Diário de Atenas – Para onde vai o Syriza?

Vinte um dias. Foi este o tempo que separou a convocação, por Alexis Tsipras, de um voto de contra a troika dos expurgos à ala esquerda de seu governo. O aparente enfrentamento às políticas de austeridade terminou com promessas de mais privatizações, cortes orçamentários e ataques aos direitos trabalhistas. Perdida em si mesma por movimentações contraditórias, a Grécia, do 26 de junho ao 17 de julho, ficou suspensa no ar.

Compreender a dança do Syriza durante estes dias é tarefa difícil. Foram muitos zigue-zagues, que possivelmente custaram a viabilidade do governo. Pesquisas de opinião recentes indicam que Tsipras sairá, individualmente, mais forte do processo, porém, provavelmente terá de chamar novas eleições em setembro ou outubro. É consenso que o governo eleito no dia 25 de Janeiro de 2015, até de uma perspectiva parlamentar, chegou a seu fim. Após a votação do memorando e a reorganização dos ministérios, ele passou a sobreviver apenas por conta de sua nova e frágil aliança com os partidos tradicionais da burguesia.

Os diferentes relatos que reconstroem a trajetória destes últimos dias, principalmente em torno do referendo, muito nos ajudam a compreender a política de Tsipras, assim como os futuros caminhos de seu partido. Enquanto parece ser inegável que muito deste processo, principalmente no que diz respeito ao futuro da ala esquerda, segue em aberto, já é possível tirar algumas conclusões preliminares.

O zigue-zague do primeiro-ministro

Os dois principais relatos públicos sobre as movimentações e motivações para a convocação do referendo, expostos por Yannis Varoufakis, ex-ministro das finanças, e Statis Kouvelakis, dirigente da ala esquerda do partido, aparentam convergir com as reflexões de alguns dirigentes marxistas com quem discuti o tema em Atenas.

Para Kouvelakis, o referendo, entre outras coisas, “foi uma tentativa do governo para sair da armadilha do processo de negociação”. Tal leitura parece confirmada por Varoufakis, que afirmou que a troika propositalmente os enrolava nas negociações, exigindo mais e mais concessões a cada rodada. O objetivo era desgastar o governo perante a opinião pública enquanto os bancos eram esvaziados de liquidez. Para Varoufakis, as negociações eram uma trapaça. “Fomos, de certa forma, manipulados, seriamente manipulados”, afirmou o ex-ministro para a imprensa britânica.

Além das disputas com a Troika, para dentro da Grécia e do próprio Syriza, o processo perdia sua legitimidade. Segundo Kouvelakis

Mensagens de dentro do partido foram enviadas à direção e ao próprio Tsipras, por setores muito para além da “Plataforma de Esquerda”, que as medidas não eram aceitáveis. Nos dias que antecederam ao chamado do referendo, houve mudanças significativas na opinião pública, com as pessoas afirmando que não aguentavam mais o processo de negociação. Havia uma compreensão geral que a Troika apenas queria humilhar o governo grego.

A sensação geral, quando Tsipras propôs o referendo, é que ele “seria ganho por uma margem ampla, de mais de 70%.” Porém, quando os bancos fecharam e os europeus começaram a fazer uma campanha de terror contra o “NÃO”, polarizando o país, Tsipras viu-se responsável por uma radicalização que ele próprio não previa.

Referindo-se à fatídica reunião do dia 26 de Junho, que deliberou pelo referendo, Kouvelakis menciona que o primeiro-ministro adotou a proposta, inconscientemente, de enfrentar-se de peito aberto contra a troika. Ao fazer isto, entrou em choque com seus aliados mais a direita. Naquele momento, Tspiras fez zigue.

Algumas pessoas – a ala direita do governo, dirigida pelo vice-primeiro-ministro, Giannis Dragasakis – discordaram da manobra. (…) Esta ala achava que o referendo era uma proposta de alto risco. Entendiam, de uma forma que Tsipras não compreendeu, que isto seria uma medida de muito enfrentamento e desengatilharia uma reação dura do lado europeu – e eles estavam corretos.

Também temiam a dinâmica vindo por debaixo que esta medida provocaria. Do outro lado, o ministro da energia e da reconstrução produtiva, Panagiotis Lafazanis, dizia que a decisão do referendo era correta, porém vinha muito tarde. Ele também disse que o referendo seria interpretado como uma declaração de guerra, e que o outro lado cortaria a liquidez do sistema bancário. Defendeu que o governo deveria projetar para os próximos dias o fechamento dos bancos. A maioria dos presentes na reunião deram risada da sugestão.

Quanto o país se polarizou, com a juventude e os trabalhadores de um lado, e toda a burguesia de outro, Tsipras tremeu. Desde a restauração da democracia na Grécia que as classes sociais não se polarizavam de tal forma. Depois de alinhar-se à esquerda de seu partido, o chefe do governo adotou integralmente a política de sua direita. Desta vez, Tsipras fez zague.

Tentaram de todas as formas possíveis fechar a caixa de pandora. A forma com a qual Tsipras lidou com a pressão de Dragasakis – e a razão pela qual a reunião da quarta [após convocar o referendo] foi tão importante – foi porque ele aceitou sua linha e mandou uma carta infame ao Eurogrupo, e antes disto, a carta pedindo um novo empréstimo. Isto abriu o caminho para o que viria na semana depois do referendo.

Ao mesmo tempo como ele não podia recuar do referendo sem ser humilhado, ele precisava explicar a razão por detrás de sua iniciativa. Precisava falar sobre a luta contra as medidas de austeridade, inclusive o pacote de Juncker [presidente da comissão europeia], sobre as chantagens da troika e o ultimato que havia sido imposto sobre ele. E, é claro, a dinâmica que se desenvolvia por baixo aproveitou a oportunidade, apropriando-se de suas palavras, seguiu em frente e batalhou contra a troika.

Isto é um exemplo claro de como uma iniciativa começada por cima, como resultado de contradições internas, resulta no desencadeamento de forças que foram muito para além das intenções do dirigente.

A posição de Kouvelakis sobre o zigue-zague de Tsipras é confirmada por uma nota publica do KOE, uma organização de origem maoísta que integrava, inicialmente, o campo majoritário do partido. Segundo o grupo, cujos quatro parlamentares votaram contra o acordo, o governo Syriza perdeu sua legitimidade moral

Está obvio por diversas fontes que Tsipras usou o referendo como um instrumento aventureiro para temporariamente fugir de uma situação impossível, esperando que um resultado mais o menos empatado [no referendo] lhe daria uma desculpa para seu projeto de se render à Troika. O “NÃO”, enorme e de natureza popular (principalmente impressionante se levarmos em conta as incríveis ameaças por todas as forças pró-sistêmicas internas e externas, assim como o fechamento dos bancos) assustou a Tsipras e seu governo. A direção do Syriza provou não estar à altura do povo grego.

Questão de fé?

O acordo que Tsipras assinou posterior ao referendo, segundo qualquer parâmetro, como bem notou Varoufakis, foi pior do que aquilo rejeitado no voto popular. A estratégia de chamar um referendo para fortalecer a posição do governo grego, na prática, resultou no enfraquecimento do mesmo na mesa de negociações.

A incoerência nas ações do governo Syriza indica, de certa forma, a inocência de seu projeto político. Tsipras parece de fato ter acreditado no seu próprio sonho, que era possível acabar com a austeridade sem romper com o Euro. Utopia reacionária, a fé do primeiro ministro na reforma das instituições da União Europeia expressa, em tempos de integração internacional, os limites do eurocomunismo “pós-nacional”.

Ideologia que marcou a integração final dos partidos comunistas burocratizados ao regime democrático-burguês da Europa ocidental, o eurocomunismo defendia a via pacifica, gradual e constitucional ao socialismo por meio do respeito às instituições vigentes. Representava, no anos 70, um aggiornamento do projeto reformista do inicio do século que já se encontrava abandonado pelos tradicionais partidos associados à social democracia, para quem a superação do capitalismo, mesmo pela via não violenta, havia ficado para trás.

A ideia de que o projeto do eurocomunismo podia ser realizado apenas em escala regional, e não mais no âmbito nacional, como propunham os defensores originais do movimento, está encravado no programa do Synaspismos, partido original de Tsipras. O synaspismos, ao fundir-se com outras organizações menores, fez surgir o Syriza. Herdeiro do KKE Interior, ele é o antigo braço eurocomunista do PC grego.

Ao fundir o eurocomunismo clássico, com seu programa voltado ao estado-nação, com o europeísmo defendido pelos setores liberal-progressistas da elite europeia, o Synaspismos integrou um movimento maior da esquerda reformista associado principalmente ao Die Linke alemão. Juntou aos alemães, adotou uma falsa ideologia internacionalista, que afirmava que defender resoluções políticas no âmbito nacional era um retrocesso xenófobo e que o espaço de luta política eram as instituições da União Europeia.

Na prática destes 21 dias, Tsipras aprendeu que os elementos básicos do programa eurocomunista são impossíveis de serem minimamente aplicados a União Europeia. As instituições que o chefe do Syriza, até o referendo, sonhava em reformar, até mesmo dentro de uma lógica social-democrata, são irreformáveis. Ao contrario dos regimes democrático-burgueses nacionais, muito mais permeáveis às pressões populares, o grau de blindagem das principais instituições da União Europeia é incomparavelmente maior. A ausência de controles democráticos surpreendeu seus próprios ministros.

Varoufakis, ao tentar apelar ao direito burguês para proteger suas posições políticas na reunião com ministros das finanças dos países do Euro, o Eurogrupo, descobriu aquilo que seus críticos à esquerda sempre souberam:

… Então eu disse, “a, tenho certeza que isto não é permitido.” E pedi para que fizéssemos uma consulta legal. Isto criou certa celeuma. Por 5 a 10 minutos a reunião se encerrou e juristas e funcionários de carreira começaram a conversar entre si, no telefone, e eventualmente um funcionário de Estado, um tipo de expert jurídico me disse, nas seguintes palavras “bom, o Eurogrupo não existe legalmente, então não tem nenhum tratado que rege este grupo.”

Portanto o que temos é um grupo inexistente que tem o mais alto poder para determinar a vida dos europeus. E ele não responde a ninguém, posto que não existe juridicamente; não há registro de suas reuniões, e tudo que ocorre por lá é confidencial. Então, nenhum cidadão jamais saberá o que é dito dentro dele… E as decisões que se tomam lá são quase de vida ou morte, mas seus membros não respondem a ninguém.

O futuro próximo

O Syriza elegeu-se com base em uma mentira, a de que era possível, ao mesmo tempo, eliminar a austeridade e não romper com o Euro. Ao longo de cinco meses, vacilou entre estes dois polos. Agora, porém, o zigue-zague chegou ao fim. Tsipras, depois de limpar seu governo da ala esquerda, deixou claro que, a partir deste momento, representará a luta por um memorando menos ruim.

A dura realidade, porém, é que o primeiro-ministro conta com apoio majoritário da população para fazê-lo. Segundo pesquisa do Palmos Analysis, 70% dos gregos dizem preferir este acordo em detrimento de apenas 24%, que querem a ruptura com o Euro. Quanto aos expurgos no governo, 80% concordam com a política. Somente 2% veem na mesma um erro. Se as eleições ocorressem hoje, Tsipras teria 42.5% dos votos, 6.2% a mais que na última eleição.

Enquanto o Syriza caminha velozmente à integração com o regime democrático-burguês grego, não seria um exagero dizer que a popularidade de Tsipras, a longo prazo, é insustentável. Quando os efeitos do atual memorando começarem a serem sentidos pela população, é bem provável que o primeiro-ministro caminhará em direção ao mesmo futuro dos outros dirigentes políticos que capitularam à troika. Em outras palavras, para a lata de lixo da história.

Em meio ao apoio de massas pelas medidas do governo, não é possível nos esquecermos da campanha pelo “oxi”. Existe na Grécia vontade para a luta. Mas a ausência de uma base social disposta a levar esta luta até as últimas consequências, isto é, romper com a economia de mercado e iniciar uma transição ao socialismo, gera a contradição do apoio a Tsipras. A imensa maioria dos gregos não está disposta a transicionar sequer para fora da periferia econômica da Alemanha. Apenas por este indicador é possível notar o quão distante está a consciência média de uma guinada em direção ao socialismo por aqui.

A tarefa dos socialistas gregos, independente da popularidade do capitalismo, de forma alguma pode ser capitular ao primeiro-ministro e ao seu governo. Mais do que nunca, é preciso reintroduzir na memoria popular a ideia do socialismo como única alternativa viável à barbárie da austeridade, diferenciando seu projeto radicalmente do Syriza.

Tal tarefa não é fácil, implica ganhar ao socialismo revolucionário milhões, e não milhares. Implica em paciência revolucionária, disposta a um projeto que não se concretizará no futuro imediato. Implica, principalmente em um país pequeno e pobre em recursos naturais, como é o caso da Grécia, em reconstruir a solidariedade internacional, não através da ilusão em partidos eleitorais e instituições burguesas blindada de pressões populares, mas na convicção de uma ruptura por inteiro com o capitalismo e suas organizações. Implica, por fim, em ganhar uma parcela majoritária dos trabalhadores e da juventude disposta a transacionar conscientemente para além da ditadura do capital, sem falsos atalhos, como é o caso do Syriza.

No espirito da continuidade desta luta, consciente de que o grosso da turbulência grega, a curto prazo, chegou ao final, nosso diário também se encerrará por aqui. Isto não significa, é claro, que encerramos nossa cobertura da crise grega. Pretendo seguir publicando diferentes materiais coletados por aqui, porém, não mais no ritmo que marcou os vinte um dias da crise.

Enquanto isto, não deixem de continuar lendo o Blog Convergencia. Afinal, a tarefa posta aos socialistas gregos não é muito diferente daquela colocada aos do Brasil, a de reconquistar nosso direito a sonhar.

Grande Abraço

Aldo Cordeiro Sauda

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