Diário de Atenas – A praça contra Tsipras – 16 de Junho

Quando saí do campus da Universidade Politécnica de Atenas, rumo à praça Syntagma, pouco sabia o que esperar do resto daquele dia. Via twitter, acompanhava passo a passo os pronunciamentos dos deputados do Syriza no parlamento, tentando mapear o tamanho da rebelião interna que ameaçava a estabilidade do governo. O centro de minha curiosidade, porém, era extraparlamentar. Queria compreender o tamanho da ruptura potencial da esquerda grega com um governo que reivindica ser seu legítimo representante.

Se a greve do funcionalismo publico é parâmetro para compreender o grau de disposição de enfrentamento entre o Syriza e os setores mais conscientes da classe trabalhadora grega, o dia estava perdido. Imaginava, inicialmente, que os transportes públicos iriam parar as supostas 24 horas anunciadas de greve. Não foi isto que ocorreu. Após uma paralização tímida e parcial de 2 horas no metrô de Atenas, tudo voltou ao normal. Os metroviários, ao contrário da juventude que se deslocava à praça, não estavam com apetite para radicalizações.

Até sermos espancados pela polícia, diria que a Syntagma, por conta da mobilização da juventude, corria grandes chances de compensar a fraqueza da greve. Antes do confronto, havia uma corrente mais o menos continua de pessoas chegando à manifestação, que, sob o calor do verão grego (arriscaria dizer que a temperatura por lá superava os 30 graus) se aglutinavam na praça. O espirito geral, inclusive, era muito menos sóbrio que o das pequenas manifestações que haviam ocorridas nos dias anteriores. Mesmo assim, todos sabiam que testemunharíamos aquela noite uma derrota de proporções monumentais. Tudo já estava dado para garantir os votos parlamentares da vitória do terceiro memorando de austeridade imposta sobre a Grécia.

Entre os parlamentares da base de apoio ao governo, o grau da rebelião foi relativamente alto. Exatos 39 parlamentares do Syriza, de um total de 149, optaram por não trair seus ideais. Votaram no “não” 32, 6 se abstiveram e 1 se ausentou da votação. Aparentemente, quase todos os deputados da “Plataforma Esquerda” (que inclui grupos como o DEA) além dos quatro parlamentares do KOE, a organização maoísta que não integra oficialmente a ala radical do partido, posicionaram-se contra a política de Tsipras.

Importantes figuras públicas do governo, entre eles o ex-ministro das finanças Yanis Varoufakis, sua vice-ministra Nandia Valavani, e Panagiotis Lafazanis, ministro da Indústria, votaram com a dissidência. Somaram-se a eles outros seis membros da tendência mais a esquerda que integravam a antiga maioria, o chamado “grupo 53”. Entre todos os opositores, Zoe Kostantopoulou, a presidente do parlamento, foi novamente a estrela do dia. Em um discurso firme, denunciou o acordo propostos por Tsipras como um crime à democracia grega e um “genocídio social”. Hoje, mas que qualquer outro membro do Syriza, ela encarna publicamente a figura da resistência à Troika.

Mas nada disto, em ultima instancia, mudaria o curso da votação. Tsipras, com seus novos aliados da direita, contou com 229 votos a favor do acordo com os alemães. Somada a ala rebelde do Syriza, os comunistas do KKE, e os odiosos nazistas do Aurora Dourada, o “oxi” parlamentar teve 64 votos. Além destes, 6 deputados se abstiveram ou se ausentaram na votação. Agora, cabe esperar para ver se os outros parlamentos europeus aprovarão a medida.

Às ruas

Junto aos votos parlamentares, o KKE organizou (como sempre de maneira sectária e isolacionista) a mais impressionante das mobilizações públicas contra o memorando. Enquanto aguardava a chegada de minhas companheiras do Antarsya, cuja militância ocupava a parte frontal da praça Syntagma, a poucos metros do parlamento, o PC grego marchava pela rua paralela a nossa.

Desta vez não estavam lá como KKE, mas sim, sob as bandeiras do Pame, a colateral sindical do stalinismo grego. Apesar da ausência de flâmulas partidárias, a marcha firme e contínua, os gritos de guerra constantes e bem ensaiados, além da inconfundível comissão de segurança impediam-me de confundir os responsáveis pelo ato. Setores da imprensa colocaram os números mobilizados pelo PC em torno de 10 mil pessoas. Balela. O ato do KKE tinha, no mínimo, de 20 a 30 mil ativistas. Se fossemos, proporcionalmente, converter isto segundo o tamanho da população brasileira, que é 20 vezes maior que a grega, o ato teria o equivalente a algo entre 400 e 600 mil pessoas.

O PC, como era de se esperar, marchava sozinho. Portanto, após testemunhar sua coluna juntei-me às camaradas que já me esperavam na dianteira da praça. Elas estavam, porem, visivelmente preocupadas. Por motivos de segurança teria de seguir suas ordens a risca aquela noite. Afinal, estava prestes a testemunhar uma Bahla grega.

Segundo fui ensinado, Bahla é uma palavra intraduzível para qualquer outra língua. O conceito, porém, me parecia um tanto quanto comum. Ela serve para designar quando a militância se choca em batalhas campais com a polícia e seus aparatos repressivos.

A faísca do Bahla, que na prática desmobilizou o principal ato de rua contra a troika em mais de dois anos, foi obra dos black blocs gregos. Mobilizados ao lado de nossa coluna, logo que aqueles jovens anarquistas caíram na provocação policial, o clima pacífico e fraterno do ato foi pro espaço. Em poucos minutos, a praça, a exceção daqueles mobilizados dentro da coluna do combativo Antarsya, se esvaziou. Caberia à sua comissão de segurança resistir ao máximo às tentativas de dispersão as quais seriamos submetidos.

Arrisco argumentar que a melhor forma de se compreender a intervenção das massas e suas organizações na luta política é observando, a olho nu, sua capacidade de resistência em momentos de confronto com o aparato repressivo do estado.  Estes enfrentamentos físicos nos demonstram não só o humor popular, mas acima de tudo no nível de coesão e organização do movimento. No caso grego, surpreendi-me, novamente, com o grau coordenação e tranquilidade de sua militância.

Os Bahlas do Brasil, e digo isto com algum grau de vergonha, exemplificam a incapacidade da esquerda de minimamente se organizar entre si mesma. Quando “nossos” black blocs dão margem à repressão policial, corremos perdidos pelos quatro cantos dos atos, desintegrados e sem rumo. Nossas colunas se desfazem no primeiro assopro, enquanto as comissões de segurança mais servem para localizar a dispersão que garantir a integridade da militância. E digo mais, até mesmo a existência de uma comissão de segurança, em diversos momentos, é raridade. Em termos organizacionais, estamos a anos luz de atraso em relação aos gregos.

Quando, debaixo das bombas, mencionei estas reflexões à companheira que se mantinha alerta pela minha segurança – afinal, não entendia uma misera palavra do grego gritado na coluna, o que certamente tornava-me mais vulnerável que o resto do ativismo – fui lembrado que desde o assassinato de pela polícia do adolescente Alexandros Grigoropoulos, que deu inicio ao levante estudantil de 2008, toda uma geração de militantes foi educada no enfrentamento cotidiano com os aparatos repressivos do estado. Por isto aqueles jovens, e alguns eram muito jovens, provavelmente secundaristas, moviam-se, todos de braços dados, sob o estrito comando da comissão de frente.

Enquanto os anarquistas, correndo livremente ao nosso lado, ativaram coquetéis molotov contra a polícia, nossa coluna se movia lentamente para trás, cantando com força seus gritos contra a ordem. O mais comum, “Embrós, laé; min skívis to kefáli; O mónos drómos eínai; Antístasi kal páli” já havia captado dos últimos atos. Dizia em português “Para frente, povo. Não abaixem suas cabeças. Há apenas uma saída: continuarmos nossa resistência”.

Continuar a resistência, verdade seja dita, não era tarefa fácil. Posto que a comissão de frente dava o ritmo de nossa marcha, quando frontalmente atacada pela policia, ela se esmagava sobre nós. Os braços dados impediam a dispersão, porém, nos adensava intensamente, espremendo o movimento. O importante é que nos mantínhamos unidos e ao mesmo tempo fechados para qualquer back bloc que tentasse se esconder entre nós. Por uns bons 20 minutos, mantivemo-nos firmes no terreno.

Problema, na verdade, foi quando a polícia nos cercou por detrás, atirando sobre nós uma barreira continua de gás lacrimogênio. Intoxicado e sob sitio, éramos duplamente cercados, não só pela polícia, mas também pelos anarquistas que tentavam penetrar entre nossas fileiras. Por sorte, no recuo da praça, acabamos nos encostando na coluna do KKE, que, infinitamente maior que nós, acabou por ocupar fisicamente nossa retaguarda, impedindo assim uma derrota total.

A linha de frente do ato da colateral sindical do PC grego, porém, já não possuía mais as bandeiras do movimento. Enquanto o Pame se retirava, a juventude do KKE ocupava o inicio e fim da coluna, isolando-a, de braços dados, do Bahla que ocorria a sua frente. Sob a força do gás lacrimogênio, que dificultava a visão daqueles que, como eu, estavam sem mascara, acabei me descolando do resto da coluna do Antarsya, indo parar nas fileiras do KKE.

A experiência, devo admitir, foi um tanto quanto curiosa. Passado alguns metros da linha de frente do partido, uma marcha tranquila, com pessoas de todas as idades, seguia caminhando por Atenas. Ocupávamos desta vez toda a mão de uma avenida, envelopados nas laterais por fileiras organizadas pela comissão de segurança do partido comunista. Do outro lado, os incansáveis black blocs quebravam bancos e lojas de automóvel. Espertos, faziam sua Bahla ao lado da enorme coluna do KKE, porém, sem jamais tentar se misturar em meio a ela. Buscavam a proteção dos estalinistas sem provocá-los.

O ausente-presente

Enquanto o pau comia na praça, consegui, finalmente, comunicar-me com as camaradas que havia perdido no meio da confusão. Frustradas com a destruição do ato, elas também saiam da Syntagma para pegar algo a comer. Afinal, não havia mais por que continuarmos em meio a àquele desgaste todo.

Nos encontramos em Exarcheia com alguns outros jovens que por medo da repressão não haviam se juntado a nós no ato. Curiosos, perguntaram-nos o tamanho da coluna do Aurora Dourada na Sytagma. Ao contrario dos boatos difundidos na mídia, voltados a deslegitimar o movimento, os nazistas do Aurora Dourada não apareceram na praça. Se tivessem ido, o centro do enfrentamento, certamente, seria com eles.

Além do temor da repressão e de serem confundidos com a extrema direita, aqueles jovens, que tinham todos votado em Tsipras, se sentiam, acima de tudo, confusos. Todos se opunham, de forma convicta, ao acordo assinado. Um deles confessou-me que após assistir à entrevista de Tsipras para a televisão, passou a noite chorando. Surpreendia-lhes, acima de tudo, o fato do primeiro-ministro ter admitido não haver nenhum tipo de “plano B” frente às chantagens dos governos europeus.

Naquele momento, imaginei estar entre a esquerda que rompia com o governo. Ao perguntar como se dizia a palavra “traidor” em grego para Adriana, uma simpática estudante de jornalismo, fui confrontado com a dura realidade das ilusões que prevalecem por fora dos pequenos círculos do marxismo radical. “Tsipras não é um traidor, ele fez todo o possível para derrotar os alemães” disse ela. “Além do mais, ele acredita no Euro, em momento algum ele falou que estava disposto a voltar ao dracma”.

Junto à confusão, havia, é claro, o medo. Nos discursos parlamentares foi o Aurora Dourada que se posicionou mais duramente contra a traição de Tsipras. Eles, e não o Syriza, reivindicaram para si a expressão consciente da campanha pelo “não”. Este, talvez, é o produto mais perigoso da capitulação do governo à troika: fortalecer aquilo que há de mais sinistro da crise grega, o movimento fascista. Talvez por conta disto que aqueles jovens insistiam que o governo precisava ser preservado. “Descrevê-lo como um traidor não ajuda” afirmou Adriana de forma enfática.

Apesar das ilusões daqueles jovens na possibilidade do governo seguir em pé, não está descartada sua desintegração ainda nesta semana. Além do mais, mesmo com a vitória do memorando no parlamento grego, ele ainda precisa, nos próximos dias, ser aprovado pelos países credores. Nada garante, portanto, que a Grécia não seja empurrada para fora do Euro por forças que estão para além da vontade de Tsipras.

O cenário por aqui, portanto, segue em aberto. Até o passar da tempestade, manterei vocês informados sobre estes fatos.

Aldo Cordeiro Sauda

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