O Nobel de Literatura: uma ambígua celebração dos oprimidos

Diego Braga

 Não pusemos em dúvida que os escritores laureados com o Prêmio Nobel sejam grandes mestres da literatura quando, em artigo anterior, sugeríamos as motivações políticas deste que é o prêmio literário mais importante do mundo. Deixamos dito, inclusive, que estas motivações têm contradições. Não seguem mecanicamente os direcionamentos políticos dominantes com os quais normalmente se alinham. Segundo Raymond Williams, as instituições culturais, tal como a Academia Sueca que distribui o Prêmio Nobel, não são totalmente coerentes com a hegemonia vigente, justamente porque não operacionalizam uma “socialização” – instauração e incorporação de práticas e valores sociais dominantes – em abstrato. Portanto, viabilizam não apenas acordos e acomodações. São também espaços onde se manifestam conflitos e contradições. É por isso que tais instituições não podem ser reduzidas a “aparelhos ideológicos do Estado”, como queria Althusser. Afirma Williams que “A verdadeira condição de hegemonia é a genuína autoidentificação com as formas hegemônicas: uma ‘socialização’ específica e internalizada que se espera ser positiva ou, se isto não for possível, que vai depender de um reconhecimento (resignado) do inevitável e necessário”[1].

Assim sendo, dentro de uma coerência geral com o processo hegemônico vigente em nível global, depois da queda das burocracias que administraram e levaram à ruína o socialismo nos países do leste europeu, o Prêmio Nobel entra numa fase de celebração de escritores de países periféricos (praticamente excluídos da premiação até então), em alguns casos, de escritores não-brancos (ainda proporcionalmente poucos, mas com uma frequência espantosamente maior que antes) e de mulheres. Este reconhecimento tem um aspecto extremamente positivo, posto que celebrar com um prêmio de grande prestígio os não-brancos, as mulheres e os oriundos de nacionalidades oprimidas ou de países semicoloniais representa um movimento centrífugo em relação às ideologias – ainda assim amplamente dominantes – de opressão racial, nacional e de gênero. No entanto, há uma contradição neste movimento, uma vez que é possível perceber como tal movimento de celebração dos oprimidos se dá nos marcos da afirmação de uma ordem social, política e econômica que sustenta e desenvolve as ideologias que os oprimem: o capitalismo, que volta a ser uma ordem global com a queda do socialismo.

A celebração dos oprimidos

Na fase posterior à queda do socialismo no leste europeu no início dos anos 90, o Nobel vai funcionar, com contradições e conflitos, como cobertura ideológica dedicada a divulgar as aparências de descentralização como marca da “nova” ordem mundial. Num espaço de 89 anos, entre 1901 e 1989, apenas 12 autores de países não-imperialistas, semicoloniais ou coloniais haviam recebido o Nobel. Em média, 1 a cada 7 anos. Destes 12, cinco eram europeus (2 poloneses e 3 irlandeses). Ademais, Tagore fora agraciado em 1913, quando a Índia ainda era parte do Império Britânico, e a justificativa da Academia Sueca deixa claro que sua premiação não se deveu ao que havia de hindu na obra de Tagore, que recebera o Prêmio “devido ao seu verso profundamente sensível, original e belo por meio do qual, com técnica consumada, fez de seu pensamento poético, expresso em suas próprias palavras de língua inglesa, parte da literatura do ocidente”[2].

Em contraste, de 1989 para cá, ou seja, em apenas 25 anos, outros 12 autores de países não-imperialistas e semicoloniais foram agraciados. Aproximadamente 1 a cada 2 anos. Houve, portanto, considerável mudança de foco. Agora que o socialismo acabou, a “democracia” vai reinar no mundo e todos os países terão direito a voz e reconhecimento – parece ser este o discurso subjacente da nova tendência do Nobel de Literatura, que funcionaria assim como a contraparte cultural dos organismos internacionais, como a ONU, dedicados a dar uma fachada democrática para a continuada – e mais centralizada – ordem imperialista existente depois da queda da União Soviética.

Esta nova ordem, ao se apresentar com a aparência de um “triunfo democrático mundial” – dentro da falsa oposição feita pela propaganda ideológica burguesa entre democracia x socialismo -, procura também dar visibilidade aos oprimidos, tal como busca ‘empoderá-los’ politicamente. A orientação do Nobel desde 1989, premiando sete mulheres (África do Sul, Polônia, Estados Unidos, Áustria, Reino Unido, Alemanha e Canadá), dois negros (Estados Unidos e Santa Lúcia) e outros quatro não-brancos (Japão, China, Trinidad e Tobago/Reino Unido), parece corroborar com esta política. Há um aspecto positivo nestes fatos, que em parte são respostas às exigências dos movimentos de combate às opressões. Não se pode, porém, ignorar suas contradições internas. Estes processos de empoderamento são não somente concessões feitas na tentativa de iludir os oprimidos com uma fachada democrática que lhes apazígue o ímpeto de luta. São ao mesmo tempo formas de mascarar com exceções a excludente e violenta realidade vivida em todos os níveis pela maioria das vítimas de opressões de raça, nacionalidade, gênero, etc.

O caso da China é emblemático do quanto de política há em tal descentralização, apenas aparente. O desconforto pela ausência do Nobel literário chinês se fez notar depois do processo de restauração capitalista no país, com as 4 modernizações de Xiao Ping. Era o necessário atestado cultural do retorno do país ao mercado global, uma expressão superestrutural à altura da contrarreforma econômica e social. A busca pelo prêmio tornou-se uma política de Estado e ensejou discussões literárias, acadêmicas e críticas na China. Foi cunhado inclusive um termo especial em chinês – “Nuobeier qingjie” – algo como “complexo de carência de Nobel”. Entre os esforços oficiais para superação do “complexo”, contam-se a criação de um grande prêmio literário nacional, o envio de delegações à Suécia e inúmeros artigos publicados sobre o tema[3].

Quando no ano 2000 Gao Xingjian finalmente recebeu o Nobel de Literatura, houve alvoroço por todos os lados. Majoritariamente desconhecido até mesmo no país que fala a língua em que escreveu sua obra, e do qual estava exilado na França desde 1987, o prêmio deu, ainda assim, muito orgulho à comunidade chinesa em todo mundo. Ao PC chinês, não. Embora ganhar o “atestado” da condição de universalidade para a literatura e a cultura chinesas tivesse sido uma das metas políticas dos governos chineses há décadas, o tiro saíra pela culatra. Se atentarmos para a declaração da Academia Sueca que justificava a condecoração da obra de Gao pela sua “universalidade”, notaremos que esta declaração mencionava, do conjunto da obra do escritor, apenas dois romances, “A Montanha da Alma” (o único lançado no Brasil até agora) e Yige ren de shengjing (“A bíblia de um só homem”), e um de seus dramas, Taowang (“Em fuga”), que denuncia o massacre da Praça da Paz Celestial de 1989: justamente os trabalhos mais críticos em relação ao governo do PC chinês. Não é de se estranhar que imediatamente após a divulgação da premiação  o governo chinês tenha afirmado que Gao era “um escritor francês”.

Apesar de até 2000 já existirem chineses que receberam o Prêmio Nobel em áreas científicas, ainda havia uma sensação de carência. Talvez pelo fato de que a literatura represente muito mais a cultura local, ou talvez porque os vencedores do Prêmio Nobel de áreas científicas nascidos na China tenham recebido o prêmio quase sempre como pesquisadores que trabalham fora da China, a maioria dos quais com cidadania estrangeira. Em todo caso, é contraditória a obsessão por um prêmio que simboliza o fim do passado de dependência colonial seguido pelo período de isolamento global da China e que é, ao mesmo tempo, um prêmio decorrente da celebração de valores e formas culturais que grosso modo remetem ao imperialismo no terreno da cultura. Em suma, é como se a afirmação da autonomia chinesa na ordem global em relação aos antigos poderes imperialistas dependesse da sanção de uma instituição cultural que representa este mesmo poderio.

O selo de mercado e o aval do dominador

Fica mais fácil ou mais difícil receber um Prêmio Nobel da Literatura a depender da língua em que se escreve. De longe a maioria dos prêmios foi atribuída a escritores que produziram em quatro idiomas: inglês (30), francês (16), alemão (13) e espanhol (11). Substituíssemos o espanhol pelo japonês, teríamos os principais imperialismos representados com suas línguas. A coerência, aqui, é mais econômica que política. Estas línguas representam os maiores mercados literários do planeta. Já autores que escrevem em idiomas de poucas expressão no mercado mundial precisam de traduções para os idiomas principais se querem ser candidatos fortes ao Nobel de Literatura. Isto gera um outro problema, porque a literatura, ao ser traduzida, perde parte ou muito de sua força. Autores lidos em tradução dependem muito da capacidade literária dos tradutores e da também da traduzibilidade de suas obras. Para ter uma ideia do ponto a que podem chegar as dificuldades vale ler a correspondência de Guimarães Rosa com seu tradutor alemão, Curt Meyer-Clason, publicada pela UFMG.

Então, o Prêmio Nobel acaba por emoldurar a produção literária mundial na lógica dos interesses de mercado. Principalmente quando se trata da literatura dos países não-imperialistas. Muitos autores destes países, almejando a projeção internacional, escrevem de modo que suas obras sejam facilmente traduzíveis. Ocorre que a literatura, sobretudo a de qualidade, requer bom nível de elaboração da língua, o que implica explorar suas particularidades. Exige tamanho grau de concretude e de ancoramento na realidade de uma linguagem que, muitas vezes, a tradução a empobrece completamente. Assim, para serem mais traduzíveis, autores que não escritores nas línguas majoritárias não podem explorar ricamente todos os recursos de suas línguas maternas. Devem fazer um tipo de poesia que menos provavelmente contribuirá para o enriquecimento da língua (e portanto da cultura e da consciência prática) local se querem que sua poesia circule como mercadoria mundialmente.

Alguns autores que escrevem em línguas majoritárias no mercado, às vezes, provêm de culturas marginalizadas. Decorre que suas referências locais, geográficas, históricas, culturais, religiosas, etc, são quase ou totalmente incompreensíveis para o leitor da cultura “mundial”, vale dizer, o leitor dos países dominantes no cenário mundial. Assim, para ser celebrada internacionalmente, a cultura de uma nacionalidade oprimida precisa abrir mão dela mesma em certo nível. Não deve ser muito íntima de si, caso almeje reconhecimento por quem lhe é estranho. Além disto, o próprio romance, gênero literário mais praticado entre vencedores do Nobel, é uma criação própria das sociedades burguesas e com fortes raízes na cultura europeia.

Em contrapartida, as formas literárias ou de poesia oral de países periféricos tendem a não ser reconhecidas como tais por leitores dos países imperialistas. Em países periféricos onde a cultura letrada é antiga, como na poesia clássica da China, nas formas oriundas de tradições religiosas de poesia na Índia e em formas orais e populares do mundo árabe, há traços fundamentais e recursos que não são reconhecidos como de excelência literária pelo leitor ocidental, ou são vistos como démodé ou de mal gosto, quando não totalmente incompreensíveis ou intraduzíveis. Às vezes, passam longe daquilo que o “leitor mundial” considera como Literatura, com “L” maiúsculo.

Também em países de letramento relativamente recente, como em quase toda a América Latina e em grande parte das nações da África subsaariana, a influência e as formas sobreviventes de poesia oral, riquíssimas, muito frequentemente resultam, ao influenciarem a escrita, irreconhecíveis como características literárias dignas de valorização. Portanto, as culturas literárias dos países subalternos, para serem reconhecidas no mercado literário mundial, precisam abrir mão de algumas de suas particularidades.

No entanto, a poesia considerada de grande valor, mundialmente, é a poesia que não é “universal” a ponto de se tornar completamente abstrata. Deve expressar algo de particular, de seu autor, da cultura de que provém, de seu tempo, etc. Neste quadro, respeitando as limitações acima referidas, resulta que os autores de nações periféricas que desejam ter reconhecimento “mundial” devem expressar também a “cor local”, mas apenas na medida em que esta cor local possa ser entendida “mundialmente”.

O cruzamento destas forças condicionadoras – a dominação política internacional por parte dos países imperialistas e de suas culturas e línguas e o mercado literário pautado por critérios nem sempre combináveis à diversidade cultural e à riqueza artística – impede que falemos, a rigor, de uma cultura mundial cuja existência seja realmente plural, democrática e livre. São estas forças que dominam a cultura mundial no capitalismo global, obviamente em linhas muito gerais e com conflitos e contradições às vezes grandes, a depender do ritmo da luta de classes.

Por outro lado, o desejo de transformação da sociedade pela literatura é uma ideologia, tal como o é a impressão de que a celebração da literatura dos países periféricos diminui de alguma maneira a situação periférica destes países. Principalmente quando esta celebração congratula o marginal pela sua marginalidade ou quando obriga o subalterno a adaptar seu discurso ao do dominador para ter sua “identidade” reconhecida.

É claro que um Nobel brasileiro de literatura significaria muito. Influiria, contudo, em muito pouco. O que às vezes se chama de capital simbólico opera somente nos limites estreitos – cada vez mais – do capitalismo que ele não pode mais que simbolizar. Caso o Brasil venha a receber um Prêmio Nobel da Literatura em breve (e temos escritores de excelência para tanto), isso não vai alterar em praticamente nada o número de pessoas que leem literatura, que têm acesso a livros e a educação, que têm tempo livre e que valorizam sua própria cultura. O Brasil seguirá sendo um país periférico, econômica e politicamente semicolonial, subserviente às recomendações do Banco Mundial e do Estados Unidos, como por exemplo o faz ao liderar a ocupação militar no Haiti para garantir o lucro das maquiladoras ianques instaladas naquele país. A cultura brasileira, riquíssima, seguirá sendo periférica e exótica mundialmente, carente dos estímulos para seu pleno desabrochar e ampla democratização internamente e sem forças para reagir ao processo de homogeneização cultural sob a égide do capital, que inclui culturas apenas à medida que as mercantiliza, tornando-as imagem e semelhança de si mesmo, com ou sem selo de qualidade internacional.



[1]WILLIAMS, Raymond. Marxism and Literature. Oxford: Oxford University Press, 1977, p. 118. [A citação é uma tradução nossa do original].

[2]<http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1913/> [tradução e grifos nossos].

[3]Com base em informações de The Politics of Cultural Capital: China’s Quest for a Nobel Prize in Literature, de Julia Lovell (University of Hawai’i Press, 2006).

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