimento operário brasileiro é um dos mais fortes do mundo. Para a Humanidade, quem muito tem, muito deve. Por isso, o convocamos para a construção de um novo projeto educacional.

Este Manifesto expõe as bases para a nova Escola dos Trabalhadores:

Uma Escola para a vida ou para o lucro?

Cabe perguntar: a escola burguesa, tradicional, humaniza ou aliena o trabalhador?

Nos primórdios da Humanidade, nas comunidades primitivas, Trabalho e Vida eram sinônimos. O Trabalho diferenciou o ser humano dos outros animais e o fez Humano ao converter-se na sua atividade vital. A Vida, a Ciência e o Trabalho andavam de mãos dadas, na mesma direção.

Porém, quando a Sociedade se dividiu em classes sociais, separou o Trabalho da Vida, separou quem faz (trabalho manual) de quem pensa (trabalho intelectual), separou os pobres dos ricos, e, na sociedade contemporânea, separou os operários dos patrões. Até o advento do Capitalismo e a Revolução Industrial, o fazer e o pensar ainda não estavam estritamente divididos, como demonstrou o operário Robert Fulton, ao inventar o barco a vapor em 1807.

A grande fábrica capitalista revolucionou tudo. No trabalho artesanal, a ciência ainda era dominada pelo artesão. A indústria moderna despojou o operário de todo conhecimento científico, tornando-o operador de máquinas, executor de simples movimentos mecânicos.

O Trabalho se tornou um sacrifício, formador de bestas humanas. O Homem perdeu o controle da sua força de trabalho, da propriedade e da sua própria vida. Com este ato se perdeu, se alienou. O Homem é o meio, a riqueza é o fim: a beleza estonteante das mercadorias, em um polo, é a feiura macilenta do Homem, no polo contrário.

O trabalho assalariado é o homem que se perdeu a si mesmo”, como afirmou Karl Marx.

Foi nesse marco histórico em que se produziu uma escola do doutor e uma escola do trabalhador.

A Escola não é neutra: ou aliena ou humaniza, não há meio termo. Como falou Paulo Freire: “em favor de que e de quem eu estudo? Contra que e contra quem eu estudo?”. Uma nova Escola dos Trabalhadores, como primeiro ato, reatará relações entre Ciência e Trabalho, tornando o aluno/trabalhador sujeito da produção de Conhecimento.

A introdução dos computadores na produção fabril está unificando o trabalho manual com o trabalho intelectual e o operário se converte, cada vez mais, em técnico científico. A ruptura das relações capitalistas de produção permitirá a reapropriação da Ciência por parte de toda a sociedade, elevando-a a um nível nunca visto antes pela Humanidade.

O centro nevrálgico da Escola dos Trabalhadores consiste em que o aluno/trabalhador elimine a contradição entre os que fabricam produtos e os que produzem Conhecimento. Provaremos, como trabalhadores, que podemos produzir Conhecimento, da mesma forma que produzimos carros, gente, aviões, alimentos e armas.

Libertada das jornadas infernais de trabalho a que está submetida, a classe trabalhadora dará um salto profundo nas Ciências, nos Esportes e na Cultura, de tal forma que o Iluminismo parecerá exercício de crianças. Porém, ao contrário deste movimento que precedeu a grande Revolução Burguesa, realizada na França em 1789, a classe trabalhadora não conseguirá esse renascimento antes de derrubar os muros da prisão capitalista, que impede nossa classe de desenvolver todas suas potencialidades.

Com o ato de tornar social a propriedade privada capitalista, de reapropriar-se coletivamente dos frutos do trabalho, iniciaremos nossa vida adulta como Humanidade, onde Trabalho e Vida voltarão a encontrar-se em uma única existência.

Uma Educação pelo Trabalho ou para o Trabalho?

Para que a Educação seja instrumento de humanização do ser humano, o Trabalho deve ser o princípio educativo. A nova Escola usará o Trabalho (no sentido filosófico do termo) como bússola para que o Homem reencontre sua Vida e sua Humanidade.

Visto deste ângulo, os trabalhadores, como classe, estão capacitados a produzir Conhecimento, desde que sejam dadas as condições materiais, já que desempenham a atividade mais humana de todas as atividades: o Trabalho. Este ensino pelo Trabalho é justamente o oposto do ensino para o trabalho, profissionalizante, funcional ao sistema capitalista, já que forma mão-de-obra qualificada para a indústria globalizada.

Enquanto a escola tradicional burguesa aliena o trabalhador, a Escola de novo tipo, socialista, humanizará o aluno/trabalhador. A nova Escola forjará um elo entre Escola, Produção e Sociedade, que permitirá ver o Homem em sua totalidade, na sua trilha humana, no seu momento preciso, no limiar do século XXI, justamente quando está mais perdido, portanto, mais próximo de se encontrar.

Evidentemente, a nova Escola não é capaz, sozinha, de mudar a Sociedade, mas pode se converter em uma alavanca a mais para a transformação social.

Uma Escola dos Trabalhadores ou para os Trabalhadores?

O Trabalho, portanto, é a salvação e a desgraça da Humanidade.

O Trabalho é vida, alegria, arte e riqueza social quando o trabalhador é sujeito e dono da sua produção material e científica. O trabalho é morte, embrutecimento, dor e pobreza absoluta, quando o trabalhador é objeto da exploração capitalista. Assim, nesta nova Escola o sujeito será o Trabalho e o trabalhador, como hospedeiros da Vida e da Humanidade, como criadores de toda riqueza material desta sociedade.

A Educação usará como matéria prima a realidade, a exploração capitalista, as opressões classista, racista e machista para erradica-las. Ela partirá dos Saberes adquiridos socialmente na comunidade e no trabalho. O Conhecimento não será introjetado por sábios em cabeças ignorantes.

Que metodologia de ensino interessa aos trabalhadores no limiar do século XXI?

Para nós, de acordo com Paulo Freire, ensinar não é transferir Conhecimento, mas criar as condições para sua produção por parte do aluno/trabalhador como sujeito na nova Escola. Uma Escola onde o educador não seja o detentor do Conhecimento, e o aluno dono da ignorância. Não existe Conhecimento final nem ignorância total. O educador ensinará aprendendo e o aluno aprenderá ensinando. Não somos alunos passados “na régua” do docente. Cada um de nós traz a sabedoria da vida social que, conectados em uma obra comum, pode revelar e produzir Conhecimentos.

Esta nova Escola terá uma unidade curricular que juntará as Ciências Naturais e Sociais com a experiência de vida do aluno/trabalhador. Para isto, deve-se romper decididamente com o currículo da escola tradicional, que é montado para perpetuar a divisão entre o trabalho intelectual e o trabalho manual.

O currículo desta nova Escola deve se ramificar em três áreas que compõem uma globalidade:

  1. Teórica: Filosofia, Lógica, Economia, Sociologia, Ética, Línguas, Artes e Política;
  2. Politécnica (preparatória para a produção): Ciência da Computação, Ciências Matemáticas, Físicas, Químicas e Biológicas.
  3. Educação Física e Esportes.

Tudo isto em uma Escola integral desde o primeiro ano de vida até completar a universidade. Escola universal, laica, pública, gratuita e de qualidade. Ambiente de socialização para a infância e a juventude, desobrigação familiar do aprendizado. Enfim, uma escola onde o ser humano conhecerá os seus limites, justamente com o objetivo de superá-los.

O Conhecimento não tem fim e, liberto das cadeias capitalistas, “voará” em todas as direções, chegará aos mais longínquos rincões do Universo, desvendando os segredos da sua menor partícula. Uma Escola onde se aprende para transformar, onde a Matemática sirva de estatística sobre a produção social, para desmascarar a exploração capitalista; que a Língua seja uma ponte entre seres humanos e não instrumento de poder da classe dominante; que a História seja a história da luta de classes, revelando os mecanismos da exploração e opressão seculares.

Assim, os trabalhadores, na Escola, aprenderão a manejar os métodos mais avançados de produção do conhecimento que a Humanidade sintetizou: o método Materialista e Dialético de Karl Marx, baseado no movimento e na contradição, em contraposição ao método burguês da “objetividade histórica” e da “harmonia social”.

A nova Escola revolucionará a avaliação do aprendizado, rompendo com a forma tradicional onde se averigua o que decorou o aluno através de provas individuais, como se se tratasse de uma competição entre indivíduos. Ao contrário, na nova Escola, o que pesará é a auto avaliação coletiva, onde todo o corpo social analisa friamente a produção do seu Conhecimento coletivo, e onde cada um, dentro do grupo, autoanalisa sua contribuição.

A avaliação individual por mérito é equivocada e antidemocrática: usa uma mesma régua para pessoas que não tiveram e nem têm as mesmas oportunidades e condições de absorção do Conhecimento. Para nós, auto avaliação não é auto enganação: cada um se avalia no todo, não em competição com outro, mas em comunhão, interação. O indivíduo só produz Conhecimento em “combustão” com outros, pois o Conhecimento é social.

A “propriedade intelectual”, tão vangloriada e protegida na sociedade capitalista, é a petrificação individual do Conhecimento social. É apropriação privada, para fins de lucro, do Conhecimento social da Humanidade, produzido durante séculos de Vida em Sociedade.

A medida para avaliar não é o metro da decoreba e sim a disposição individual para aprender, para transformar, para produzir Conhecimento. Queremos revolucionar o Ensino e, com isso, revolucionaremos também a forma de avaliação, porque concordamos com Saviani quando sentenciou:

“O trabalho educativo é o ato de produzir, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens”.

Conhecer para transformar ou para manter o status quo?

Pode-se produzir Conhecimento de forma contemplativa ou neutra? O Conhecimento científico, na área social, é revolucionário, ou pode servir a todas as classes da sociedade contemporânea? Nós não acreditamos numa produção de Conhecimento neutra, em uma suposta “objetividade” histórica, acima das classes sociais.

O método burguês de produção do Conhecimento aparenta uma neutralidade, porém parte de um preconceito: identifica “harmonia” como saúde e contradição como doença. Para quem está assentado no poder de Estado, tudo que lhe é contrário, ofende. A burguesia já esqueceu, há muito tempo, seu papel revolucionário, quando em 1789 guilhotinou boa parte da nobreza francesa para mover a roda da história para adiante.

Para nós, a classe trabalhadora do Século XXI, a produção de Conhecimento é revolucionária, ou não é produção de novo Conhecimento: é repetição do velho, reinvenção da roda. Nós inquirimos, perguntamos, estudamos, pesquisamos, constatamos, conhecemos, para mudar, para transformar, para revolucionar.

Conhecimento para manter o status quo é Saber já petrificado, morto e sepultado. Estamos com Paulo Freire, que insiste: “aprender para nós é construir, reconstruir, constatar para mudar”. Estamos com os japoneses cujo provérbio diz: “O ser humano começa a morrer quando não quer mais aprender”. Para nós, a classe trabalhadora se humaniza enquanto revoluciona, embrutece quando se adapta.

Por isso, o papel do(a) educador(a) é aguçar a capacidade crítica e transformadora do aluno, é atiçar o fogo da rebeldia que cada um já traz em si. Queremos uma Escola que interprete o mundo para transformá-lo. Nós, trabalhadores, podemos em cada campo de ação, seja sindical ou político, educacional ou jurídico, econômico ou cultural, ir exercitando os métodos de trabalho e um programa que nos capacitarão a governar, democraticamente, o país e o mundo, sem patrões.

A máxima do Manifesto ComunistaA libertação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”, nos obriga a uma preparação minuciosa para cumprir um papel determinante na transformação social. Quem não consegue destruir o velho, não será capaz de construir o novo. Não delegaremos o poder para outros, seremos sujeitos da nossa autodeterminação.

A Universidade dos Trabalhadores pode e deve se converter em um centro de preparação dos operários para controlar e dirigir as fábricas e a Sociedade.

Uma exigência aos Movimentos Sindical e Social brasileiros

Aqui os caminhos se bifurcam: De um lado, aqueles que promovem o Conhecimento como ferramenta da libertação, tornando a classe trabalhadora sujeita do seu destino, única capaz de impedir que banqueiros e capitalistas joguem o mundo na barbárie.

Em trincheira oposta, estão aqueles que promovem o embrutecimento do trabalhador nas masmorras do trabalho manual, tornando-o objeto inanimado da exploração, enquanto tecem uma teia de Ideologias para mascarar a hegemonia do capitalismo.

O que propomos?

  • Uma Universidade dos Trabalhadores, como protótipo de uma Nova Escola, estendendo o projeto de Escola de Ciências do Trabalho do DIEESE para todo o país, de forma pública e gratuita, utilizando os espaços físicos das universidades públicas brasileiras.
  • Formar centenas de milhares de ativistas sindicais e sociais com uma nova metodologia de ensino, oposta à metodologia burguesa, dentro de um projeto de transformação social do país.
  • Exigir do Estado e do Governo o financiamento do projeto da Universidade dos Trabalhadores e a garantia da sua total autonomia perante o Estado e os Partidos Políticos, portanto, administrada pelos trabalhadores, liderados pelos sindicatos e Centrais Sindicais.

Referências bibliográficas para elaboração do Manifesto:

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BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico, o que é, como se faz. Edições Loyola, 49ª edição, junho de 2007

BAKHTIN, Mikhail, Marxismo e filosofia da linguagem, 12ª Edição – 2006 – HUCITEC

FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

FREIRE, Paulo. Política e educação. São Paulo: Cortez, 2001.

FRIGOTTO, Gaudêncio.  A produtividade da escola improdutiva. São Paulo: Cortez, 1993.

FRIGOTTO, Gaudêncio; CIAVATTA, Maria; RAMOS, Marise. O trabalho como principio educativo no projeto de educação integral de trabalhadores. In: COSTA, H; CONCEIÇÃO, M. (Org). Educação integral e sistema de reconhecimento e certificação educacional e profissional. São Paulo: CUT, 2005.

GADOTTI, M. Perspectivas atuais da educação. Porto Alegre: Ed. Artes Médicas, 2000.

LUNATCHARSKI, Anatoli, A educação na Rússia revolucionária, Discurso no I Congresso de Toda a Rússia para a instrução pública, novembro de 1917.

LENIN, la educación, la ciência y la cultura, por Marie-Pierre Herzog, Directora de la División de Filosofía de la Unesco, publicado por El Correio, revista da UNESCO, julho de 1970.

MANACORDA, Mario Alighiero. Marx e a pedagogia moderna. Campinas/SP: Alinea, 2010.

MARX E ENGELS, Textos sobre educação e ensino, 2006, Centauro Editora.

MINISTERIO DE EDUCACIÓN DE CUBA Y ORGANIZACIÓN DE ESTADOS IBEROAMERICANOS. Sistema Educativo Nacional de Cuba: 1995. La Habana, Cuba, 1995.

SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia. Campinas/SP: Autores Associados, 1997.

SAVIANI, Dermeval. História das ideias pedagógicas no Brasil. Campinas/SP: Autores Associados, 2014.

SAVIANI, Dermeval. Marxismo e Pedagogia. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, número especial, p. 16-27, abr. 2011.

SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica primeira aproximações. 7 ed. Campinas: Autores Associados, 2000.

SUCHODOLSKI, Bogdan, Teorias marxistas da Educação, Editorial Estampa, 1976, Lisboa.


ANEXOS:

Aos poetas clássicos

Patativa do Assaré
(Antônio Gonçalves da Silva)
Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidad
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.

Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.

Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulô.

Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.

Deste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lesma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.

Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assarénasceu numa pequena propriedade rural de seus pais em Serra de Santana, município de Assaré, no sul do Ceará, em 05-03-1909. Filho mais velho entre os cinco irmãos, começou a vida trabalhando na enxada. O fato de ter passado somente seis meses na escola não impediu que sua veia poética florescesse e o transformasse em um inspirado cantor de sua região, de sua vida e da vida de sua gente. Em reconhecimento a seu trabalho, que é admirado internacionalmente, foi agraciado, no Brasil, com o título de doutor “honoris causa” por universidades locais. Casou-se com D. Belinha, e foi pai de nove filhos. Publicou Inspiração Nordestina, em 1956. Cantos de Patativa, em 1966. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Sua memória está preservada no centro da cidade de Assaré, num sobradão do século XIX que abriga o Memorial Patativa do Assaré. Em seu livro Cante lá que eu canto cá, Patativa afirma que o sertão enfrenta a fome, a dor e a miséria, e que “para ser poeta de vera é preciso ter sofrimento”.

O poeta faleceu no dia 08/07/2002, aos 93 anos.


O texto acima foi extraído de livreto de cordel de mesmo título, sem dados para identificação.

Projeto Releituras, Arnaldo Nogueira Jr


EXERCÍCIO PARA COMPREENDER AS VARIAÇÕES LINGUÍSTICAS DO BRASIL:

UMA LIÇÃO DE POTIGUÊS (VARIAÇÃO LINGUÍSTICA DOS NORTE-RIO-GRANDENSES).

Eu me chamo Bred Pit, venho lá de Roliúdi, sou galego de nascença, para uns sou o cão chupando manga, para outros não passo de um matuto. Nasci lá na caixa bozó, pertinho da baixa da égua, onde à meia noite aparece malassombro. Minha mãe já dizia: “quem não pode com o pote não pega na rudia”.

Venho dum povo que não ofende nem contradiz: quando não quer, diz “quero… não!”, para dizer não, diz “é…não!”. Quando vai sair diz: “tô chegando”.

Não sou abestalhado nem amarrado, raramente fico abufelado, comigo não tem pirreps, sou arengueiro e gosto de imbuança. Porém, não gosto de aresia nem de arrodeio. Nunca fui buliçoso e tenho raiva de quem é cheio de onda e faz fuxico. Prá mim, quem faz pantim é papangu de vazante. Sós tô!  É um pobre diabo, mas quer ser só as pregas.

De pirroitotinho jogava biloca e gostava de din-din. Já maiorzinho entrei no bozó e no pif-paf. Também fui piubeiro. Era um sibite baleado. Certa vez peguei uma xanha caxéta que revirou até a alma. Nunca fui caviloso e gostava de boyzinha ispilicute. Prá não dizerem que só falei coisa boa, também sou gala-rala.

Comigo é caixão de barro e vela preta, me considero um cagado, depois que cheguei aos cinco anos. Já tô no lucro da imortalidade infantil. Fico puto com patrão que caninga, pertuba mais que muriçoca. É um priziaca e pirangueiro. É da banda do tinhoso. Pense na pisa que vai levar no dia que a gente mandar. Vai ser uma reada da gota serena! Tome um tabefe cabra da peste!

Eita piula! Cheguei na cidade grande, beradeiro cheio de perna, que frivião, um rugi rugi  no meio da rua. Um frio danado, até o pé ficou engilhado.

Taí um povo trabaiador, mas vive estatelado, estrebuchando, comendo ovo estralado, para a sorte de alguns poucos estribados, que vivem na godela .Esse infeliz das costa oca,  paga uma ruma de dotô e xeleléu para ficar imbromando o trabaiador, que intertido, nem nota o lalau lavar a égua.

Pense numa escola sabida, tudo é “Cumé?” , “Prumode?” “ Quedê?”. Aqui o quengo funciona, não tem nota perdida nem parangolé, se alumia que tudo vem do trabalho e que conhecimento transforma ou não é.

Anuncia o tempo da sustança e nós, solto na buraqueira! E a morte, quando vem, quando vai? Sei não. Acho que o vivente morre quando desaprende, desatento, não mexe mais com o mundo. Sobrevive, espia, definha…

Resumindo, pense numa língua porreta: é o potiguês, ô xente!

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