A direita ganha as ruas: o Banana’s Party em perspectiva histórica

Demian Melo

Há meio século que a direita brasileira não sabia o que era fazer mobilização de massas. Antes disso só nos anos 1930, no contexto do Integralismo, o fascismo brasileiro ganhou ares de um movimento massivo, alistando milhares de pessoas em várias regiões do Brasil. O golpe que depôs Jango em 1964 contou com o apoio de parcelas da sociedade brasileira, inclusive de suas camadas mais plebéias, mobilizadas pelo medo do “fantasma do comunismo”, o rosário em família e as Marchas com Deus pela Liberdade (e pelo golpe militar).

A própria ditadura criou sua própria narrativa justificadora a partir da idéia de que “o povo brasileiro havia pedido a intervenção militar para garantir a democracia”, idéia, aliás, que como se sabe, figurou no título do editorial de O Globo de 2 de abril de 1964. Não é possível não relacionar a atual escalada da direita radical nas ruas do país sem lembrar de episódios de 50 anos atrás, a não ser para aqueles que definitivamente não tem nenhuma noção do que aconteceu no país naquele período. Mas aí é que a porca torce o rabo.

Havia cinqüenta anos que a direita não sabia o que era fazer mobilização de massas, sobretudo porque suas opções estratégicas foram fundamentalmente antimobilizadoras. A ditadura militar foi um regime antimobilizador e também por isso não pode ser caracterizado como uma experiência fascista. Segundo uma análise consagrada, do sociólogo argentino Guillermo O’Donnell, isso resultou do fato de que a intervenção militar em 1964 ter se feito para conter uma escalada das lutas sociais.[1] Ainda que para isso tenha se apoiado numa base de massas, basicamente de largas faixas das classes médias temerosas “do comunismo”, o regime militar não buscou agitar as massas, e mesmo quando gozou de relativo apoio social o conseguiu por entre outras coisas ter conseguido desmobilizar totalmente as forças sociais, instalando literalmente a paz dos cemitérios. Como assinalou o saudoso Carlos Nelson Coutinho, em comparação com o fascismo italiano, em alguns momentos a ditadura brasileira conseguiu um consenso passivo entre alguns setores importantes das classes sociais brasileiras, mas nunca um consenso ativo.[2]

O outro grande projeto estratégico da direita brasileira, o neoliberalismo, viveu seu auge nos anos 1990, e para ser justo com tudo que já se escreveu sobre o assunto a partir de uma perspectiva crítica, não é exato que este acabou. Para mais uma vez lembrar do Coutinho, estaríamos ainda numa Era Neoliberal. Pois bem, mas o que talvez seja importante destacar aqui é que do ponto de vista ideológico, o neoliberalismo já perdeu a hegemonia que gozou nos anos do governo FHC, principalmente em seu primeiro mandato (1995-1998). O fim da hiper-inflação, mesmo que ao custo da entrega do patrimônio público e da desindustrialização, setores expressivos da população apoiaram nos anos 1990 as diretrizes do ajuste neoliberal, como as privatizações. Entre 1990 e 2002 foram desestatizadas 137 empresas e participações acionárias do Estado, principalmente nos ramos siderúrgico, químico, petroquímico, fertilizantes, setor financeiro, de telecomunicações e energia elétrica. O Segundo Plano Nacional de Desestatização, que desembocou nos leilões escandalosos da Companhia Vale do Rio Doce em 1997 e do Sistema Telebrás em 1998, e se é verdade que gerou protestos e campanhas massivas de oposição, ninguém foi pra rua em passeata pedir a privatização de empresas estatais, ou o fim do monopólio estatal do petróleo (aprovado em 1995).

Mantendo a tradição oriunda da ditadura, a direita dos anos 1990 não apelou para a mobilização, ao contrário, se encarregou de enquadrá-la na categoria de “populismo”, agora apresentado como o verdadeiro entrave do caminho inexorável do Brasil para a modernidade da globalização. O “fim da Era Vargas” proclamado por FHC era também o anúncio do fim da política com o povo na rua – que para sermos justo foi muito mais uma característica do Varguismo sem Vargas no governo Jango – que era a realidade do país desde as grandes mobilizações contra a ditadura. É verdade que naquelas campanhas pela redemocratização, não é possível deixar de ver notórios quadros da direita brasileira saltando para o barco oposicionista, pois por nenhum critério razoável é possível enquadrar a dissidência do PDS que viria a forma o PFL (hoje DEM) como um partido de “centro”.

A direita presente na coalizão do governo petista – esse bebê de Rosemary – tem sido capaz de pressionar o governo por dentro, e é preciso reconhecer que muitas das iniciativas mais impopulares, como a Reforma da Previdência ainda em 2003, ou a alteração do Código Florestal em 2011, partiram da iniciativa dos partidos considerados à esquerda na coalizão (PT e PCdoB, respectivamente). Isso criou enormes dificuldades para a oposição de direita liderada pelo PSDB e não foi por acaso que a grita comum dos comentaristas da direita até recentemente era de que a “oposição não tinha programa”. Como pode agora essa direita ser capaz de quase ganhar a eleição e agora, surpreendentemente, colocar gente na rua?

Teorias conspiratórias

Para muitos analistas simpáticos ao governo do PT a raiz de tudo estaria nas manifestações de Junho de 2013, numa teoria paupérrima que não é capaz de explicar o fenômeno e se refugia na tese da “conspiração da direita”. Certamente, uma mobilização iniciada pelo Movimento Passe Livre de São Paulo não pode ser encarada como um movimento de direita e é preciso muita má fé para defender tal ponto de vista. É verdade que nas hostes dos apoiadores do governo existem análises que se afastam dessa bobagem, mas que temem ir ao ponto de um olhar crítico ao modelo seguido pelo governo.

Todavia existe um momento de verdade nestas posições que é o fato da direita ter ido às manifestações de Junho. Sabe-se que depois da brutal repressão de 13 de junho, a mídia direitista, que até então pregava que era um movimento de baderneiros e vândalos “que não valiam nem vinte centavos”, passou a “apoiar” o movimento. E é verdade que na semana de 17 a 21 de junho, entre os milhões que saíram às ruas estava a direita em peso, enquanto a esquerda (incluído o MPL) era expulsa com suas bandeiras vermelhas. É claro que sem bandeiras que não fossem as do Brasil, a direita se misturou à massa popular e disputou a direção do movimento com ajuda preciosa da mídia, que elevou a enésima potência a histeria contra partidos de esquerda e lhe deu uma agenda. A vitória histórica com a redução do preço das passagens em São Paulo e no Rio de Janeiro, e depois em várias outras cidades do país, foi disputada pela direita midiática com sua palavra de ordem histórica: contra a corrupção.

É certo que, por exemplo, as manifestações pelo impeachment de Fernando Collor de Melo, com o mote do combate a corrupção foram iniciadas pela esquerda, até pelo caráter antimobilizador do neoliberalismo assinalado acima, sendo talvez o último momento em que a União Nacional dos Estudantes (UNE) conseguiu influir decisivamente no processo político brasileiro. Mas não é possível mistificar também aquele processo, esquecendo que também a Rede Globo disputou engenhosamente aquele movimento, tirando da cartola até uma (boa, aliás) minissérie sobre o ativismo juvenil contra a ditadura, Anos rebeldes.

Essa emergência mais recente da direita tem de ser explicada de algum modo, e talvez seja necessário em primeiro lugar examinar as fontes de seu discurso e os dispositivos onde são produzidos. Isso pode não ser suficiente para explicar a questão, mas pode ser pelo menos uma boa pista. Entre outras coisas, essa direita explicita idéias provenientes de um número já conhecido de comentaristas de internet, com espaços nos principais meios de circulação de informações, de grandes jornais como Folha de S. Paulo e O Globo, de humoristas preconceituosos à blogosfera mais obscurantista, dos saudosistas da ditadura aos adoradores da “Escola Austríaca”, passando pelo fundamentalismo cristão e os roqueiros decadentes. Se tem uma coisa que essa direita radical não pode reclamar é de seu espaço na mídia.

E é um espaço cada vez maior. Quem eram em 2006 Pondé, Magnoli, Villa, Azevedo e outros cérebros de toucinho que hoje fazem a cabeça dos coxinhas, por exemplo? Foi na eleição de 2010, com a profusão do discurso de ódio contra grupos sociais historicamente marginalizados, ou no levantamento da tese absolutamente irreal de que o governo do PT possui qualquer viés anticapitalista (“bolivariano” e agora, sem vergonha, “comunista”), que essa direita histérica foi ganhando cada vez mais apelo de massas. Parecem fornecer uma narrativa plausível para camadas sociais com baixíssimo nível de formação política e de leitura, mais afeita à churrascaria rodízio que bibliotecas, uma imagem grotesca muito parecida com a base social do “Tea Party” do Partido Republicano estadunidense: uma mistura de neoliberalismo hardcore com fundamentalismo cristão.

Polarização assimétrica

Em recente passagem pelo Rio de Janeiro, o filósofo Paulo Arantes apresentou algumas idéias instigantes para a caracterização dessa nova direita, ou direita radical. A partir de uma reflexão sobre o fenômeno do Tea Party, encontrou a noção de “polarização assimétrica”, para pensar como o jogo político estadunidense tem sido caracterizado pela oposição entre forças de centro interessadas na governabilidade contra uma direita intransigente e sem nenhum interesse em governar; seu único propósito é, ao contrário, inviabilizar o governo. Assim, sabe-se que a direita radical já conseguiu algumas vezes paralisar o governo Obama. Paulo Arantes propôs pensar essa nova direita brasileira a partir dessa característica de ser intransigente em seus princípios, enquanto a “esquerda oficial”, em suma o PT, transige o tempo inteiro e abandonou todos os princípios para viabilizar o governo. Do mesmo jeito que o Tea Party, que também caracteriza Obama de “comunista”, da mesma forma que o passado guerrilheiro da presidenta é ressuscitado como se ela ainda possuísse as mesmas idéias da juventude. Isso não é de hoje, e para isso basta lembrar como outro figurão dessa nova direita brasileira, Arnaldo Jabor, acusava os “bolcheviques do PT” pelo escândalo do “mensalão”.

Só mesmo um ignorante para acreditar que em alguma época o PT possa ter sido “bolchevique”, epíteto que sempre foi usado de forma pejorativa pelo histórico grupo dirigente do PT – liderado pelo José Dirceu, diga-se de passagem. Contudo, com toda má fé que é própria do Jabor, até recentemente a acusação de bolchevismo era mais metafórica, pois só mesmo um idiota completo para acreditar que um governo que abriu as portas do Estado brasileiro para o agronegócio, que sempre garantiu boas condições para os rentistas e que promove o interesse dos grandes grupos econômicos brasileiros no exterior possa ter algo para se caracterizar como “socialista”. Mas são mesmo ignorantes, que nunca foram um minoria, aqueles afeitos a um discurso tão frágil como esse que concebe o socialismo como qualquer coisa menos aquilo que é sua característica principal: a de ser um regime socioeconômico não capitalista. Ignorantes ao ponto de crer no conto da carochinha de que o Comunismo e o Nazismo são “a mesma coisa”, baseado na idéia de que o “socialismo” no nome do partido fascista alemão ser suficiente para definir o fascismo como um movimento político “de esquerda” (um raciocínio do mesmo nível de considerar que o cavalo marinho “é um mamífero”, afinal, é um cavalo!), mesmo sendo notório o fato de que a primeira ação cumprida pelos fascistas uma vez no poder tenha sido a eliminação física da esquerda. Ora, esse discurso grotesco é uma força material, já que se apoderou de uma parte da massa (não é só a classe média).

Essa direita foi pras ruas em Junho de 2013. Está tomando as ruas de São Paulo, Rio de Janeiro e seu futuro é incerto. A desaceleração da economia, os recorrentes escândalos de corrupção são certamente um elemento objetivo que facilita ao Banana’s Party catalisar essas frustrações em manifestações como as ocorridas em 15 de março de 2015. É a velha luta de classes.

Notas:

[1] O’DONNELL, Guilermo. Reflexões sobre os estados burocrático-autoritários. São Paulo: Vértice; Rio de Janeiro: Revista dos Tribunais, 1987.

[2] COUTINHO, Carlos Nelson. As categorias de Gramsci e a realidade brasileira. In. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999, p.202 e 216-217.

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