Intervalos e Intercâmbios: Antonio Gramsci e Alfredo Bosi

Antonio Rodrigues Belon

 

Uma leitura no espaço brasileiro de ideias provenientes de um espaço europeu ­­─ italiano, propriamente ─ ou do encontro entre Antonio Gramsci e Alfredo Bosi, seus intervalos e suas continuidades e desdobramentos nos dias atuais, estabelece uma perspectiva com as suas posições, os seus problemas e os seus encaminhamentos críticos.

Na Coleção Espírito Crítico, das editoras Duas Cidades e 34, de São Paulo, Brasil, em segunda edição de 2003 (primeira edição de 1988), com a assinatura de Alfredo Bosi (1936─), foi publicado Céu, inferno ─ensaios de crítica literária e ideológica. A coletânea de textos do intelectual brasileiro divide-se em três partes. Na titulação dos itens, um a um, resumidamente, os temas saltam a um primeiro entendimento. No item I, “Ensaios brasileiros”; no III, “Exercícios de teoria; no II, “Intemezzo italiano”, onde, de um modo geral, o autor escreve ensaios, elaborando temas de origem e articulação italianas. De um centro europeu, uma dimensão temporal e espacial específica, originariamente, os textos transitam para os contextos brasileiros, periféricos, na elaboração de uma leitura em espaços e tempos largos e renovados.

Os três ensaios selecionados na condição de objetos de estudos e reflexões tratam diretamente de Antonio Gramsci: “Os intelectuais, segundo Gramsci”; “Gramsci na prática”, “Cartas de Gramsci”.  Na simples enunciação dos títulos, três aspectos da presença de Gramsci tornam-se evidentes. Os textos não apresentam informações sobre o momento da escrita original. De todo modo, eles foram escritos depois de 1960, e antes da segunda metade dos anos 1980, ao que se pode concluir das informações editoriais do volume.

Educação e a cultura em Antonio Gramsci

Nos anos de cárcere, que foram os últimos da sua vida, Antonio Gramsci (1891-1937) pensou agudamente sobre a condição do intelectual: sua gênese, seu estilo de vida, suas funções, suas ideologias. [1] O tema de Gramsci, em permanente reiteração, é o funcionamento da educação e da cultura.

Gramsci quis ver claro na confusão. Na cadeia, quase sem livros, mas trazendo em si anos de militância, desceu ao subsolo da educação que ele próprio recebera e tocou de perto os seus ligamentos com uma estrutura de domínio. [2]

 Mais que isso: indagava-se “como funciona a cultura no interior de uma sociedade complexa, onde convivem as grandes classes (burguesia, operariado) e os vários grupos de status: as hierarquias profissionais”.[3] A inteligência sem as suas mediações escapa à apreensão.

A inteligência, quando não mediada pelas práxis, deságua no idealismo. Em compensação, quando a solicita o dia-a-dia importuno, não conhece outra saída senão o mais rasteiro empirismo. Entre inflados princípios gerais e as miúdas espertezas do “sejamos realistas!”, cumpre-se o roteiro do intelectual cujo horizonte é o seu próprio grupo de status. [4]

Tipologia gramsciana

Postas as preliminares sobre os intelectuais, vem uma tipologia. Na tipologia de Antonio Gramsci os intelectuais assumem duas formas: a dos orgânicos e a dos eclesiásticos. Trazer as palavras de Antonio Gramsci para a mesa onde se dá o diálogo com Alfredo Bosi permite o adensamento das ideias.

É possível encontrar um critério unitário para caracterizar igualmente todas as diversas e variadas atividades intelectuais e para distingui-las, ao mesmo tempo e de modo essencial, das atividades dos outros agrupamentos sociais? O erro metodológico mais difundido, ao que me parece, é ter baseado este critério de distinção no que é intrínseco às atividades intelectuais, em vez de buscá-lo no conjunto do sistema de relações no qual estas atividades (e, portanto, os grupos que as personificam) se encontram no conjunto geral das relações sociais. Na verdade, o operário ou proletário, por exemplo, não se caracteriza especificamente pelo trabalho manual ou instrumental, mas por este trabalho em determinadas condições e em determinadas relações sociais (sem falar no fato de que não existe trabalho puramente físico, e de que mesmo a expressão de Taylor, do ‘gorila amestrado’, é uma metáfora para indicar um limite numa certa direção: em qualquer trabalho físico, mesmo no mais mecânico e degradado, existe um mínimo de qualificação técnica, isto é, um mínimo de atividade intelectual criadora). E já se observou que o empresário, pela sua própria função, deve possuir em certa medida algumas qualificações de caráter intelectual, embora sua figura social seja determinada não por elas, mas pelas relações sociais gerais que caracterizam efetivamente a posição do empresário na indústria. [5]

A conversa começa pela categoria dos intelectuais orgânicos:

São os técnicos de administração, os engenheiros-chefes, os economistas os homens da propaganda, os assessores da política dominante. O seu papel ─ e a razão da sua existência ─ é o de órgão pensante dos sistemas a que servem. A “classe política” e as celebradas “elites do poder” se incluem nessa ampla categoria de intelectuais orgânicos. [6]

Conectam-se diretamente às necessidades empresariais ou do Estado como administradores, engenheiros, economistas, propagandistas. Numa palavra, assessoram a política dominante. A categoria é bastante ampla e abrange aqueles ao redor e dentro do universo político, de um modo geral.

Os eclesiásticos radicam numa origem de longa tradição prévia ao domínio da burguesia. Articulam-se ao ensino e reivindicam uma autonomia frente às esferas temporais de poder. Eles constituem uma categoria:

O mundo capitalista já encontrou um processo de cultura e de ensino criado pela Igreja e por ela mantido por mais de um milênio. Os profissionais leigos, que foram substituindo a ação do clero culto, herdaram deste um modo supratemporal de se qualificarem perante a sociedade civil. Ao contrário dos orgânicos, a quem apraz servir com prestância os projetos de grupo empresarial ou da burocracia, os novos clérigos reputam-se autônomos, revestidos de signos que lhes são peculiares. [7]

A distinção fundamenta uma perspectiva para o intelectual e sua consciência.

Gramsci já estava distinguindo dois tipos de consciência intelectual, a tecnocrática e a humanística. A primeira é, por força, utilitária: o seu alvo é a eficácia, a sua filosofia um misto de ativismo e cálculo, o seu mito o planejamento. Nos eclesiásticos, ele acusa forte dose de idealismo bem como pruridos de uma utopia doméstica na qual os intelectuais se engendram a si mesmos e repelem a qualquer vínculo com o sistema de produção vigente (autoposizione). [8]

Ou, nas expressões sublinhadoras da relevância da consciência para Antonio Gramsci, segundo o brasileiro:

O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que é realmente, isto é, um “conhece-te a ti mesmo” como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em si uma infinidade de traços acolhidos sem análise crítica. Deve-se fazer, inicialmente, essa análise. [9]

 

Tipologia em Bosi

A esta duplicidade tipológica em Antonio Gramsci, Alfredo Bosi acrescenta um tipo compósito, acentuando características já encontradas nos anteriores.

Como as coisas não param, poderíamos acrescentar aos tipos de Gramsci um outro, ainda mais compósito: aquele que, enquanto serve com solicitude as classes dominantes, não deixa de julgar-se o mais independente dos liberais. [10]

Estender as reflexões é impositivo.

Pela própria concepção do mundo, pertencemos sempre a um determinado grupo, precisamente o de todos os elementos sociais que compartilham um mesmo modo de pensar e de agir. Somos conformistas de algum conformismo, somos sempre homens-massa ou homens-coletivos. O problema é o seguinte: qual é o tipo histórico de conformismo, de homem-massa do qual fazemos parte? Quando a concepção de mundo não é crítica e coerente, mas ocasional e desagregada, pertencemos simultaneamente a uma multiplicidade de homens-massa, nossa própria personalidade é compósita, de uma maneira bizarra: nela se encontram elementos dos homens das cavernas e princípios da ciência mais moderna e progressista, preconceitos de todas as fases históricas passadas estreitamente localistas e intuições de uma futura filosofia que será própria do gênero humano unificado. Criticar a própria concepção de mundo, portanto, significa torná-la unitária e coerente e levá-la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais evoluído. Significa também, portanto, criticar toda a filosofia até hoje existente, na medida em que ela deixou estratificações consolidadas na filosofia popular. [11]

Alfredo Bosi pergunta-se pelas diferenças constituintes de um intelectual, seja ele em vertente técnica, ou vertente humanista, em consonância com a dupla tipologia inicial.

A diferença degrada-se ás vezes em aberta hostilidade. Na Itália, e não só lá, é tema batido a mútua aversão com que se defrontam técnicos e humanistas. Gramsci não toma partido: apenas constata a parcialidade das posições que se enrijam no interior de uma sociedade cindida e insegura na qual cada um tenta salvar-se como pode. [12]

Alfredo Bosi considera a inseparabilidade dos aspectos físicos e os intelectuais nas atividades humanas; sempre numa perspectiva revolucionária. Crítica o isolamento nos polos da estrutura e do sujeito, tecnicamente e humanisticamente adotados, apontando para a superação desta dicotomia. “Há algo, porém que une técnicos e humanistas. Ambos se creem marcados por um fator distintivo, inerente a seus cérebros: o dom da inteligência, que os apartaria do trabalhador manual ou mecânico”. [13]

Antonio Gramsci antecipa de uma tendência posterior e atual de acentuar o específico da política nas suas relações com a economia. A edificação do homem livre no interior de uma consciência das dimensões materiais da opressão aguilhoa o militante comunista. Uma formação técnica exige uma dimensão política.

Mas como é possível propor a relação vontade-estrutura sem recorrer a um conceito da vida política como superestrutura? Gramsci antecipa a tendência atual de acentuar o caráter próprio da política em face da economia. Paradoxalmente, esse modo de pensar ele o recebeu do seu maior adversário, o idealismo de Benedetto Croce, que sempre sustentou a distinção da esfera ético-prática, dando-lhe por princípio formal a vontade. [14]

A vontade duplica-se em suas faces.

A vontade política é bifronte: supõe o conhecimento, motiva a ação. O intelectual que, pela sua história de vida, ignora o tecido de vínculo e violência com que se amarram as classes, não poderá atingir aquele limiar da ‘consciência da necessidade’, que é, por sua vez, condição para que se produza uma vontade de agir sobre as estruturas. [15]

O conhecimento, a vontade e o senso comum

O conhecimento e a vontade, ambos crescem sobre suas raízes específicas.

Esse, o lastro que dá peso à sua ação. Não lhe basta, porém. É preciso que ele se encaminhe para uma teoria rigorosa, sem a qual os seus ímpetos de demolir estruturas poderão sempre ser truncados pela tecnocracia míope ou diluído pelo humanismo retórico. [16]

Ao intelectual impõe-se a superação do senso comum por um conhecimento de si mesmo. Isto com um caráter de novidade, renovação de seu ser e estar no mundo, no material, nas esferas da vida, do social e do histórico.

O intelectual lida com idéias, frases, palavras: está sujeito à recepção de mitos tanto ou mais que o homem da rua. Ao lado da sua especialidade, se é técnico, ou da sua habilidade verbal, se humanista, ele partilha com os grupos a que pertence uma boa dose de “senso comum”, de uma filosofia implícita de vida. [17]

No senso comum o difuso das mentalidades é uma prisão.

Para sair dessa mentalidade difusa e entrar em uma práxis consciente, ele deve elaborar uma crítica de tudo o que se veio sedimentando nas ideologias que se colam ao senso comum; uma crítica de tudo que aspira a uma coerência defensiva, portanto enganosa.[18]

Na constituição de uma visão de mundo muitas camadas se somam. Reconhecer esta soma é uma necessidade. Um intervalo entre os homens cultos e os simples, um espaço para a injustiça, requer uma superação. O hiato vem de muito longe; consolidou-se na passagem dos séculos. Tende a não haver comunicação entre as teorias, as filosofias relevantes, e o homem simples. Alfredo Bosi aponta o cristianismo, como uma exceção, mas religiosa: nele, falam uma só linguagem sacerdotes, missionários e os demais, os leigos.

Reconhecendo as camadas que se somam na sua visão do mundo, o homem ‘culto’ poderá, além do mais, franquear o intervalo injusto que o separa do homem ‘simples’. O mal vem de longe: as grandes teorias filosóficas, de Platão a Bergson, não se comunicaram ao homem da rua; só algumas religiões e, em particular, o cristianismo, souberam criar uma linguagem dúctil, missionária, que vale tanto para o sacerdote quanto para os leigos. [19]

Verter, sem fazer pouco delas, as linguagens em clareza, esta é a tarefa. Com a clareza se chega e se apreende ao concreto. A conquista da razão dialética iguala-se à conquista de uma racionalidade legítima.

Assim, o homem que quiser professar o novo “conhece-te a ti mesmo” não padecerá do comichão do hermetismo. Tudo o que disser há verter-se, sem distorção nem apoucamento, na mais limpa das linguagens. Aprender a prática da clareza é, como aportar o concreto, uma conquista final da razão dialética, só obtida depois que se cruzarem a experiência, a abstração e a vontade de mudar as coisas. [20]

As tarefas dos intelectuais sempre se redefinem. Nunca se transformam em definitivas. Não importa, para isto, a tipologia dos intelectuais.

A crítica do senso comum; a auto-análise em termos históricos; a conquista de uma palavra translúcida; eis algumas das tarefas propostas ao intelectual que se empenha em sair de uma posição dada, de orgânico ou eclesiástico. [21]

O concreto é a organização da cultura. A escala individual não permite esta concepção. Não há super-homens. O concreto é o poder, no interior de relações entre sujeitos, sociais, de fazer e transmitir cultura. No espaço de encontro, a escola dilata-se e forma os intelectuais atualmente. Sociedade civil, pessoa, Estado vinculam-se nas sociedades de massas.

O projeto não se concebe, naturalmente, em escala individual. Gramsci entreviu na mitologia do super-homem, comum aos pequenos nietzschianos de direita, certas conotações folhetinescas ou infanto-juvenis. Cada um de nós forma-se e age no interior de instituições, pois a cultura preexiste e sobrevive à ação do sujeito. O nível concreto, neste caso, não é nem o indivíduo x nem os valores que o animam: é o grupo dos sujeitos, a sua interação, o poder que têm de fazer cultura e transmiti-la. O concreto é a ação do professor sobre o aluno, do escritor sobre os fiéis, e vice-versa. O concreto é o que vem depois. [22]

A escola anterior ao capitalismo preparava eclesiásticos, suficientes para o funcionamento da sociedade naquele momento; agora o Estado e a indústria absorvem o sistema escolar na preparação de incontáveis intelectuais orgânicos, necessários ao assessoramento, ao funcionamento da sociedade. Isto não comporta nostalgias, mas é parte do real em movimento, tornando possível a eleição da escola como objeto prioritário da ação transformadora. A escola para Antonio Gramsci é a de caráter unitário nos seus graus fundamentais. Sem tecnicismos precoces.

Na escola, na imprensa, no teatro, no cinema, nos termos de Alfredo Bosi, forma-se o intelectual, no interior de superestruturas tendentes à reprodução. Principalmente na escola: “O espaço de encontro de todos é, a certa altura, a escola. Gramsci disse coisas agudas sobre uma instituição que não parou de dilatar-se e de assumir o papel de formadora dos intelectuais de hoje.” [23] Não mais a coesão de uma cultura envelhecida, nobre ou folclórica, mas uma cultura contraditória articulada às contradições das relações sociais de produção no capitalismo.  O processo em sua totalidade para a sua compreensão requer o entendimento das relações de reciprocidade das forças materiais e das práticas da cultura.

Nas sociedades de massa, a escola é vinculo obrigado entre a pessoa e a sociedade civil, a pessoa e o Estado. A superprodução escolar tem-se, mesmo, por índice de progresso entre as nações que se desejam democráticas. Ora, quanto mais se expande a rede de ensino, tanto mais se deve suspeitar de um crescimento na demanda de qualificação técnica, seja da parte das empresas, seja da parte do aparelho estatal. Aumentam com isso as fornadas de orgânicos.[24]

Sem saudosismos, nem nostalgias com os seus afetos indefinidos.

Outrora, nas comunidades pré-capitalistas, a escola preparava tão-somente eclesiásticos; para o funcionamento material do feudo e do burgo ela não se fazia necessária: bastava o artesanato, com a sua tradição de ofícios e as suas práticas domésticas e corporativas. Hoje, ao contrário, há um grande vetor ideológico que parte do Estado e da indústria e cai em cheio sobre o sistema escolar para absorvê-lo: um maior “rendimento” dos setores tradicionais, esquivos à filosofia digital do computador, é mira intermitente das políticas educacionais em quase todo o mundo. Nessa batalha, os peões são os orgânicos ou os para-orgânicos, que se sentem capazes de sobreviver mais à vontade na sociedade industrial padrão. [25]

Como evitar as escolhas sem pertinência, estabelecer uma perspectiva revolucionária?

Mas Gramsci não é um nostálgico. Não escolheu a priori, entre os técnicos e os humanistas. A opção revolucionária lança-o para além dessas formações cristalizadas; a luta, ele a desloca para o campo da consciência política que deve criar-se em todos os homens. Daí, eleger a escola como objeto preferencial da ação transformadora. [26]

A escola e os intelectuais

Vale pensar sem os privilégios perdidos nas noites dos séculos, de olhos postos no contemporâneo.

Ao rejeitar toda sorte de privilégios, defende a escola única para os graus primário e médio. Ela teria o mérito de ser democrática não só pelo alcance coletivo, como pelo teor do ensino: ainda não-especializada, poderia firmar em toda a população escolar uma base científica, histórica e crítica, anterior e resistente ao parcelamento exigido pela divisão do trabalho e pelas hierarquias profissionais. [27]

O trabalho dos intelectuais se articula à escola em sua unicidade.

A escola única, que ocupa a criança dos sete aos quinze anos, evitaria o tecnicismo precoce e se tornaria um fator dinâmico na mudança de mentalidade, desde que se respeitasse o seu objetivo geral, formativo. À diferença dos que julgam mais popular a disseminação de escolas técnicas de nível elementar e médio. [28]

Paradoxalmente, “A escola técnica para crianças é uma válvula de que se serve o Estado classista para resolver as tensões produzidas pela expansão do próprio ensino. Ela não é um acaso.” [29] Perpetua e engessa as diferenças sociais

Nas relações entre o todo e as partes, nada é por acaso na formação dos intelectuais. Incandesce o debate entre a pureza e o engajamento.

Ao artista cabe ‘fixar’ uma imagem do real, torná-la presente e, ainda que por um átimo, prendê-la nas amarras do signo. Já o homem de ação não tolera que as coisas voltem sempre com a mesma face. Assim, o ‘atraso’ da arte em relação à política é estrutural, porque o tempo da imagem é, por força, o de um presente que se abre para o futuro. E se a discronia é fatal, a polêmica se perde no mal-entendido. [30]

No interior das mediações múltiplas, é possível distinguir o relevante. Sem impedimentos. No âmago

dos fenômenos culturais, é possível enxergar os perfis de uma estrutura de cristal, com suas coincidências e contrastes, seus espelhamentos e refrações e, sobretudo, com as suas forças internas postas em certo equilíbrio que um dia, afinal, poderá romper-se. [31]

Uma concepção de mundo, um pertencimento em desdobramento na tipologia gramsciana dos intelectuais, a crítica e a bizarrice, o compósito em oposição ao unificado, a crítica em seu alcance e em sua totalidade, o ponto de partida da elaboração crítica, a consciência, a dimensão mundial e a evolução do pensamento corporificam-se na função intelectual em destaque na compreensão dos problemas.

Por isso, seria possível dizer que todos os homens são intelectuais, mas nem todos os homens têm na sociedade a função de intelectuais (assim, o fato de que alguém possa, em determinado momento, fritar dois ovos ou costurar um rasgão no paletó não significa que todos são cozinheiros ou alfaiates). Formam-se, historicamente, categorias especializadas para o exercício da função intelectual; formam-se em conexão com todos os grupos sociais, mas sobretudo em conexão com os grupos sociais mais importantes, e sofrem elaborações mais amplas e complexas em ligação com o grupo social dominante. [32]

A caracterização do intelectual ocupa o centro das preocupações do italiano e do brasileiro, nas suas vivências em tempos e espaços díspares.

Uma das características mais marcantes que se desenvolve no sentido do domínio é sua luta pela assimilação e pela conquista “ideológica” dos intelectuais tradicionais, assimilação e conquista que são tão mais rápidas e eficazes quanto mais o grupo em questão for capaz de elaborar simultaneamente seus próprios intelectuais orgânicos. [33]

O estabelecimento de relações entre Antonio Gramsci e Alfredo Bosi na caracterização dos intelectuais segue um padrão idêntico no tratamento da problemática da escola.

O enorme desenvolvimento obtido pela atividade e pela organização escolar (em sentido lato) nas sociedades que emergiram do mundo medieval indica a importância assumida no mundo moderno pelas categorias e funções intelectuais: assim como se buscou aprofundar e ampliar a ‘intelectualidade’ de cada indivíduo, buscou-se igualmente multiplicar as especializações e aperfeiçoá-las. Isso resulta das instituições escolares em graus diversos, até os organismos que visam a promover a chamada ‘alta cultura’, em todos os campos da ciência e da técnica. [34]

Os primeiros parênteses mais do que falam; quase gritam.

(A escola é o instrumento para elaborar os intelectuais de diversos níveis. A complexidade da função intelectual nos vários Estados pode ser objetivamente medida pela quantidade das escolas especializadas e pela sua hierarquização: quanto mais extensa for a ‘área’ escolar e quanto mais numerosos forem os ‘graus’ ‘verticais’ da escola, tão mais complexo será o mundo cultural, a civilização de um determinado Estado. Pode-se ter um termo de comparação na esfera da técnica industrial: a industrialização de um país se mede pela sua capacidade de construir máquinas que construam máquinas e pela fabricação de instrumentos cada vez mais precisos para construir máquinas e instrumentos que construam máquinas, etc. O país que possuir a melhor capacitação para construir instrumentos destinados aos laboratórios dos cientistas e para construir instrumentos que verifiquem estes instrumentos, este país pode ser considerado o mais complexo no campo técnico-industrial, o mais civilizado, etc. O mesmo ocorre na preparação dos intelectuais e nas escolas destinadas a tal preparação: escolas e instituições de alta cultura são similares.) [35]

Ou acabam por gritar sem tergiversações nos segundos parênteses do texto em citação.

(Também nesse campo a quantidade não pode ser destacada da qualidade. À mais refinada especialização técnico-cultural, não pode deixar de corresponder a maior ampliação possível da difusão da instrução primária e o maior empenho no favorecimento do acesso aos graus intermediários do maior número. Naturalmente, esta necessidade de criar a ampla base possível para a seleção e elaboração das mais altas qualificações intelectuais ─ ou seja, de dar à alta cultura e à técnica superior uma estrutura democrática ─ não deixa de ter inconvenientes: cria-se assim a possibilidade de amplas crises de desemprego nas camadas médias intelectuais, como ocorre efetivamente em todas as sociedades modernas.) [36]

Na reiteração dos temas do funcionamento da educação e da cultura no interior de uma sociedade complexa, de classes e dos vários grupos de status, a inteligência se apreende nas suas mediações. Das preliminares sobre os intelectuais, vem uma tipologia. Vem uma caracterização das diversas e variadas atividades intelectuais.

Um intelectual na vertente técnica, ou na vertente humanista, pesa a inseparabilidade dos aspectos físicos e dos intelectuais nas atividades humanas na perspectiva revolucionária. Nas esferas da escola, da imprensa, do teatro, do cinema, o intelectual se forma: principalmente a escola.

Referências

BOSI, Alfredo. Os intelectuais, segundo Gramsci. In: Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica. 2. ed São Paulo: Duas Cidades e 34, 2003. (Coleção Espírito Crítico) pp. 409-422

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere: volume 1. 5. ed Edição e tradução Carlos Nelson Coutinho; co-edição Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011a.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere: volume 2. 6. ed Edição e tradução Carlos Nelson Coutinho; co-edição Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011b.


[1] BOSI, 2003, p. 409

[2] BOSI, 2003, p. 409

[3] BOSI, 2003, p. 409

[4] BOSI, 2003, p. 410

[5] GRAMSCI, 2011b, p.18

[6] BOSI, 2003, p.411, itálicos originais

[7] BOSI, 2003, p. 412

[8] BOSI, 2003, p. 412

[9] BOSI, 2003, p. 412

[10] BOSI, 2003, p. 412

[11] GRAMSCI, 2011a, p. 94

[12] BOSI, 2003, p. 412

[13] BOSI, 2003, p. 413

[14] BOSI, 2003, p. 415

[15] BOSI, 2003, p. 416

[16] BOSI, 2003, p. 416

[17] BOSI, 2003. p. 416

[18] BOSI, 2003, p. 416

[19] BOSI, 2003, p. 417

[20] BOSI, 2003, p. 417

[21] BOSI, 2003, p. 418

[22] BOSI, 2003, p. 418, itálico original

[23] (BOSI, 2003, p. 418, itálicos originais)

[24] BOSI, 2003, p. 418-9

[25] BOSI, 2003, p. 418-9

[26] BOSI, 2003, p. 419

[27] BOSI, 2003, p. 418-9

[28] BOSI, 2003, p. 419-20

[29] BOSI, 2003, p. 420

[30] BOSI, 2003, p. 422

[31] BOSI, 2003, p. 422

[32] GRAMSCI, 2011b, p. 18-19

[33] GRAMSCI, 2011b, p. 19

[34] GRAMSCI, 2011b, p. 19

[35] GRAMSCI, 2011b, p. 19

[36] GRAMSCI, 2011b, p. 19-20

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