Nos seus 450 anos, Rio é apresentado como uma cidade idealizada, que ignora sua história

Teones França

Uma das cidades do mundo mais agraciadas pela natureza, o Rio de Janeiro completa 450 anos. Entre fantasias e mentiras a prefeitura organiza vários eventos em torno a essa data marcante, jogando para debaixo do tapete características marcantes da história da cidade.

A fundação da cidade do Rio de janeiro se deu em meio a uma guerra que envolveu portugueses, franceses e algumas tribos indígenas. Quando iniciaram a colonização do Brasil em 1530 os portugueses não se interessaram muito pela atual região do Rio de Janeiro. Antes dessa data já era comum a presença francesa nessas paragens carregando para a Europa madeiras de pau-brasil, porém, por volta de 1555, a França decidiu implementar um projeto de colonização no entorno da Baía de Guanabara, denominado França Antártica.

Os portugueses, decididos a não perder a região, enviaram expedições para combater os franceses. À frente dessas expedições estavam Mem de Sá e seu sobrinho, Estácio de Sá. A Guanabara ainda era povoada por franceses quando, no dia 1º de março de 1565 (há 450 anos), Estácio de Sá fundou a cidade do Rio de Janeiro. A expulsão definitiva dos franceses ocorreu apenas dois anos após a fundação do Rio, em 1567. Nessa história, os portugueses são geralmente pintados como heróis, no entanto indagamo-nos qual a grande diferença que causaria a nós, brasileiros, uma vitória francesa naquela ocasião.

Desde a sua fundação em 1565, o Rio de Janeiro passou por muitas transformações, mas as grandes mudanças passaram mesmo a acontecer após a chegada da família real em 1808. Nesse período foram criados a Biblioteca Nacional, o Teatro São João (atual João Caetano), o Jardim Botânico, o Banco do Brasil e outras instituições. A cidade expandiu-se em direção a São Cristóvão, bairro em que a família real se instalou ao receber o palácio da Quinta da Boa Vista como presente de um grande traficante de escravos. O número de escravos triplicou nos primeiros anos do século XIX. O cais do Valongo na zona Portuária se tornou o maior entreposto negreiro da América. Por ele chegavam entre 10 e 18 mil negros africanos por ano. O Rio mais parecia uma cidade africana naquela época.

No Início do período republicano aconteceu a transformação do Rio num espaço capitalista. Para acabar com a fama de que era uma cidade doente e agilizar a importação e exportação de mercadorias, o governo republicano em associação ao prefeito da cidade, Pereira Passos, e ao médico sanitarista Oswaldo Cruz, empreendeu uma grande transformação do espaço urbano da cidade. A abertura da avenida Rio Branco – inicialmente denominada Avenida Central – exemplifica bem essa reforma que ficou conhecida como Bota abaixo. Não foi à toa que recebeu esse apelido, pois apenas para abrir a Rio Branco foram demolidas de duas a três mil casas, muitas com famílias numerosas.

Naquela época a maioria dos pobres no Rio moravam em cortiços – que eram quartos amontoados. Para a reforma acontecer, uma grande quantidade de cortiços foram derrubados já que embelezar a cidade significava também pensar na higiene e os cortiços eram tidos como foco de proliferação de ratos e doenças. Com isso, a cidade é segregada de vez mesmo porque na origem dessa reforma estava a ideia de expulsar os mais pobres para os longínquos subúrbios. Porém, muitos resistem e sobem os morros da cidade dando origem às atuais favelas.

Capital brasileira a partir de 1763, o Rio perdeu esse posto em 1960 com a inauguração de Brasília muito provavelmente por ter sido palco de uma série de acontecimentos políticos importantes ao longo do século XX que puseram em xeque muitas das vezes a cúpula governista do país. Em 1904 setores populares da população carioca se rebelaram contra a campanha do governo de vacinação obrigatória para erradicar a varíola. Os agentes de saúde do governo não tinham a menor preocupação em explicar à população sobre os benefícios da vacina e ainda por cima entravam nas casas das pessoas com violência. Isso, associado à crise econômica que assolava o país e enfraquecia o governo, foi o que acendeu o barril de pólvora que fez a revolta acontecer. Por dias os populares incendiaram bondes, construíram barricadas e se armaram contra os soldados do governo. O principal foco de resistência foi nos bairros da Saúde e da Gamboa onde cresceu a fama do principal líder da rebelião: Prata Preta.

Em 1917, algumas localidades do Rio aderiram à primeira greve geral realizada no Brasil. Apesar do centro da greve ter sido a cidade de São Paulo, no Rio também ocorreram manifestações importantes. No ano seguinte ocorreu a chamada Insurreição anarquista no Rio de Janeiro: em novembro, operários da indústria têxtil das fábricas do Rio, Niterói, Petrópolis, Magé e Santo Aleixo entraram em greve e logo contaram com a adesão dos metalúrgicos. Uma reunião no Campo de São Cristovão foi duramente reprimida. Os trabalhadores reagiram atacando a sede da prefeitura e da polícia. O saldo foi alguns mortos e mais de 200 presos.

Em 1922, explodiu na cidade o primeiro levante dos tenentes brasileiros, numa mobilização que recebeu o nome de tenentismo. Os tenentes acreditavam que podiam colocar ordem nos desmandos da elite republicana, sempre favoráveis aos fazendeiros de café, e tinham a intenção de derrubar o presidente em exercício Arthur Bernardes. A revolta estourou no momento errado, foi logo aplacada pelos soldados leais ao governo e apenas 18 tenentes resolveram permanecer em revolta, marchando pela praia de Copacabana. Apesar da brutal diferença numérica entre as tropas do governo contra apenas 18 revoltosos, dois deles ainda sobreviveram. O movimento se tornou conhecido como “os 18 do Forte de Copacabana”.

Em 1930, não aceitando a derrota nas eleições presidenciais e contando com o apoio dos tenentes, Getúlio Vargas amarrou o seu cavalo no Obelisco da Praia do Flamengo, dando início ao processo que ficou conhecido como Revolução de 1930, e que ao final das contas o colocou na presidência de onde só sairia quinze anos depois.

No início dos anos 1940 alguns navios brasileiros foram afundados por submarinos alemães no litoral carioca. A população carioca reclamou da passividade do governo e pouco tempo depois o Brasil declarou guerra à Alemanha e entrou na 2ª guerra ao lado dos Estados Unidos. Vinte anos depois, na ditadura militar, o Rio de Janeiro foi palco de diversas mobilizações contra esse regime. Desde os anos 1960, com as grandes passeatas estudantis, como a famosa passeata dos cem mil, até os anos 1980, já na fase final do regime militar, com a campanha em defesa das diretas Já!. Nessas mobilizações o palco sempre foi a Avenida Rio Branco. Esses são são apenas alguns episódios que ajudaram a convencer os membros da nossa elite de que era válido investir no projeto de gastar uma fortuna para construir a capital federal no meio do nada e repleta de avenidas larguíssimas arquitetadas para impedir que manifestações populares com número inferior a 500 mil pessoas causem qualquer arranhão ao centro do poder no país.

Bem distante das características marcantes da cidade do Rio – opositora, rebelde, questionadora –, o portal da prefeitura, criado para o 450º aniversário, apresenta um calendário anual dedicado inteiramente a comemorar uma cidade de fantasia, que passa ao largo da realidade da maioria da população carioca, onde tudo é festa, praia e samba, cultura e conversa de boteco. O governo municipal, com isso, quer divulgar um Rio sem a face do trabalhador. Os cartões portais apresentados são os pontos turísticos pouco acessíveis aos mais pobres, tanto financeira quanto geograficamente. Quando estes, no desconforto dos ônibus superlotados, se aproximam da zona sul carioca são achacados e revistados como bandidos.

O projeto da prefeitura Rio450 praticamente nem toca no fato de que durante parte dessas mais de quatro centenas de anos, mais precisamente no século XIX, o Rio foi a maior cidade negra do mundo. Muito menos preocupa-se em destacar a luta dos negros contra aquela sociedade escravocrata. Ignora-se que a zona portuária, agora batizada de “Porto Maravilha”, já foi a porta de entrada de milhares de escravos na cidade; que o Cais do Valongo apenas nas décadas anteriores a 1830 recebeu mais de 700 mil escravos, sendo, consequentemente, também o túmulo de muitos que morriam ao chegar ao Brasil, devido às condições miseráveis em que viajavam.

Às portas de sediar uma olimpíada – que não será capaz de deixar como legado nem a despoluição do nascedouro da cidade, a Baía da Guanabara –, o Rio de Janeiro permanece apresentando ao mundo a imagem ilusória de seus braços abertos num cartão postal, mas a grande maioria dos cariocas continua contando apenas com os punhos fechados da cruel realidade em que vive.

[email protected] [email protected]