«O Irmão Alemão» de Chico Buarque: a irmandade germana da coordenada de convicções e do mapa de afetos (*)

Betto della Santa|

 I.

Nem tudo o que aparenta ser, é.

Chico Buarque não é Ciccio. Não tem a menor pretensão de lançar mão de ardis narrativos, estratégias intertextuais de despiste e, menos que menos, intenciona demarcar terreno em campo desmetafórico que não seja o do Politheama.[1] O que é estranho torna-se, nada obstante, familiar. Há ali certo modo de contar estórias. Quiçá um estilo de escrita, por assim dizer, como num empréstimo não-consignado (de matéria-viva a obras de ficção); no qual a rudeza material do devir se deixa encapsular em ardida invenção realista, entreperneada, esta, em imaginosa transcriação autobiográfica, suscitando a recognição – deslizante – de registros ensonhante, insólito e, por falso descuido, até mesmo prosaico. Chico Buarque não, me leve a sério, é Ciccio. É Ciccio, e não o escritor, a contar esta estória. Ele, de nós desconhecido, nos convida a enlaçar-nos em buliçosa rede e imbalançar noutro universo.

No altibaixo de cores e textura, que vão da peripécia pirotecnizante ao cume do comezinho, o leitor obedece a ritmos e timbres de um sempre zeloso condutor. A convocatória para o le parkour – aquele amalucado esporte metropolitano, de gente que se pendura no alto de escadarias, dá saltos mortais de cambalhota e faz peripécias mil enquanto desbrava à cidade com o próprio corpo – exige boa forma e promete tanto o prazer de-cuca quanto a resistência de-cor’, mantendo a expectativa (e o andamento) para que o descompasso deliberado não evite tanto o acorde lírico, no contraponto fraco-forte da narração, como quando reconta aprendizado de piano que passa a tocar de ouvido e, depois, se lhe oferta saborosamente inútil registro formal, com cifras e partitura. Ciccio, a propósito, não sabe tocar. Ciccio, sem itálico, não é Chico. Como querer caetanear o que há de bom. Ou não?

II.

O autor Chico Buarque entra por dentro de nervos e músculos de seu desmemorial familiar para alçar vôo de arribação – ou reconhecimento de terreno? – na revelação-ocultamento do quê já foi a cidade de São Paulo, uma incipiente bohemia, séries semirreais e anos de chumbo-grosso, com direito a incursão por uma Alemanha imaginária nas trilhas obsessivo-compulsivas de seu desconhecido (e estrangeiro) irmão mais velho que o pai – Sergio Buarque –, nos ainda anos 30, e ainda solteiro, dera à luz junto a Anne, púbere bem-amada berlinense, perdida nas calendas de tempos passados – e já ultra-passados.

A busca – melhor, cinqüenta anos vertidos de dúvidas, reconstrução e pulga-trás-à-orelha – é a inteira pulsão de vida desse Roman-à-Clef, e não deixa de estimular um exercício diletante de psicanálise desinteressada: a presença-ausência do Pai, Sergio, a fantasmagoria mental do irmão que escapa aos dedos + o assombro real do irmão ao alcance da mão. A mediação prosódica (algo melancólica) da mãe Assunta. A exuberância do brinquedo – cá e acolá – não deixa de ser um seu direito a jogar, fruição de gozo ou alegria-de-viver, que se estende ao prazer do ato da leitura. Mas quem afinal é este tal de Sergio Ernst, catzo?

III.

O bom-humor transborda o seu quinto romance. A perfeição formal, o tom coloquial, a força da narração. A paráfrase, paródia, de erudição “mal-ajambrada”. O efeito-espelhamento – além de muitos outros recursos e arranjos técnicos – põe a nu às marcas de produção como as serifas, de cinzel, ou mãos de oleiro, no barro. O autor satiriza sem desdenhar uma série de instrumentais narrativos, que evocam desde uma sûr-real interpelação de sonhos a zonas de penumbra do devaneio ou das lacunas de memória, até símiles literários e simulações de fazer gênero (e tipo) da história dos gêneros (e tipos). Um Chico maduro.

O efeito de sentido é aí o de uma superestrutura gris sobre bases multicor – deslocamento espaço-temporal e condensação psicossocial –, com perene desmanchamento no ar de solidezes, deslizamento da carnura do estômago e licenciosidade do desejo (a partir dos éteres da fantasia), o concreto-armado de um casarão que é tanto feito de muitos átomos quanto está prenhe de estórias mil, e a mais desbragada alegoria a um espectro que ronda à espreita de sua mais própria encarnação. História é aquilo que dói, já dissera Frederic Jameson (Dor que deveras se sente, contou em versos um velho griô.) É muito por dizer.

IV.

O falso-italiano que ambienta uma provável Pauliceia Desvairada não deixa de ser a língua mais cantada do mundo. A musicalidade é repulsa e atração em um universo simbólico em que está por ser escrito o “melhor libro del mondo”. O pai meditabundo e sorumbático é também a figura do narrador cujo fluxo de pensamento se faz interromper pelo barulho de aplausos. A fina artesania do ofício da escrita, diligente e metódica, é também a suspensão da poesia pela prosa e uma tentativa de arte algo mais solitária (ou ensimesmada?) do que a do bardo que canta para o público da ágora. Outra vez, O Tempo e o Artista. Lembram-se?

Na retranca do volume – após inusitados versos, de um incógnito Vladimir Maikóvski – consta daí um apêndice documental dando notícia dos fac-símiles das evidências coletadas enquanto ossos do ofício historiográfico de um João Klug e sob auspícios editoriais de Luis Schwarcz. O que se lê à pág. 229, sob a simples rubrica «Nota» e após dezessete alentados capítulos literários, é a marca de enunciação das filigranas do real: ali, constantes, presentes; hiper-reais. Uma foto, um anúncio, uma carta e, convenção de praxe, o crédito das imagens. A verdade dos afetos. Uma convicção de artifício. A tal irmandade germana.(**)…

Tudo o que é, é.

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(*) O romance – laboriosamente construído entre o que foi, o que poderia ter sido e o que jamais será – se faz do recurso à justaposição, consagrada na montagem do cinema moderno (mas também no cancioneiro narrativo do próprio Chico Buarque), de/entre memória, sonho, realidade e fantasia. A capa, vermelhíssima, é seguida de discreta – e singela – deccicatória («Para Sergios») e, enfim, o algarismo romano, de Nº1, sucedido pelo que é a inscripção de um verdadeiro nonada: uma série de reticências, alusivas, indiciando a ignorância quasi-absoluta do idioma alemão. O texto de orelha de Fernando de Barros e Silva flerta com os galanteios amorosos, mais típicos da forma-mercadoria, registro irônico-satírico, ao terminar dizendo ser este “o romance de sua vida.” É uma brincadeira. Mas é a sério. Entre o sentido que se pode atribuir ao romance de uma vida, a melhor obra de uma existência, e o significado adjudicado ao romance sobre uma vida, não é preciso estabilizar a afecção-cognição. O romance de sua vida pode ser aquilo que de melhor se produziu literariamente como ser vivente, o romance de sua vida pode ainda se tratar daquele escrito, de matriz neorromântica, que perfaz uma narrativa autobiográfica. Trata-se de sentir o pensado, e de pensar o sentido, numa fertilização recíproca, sem solução de continuidade aparente, em perpétuo movimento, e toda uma chave de leitura. Mas poderia ainda ser, e por que não?, toda uma grande história de amores.

(**) Irmãos germanos são, juridicamente falando, filhos consangüíneos. Não à-tôa Chico reserva ao vocábulo uma lacônica nota de rodapé no meio do livro. Mas uma semântica histórica, do tipo praticado por Raymond Henry Williams, nos levaria bem longe, para muito além de um velho mundo envolto em guerras de conquista, alianças tribais e divisões territoriais, e em muito anteriores à formação do sistema de Estados modernos. Porém fica aqui tão-só uma pista, algo despretensiosa, sobre uma feliz coincidência. Há muitos modos de se enunciar politicamente a forma histórica ao idioma de Heine, à terra de Goethe e ao povo de Hegel. Alemanha, dizemos os de língua portuguesa; Allemagne, falam os francófonos. Germany, diz-se no mundo anglossaxão; Germania, fala-se em idioma romeno. Os próprios alemães, ou germanos, chamam seu território nacional, Deutschland e, sua língua oficial, Deutsch. Mas são os seus vizinhos do Sul, da Península Itálica, que mantiveram a forma dialetal de chamar seu idioma, Tedesco, e povo, Tedeschi. A forma dialetal foi preferida às raízes de Alemão (Allmaniz) e/ou Germânico (Germani) por conta da antiga língua nacional popular, vulgo Theodisce que, curiosamente, é termo fiel ao mesmo tronco que originou Deutsch, literalmente, Do Povo, em oposição a Romanice [Scribere] (“[escrever em idioma] Romanç”, “[estilo de] Roma”), que origina Romance.

[1] Politheama dá nome à agremiação futebolística fundada por Chico: o jogador, capitão, técnico e reserva. Qual será a história por detrás do nome? Será a de um famoso anfiteatro da antiguidade clássica? A forma de algum lugar sagrado? O sentido de um personagem mitológico? Do Gr.Poli + Theama, significa algo como a performance de uma multiplicidade varietal de espetáculos em ato; multishow.  Antes que cantor, compositor, escritor, ensaísta, intelectual ou artista Chico Buarque sonhou ser, como muitos dos garotos do país em que nasceu, um jogador de futebol. Sugere-se aqui, fortemente, ler a nota O Moleque e a Bola.

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