O “radicalismo” de Marina

Patrick Galba de Paula

O “fenômeno” Marina não surgiu do nada. A ex-senadora e ex-ministra do meio ambiente do governo Lula vem sendo construída com uma imagem de “outsider” da política tradicional há tempos por setores da imprensa empresarial, sendo apontada como a principal beneficiária política das mobilizações do ano passado.

Uma das características mais importantes daquelas mobilizações foi seu caráter espontâneo, desorganizado. Misturaram-se em junho e nas jornadas que seguiram diversos processos de descontentamento com a deterioração das condições de vida decorrente das medidas adotadas pelos capitalistas e pelo próprio governo no sentido da preservação e ampliação dos seus lucros, numa conjuntura geral de crise do capital. Entretanto, estes processos em sua ampla maioria tinham um caráter difuso, sem qualquer organização que permitisse uma delimitação clara de objetivos, reivindicações ou estratégias.

Esta característica, por sua vez, parece decorrer da soma de dois processos distintos, que se complementaram concretamente. O primeiro é a passagem do PT para o campo da ordem, da sustentação, defesa e “gestão” do processo de acumulação periférico, primário-exportador, da burguesia brasileira. Esta passagem significou a perda de uma referência fundamental dos trabalhadores que até o momento não pode ser substituída por nenhuma outra no campo da própria classe. O segundo processo, alimentado e possibilitado pelo primeiro, é a extrema fragilização político-ideológica da classe trabalhadora brasileira que, abandonada por sua direção histórica, tornou-se presa fácil para inúmeras ideologias liberais e privatizantes dos capitalistas (incluindo aí suas formulações pós-modernas), não apenas no aspecto econômico, mas também no que diz respeito ao papel e natureza do Estado. Entre estes aspectos está a despolitização e “neutralização” da política, a demonização das posições ideológicas divergentes daquilo que está estabelecido, a defesa ideológica de um tecnicismo liberal, etc. Poderiam ser resumidos a uma visão que advoga um funcionamento “correto” da ordem liberal-burguesa, que seria por natureza boa, mas estaria “corrompida” por maus elementos (pelos “privatistas” numa versão, pelos “aparelhistas” partidários em outra).

A falta de organização política e a fragilidade da classe trabalhadora refletiram-se então na forma pela qual esta expressou o seu descontentamento com os rumos do país. Estes aspectos explicam por que, em termos gerais, praticamente nenhuma medida de concessão foi necessária por parte dos governos para aplacar as mobilizações após o recuo pontual de junho no que diz respeito ao aumento das passagens. Na verdade, estes aspectos são tão acentuados que permitiram ao regime político, ao mesmo tempo em que foi questionado, operar um endurecimento considerável em seu aspecto repressivo, expresso nos ataques aos movimentos sociais e nas prisões políticas de ativistas e perseguições até então inimagináveis. A este endurecimento somou-se uma tentativa de coesionamento da classe média das principais cidades, de caráter tendencialmente fascista, operada pelas principais empresas de comunicação, e direcionada contra a esquerda e o ativismo social e contra a ameaça à estabilidade representada pelas mobilizações de massa. Esta tentativa foi, em grande medida, bem sucedida.

Entretanto, o descontentamento expresso em junho não foi eliminado. Tudo o que burguesia e sua ordem conseguiram até o momento foi espremer e reduzir seus possíveis canais de escoamento.

Foi visando justamente fornecer um “canal” deste tipo que Marina buscou formar sua “REDE”. Tratava-se da “válvula” de escape perfeita, dadas as características do processo de descontentamento popular. Completamente inovadora na forma, o nome diferente dos partidos tradicionais, retórica pós-moderna e a temática da “sustentabilidade” eco-capitalista, tão em voga. Ao mesmo tempo, a adequação total às ideologias incutidas à classe trabalhadora: Discurso tecnicista, anti-político e anti-ideológico, “anti-corrupção”, mas que na prática tende a se converter na gestão dogmática liberal-patrimonialista e em relações carnais com os empresários. Em suma: uma forma aparentemente diferente de se fazer exatamente a mesma coisa. Tratava-se, portanto, de um “canal” que não serviria para conduzir às mudanças, mas para reconduzir o descontentamento para uma forma diferente de sustentação da ordem, não mais aquela mediada pelos sindicatos, por Lula e pelo PT, mas uma mediada de forma difusa pela figura “messiânica” de Marina, uma “Silva”.

O projeto só esbarrou em um problema: A ordem democrático-burguesa tem suas regras, e sua dinâmica própria. Seus acólitos tendem, obviamente, a resistir a qualquer tipo de inovação, mesmo que seja uma que objetiva mantê-la exatamente como está. Resultado: o projeto “inovador” da rede de Marina naufragou em questões burocráticas, na sua própria desorganização, curiosamente, a característica mais prezada desta forma pós-moderna de organização política. Não se pode descartar obviamente uma certa dose de má vontade, digamos, das autoridades eleitorais (nada que os socialistas não conheçam bem).

Marina, então, construiu uma aproximação com um “insider” que sonhava apropriar-se desta imagem “contra os políticos”. Campos, entretanto, não poderia jamais encarnar a “inovação” conservadora da forma que Marina o faria. Sua morte forneceu à democracia burguesa brasileira uma chance única e inesperada de absorver politicamente, ainda que de forma ilusória, uma grande parcela do descontentamento com tudo o que está sendo feito, sem que seja necessária nenhuma mudança real.

 O crescimento de Marina expressa o fracasso do PSDB em ser oposição e se apresentar como alternativa

É um fato que há meses tem curso uma desesperada campanha anti-PT e anti-Dilma desencadeada pelas principais empresas de comunicação do país. Esta campanha não decorre do fato de que o governo tenha se rebelado, ou contrariado interesses dos principais setores do empresariado e do rentismo nacional. Ao contrário, todos eles obtiveram resultados históricos em seus lucros com o governo do PT, desonerações, incentivos, financiamentos, etc. Tampouco algumas medidas pontuais (como o controle de preços de combustíveis que contrariou acionistas da Petrobrás, por exemplo) explicariam tanta indisposição com a continuidade do governo: Apesar de alguns atritos no varejo, no atacado a relação segue benéfica para todos os capitalistas.

O problema do PT para estes setores, que torna a continuidade de seu governo indesejável e justifica a guerra dos últimos meses parece ter outra origem. Empresários, rentistas, representantes do agro-negócio parecem observar problemas à frente, e uma tendência de deterioração da situação econômica, com riscos para as taxas de lucro. Situações deste tipo exigem medidas duras no sentido de repassar ainda mais aos trabalhadores os custos das “dificuldades” e a conta da crise. Não há nada que indique qualquer possibilidade de que o PT venha a recusar tomar as medidas “necessárias” para garantir a “estabilidade” (dos lucros). Mas, ao mesmo tempo, o PT por origem popular, apresenta certos limites do ponto de vista da capacidade de realização de tais ataques sem abrir mão de sua base social.

Por isto a preferência por um governo apresente um alinhamento mais direto com a defesa das taxas de lucro, e sem tantas contradições, como é o caso de Aécio e do PSDB. Toda a campanha observada nos últimos meses na imprensa, em última instância, se resume a isto: Uma tentativa da burguesia brasileira de trocar, num momento de crise, um governo que de forma contraditória garante sua dominação e suas taxas de lucros através de uma mediação que produz um certo consenso com setores da classe trabalhadora, por um governo alinhado de forma mais direta com seu processo de acumulação. Para tal objetivo a burguesia tinha a seu favor o desgaste de 12 anos de governo do PT, o descontentamento popular e os escândalos de corrupção do governo.

Nada disso, até o momento, foi capaz de beneficiar o PSDB colocando Aécio em condições de derrotar eleitoralmente o governo. A incapacidade deste setor em capitalizar o processo parecia apontar no sentido da reeleição de Dilma e do PT, nos marcos de um descontentamento difuso não representado no processo eleitoral. Mas isto até o acidente de Campos e a entrada em cena de Marina.

 A “terceira via” da “nova política” de Marina: uma superação da polarização através da síntese

Marina não cresce apenas por encarnar os diversos aspectos ideológicos da contemporaneidade burguesa e uma idéia difusa de “mudança”. Para apresentar-se de fato como alternativa a PT e PSDB foi necessário que sua candidatura operasse uma síntese concreta entre estes partidos, simbolizada pela referência ao que “de bom” houve nos governos Lula e FHC.

Até nisto Marina endossa a narrativa midiática: De FHC Marina quer a política econômica austera, o controle da inflação, o “tripé macroeconômico”, a estabilidade considerada aprioristicamente benéfica e que supostamente derivaria da reformas de FHC. De Lula Marina diz que vai incorporar o lado social, os programas assistenciais, o suposto incentivo ao desenvolvimento (na verdade, transferências de renda para empresários da indústria). Não apenas as “propostas”, mas as próprias figuras: Eduardo Gianetti da Fonseca, provável ministro da economia de um eventual governo Marina, enquanto apresentava suas propostas para oficializar a autonomia do banco central e cobrar mensalidades nas universidades públicas, defendeu também a incorporação de quadros de PT e PSDB no futuro ministério.

Na verdade, a síntese de Marina é ainda mais ampla: Suas relações com setores evangélicos e seu passado de ambientalista permitem que expresse uma amplitude que vai de seu antigo PV ao candidato Everaldo (dito “pastor”). Esta amplitude, combinada com algumas fórmulas abstratas, truísmos e uma certa dose de demagogia, permite que o eleitor desejoso de mudanças veja na candidatura Marina aquilo que quer ver: Uma mudança na forma, mantendo-se o conteúdo intacto; uma possibilidade de fazer a democracia liberal e o capitalismo funcionarem de verdade, revelando sua natureza positiva escondida pelos aspectos negativos da polarização PT-PSDB, ou seja, dos “políticos”.

Trata-se de um tipo de candidatura difícil de combater, do ponto de vista de PT e PSDB. Aécio tenta se agarrar na sua suposta “experiência” e relação privilegiada com os rentistas. Mas do que serve isto diante de alguém que tem herdeiros do principal grupo bancário do país na sua equipe? Dilma e o PT, por sua vez, buscam apresentar Marina como alguém que está se associando ao obscurantismo religioso e fazendo alianças espúrias que resultarão em medidas reacionárias e ataques ao povo. Verdade. Mas para ser levada a sério, tal crítica não precisaria vir acompanhada de uma autocrítica dos últimos 12 anos de concessões aos mesmos setores, e de uma declaração de rompimento com eles?

Marina se apóia num certo conservadorismo presente na consciência das massas: A necessidade de mudar, mas sem mudar muito. A ilusão sobre a qual Marina trabalha é a de que o projeto de capitalismo periférico e dependente da aliança entre o rentismo e o empresariado primário-exportador brasileiro poderia ser melhor caso “funcionasse corretamente”. O que esta ilusão ignora é que este capitalismo já funciona “corretamente” desde o ponto de vista de sua própria lógica interna. A corrupção, assim como os demais aspectos em comum entre PT e PSDB que Marina sintetiza é uma parte fundamental de suas engrenagens e da relação fundamental de dependência do Estado, na qual boa parte da burguesia brasileira se encontra. É justamente este projeto, que Marina quer consertar, que precisa ser superado.

Apenas a esquerda socialista não encontra lugar na síntese de Marina. Não encontrará, a não ser que abdique de seu projeto e de suas tarefas. Ao contrário da superação interna, pela síntese, proposta por Marina, a principal tarefa da esquerda desde a ascensão de Lula ao poder foi a de apresentar uma alternativa externa à polarização política nacional. Isto chegou perto de ser conseguido em 2006 com a candidatura de Heloísa Helena pela frente de esquerda. O possível fôlego adicional trazido por Marina ao processo eleitoral e à aliança do rentismo com o empresariado primário-exportador, através de uma síntese interna de seus principais sustentáculos poderia ser desafiado pela esquerda caso esta tivesse consolidado uma alternativa política com certa audiência, o que se mostrou possível com os mais de 6 milhões de votos da frente de esquerda em 2006. Infelizmente, a divisão em suas linhas provocada, principalmente, pelos que oscilaram entre integrar a síntese “marinista” ou construir uma alternativa à esquerda, terminou em paralisia de diversos setores (que por fim não fizeram nem uma coisa nem outra) e levou à divisão e à fragilidade atuais da esquerda socialista.

É nisto que consiste a tal “nova política”: Uma superação da polarização entre PT e PSDB através da uma síntese dos dois projetos. Ao mesmo tempo, o fato de que Marina tenha conseguido, com tanta facilidade, operar tal síntese, apenas comprova na prática a inexistência de qualquer contradição fundamental entre eles. Se formos otimistas, poderemos ver nisto um aspecto positivo: Com os dois principais projetos de país desenvolvimento periférico e dependente juntos no governo, fica mais clara a sua unidade fundamental, à qual o povo poderá, também de forma unificada, opor-se, ao colocar-se em movimento.

 A síntese política e as possibilidades de mudança real: O “radicalismo” de Marina

Não podemos prever o futuro. Mas alguns aspectos de um eventual governo Marina já poderiam ser apontados. Por exemplo, caso se concretize tal governo, é possível boa parte dos programas sociais atuais sejam mantidos, sob pena de eliminar-se um aspecto fundamental para a estabilização da ordem construído pelo PT. É possível também prever uma série de medidas privatistas, que já são anunciadas atualmente sem qualquer escrúpulo pelos membros de sua campanha de forma mais clara inclusive do que as presentes nas falas do PSDB.

Mas as duas características fundamentais de um eventual governo Marina deverão ser estas: Em primeiro lugar, a continuidade. Seguirá faltando verbas para saúde, educação, saneamento básico, faltarão investimentos em setores estratégicos para o desenvolvimento da economia (inclusive para as energias limpas, cujo desenvolvimento depende de recursos estatais), tudo isto porque continuará sendo mantida a política de desviar quase metade dos recursos do Estado brasileiro para os rentistas e o sistema financeiro continuará nas mãos deles, impedindo que os recursos do país sejam direcionados para a melhoria da vida do povo através de um desenvolvimento de sua capacidade de produzir suas condições de vida.

A segunda característica será sua fraqueza política. Neste sentido, trata-se de uma mudança. A ausência de capilaridade social é o que faz com que Marina, para além do discurso e dos compromissos, apareça para o empresariado e para os banqueiros como chefe de um futuro governo frágil e facilmente influenciável a partir de suas posições na mídia e na “opinião pública”. Deste último fator decorre também uma possibilidade inédita: a síntese política operada por Marina a coloca em posição de propor um governo de coalizão que inclua PT e PSDB, algo inimaginável até o momento. Neste caso, um futuro governo Marina dependerá muito mais (e não menos como se imagina) das negociatas e do toma lá da cá, do que os governos anteriores. A governabilidade as exigirá, em larga escala (e não mais no varejo, como tem feito o PT).

Portanto, mesmo esta aparente mudança, examinada de perto se revela uma continuidade ou um aprofundamento. A fina ironia política da hipótese de um governo Marina com PT e PSDB é que, caso se concretize, então o voto de “mudança” neste caso terá servido justamente para manter no governo tudo o que foi a política do país nos últimos 20 anos. Se há alguma possibilidade de “radicalismo” num eventual governo Marina, seria esta: A de um governo radicalmente igual aos anteriores.

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