Romper com o Euro? Perspectivas da opinião pública europeia

Aldo Cordeiro SaudaRafael Almeida

O crescimento dos partidos anti-austeridade na Europa e suas posições contraditórias em relação ao Euro e a União Europeia tem gerado uma série de dúvidas na esquerda brasileira. Visando contribuir a este debate, a presente pesquisa sintetiza alguns dados da opinião pública europeia entre 2012 e 2014. Voltada principalmente à Alemanha e os países do sul da Europa, ela reflete as posições dos europeus sobre o Euro, a União Europeia, o Banco Central Europeu e sentimentos em relação a imigrantes e minorias étnicas e religiosas.

Os gráficos vêm de dois diferentes bancos de dados, o Eurobarometro e o Pew Research Center. Fundado em 1973 como órgão de pesquisa da Comissão Europeia, o Eurobarometro é seu instituto oficial de medição da opinião pública. Ele é a melhor fonte de pesquisa para estudos comparados de opinião no continente por utilizar uma base metodológica unificada para todos os países em que realiza investigações. Seu banco de dados é considerado um dos mais completos do mundo. Já o Pew Research Center é produto da internacionalização e expansão do antigo Times Mirror, uma espécie de Datafolha da costa leste dos Estados Unidos. Originalmente atrelado ao jornal Los Angeles Times, ele obtém hoje a maior parte de seu financiamento da Fundação de Caridade Pew. Seus relatórios de opinião pública internacional são importante fonte para a imprensa europeia e norte-americana. (MARTIN 2010)

Observações gerais

Antes de apresentarmos os gráficos, algumas observações merecem atenção. A primeira é o desnível da opinião pública regional no sul da Europa. O Banco Central Europeu e as políticas da União Europeia são muito mais rejeitadas na Espanha e Grécia que na Itália. Porém, os italianos, segundo a Pew Research, são os únicos do sul da Europa a defender o retorno à Lira, sua antiga moeda nacional. Esta especificidade italiana talvez seja parcialmente explicada pela força relativa de sua economia quando comparada à Grécia e à Espanha. A base industrial maior e um mercado financeiro supostamente menos volátil permitiram uma transição para fora da moeda única europeia menos turbulenta em Roma que em Madrid ou Atenas. Junto a isto, ao ingressarem na União Europeia, o fluxo de capital dos países centrais europeus à periferia do continente gerou um crescimento econômico muito maior na Grécia e Espanha que na Itália.

Segundo dados do Banco Mundial, entre 2001, quando a Grécia ingressou ao Euro, e 2007, um ano antes do início da atual crise econômica mundial, a Grécia cresceu em média 4.1% ao ano. A Espanha, que em 1999, junto à Itália, foi um dos países fundadores da moeda única, cresceu entre aquele ano e 2007 em uma média anual de 3.9%. Os números são similares ao crescimento econômico brasileiro durante o governo Lula. Por outro lado, a Itália cresceu em média apenas 1.5% durante o mesmo período que a Espanha. O boom econômico grego e espanhol durante o início dos anos 2000, portanto, pode ajudar a explicar as ilusões da população destes países frente a um papel possivelmente progressivo do Euro. (WORLD DEVELOPMENT INDICATORS, 2015)

Ao mesmo tempo, Grécia e Portugal possuem as mais altas taxas de reprovação ao projeto de uma moeda única na União Europeia. Ao avaliar os dados da pesquisa, é possível afirmar que apesar de algum grau de arrependimento por entrar no Euro, uma vez dentro, prefere-se não mais sair.

Imigração e racismo

Outro ponto a destacar na pesquisa são as atitudes frente à imigração e ao racismo. Infelizmente, estes dados, coletados pela Pew, se limitam a 2014. Isto não nos permite um estudo com a mesma base metodológica que os compare com os dados pre-austeridade. Mesmo assim, eles ajudam a explicar o crescimento da extrema direita na região.

Em um dos dados da Pew não expostos nos gráficos abaixo, apontou-se que 86% dos gregos desejam ver uma redução no número de imigrantes no país. É o número mais alto entre os países pesquisados, que incluem Itália (80%), França (57%) e Alemanha (44%). A Grécia também ocupa o topo do ranking europeu quanto à ideia de que os imigrantes impõem custos extras aos serviços sociais – opinião de 70% da população. Logo atrás vem a Itália, com 69%, a França com 52% e a Alemanha com 29%. Ao mesmo tempo, como indicado em um dos gráficos abaixo, o tema da integração do imigrante à cultura nacional é um ponto muito menos relevante à Grécia que à Itália. (PEW, 2014)

Entre outras hipóteses, o sentimento anti-imigração, somado a um alto nível de islomofobia e anti-semitismo, ajudam a explicar o crescimento exponencial do partido neonazista grego, o Aurora Dourada, no parlamento grego. Hoje, ele é o terceiro maior do país, atrás apenas do Syriza e do Nova Democracia, que governava a Grécia até o início de 2015.

Papel da esquerda

É inegável que até o presente momento, a exceção da Itália, a ideologia do Euro segue amplamente majoritária em todo sul da Europa. Tal realidade, porém, de forma alguma legitima a postura pro-Euro da direção majoritária do Syriza na Grécia, assim como do Podemos na Espanha. Ao adotar uma consigna que poderia ser sintetizada como “austeridade não, Euro sim”, o Syriza cumpre um desserviço na educação da opinião pública e principalmente no desenvolvimento da consciência de classe. O recente acordo entre o governo do Syriza e a Troika, em que foi reafirmada a continuidade quase completa das políticas de austeridade, prova a natureza inconcebível de qualquer conciliação entre a negação da austeridade e a afirmação no Euro.

Os debates feitos tanto pela ala esquerda do Syriza, que reivindica a consigna “nenhum sacrifício pelo Euro” (apresentada no programa do partido em 2012), como defendida pelo Antarsya, que reivindica a consigna “por uma saída anti-capitalista do Euro”, são legítimos. Ambas, essencialmente, se diferenciam da política de Tsipras ao não contribuírem na construção de ilusões em torno da moeda única.

As pesquisas de opinião apresentadas abaixo, como qualquer documento desta natureza, revelam um momento especifico, que pode muito bem se transformar de forma radical com a experiência grega de um governo anti-austeridade. Porém, por enquanto, são o que há de mais sólido para compreender o sentimento público nacional pela Europa.

[Opinião Pública Alemã, Grega, Espanhola e Italiana – Pergunta: Você acha que deveríamos manter o EURO como a moeda ou retornar para a antiga moeda nacional (Marco/Peseta/Lira/Dracma)?  (Pew Review Institute, 12/05/2014)]

[Opinião Pública Alemã, Grega, Espanhola, Portuguesa, Cipriota, Italiana e a média da UE – Pergunta: Você concorda ou discorda com a existência de uma União Monetária Econômica Europeia, com uma moeda única, o Euro? (Standard Eurobarometer, Ed. 78, Primero Semestre de 2012)] 

[Opinião Pública Alemã, Grega, Espanhola e Italiana – Pergunta: Por favor, diga-me se você tem uma opinião muito favorável, um pouco favorável, um pouco desfavorável ou muito desfavorável a União Europeia? (Pew Review Institute, 12/05/2014)]

[Opinião Pública Alemã, Grega, Espanhola e Italiana – Pergunta: Por favor, diga-me se você tem uma opinião muito favorável, um pouco favorável, um pouco desfavorável ou muito desfavorável do Banco Central Europeu? (Pew Review Institute, 12/05/2014)]

[Opinião Pública Alemã, Grega, Espanhola e Italiana – Pergunta: Você acha que a União Europeia é ineficiente?, Pergunta: Você acha que a União Europeia promove a prosperidade?, Pergunta: Você acha que a União Europeia é uma potência mundial? (Pew Review Institute, 12/05/2014)]


[Opinião Pública Alemã, Grega, Espanhola, Portuguesa, Cipriota, Italiana e a média da UE quanto a unificação da política externa europeia em 2014 – Pergunta: Você é a favor ou contra uma política externa comum da União Europeia? (Standard Eurobarometer, Ed. 81, Segundo semester de 2014)]



[Opinião Pública Alemã, Grega, Espanhola, Portuguesa, Cipriota, Italiana e a média da EU sobre a permanência na União Europeia em 2014 – Pergunta: Nosso País poderia encarar um futuro melhor fora da União Europeia? (Standard Eurobarometer, Ed. 81, Segundo semester de 2014)]

[Opinião Pública Alemã, Grega, Espanhola e Italiana – Pergunta: A declaração #1 ou a declaração #2 está mais próxima de sua visão: declaração #1 Os imigrantes no meu país querem se adaptar aos costumes e modo de vida de minha nação, {OU} declaração #2 os imigrantes querem ser uma nacionalidade diferente? (Pew Review Institute, 12/05/2014)]

[Opinião Pública Alemã, Grega, Espanhola e Italiana sobre o racismo em 2014 – Pergunta: Classifique alguns grupos diferentes de pessoas (Judeus, Ciganos e Muçulmanos) de acordo com como seus sentimentos por elas. Por favor, diga-me se sua opinião é muito favorável, em sua maioria favorável, em sua maioria desfavorável ou muito desfavorável dos Judeus, Ciganos e Muçulmanos? (Pew Review Institute, 12/05/2014)]

 

Bibliografia

 

MANSORI Kash, Why Greece, Spain and Ireland aren’t to blame for Europe’s woes, The New Republic, 11/10/2011 www.newrepublic.com/article/economy/95989/eurozone-crisis-debt-dont-blame-greece

MARTIN Douglas, Donald S. Kellermann, Who Led Public Research Group, Dies at 83, The New York Times, 14/11/2010. www.nytimes.com/2010/11/15/business/15kellermann.html?_r=0

PEW REVVIEW INSTITUTE, A fragile rebound for EU image on the eve of European Parlament Elections, Pew Research Center, 12/05/2014 http://www.pewglobal.org/files/2014/05/2014-05-12_Pew-Global-Attitudes-European-Union.pdf

SAUDA; Aldo Cordeiro, Syriza: partido e movimento Blog Convergência, 2/02/2015 http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?p=2830

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SAUDA; Aldo Cordeiro, Syriza: partido e política internacional Blog Convergência, 13/02/2015 http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?p=2888

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WORLD DEVELOPMENT INDICATORS, GDP growth (annual %), The World Bank, 27/02/2015 http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.KD.ZG

 

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