O marxismo e a questão racial: reflexões anticapitalistas sobre a obra de Carlos Moore

Rosenverck Estrela Santos

Proletários de todos os países, uni-vos![1] Essa é uma das frases mais emblemáticas e reproduzidas do pensamento marxista e contundentemente escrita por Marx e Engels. Quem pensou e popularizou essa frase e a transformou num emblema de luta de diversos povos e classes oprimidas e exploradas pelo mundo; Quem motivou a luta e as reflexões de milhões de intelectuais, movimentos sociais, jovens, estudantes, operários, camponeses, mulheres, homens; Quem produziu uma práxis que serviu de base para a luta de milhares de movimentos negros pelo mundo, dos Panteras Negras, dos direitos civis dos negros americanos, de parcela importante do ressurgimento do movimento negro no Brasil, de parte importante do movimento Hip Hop e dos movimentos da Negritude e do Pan-Africanismo, bem como do movimento negro Latino-Americano e da luta pela independência de dezenas de nações africanas foram os responsáveis pela elaboração de uma teoria racista, ariana e objetivamente defensora da supremacia branca sobre os demais povos? Pois bem, essa é a teoria exposta no livro do escritor cubano Carlos Moore (2010), intitulado O Marxismo e a questão racial.[2]

Hiperbólico. Essa é uma das definições que podemos imputar ao livro de Moore. Repleto de juízo de valores e adjetivos superlativos, o texto busca demonstrar que os precursores do marxismo – Marx e Engels – eram racistas e suas teorias pró-imperialistas e pró-colonialistas quando se referiam à África, Ásia e América estendendo-se aos seus povos, obviamente.

Defensores da supremacia branca e pautados na defesa da raça ariana ou da classe proletARIANA, Marx e Engels não apenas foram condicionados pelo seu tempo histórico, mas conscientemente defendiam a supremacia racial, cultural, moral e intelectual do Ocidente europeu sobre o resto da humanidade. Ou seja, para Carlos Moore, a concepção imutável e universalista da teoria marxista não passaria de uma defesa indisfarçável da especificidade e superioridade da Europa perante os outros continentes que, portanto, deveriam ser colonizados e dominados para obterem o progresso da história e da civilização.

O livro, nesse sentido, combate o socialismo, a teoria marxista e assevera que nada representam ou podem representar para a luta dos povos não-europeus.

Mas qual a intenção de Moore ao escrever este texto? As palavras não são inocentes e a escrita muito menos. Não há neutralidade no discurso, na ciência ou na política. Se o marxismo é racista e o Comunismo não serve como referência de sociedade igualitária, qual o modelo que Moore defende? Se o Socialismo não nos oferece nada, quem nos oferece? Qual o modelo de sociedade Moore propõe? O capitalismo? O anarquismo? Algum modelo africano de sociabilidade e produção da riqueza?

A análise de suas teses e de seus argumentos é suficiente para compreendermos que modelo de sociedade Moore defende, mesmo que não deixe explicitamente escrito e que dito mesmo esteja apenas o ataque ao marxismo e o Socialismo sem propor absolutamente nada. É a indisfarçável neutralidade de quem se beneficia dela. Mas vamos às teses e argumentos de Moore e as reflexões necessárias para a nossa compreensão de seus reais objetivos.

Em seu pequeno texto[3], Moore inicia acusando Marx e Engels de terem medido o mundo inteiro a partir do Ocidente europeu. Traz o Historiador Eric Hobsbawm – acusando-o de ser pouco sincero – para provar que Marx e Engels eram ignorantes quanto à história do mundo e que mesmo assim criaram uma teoria universal pautada na Europa. Hoje ainda, em pleno século XXI, a História da África é desconhecida pela grande maioria das pessoas, inclusive, por professores universitários do mundo inteiro. Sabemos que é uma história em reconstrução e muito do que se sabe foi escrito no século XX, a partir de inúmeras fontes e métodos. Mas, então, todos os professores de História que são ignorantes quanto a História da África são racistas e arianos? Se hoje não conhecemos a História africana como deveríamos, porque Marx deveria já ser um pleno especialista dessa História?

Segundo Moore, a teoria de Marx e Engels e a ignorância em relação à História da África deveram-se ao profundo eurocentrismo, não podendo ser dissociados do ambiente e da época em que viveram, marcada pela ideologia da supremacia branca. Mas indagamos: somos produtos do meio e não temos condições de superar a ideologia de uma época? Os quilombolas, então, deveriam ser escravistas? Nós devemos ser capitalistas e não temos como fugir de nossa época e de nosso ambiente? Somos determinados social e geograficamente?

Como imputar a Marx e Engels uma internalização de ideais racistas, para quem superou a ideologia da classe dominante de suas famílias para se vincularem a construção de um projeto de sociedade da classe trabalhadora? Se Marx e Engels seriam, portanto, produtos de sua época, como explicar o rompimento dos dois com a ideologia da classe dominante? Moore, obviamente explica a partir da vinculação consciente dos dois ao projeto de dominação branca. Para tanto, traz um autor que faz uma referência à concepção de Humanidade de Marx e Engels completamente distorcida, fazendo crer que os dois autores acreditavam numa humanidade com inclinação morais e intelectuais inatas. Qualquer leitura superficial do livro A ideologia Alemã coloca por terra essa afirmação.

Marx e Engels diziam que para entender este mundo não se parte do que se fala ou é falado, do que se diz ou é dito, do que se imagina ou é imaginado “[…] para, a partir daí, chegar aos homens em carne e osso; parte-se dos homens realmente ativos e, a partir de seu processo de vida real […]” Com efeito, ao desenvolver sua produção e intercâmbio material, através do trabalho, transforma não apenas a realidade, mas o seu pensamento e o produto de seu pensamento. Pois, “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência” (MARX, ENGELS, 1993).

Sendo assim, a humanidade é histórica e social, na medida em que:

“[…] somos forçados a começar constatando que toda a existência humana, portanto, de toda a história, é que os homens devem estar em condições de viver para poder “fazer história”. Mas para viver é preciso antes de tudo comer, beber e ter habitação, vestir-se e algumas coisas mais. O primeiro ato histórico é, portanto, a produção dos meios que permitam a satisfação destas necessidades, a produção da própria vida material, e de fato este é o ato histórico, uma condição fundamental de toda a humanidade” (MARX, ENGELS, 1993).

Ou seja, eles não acreditam numa humanidade com inclinações morais inatas, mas em seres humanos que se constroem por meio de sua relação com a natureza e entre si, mediados pelo trabalho.

Com efeito, Moore continua o texto ratificando que em nenhum escrito de Marx e Engels podemos observar qualquer combate à supremacia branca de sua época e que acreditavam fortemente na raça como um fator de evolução na sociedade. Traz uma citação de Engels para afirmar sua sentença: por si mesma, no entanto, a raça é um fator econômico (MOORE, 2010, p. 67). Moore diz que falar de raça como fator econômico e tratar a raça como elemento inato causaria certamente acusações de fascismo se fossem proferidas por outras pessoas.

Mas pensemos. Dizer que raça é um fator econômico, não significar dizer que não é biológico, portanto, é social? Hoje quando dizemos – movimentos sociais, intelectuais negros – que raça é social, política e histórica estamos certos, mas quando Engels disse que raça é o um fator econômico, ou seja, utilizada no sentido de que serve para exploração da população negra, ele é fascista. Invertem-se valores, distorcem-se frases e interpretações com qual motivo?

Os marxistas e sua defesa do imperialismo e do saque colonial

Continuando seu texto, Carlos Moore, ratifica sua posição de que Marx e Engels eram pró-colonialistas e imperialistas. Interessante é notar como é que alguém que vivia exilado, fugindo de um país para outro, por conta das perseguições poderia ser imperialista! Não seria o caso de se erguer um pedestal a Marx pelo seu excelente trabalho em favor do imperialismo branco europeu? Moore não faz referência à vida de Marx porque obviamente não o interessa e não autorizaria suas análises.

Mas prossigamos. Na análise que Moore faz do pró-imperialismo marxista está a ideia de que os autores do marxismo acreditavam na necessidade da agressão imperial, pois sua teoria do desenvolvimento social requeria essa violência. Moore diz:

“O raciocínio de ambos era simples: a carnificina e a pilhagem fora da Europa seriam a base para o desenvolvimento vertiginoso, no Ocidente, do Capitalismo industrial e da classe de trabalhadores assalariados. Por sua vez, isso levaria à revolução e, enfim, ao Socialismo” (MOORE, 2010, p. 80)

Percebam que Moore numa interpretação sui generis, transforma o que seria uma análise dos fatos históricos realizada por Marx e Engels que diziam que o Capitalismo surgiu no Mundo escorrendo sangue por todos os poros[4]; numa declaração propositalmente racista de ambos na defesa da violência e da carnificina dos outros povos. E continua seu texto dizendo que Marx e Engels menosprezavam latinos, eslavos, árabes e asiáticos e que, inúmeras vezes depreciaram conhecidos seus, pelo apelido de mouro. Só lembrando que o próprio Marx era chamado de mouro, inclusive por suas filhas, mas essa é uma história da vida de Marx que não interessa a Carlos Moore como já frisamos.

Para ratificar sua argumentação, Moore faz uma série de considerações sobre uma das passagens mais conhecidas de Marx sobre o tráfico de escravizados no continente africano, escrita no livro O Capital. Considerações essas visivelmente distorcidas. Vamos expor, primeiro, as próprias palavras do Marx para depois trazer a forma como Carlos Moore expõe as citações e suas análises. Marx analisa:

“A descoberta das terras auríferas e argentíferas na América, o extermínio, a escravização e o soterramento da população nativa nas minas, o começo da conquista e saqueio das Índias Orientais, a transformação da África numa reserva para a caça comercial de peles-negras que caracterizam a aurora da era da produção capitalista. Esses processos idílicos constituem momentos fundamentais da acumulação primitiva.

[…] na Inglaterra, no fim do século XVII, esses momentos foram combinados de modo sistêmico, dando origem ao sistema colonial, ao sistema da dívida pública, ao moderno sistema tributário e ao sistema protecionista. Tais métodos, como por exemplo, o sistema colonial, baseiam-se, em parte, na violência mais brutal.” (MARX, 2013, p. 820, grifo nosso).

E completa com relação aos povos americanos:

“O tratamento dispensado aos nativos era, naturalmente, o mais terrível nas plantações destinadas exclusivamente à exportação, como nas Índias Ocidentais e nos países ricos e densamente povoados, entregues à matança e ao saqueio, como o México e as Índias Orientais” (MARX, 2013, p. 823, grifo nosso)

E continua ironizando a ética cristã e puritana que discursava sobre o amor a Deus ao mesmo tempo que, na sua contribuição ao processo de dominação colonial, matava índios – homens, mulheres e crianças, indiscriminadamente.

Mais a frente diz:

“Com o desenvolvimento da produção capitalista durante o período manufatureiro, a opinião pública europeia perdeu o que ainda lhe restava de pudor e consciência. As nações se jactavam cinicamente de toda a infâmia que constituísse um meio para a acumulação de capital.” (MARX, 2013, p. 824, grifo nosso).

Marx reforça na continuação do texto – denunciando o cinismo europeu – o fato dos europeus terem seu crescimento baseado na exploração do tráfico negreiro e na destruição da África, ao mesmo tempo em que associavam isso à sua suposta sabedoria política. E diz ainda:

“Enquanto introduzia a escravidão infantil na Inglaterra, a indústria do algodão dava, ao mesmo tempo, o impulso para a transformação da economia escravista dos Estados Unidos, antes mais ou menos patriarcal, num sistema comercial de exploração. Em geral, a escravidão disfarçada dos assalariados na Europa necessitava, como pedestal, da escravidão sans phrase do Novo Mundo.” (MARX, 2013, p.829)

Bom, percebam os adjetivos e expressões que Marx usa em toda essa parte que se encontra no capítulo 24 do Livro I do Capital: o extermínio, a escravização e o soterramento; a transformação da África numa reserva para a caça comercial de peles-negras que caracterizam a aurora da era da produção capitalista; violência mais brutal; perdeu o que ainda lhe restava de pudor e consciência. As nações se jactavam cinicamente de toda a infâmia.

Ele faz isso pra demonstrar toda a brutalidade e violência com que nasce o capital, expropriando os camponeses na Europa, exterminando os indígenas na América, escravizando e matando os africanos na África. Para dar conta desse fenômeno extremamente violento, Marx não poupa adjetivos depreciativos para caracterizar os atos europeus e as formas de consciência e discurso que os europeus ainda buscavam justificar tais atos. Usa de intensa ironia, como é característico em toda a usa obra, para analisar o processo de acumulação de capital e as justificativas infames dos europeus. Como alguém que usa todos esses adjetivos e expressões pode ser acusado de imperialista e pró-colonialista?

Carlos Moore, não acredita na ironia de Marx e defende que toda a análise e constatação de Marx dos fatos históricos do processo de acumulação primitiva de capital não passa de uma defesa inconteste da exploração, expropriação e extermínio das populações americanas, asiáticas e, principalmente, africanas. Veja a forma com que Moore expõe as passagens supracitadas:

“O pensamento de Marx e Engels sobre a África não deveria surpreender, considerando o que foi exposto anteriormente. A destruição violenta que ocorria na África, e descrita por Marx peremptoriamente como a transformação da África num vasto campo de caça lucrativa, poderia apenas ter significado progresso, visto que ele próprio manifestara que esse tráfico marcava os albores da era de produção capitalista. A escravidão era, portanto, um fenômeno revolucionário. Nesse sentido, Marx salientou que De fato, a escravidão dissimulada dos assalariados na Europa precisava fundamentar-se na escravatura, sem rebuços, no Novo Mundo.” (MOORE, 2010, p. 82-83, grifo nosso).[5]

Observem que Carlos Moore utiliza as citações de Marx – que já analisamos acima – e fornece uma interpretação completamente distorcida acusando Marx de defender a caça lucrativa na África como uma necessidade para se atingir o progresso e a civilização. A análise dos fatos históricos, a crítica e denuncia a esse processo violento e brutal, a ironia quanto às formas de consciência pedantes dos europeus que Marx expõe, transforma-se na análise de Moore numa teoria para a dominação branca do mundo. Faça a comparação e tire suas conclusões analíticas.

Moore prossegue seu texto, com algo inusitado: ele cobra de Marx e Engels uma postura diante da escravidão e do tráfico de escravizados. Diz ele:

“Esses grandes internacionalistas revolucionários não expressaram sequer uma vez nem mesmo sua solidariedade moral quando confrontados com as inúmeras insurreições negras nas Américas.” (MOORE, 2010, p. 84)

Ora como Moore pode querer isso deles? Se eles são racistas, defensores da supremacia branca, eugenistas e arianos como querer que eles defendam os movimentos negros de resistência? Moore ataca, por exemplo, o ato dos autores do marxismo terem ignorado a revolução no Haiti.[6]

Que tipo de raciocínio é esse que acusa Marx e Engels de serem elaboradores de uma teoria de dominação e supremacia branca, proletARIANA[7] e depois os acusa de não defenderem os negros e não condenarem a escravidão? Ou seja, como podem ser defensores e elaboradores de uma teoria racista e ao mesmo tempo serem solidários à resistência negra? Em resumo, como Moore pode imputá-los de defensores da supremacia branca e ao mesmo tempo reclamar que não defendem a causa negra?

Simples: construindo um discurso em que não há saída para Marx e Engels. Eles são culpados pela ação e pela omissão; por dizer e não dizer; por defender e não defender; isto é, façam o que façam; digam o que digam; escrevam o que escrevam serão culpados e sentenciados pela escrita inoxidável de Carlos Moore.

Mesmo quando defendem a população negra, para Carlos Moore, na verdade o que está pro trás das palavras de Marx e Engels é o ataque indisfarçável aos negros e negras como observa o autor em análise:

“De fato houve apenas uma ocasião histórica que provocou a oposição vigorosa de Marx e Engels à escravidão negra: a Guerra Civil norte-americana (1861-65). Entretanto, uma análise cuidadosa de seus escritos revela que sua posição baseava-se exclusivamente em uma preocupação pelas vantagens que a classe trabalhadora ariana pudesse retirar de um conflito que opunha massas negras e opressores brancos” (MOORE, 2010, p. 85).

Moore, numa escrita de falsificação histórica, utiliza conceitos que em nenhum momento e em nenhuma obra Marx ou Engels escreveram como: classe trabalhadora ariana, classe proletARIANA e outros mais. Observem que na citação acima Moore quer dar a entender que Marx utilizava e era defensor da classe trabalhadora ariana. E continua com uma série de distorções quando, por exemplo, utiliza uma expressão de Marx – na página 87 do livro em análise – que descreve os EUA como o país mais progressista do mundo para dizer que na verdade Marx estava era defendendo a vitória da classe operária ariana internacional (p. 87). Antes já havia dito que Marx estava preocupado mesmo – na Guerra Civil americana (norte industrial X sul escravista) – era com a vitória da classe trabalhadora branca norte-americana, especialmente defendendo o norte contra os sulistas. O que é interessante e chega a ser curiosa essa análise de Moore, pois se Marx é racista, defensor da supremacia branca, por que cargas d’água ficou do lado do Norte contra o Sul? Já que o Sul representa tudo o que Marx defenderia: dominação branca, escravismo, etc.

Só a cabeça fértil de Carlos Moore para explicar! Mas ele também diz:

“Todo negro que engoliu a filosofia marxista com seus pretextos internacionalistas deveria reavaliar as posições oportunistas de Marx e Engels sobre a Guerra Civil norte-americana, seu silêncio a respeito das lutas de libertação negras de sua época, sua indiferença ao uso da África como um matadouro e a redução de milhões de africanos a burros de carga” (MOORE, 2010, p. 89, grifo nosso).

Se fosse Marx ou Engels a utilizar o termo burros de carga estariam agora mesmo sendo alvo de toda a espécie de crítica. Mas, vamos ao que interessa. Se voltarmos à leitura daquelas poucas passagens supracitadas do livro O Capital – e não estamos nem falando dos outros muitos livros em que ele analisa a Guerra Civil Americana e os outros fenômenos do surgimento da exploração capitalista e da organização da classe operária no mundo – veremos que posições oportunistas, silêncio e indiferença dentro de todos os defeitos de Marx e Engels não estavam entre seus preferidos, pois senão teriam vivido muito bem na Europa ariana e racista, o que qualquer passagem nas biografias mais depreciadoras deles provará o contrário.

A crítica ao socialismo como projeto de civilização

Na parte em que trata do socialismo especificamente Moore inicia constatando que Marx e Engels eram absolutamente conscientes do papel que a escravidão teve na Revolução Industrial. Papel esse analisado e comprovado, afirmamos, por inúmeros historiadores brancos e negros. O que é interessante no livro em análise é que seu autor utiliza essa constatação de Marx e Engels para dizer que na verdade eles estavam era defendendo a intervenção colonial como único instrumento de modernização e desenvolvimento do mundo não ariano (MOORE, 2010, p. 96, grifo nosso).

Ou seja, Marx e Engels, na análise de Moore, defendiam o imperialismo e o colonialismo na América e na África como precondição de seu desenvolvimento e modernização para no final, inevitavelmente, chegarem ao socialismo. Dito de outra forma: a defesa do racismo e do ataque aos outros continentes também fazem parte do projeto socialista de mundo.

Por essa razão há limites – segundo Moore – para a solidariedade proletARIANA. E esses limites encontravam-se no profundo desprezo que Marx e Engels tinham pelas populações não arianas. E, portanto, seriam defensores do colonialismo proletARIANO socialista (MOORE, 2010, p. 102). Moore utiliza novamente um conceito que em nenhum lugar Marx e Engels escreveram ou disseram, mas sem receio nenhum de falsificação histórica, utiliza com se fora dos autores.

A colonização, a opressão e a escravidão seriam, portanto, defendidos por Marx e Engels como necessários para construir a civilização, conseguir a regeneração e por fim fazer a revolução (MOORE, 2010. p. 104).

Todos sabem que O manifesto Comunista é um dos principais textos de defesa do comunismo, da classe trabalhadora e ataque aos burgueses capitalistas, mesmo não sendo mais do que uma espécie de panfleto – apesar de sua profundidade. Dessa forma, perguntamos: por que no manifesto comunista não encontramos a defesa da classe trabalhadora ariana ou proletARIANA? Por que não encontramos a defesa da colonização e do imperialismo? Mais ainda, por que não encontramos a defesa do racismo e da supremacia branca? Se era uma espécie de programa político, porque não encontramos essas propostas? Por que Moore não faz a análise do Manifesto Comunista? Ao invés disso se satisfaz com comentadores e passagens fragmentadas e esparsas da obra de Marx e Engels. O desejo de atacar o marxismo é maior do que qualquer análise científica é o que percebemos claramente no livro de Carlos Moore. Mas por quê?[8]

 

 A sentença de Moore para o marxismo

Por fim, Carlos Moore sentencia: pode uma ideologia sutil de natureza racista servir de ferramenta contra o racismo? (MOORE, 2010, p. 1080). É interessante notar que depois de tudo que Carlos Moore disse sobre o marxismo ele utiliza o adjetivo sutil. Mais uma das muitas contradições. Mas vamos em frente.

Moore termina o seu Livro sentenciando também:

“As análises políticas de Karl Marx e Friedrich Engels, suas conclusões teóricas e ponderações filosóficas a respeito das mais diversas questões, foram naturalmente condicionadas por serem ocidentais, e não africanos ou asiáticos; brancos, e não negros ou orientais; homens livres do século XIX, e não escravos ou súditos coloniais.

[…] O mais importante de tudo é que devemos questionar, com veemência, a própria utilidade do Marxismo-leninismo em resolver problemas para os quais, na verdade, ele não tem resposta nenhuma” (MOORE, 2010, p. 108).

A sentença de Moore é interessante e rica em detalhes. Vamos a eles. Em primeiro lugar, Moore escorrega novamente no determinismo social e geográfico ao imputar a Marx e Engels suas ideias por serem condicionados ao fato de serem ocidentais, brancos e livres. Isto quer dizer que toda a produção intelectual, artística, científica, etc. produzida por homens brancos, ocidentais e livres são de natureza racista? Apenas os africanos, os latino-americanos e os asiáticos podem combater o racismo e todas as formas de opressão e exploração racista? Ser europeu significa não ter qualidades para tanto? Parece que Moore cai na armadilha que tanto diz combater: o etnocentrismo.

E mais, não é possível o marxismo dar respostas a problemas que ele não pode responder por conta de seus condicionamentos. Significa, então, que toda a produção intelectual, artística e científica da Europa e da Ásia não serve para pensar a história, a sociedade e a cultura de outros continentes e de outros povos? Precisamos abandonar então todos os clássicos do pensamento mundial? É claro que Moore não diz isso. Não é?

Bom, termina com uma pérola que não estava no resto do texto: o conceito de marxismo-leninismo. Ou seja, da análise essencialmente dos pensadores Marx e Engels, Moore amplia para todo o conjunto teórico chamado de marxismo-leninismo. Ora, mas existem vários marxismos e é clássico e senso comum que o próprio Marx fez críticas a dezenas de auto-proclamados marxistas.

Por que então Moore em sua análise do Marxismo e a questão racial não tratou desses diversos marxismos? É evidente: um texto tão pequeno com tão poucas referências e fontes documentais não pode dar conta de fazer tal reflexão. Não pode tratar do movimento operário internacional, nem das diferentes correntes teóricas do marxismo; não pode dar conta de Gramsci, Trotsky, Lenin, Rosa Luxemburgo,  Lukács, Hobsbawm, Thompson, Escola de Frankfurt e mesmo da maior destruição do próprio marxismo: o stalinismo; não pode dar conta dos inúmeros intelectuais negros marxistas, nos Estados Unidos e no Brasil que pensaram a realidade do mundo por meio do combate e da análise do racismo como: Milton Santos e Clóvis Moura só para citar dois.  Mas então por que fazer um livro com uma tese tão complexa em poucas linhas e com referências tão escassas? A razão talvez esteja no objetivo: combater sob qualquer aspecto o marxismo, impedir a solidariedade de classe entre trabalhadores brancos e negros e gerar o ódio contra militantes comunistas[9], muito mais do que fazer uma análise científica e intelectual ou mesmo combater o racismo.

Não resta dúvida quanto a isso, principalmente quando Moore afirma com todas as letras que a fraternidade internacional e unidade proletária internacional e outros princípios desse tipo não passam de ideias e teorias ultrapassadas[10].

A experiência de Carlos Moore como exilado político de Cuba pode dizer muito sobre suas convicções. No entanto, o seu combate legítimo ao racismo em Cuba e a ditadura de Fidel Castro, não pode e não deve servir de base para uma análise de toda uma práxis que vai para além das deformações do socialismo ocorridas em Cuba e no socialismo real como um todo. Mas, essas são reflexões que ainda teremos que fazer.

Por ora, resta ainda uma questão: eram Marx e Engels realmente racistas e preconceituosos? Veja que estamos falando agora de seus sentimentos e ideias pessoais e não propriamente de sua teoria que Moore diz ser defensora da supremacia branca. Sinceramente não duvido que Marx e Engels possam ter sido preconceituosos e terem tido atitudes racistas, como era comum em sua época histórica. Mas para tanto, será preciso uma pesquisa muito maior do que a realizada por Moore e que inclua além dos textos de Marx e Engels, o cruzamento de inúmeras análises e fontes tais quais cartas, biografias e documentos de todo o tipo. Em especial as inúmeras biografias (pró e contra, pois não há neutralidade em biografias) que se tem sobre os autores devem ser analisadas e cruzadas a fim de verificar suas práticas supostamente racistas.

Não duvido, pois, mesmo entre nós que lutamos contra o racismo, o machismo a homofobia inúmeras vezes somos pegos em práticas e atos que são considerados preconceituosos. Temos consciência que fomos educados – pela família, religião, escola, estado, imprensa – a sermos racistas, machistas e homofóbicos e romper com essa educação é uma dura tarefa que realizamos cotidianamente. Nem por isso, nossas ideias e práticas devem ser qualificadas de defensoras do machismo, do racismo e da homofobia. Não fosse assim, não teria surgido o movimento de mulheres negras que é uma prova que mesmo no interior do movimento negro o machismo e, digo, a homofobia ainda são marcas intensas e bem presentes. Mas não é por isso que vamos desqualificar o movimento negro e dizer que são artífices do machismo e da homofobia.

Com efeito, não resta dúvida que o movimento operário, sindical e classista historicamente tem tido dificuldade de trabalhar com a questão de raça e tem secundarizado essa luta, mas não é por isso que vamos desqualificar toda a luta de parte importante da classe trabalhadora brasileira chamando-a de defensora de sua hegemonia ariana. Não resta dúvida também que a intelectualidade marxista no Brasil teve muita dificuldade em discutir a importância central da questão de raça na determinação de nossa desigualdade, tão bem analisada por Dias (2010), e que isso ainda hoje tem repercussões negativas no entendimento da realidade brasileira, mas nem por isso suas análises são absolutamente descartáveis. Assim como o movimento negro tem dificuldades em trabalhar com a ideia de classe e associá-la à questão de raça. Nem, por isso devemos dizer que o movimento negro é per si um movimento atrasado.

Pois bem, enquanto não superarmos a dicotomia raça e classe no entendimento da história e da realidade brasileira estaremos fadados a fazer uma análise sempre parcial e insuficiente de nossas condições e não estaremos prontos para destruir o racismo e construir outra forma de convivência que não seja baseada na exploração e opressão de um grupo de ser humanos por outro. É por essa razão que acredito que o intelectual negro, marxista, piauiense Clóvis Moura tem muito mais a dizer sobre a nossa realidade e sobre o necessário projeto de sociedade que temos de construir, do que o cubano – educado nos Estados Unidos e na França, Carlos Moore.

Referências bibliográficas:

DIAS, Hertz. Teoria marxista e ideologia da negritude: encontros e desencontros. Universidade e Sociedade, n. 46, 2010.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia Alemã (Feuerbach). 9. ed. São Paulo: Editora Hucitec, 1993.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I – o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.

MOORE, Carlos. A África que incomoda: sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro. Belo Horizonte, Nandyala, 2010.

MOORE, Carlos. O Marxismo e a questão racial: Karl Marx e Friedrich Engels frente ao racismo e à escravidão. Belo Horizonte: Nandyala, 2010.



[1] E não: Proletários brancos, arianos de todos os países brancos, superiores uni-vos!

[2] E observem que não estamos falando deles internalizarem e serem produto do pensamento racista presente em sua época – o que discutiremos mais a frente – mas, deles ter produzido conscientemente uma práxis abertamente racista, eugenista, eurocêntrica de ódio a outros povos e defensores da dominação branca como propõe Carlos Moore.

[3] Pequeno mesmo! Moore se propõe a sentenciar de racista e analisar o marxismo em toda a sua complexidade num texto não muito maior que um artigo acadêmico feito por um graduando em formação. E que tem como elaboradores do Prefácio e do Posfácio – que tomam quase todo o livro – eminentes integrantes do petismo e do governo Lula. No Seminário Fela Kuti organizado na UERJ, no dia 14/10/2014, Moore declarou que a obra completa foi perdida num furação e por isso só tem essa parte. Mas não houve tempo suficiente para escrever de novo? Moore respondeu no próprio Seminário que Marx e o marxismo não interessavam a ele! O engraçado é que ele escreveu um livro sobre o marxismo e disse que visitou todos os países onde Marx viveu para poder escrever o livro. Então se não interessa a ele, interessa a quem?

[4] Marx, 2013, p.830

[5] As partes em negrito e itálico são do próprio Marx. Em seu texto, Moore coloca aspas.

[6] É interessante como não vemos Carlos Moore fazendo essa mesma crítica ao governo do PT que mantém tropas brasileiras invadindo o Haiti nos dias atuais e cometendo toda a espécie de crimes e violência. Pelo contrário, ouvimos no Seminário Fela Kuti da UERJ, defesa aos gritos do governo Obama, o mesmo governo que mantém a ocupação militar no Haiti. Por que será? Ver nota de rodapé nº 10.

[7] Vejam bem que não estamos falando de Marx e Engels serem racistas ou incorporarem preconceitos de sua época – que é algo que ainda vamos comentar mais a frente – mas da tese central de Moore que os coloca como elaboradores de uma teoria racista de dominação branca sobre o resto do mundo.

[8] Talvez as informações que pesam sobre Moore em relação aos financiamentos que obteve da CIA e da USAID, a sua biografia nada transparente, principalmente nas Universidades onde esteve, podem responder isso. Afinal quem financiou tantas viagens em tantos países diferentes? Como ir a cada lugar que Marx viveu sem gastar muitos dólares?  Ver o site: www.afrocubaweb.com/carlosmoore.htm

[9] Não é por acaso que o seu livro é publicado pela primeira vez no início da década de 1970, período em que a maioria dos países latino-americanos vivia sob ditaduras violentas e os comunistas ou qualquer militante de esquerda eram perseguidos, torturados e mortos pelos governos ditatoriais apoiados pelos Estados Unidos. A questão é investigar, qual a relação entre ambos os fatos.

[10] É interessante observar que no seu outro livro (MOORE, 2010a) intitulado A África que incomoda: sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro. Belo Horizonte, Nandyala, 2010.  Moore defende a ideia de pacto social. Ou seja, a solidariedade internacional dos trabalhadores é ideia ultrapassada, mas o pacto social entre a elite e os trabalhadores é válido.

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