Diário de Atenas – Qualquer acordo pelo Euro? – 14 e 15 de Julho

 

O clima em Atenas está esquentando. Dentro de algumas horas, haverá, no parlamento, a votação do memorando proposto pela Troika. Escrevo a vocês esta curta nota antes de sair para o ato na Syntagma, pois não faço ideia que horas irei voltar para casa hoje, e queria mantê-los minimamente por dentro das coisas.

As últimas pesquisas de opinião, realizadas ontem e publicadas logo antes de uma entrevista do Tsipras no canal publico de TV, indicam a força da ilusão no Euro. Segundo o Instituto Kapa, questionados se “o parlamento grego deve aprovar novo memorando?”, 70.1% afirmaram que sim e apenas 25.3% optaram pelo não. A outra pergunta, de que “caso haja uma mudança na coalizão do governo, quem deve ser o novo primeiro ministro?”, 68.1% querem que Tsipras continue. Uma suposta “figura consensual” em seu lugar, provavelmente um tecnocrata que teria mais apoio dos partidos pró-Euro que integram a oposição, teve apoio de apenas 22.6% do público. Quando questionados sobre “quem é o responsável pelas duras medidas de austeridade a serem aplicadas?”, o grosso da critica recaiu, corretamente, sobre os dirigentes europeus. Exatos 48.7% centra o peso da culpa neles, enquanto 44.4% responsabilizam prioritariamente o governo grego pelo péssimo acordo.

Se de fato a massa parece estar disposta a novos sacrifícios para continuar no Euro, há, na vanguarda, crescente resistência. Acaba de ser divulgado que 109 dos 201 dirigentes do comitê central do Syriza assinaram um documento condenando a decisão de Tsipras por não ter rompido com a Troika. A linguagem do documento é dura, e chama os acordos do dia 12 de “golpe”. Deve-se ter em mente, porém, que o CC do Syriza, eleito antes da bancada do partido mais que dobrar no parlamento, não é composto, majoritariamente, de deputados. Em uma bancada de 148, discute-se que algo entre 30 a 40 podem acabar votando contra o acordo.

A votação do CC indica muito descontentamento no partido. A juventude, por exemplo, já soltou nota se opondo ao memorando, e o braço sindical do Syriza integra o chamado à Greve Geral. Esta paralização de 24 horas, que na verdade se restringe ao funcionalismo publico, atingiu hoje pela manha o sistema de transporte em cheio. Na vanguarda estão os metroviários e os trabalhadores dos trens. Como estamos em meio às férias escolares, o poderoso sindicato dos professores não teve como entrar em ação. Mesmo assim, os ativistas deste movimento estão convocando a todos para a Syntagma hoje as 19:30. Haverá também, principalmente na Alemanha, protestos de solidariedade à Grécia convocados pelo Twitter. Toda a Europa, portanto, estará de olho em Atenas.

Ontem na televisão Tsipras provou a todos porque ele é o único primeiro-ministro na história recente da Grécia cujo índice de aprovação apenas tem aumentado desde sua eleição. Sereno, tranquilo e confiante de si, misturou em sua fala ataques à direita europeia com uma defesa de seu giro político após o plebiscito. Sua entrevista está sendo utilizada pelo governo como principal instrumento de propaganda dos acordos.

tsi 1Quando questionado sobre a rebelião em seu partido, Tsipras, comparando-se a um marinheiro em meio à tempestade, afirmou que não pretende largar o barco e antecipar as eleições. Apresentando-se de forma magnânima, disse que “expulsões não integram a tradição do Syriza”. Assumiu, inclusive, total responsabilidade pelo acordo, chamando para si qualquer erro cometido nas negociações que caberia ao ex-ministro das finanças, Yannis Varkoufakis. Ao defender seu ex-ministro, falou que “nem sempre acadêmicos brilhantes são bons político”. Varoufakis, porém, indicou estar se aproximando, na votação de hoje, à ala esquerda de seu partido. Fez há algumas horas atrás um pronunciamento duro contra o tratado, descrevendo-o como uma reprise dos acordos de Versalhes.

Aos que esperavam, na entrevista de TV, uma defesa calorosa de Tsipras ao acordo, se decepcionaram. O primeiro ministro afirmou que os mesmos iriam impor à Grécia medidas recessivas, mas, em ultima instância, era o que custava para ficar no Euro.

O retorno ao Dracma, para o chefe do Syriza, é impensável. Não há dinheiro nos bancos, afirmou, o que levaria a hiper-inflação e corrosão dos salários e aposentadorias. “um calote desorganizado levaria não apenas ao colapso do sistema bancário e ao desaparecimento de todos os depósitos, mas nos forçaria e imprimir uma moeda que se desvalorizaria drasticamente por que não há reservas para apoia-la (…) um aposentado que ganha 800 euros ganharia 800 drachmas. Isto lhe sustentaria por apenas três dias, e não um mês.”

A reflexão de Tsipras, dentro de um modelo capitalista, tem sua lógica. Caso haja um retorno ao Drachma, alguém terá de ser expropriado, e para o primeiro-ministro, obviamente este alguém é o trabalho, e não o capital. Para não expropriar a burguesia, a direção do Syriza entregará o país à Alemanha, o jogará em uma recessão de logo prazo e destruirá o que sobrou da economia. A logica do primeiro ministro é clara, “a via de mão única foi imposta sobre nós”, não há, portanto, horizonte fora dos marcos do capitalismo.

As ultimas manifestações que testemunhei por aqui foram fracas, talvez por isto não vou me prolongar muito no texto de hoje. Quero ver, a luz da greve do funcionalismo publico, qual será a dinâmica da praça Syntagma. Estou indo para lá agora, e ainda tenho que descobrir como farei isto sem acesso ao metro. Assim que voltar, lhes escrevo um relato mais completo!

Até la!

Aldo Cordeiro Sauda

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