A esquerda brasileira de luto

Por Valério Arcary |

Ontem, 20 de Setembro de 2012, perdemos Carlos Nelson Coutinho. A esquerda brasileira está de luto.

Foi uma perda para o marxismo. Nosso mundo ficou menor. Menos inteligente. E muito menos divertido.

Conheci Carlos Nelson somente em 1999. Foi no II Congresso Nacional do PT. Nos anos oitenta eu estava muito ativo nos sindicatos e organizações da classe trabalhadora, na CUT e no PT, por São Paulo, e ele ainda estava no PCB, e no Rio, e não nos encontrávamos, embora eu já acompanhasse os seus escritos.

A situação política brasileira girava à esquerda nesses anos, e estávamos muito longe um do outro, teórica e politicamente. Depois de 1994-95, a situação girou à direita, duros anos de ofensiva neoliberal, mas, ao contrário do que se poderia esperar, as diferenças, que sempre existiram entre nós, diminuíram de importância.

E nos aproximamos. Foi com satisfação que esgrimimos sobre as desavenças passadas. Carlos Nelson gostava de brincar, falando sério, que estava convencido de não ter nunca saído politicamente do mesmo lugar. Os que estavam ao seu lado é que tinham a mania de ir para a direita. PCB, primeiro, e o PT, depois, é que tinham mudado de lado; e não ele.

Nesse congresso, em Belo Horizonte, almoçamos com Leandro Konder e Milton Temer. Eles ainda não tinham perdido todas as esperanças no PT, mas estavam muito desconfortáveis depois do discurso de Zé Dirceu em resposta a Vladimir Palmeira, alertando que só aceitaria a eleição para a presidência do PT se não fosse aprovada a campanha pelo Fora FHC. Havia mal-estar na mesa por causa do ultimato.

Na conversa do almoço Temer era quem levantava a bola e Carlos Nelson era quem cortava. Carlos Nelson era ao mesmo tempo ágil e profundo, ferino e elegante em seus comentários e críticas, qualidades que não costumam andar juntas.

Lembro que ao final da conversa rápida, de brincadeira, disse para o Leandro que me chamava Valerio em homenagem ao seu pai, Valerio Konder, porque minha família paterna era também de Itajaí em Santa Catarina, e todos rimos muito juntos.

Anos depois reencontrei Carlos Nelson em uma mesa de debate com Virgínia Fontes na Primavera do Livro, no Jockey Clube, na Gávea, no Rio, numa tarde de sábado chuvosa. O tempo estava feio, mas foi uma alegria. Não é qualquer coisa manter a altivez quando no horizonte o que se vê são nuvens carregadas.

Gosto de pensar que Carlos Nelson ficaria feliz de ser recordado assim: como um militante e um intelectual que inspirava, com o sorriso de seus bigodes, toda a confiança do mundo. Uma esquerda desolada precisa dessa coragem. A confiança de que a luta pelo socialismo é possível. E a esperança de que podemos vencer. Coragem, confiança e esperança importam. E muito.

A dor de sua perda foi motivo de lágrimas. A alegria de sua lembrança merece um sorriso.

Carlos Nelson entregou sua vida por essa causa. Será lembrado. E merece respeito.

[email protected] [email protected]