80 anos da batalha da praça da Sé

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Bruno Rocha

“A data de 7 de outubro (de 1934) não pode ser sectarizada nem monopolizada por esta ou aquela tendência. Ela pertence a todos nós, ela se deve sobretudo ao heroísmo do proletariado de São Paulo; sua comemoração cabe a todos nós, anarquistas, stalinistas e trotskistas, comunistas e socialistas que participamos dela na medida de nossas forças e num espírito de frente verdadeiramente proletário, o que tornou impossível o reaparecimento dos bandos integralistas nas ruas de São Paulo.” (Pedrosa, in Vanguarda Socialista n° 7, de 12 out. 1945.)

Em outubro de 2014 completa-se 80 anos de uma das batalhas mais memoráveis da esquerda brasileira: A Batalha da Praça da Sé, ou a revoada dos galinhas-verdes. Essa batalha inseriu o país na principal disputa do entre guerras e, ao contrario do desfecho alemão e italiano, aqui os trabalhadores conseguiram impedir o desastre.

Marcado pela grande crise de 29 e antecedendo a 2ª Guerra Mundial, os anos 20 e 30 foram de intensa disputa global, onde se digladiavam revolução e contrarrevolução. O exemplo máximo foi a Alemanha, com a derrota da revolução e ascensão ao poder do nazismo.

Desde os anos 20 já existiam várias organizações de ultradireita Brasil afora, temos como exemplo a Ação Social Brasileira (Partido Nacional Fascista), a Legião Cearense do Trabalho (LCT), o Partido Nacional Sindicalista e a Ação Imperial Patrionovista (Monarquistas). Essas organizações tinham suas atuações regionalizadas. Somente com a ação de Plínio Salgado é que iriam confluir para uma organização nacional, a Ação Integralista Brasileira (AIB) fundada em 7 de outubro de 19321.

O movimento de trabalhadores organizados passou por uma rápida evolução desde o inicio do século. No decorrer de duas décadas, sob o impacto da revolução russa, a classe trabalhadora brasileira aprofundaria sua experiência com o anarco-sindicalismo e já em 1922 fundaria o Partido Comunista do Brasil (PCB).

Fruto da experiência política nacional e internacional, o PCB presenciaria sua primeira ruptura à esquerda, essa vinculada a Oposição de Esquerda Internacional (OEI). Essa passaria de oposição de esquerda à organização independente adotando o nome de Liga Comunista Internacionalista (LCI)2.

Neste período o Brasil foi palco de um forte movimento de trabalhadores organizados e de um rearranjo entre as classes dominantes. Como fruto desses conflitos teremos o governo Vargas e a legislação trabalhista. A classe dominante buscava formas de sair da crise em que se encontrava, com a sua principal fonte de renda, o café, sendo queimado, buscava-se alternativas políticas à crise econômica.

Um setor dos liberais paulistas rompe e começa a defender uma política mais centrada no poder do estado tanto na normatização da economia quanto na supressão dos conflitos de classe. Inspirado nos fascistas italianos, Plínio Salgado buscará reunir em torno a sua figura os vários grupos fascistas no Brasil. E se lançará a disputa política, buscando apoiar o governo Vargas nos seus ataques à classe trabalhadora enquanto se cacifava politicamente junto à burguesia.

A estratégia integralista era servir de bate-paus da burguesia no desmonte das ações operárias, e se mostrar enquanto alternativa política viável para a burguesia em crise. Cientes dessa estratégia, os Trotskistas da LCI buscaram alertar o movimento operário sobre o perigo fascista. Dentro desse esforço lançaram o livro de Leon Trotski, Revolução e Contrarrevolução na Alemanha3, sobre a grande derrota do operariado ocorrida naquele país. Constatado o perigo, os trotskistas se lançaram a luta política pela unidade da classe trabalhadora.

A batalha pela unidade da classe

A unidade da classe frente à ameaça fascista é imprescindível e foi justamente o que faltou na Alemanha nas avaliações dos trotskistas. O grande impedimento à unidade era a política do terceiro período aplicada pelo stalinismo que classificava a socialdemocracia como “social-fascista”, levando a derrota eleitoral da classe trabalhadora e a ascensão ao poder do nazismo na Alemanha. Essa política era levada por todos os PC’s no mundo sendo assim com o PCB não seria diferente.

Na reunião da comissão executiva da LCI de janeiro de 1933 foi aprovada a campanha pela criação da Frente Única Antifascista (FUA)4. Sendo a proposta lançada publicamente no dia 11 de junho de 1933 em uma atividade de comemoração do nono aniversario de morte do deputado italiano Giacomo Matteoti, que fora assassinado pelos fascistas italianos. Essa atividade de grande vulto dentro dos setores antifascistas paulista – principalmente nos socialistas, anarquistas e na colônia italiana – resultou na convocatória para a composição da FUA.

Em 27 de maio de 1933 vem a público o Jornal O Homem Livre5, fruto do esforço conjunto da LCI e do PSB paulista, esse com forte presença da comunidade italiana. A proposta do jornal era criar uma massa crítica ao avanço do fascismo não só no Brasil, mas também no mundo. A publicação trazia vários artigos sobre a situação na Europa e EUA. Aberto a colaboração de todos os antifascistas, o Homem Livre contou com vários jornalistas do Diário da Noite,o que explica parte das qualidades técnicas do jornal.

Quando da fundação da FUA esse passou a ser o seu porta voz. O Homem Livre publicou ao todo 22 números, encerrando sua publicação por questões financeiras e divergências políticas. Colaboraram no jornal Fúlvio Abramo, que foi seu secretário, Mario Pedrosa e Lívio Xavier, esses então militantes da LCI. Fato é que foi através do Homem Livre que se desenvolveu a propaganda antifascista.

O acordo para a criação da FUA se deu com amplos setores de esquerda e democráticos, exceto os anarquistas e os stalinistas. Os anarquistas por rejeitarem esse tipo de organização, mas dispostos a ações conjuntas. Já os stalinistas, orientados pelas perspectivas do “social-fascismo” e da “frente popular”, rechaçavam a unidade de classe em favor da aliança com setores da “burguesia progressiva”. Dessa forma os contatos entre a FUA e o PCB foram turbulentos e o PCB não faria parte de sua fundação.

No dia 25 de junho de 1933, no salão da Legião Cívica 5 de Julho é realizado o ato de fundação da FUA6. Presidindo a reunião estava Francesco Frola, italiano e membro do PSB Paulista. Participaram do evento o PSB Paulista, o Grêmio Universitário Socialista, a União dos Trabalhadores Gráficos (UTG), A Legião Cívica 5 de Julho, a LCI, a seção paulista do Partido Socialista Italiano, a Bandeira dos Dezoito, o grupo socialista Giacomo Matteotti, O Grupo Itália Libera, a revista O Socialismo e os jornais O Homem Livre e A Rua7.

A Batalha das Ruas

Os seguidores de Plínio Salgado na data de 7 de outubro de 1932, dias após o conflito entre as tropas de Vargas e os paulistas, vão fundar a Ação Integralista Brasileira (AIB). A partir desse momento buscaram realizar várias atividades públicas com o intuito de demonstração de força e coação as organizações dos trabalhadores, como a tentativa integralista de dissolução de uma atividade da FUA com mais de mil participantes ou mesmo a agressão a bengaladas realizada pelo líder integralista Gustavo Barroso contra a operária Nair Coelho, em Niterói8.

A escalada das ações integralistas exigia da esquerda uma resposta à altura. Os seguidores de Plínio já tinham realizado vários atos públicos e começavam a atuar de forma violenta contra as organizações da classe com o claro aval da força pública. Durante esse período há uma guerra de posições e de disputa ideológica.

Conforme ganha corpo a necessidade do combate aos fascistas, o PCB fica numa posição delicada e teve que assumir uma postura mais firme de se integrar as ações da FUA, como ocorreu na manifestação realizada no dia 25 de janeiro de 1934, que foi alvo de forte repressão da força pública. Resistindo as cargas da repressão a manifestação se realizou com pronunciamentos rápidos de Crispim, João Cabanas e Mário Pedrosa. A forte repressão causa conflitos dentro da FUA, e esta recebe criticas publicas por parte do PCB. O PCB então se afasta da frente.

O afastamento do PCB, por mais que fosse importante, é compensado, em partes, devido ao forte movimento de tarefas dentro da FUA, que se lançará a preparação do 1° de maio. Sendo obrigada ao confinamento pelas autoridades, a manifestação se realizou no palácio das indústrias, no parque Pedro II. Na ocasião foi relatada a presença de mais de três mil pessoas presentes, maior público de um 1° de maio naqueles últimos anos, onde foi conclamada a unidade da classe no combate ao fascismo.

O 7 de Outubro de 1934

As noticias das agressões integralistas chegavam de várias partes do país elevando as tensões e preparando o conflito que se avizinhava. Nesse clima é tornada pública a noticia de que os fascistas realizariam no dia 7 de outubro de 1934 uma grande marcha em São Paulo em comemoração ao segundo aniversário de fundação da AIB, tomando como referência a Marcha sobre Roma patrocinada pelos fascistas italianos.

O intuito de Plínio Salgado e seus correligionários era se colocar enquanto força política fundamental na manutenção do governo Vargas, acessando assim as estruturas de poder do estado. No contexto de crise econômica e política, o fascismo se esforçava para se tornar uma via política possível perante as classes dominantes. A existência dessa possibilidade representava uma ameaça de morte à classe trabalhadora.

Ciente dessas questões, a FUA buscou articular uma contramanifestação, convocando todas as organizações afiliadas, mais o PCB e o Socorro Vermelho. Sob a ameaça por parte dos fascistas da utilização dos mesmos métodos empregados na Europa, a frente aprova a realização de uma contramanifestação na mesma data e local dos integralistas.

Cada organização envolvida ficou responsável por mobilizar contingente de pessoas para a praça e providenciar mecanismos de defesa, armas, para executar a proposta votada, que era impedir que os integralistas tomassem as ruas. É importante ressaltar que um compromisso dessa envergadura colocava que nenhuma organização deveria recuar da sua execução. Os stalinistas não aceitaram a direção militar da frente, mas se comprometeram a estarem presentes, assim como os anarquistas.

O responsável pelos grupos de defesa da FUA, João Cabanas, ficou com a tarefa de organizar três grupos dispostos no entorno da Praça da Sé para fazer face às hostes fascistas. A força pública começa então a ocupar a praça e evacuar prédios no início da tarde. Por volta das 14 horas o local já estava totalmente tomado por algo em torno de 400 homens da cavalaria, artilharia e corpo de bombeiros.

As escadarias também já estavam ocupadas por crianças e moças integralistas e por uns poucos milicianos. As hostes fascistas se distribuíam ao longo da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, da altura da Av. Paulista até a Rua Riachuelo próximo ao Largo São Francisco, onde se localizava a sede dos integralistas. Calcula-se algo em torno de quatro mil camisas-verdes advindos de várias cidades do estado e mesmo de outros estados, como o Rio de Janeiro9.

O primeiro incidente dar-se-ia com uma metralhadora acidentalmente disparada por homens da força pública que deixou alguns feridos e um morto. Passado curto período do incidente com a praça já tomada pelos fascistas, Fúlvio Abramo tenta realizar um breve discurso, mas acaba sendo atacado com uma rajada de balas dando inicio ao conflito armado, que envolveu os fascistas, os militantes de esquerda e parte da força pública.

Os tiros partem de todos os lados causando a morte do militante do PCB, Décio Pinto de Oliveira, e deixando outra dezena de feridos, dentre eles Mário Pedrosa. A força pública teve um saldo de três agentes mortos e vários feridos. Quanto aos integralistas não se tem o número preciso. O grosso do contingente integralista saiu em disparada da praça abandonando seu uniforme verde por vários pontos da cidade, daí o nome “revoada dos galinhas-verdes”10.

Ao inicio da noite, a praça já estava totalmente deserta e o que seria um momento de apoteose do fascismo no Brasil significou o início de sua derrocada. A ideia da contramanifestação alcançou seu êxito, a saber, dissolver a manifestação integralista. E assim, os antifascistas ganharam a batalha das ruas.

Um ato tão memorável como esse tem muito pouco ou quase nenhum destaque na História do Brasil ou mesmo da esquerda, em partes é explicável pelo destino de seus integrantes e seus futuros políticos. O PCB foi à contra gosto arrastado pelos acontecimentos, a LCI praticamente deixou de existir sobre os ataques do Estado Novo e os outros agrupamentos dispersaram-se. Passado esse momento e já no inicio de 1935, o PCB lançará a ANL que colocará ponto final a FUA pelo seu esvaziamento11.

Mas, como nas palavras de Mário Pedrosa, o 7 de outubro de 1934 foi um dia memorável para a classe trabalhadora brasileira e deve ser comemorado e rememorado para que tenhamos em mente que as nossas divergências são importantes, no entanto em determinadas conjunturas é necessária a mais ampla unidade da classe contra seus inimigos: a classe burguesa e seus lacaios fascistas em qualquer lugar do mundo.

Notas:

1 Trindade, Hélgio. Integralismo (O fascismo brasileiro na década de 1930). Ed. Difel, 1974. Pag. 111.

2 NETO, José Castilho Marques. Solidão Revolucionária: Mário Pedrosa e as origens do trotskismo no Brasil. Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1993.

3 Trotski, Leon. Revolução e contra revolução na Alemanha. Ed. Sundermann, São Paulo, 2011.

4 ABRAMO, F. 7 de outubro de 1934: 50 anos. Cadernos CEMAP. São Paulo, n. 1, out. 1984, Pag. 14.

5 CASTRO, Ricardo Figueiredo de. O Homem Livre: um jornal a serviço da liberdade (1933 – 1934). Cadernos AEL, Campinas, v. 12, n. 22/23, 2005.

6 CASTRO, Ricardo Figueiredo de. A Frente Única Antifascista (1933-34). In. FERREIRA,Jorge; REIS FILHO, Daniel Aarão (Orgs.). A formação das tradições (1889 – 1945). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

7 ABRAMO, F. Op. Cit. Pag. 18.

8 ABRAMO, F. Op. Cit., Pag. 25.

9 ABRAMO, F. Op. Cit., Pag. 51.

10 ABRAMO, F. Op. Cit., Pag. 63.

11 ALMEIDA, M. T. Os Trotskistas frente à Aliança Nacional Libertadora e aos levantes militares de 1935. Cadernos AEL, Campinas, v. 12, n. 22/23, 2005, Pag. 91.

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