Entrevista com Ilan Pappé: “Israel quer completar a limpeza étnica dos palestinos”

Reproduzimos aqui entrevista realizada com Ilan Pappé em abril de 2009, a qual guarda grande atualidade. Pappé é um dos mais importantes historiadores israelenses. Contra a opinião da União Européia dos Estados Unidos, defende que apenas um Estado na Palestina, com cidadania igual para todos, é a solução. Professor de Ciência Política na Universidade de Haifa até 2007, foi obrigado a abandonar Israel após repetidas ameaças de morte contra si e a sua família. Lecciona hoje na Universidade de Exeter, em Inglaterra.

O seu trabalho enquadra-se no de uma geração de historiadores israelitas que, com base na abertura dos arquivos israelitas após 1978, começaram a contestar a versão oficial da fundação de Israel. Qual é o sentido geral da partilha de 1947 e os subsequentes acontecimentos de 1948?

Penso que o novo olhar sobre 1947 e 1948 realça os aspectos injustos da resolução de partilha da ONU. A ideia de impor a partilha pela força a uma população indígena que constituía dois terços dos habitantes, hoje não seria aceite. Nem seria pensável hoje a ideia de partir um país em duas partes quase iguais entre a população indígena e os colonizadores. Durante anos tendemos a culpar os palestinos por rejeitarem esta solução injusta e nós, nomeadamente a comunidade internacional, continuamos a propor estas soluções… injustas.  Creio que hoje nos apercebemos da magnitude do crime cometido contra os palestinos em 1948, a limpeza étnica, o silêncio do Mundo e o facto de que o Estado de Israel continua a tentar completar a total limpeza étnica dos palestinos.

O que pensa dos acordos de Oslo e outras negociações entre Israel e os palestinos?

Creio que os acordos de Oslo tiveram um aspecto positivo, a legitimação da Organização pela Libertação da Palestina (OLP). Excepto isso, foram como a resolução de partilha, uma imposição do ponto de vista israelita aos Palestinianos. Tinham as palavras corretas, mas elas estavam apenas de acordo com a interpretação israelita, o que significou encontrar um acordo que lhes pudesse permitir aprofundar a ocupação. Foram desastrosos. Criaram expectativas onde não havia intenção de alterar a realidade miserável no terreno, ferindo profundamente a hipótese de paz e, em segundo lugar, lançaram as sementes da divisão no campo palestiniano.

Por que é que Israel atacou Gaza? Qual foi a reação da sociedade israelita durante esta agressão, especialmente a da esquerda?

Israel atacou Gaza por várias razões. Depois da derrota no Líbano em 2006, os seus generais acreditaram que uma vitória militar com sucesso imporia medo aos países árabes. Em segundo lugar, eles desejam erradicar pela força os movimentos que na região resistem pela força aos seus planos, como o Hamas. E o seu plano para Gaza em particular era mantê-la como uma prisão a céu aberto na esperança de que muitos plestinos dali abandonassem a sua terra ou sucumbissem à vida sob tais condições. Os israelitas não irão permitir que Gaza e a Cisjordânia formem um Estado livre e independente.

Qual é a situação dos palestinianos israelitas? Qual é a sua reação aos acontecimentos em Gaza?

Verificou-se uma escalada nas ações do Governo israelita contra a minoria palestina em Israel. A sua cidadania, bens e liberdade estão sob um perigo crescente. A situação não é tão má como a dos palestinianos na Cisjordânia, mas para lá caminha. Como no caso de Gaza, a elite política e militar de Israel não tem solução para este problema, a não ser que os palestinos lá [em Israel] aceitassem viver para sempre como cidadãos de segunda ou mesmo terceira categoria.

Qual é a sua opinião acerca das manifestações ocorridas em todo o Mundo contra Israel durante o ataque a Gaza?

Creio que decorrem de uma tendência crescente em que largos sectores da opinião pública não aceitam mais as políticas criminosas de Israel. Mas ainda não se traduziram em mudança de políticas por parte dos governos.

Qual foi a reação da comunidade judaica, particularmente no país em que de momento reside, o Reino Unido?

A comunidade judaica estabelecida é ainda embaraçosamente pró-Israel, mas mais e mais indivíduos estão a começar a dissociar-se do sionismo e um número significativo está disposto a ser ativo na luta pela justiça para os palestinos.

Onde se posiciona no debate entre as chamadas soluções de ‘dois Estados’ e de ‘um Estado’ na Palestina?

Penso que não há realmente um debate. A solução de ‘dois Estados’ desapareceu para sempre, ainda que haja pessoas que pensem que foi uma solução justa e razoável. Creio que não o é e que apenas um Estado com cidadania igual para todos é a solução. Agora temos um Estado que discrimina contra todos os palestinianos que vivem entre o rio Jordão e o mar. Eles são discriminados de diferentes formas, alguns sujeitos à ocupação diária e abusos, outros estão a ser chacinados e expulsos, mas isto não é uma democracia e não pode continuar sem mais derramamento de sangue.

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