Palavras que escaparam do cárcere: a autobiografia inacabada de Nikolai Bukharin

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Henrique Carneiro

A história dramática de Nicolai Bukharin já havia sido, ao longo de muitas décadas, objeto de várias narrativas, historiográficas como Os últimos anos de Bukharin de Roy Medvedev (Rio de Janeiro/Civilização Brasileira, 1980), ou mesmo ficcionais, inspiradas em sua vida, como a do best-seller O zero e o infinito (Darkness at noon, em 1940, foi o título original em inglês), de Arthur Koestler. Todas tentararam dar conta do drama inquisitorial vivido por um dos maiores dirigentes da revolução russa quando foi preso e acusado de traição durante os terríveis processos de Moscou promovidos por Stálin contra os mais importantes líderes revolucionários. Nessa “meia-noite do século” (na expressão de Victor Serge), o próprio Bukharin também escreveu a sua autobiografia que permaneceu, entretanto, oculta durante décadas numa das gavetas particulares do próprio Stálin.

O surgimento, mais de sessenta anos depois, da autobiografia romanceada que Bukharin escreveu enquanto estava aprisionado aguardando o julgamento (O romance do cárcere, de Nikolai Bukharin, tradução Zoia Prestes, Rio de Janeiro/Record, 2003), onde “confessaria” os piores crimes de traição e receberia a sentença certa de morte, é um testemunho eloquente de um gênero estranho e difícil de catalogar. A fronteira entre a ficção (voluntária ou não), a reportagem indulgente sobre si próprio, a vontade de deixar uma imagem de si para a posteridade que nem sempre coincide com a opinião de outros contemporâneos e a confissão como gênero moral intimista não é clara nem fácil de delinear. Menos ainda autobiografias feitas sob censura e ameaça de morte que não são, por definição, peças de grande sinceridade.

Dedicando a maior parte do livro à sua infância, ele consegue também um escapismo idílico para um mundo ideal perdido. Em meio às paixões naturalistas infantis e de um precoce espírito crítico e cético, deixa destilar um bucolismo exagerado e repetitivo, com a descrição detalhada de personagens e paisagens, com uso e abuso de frases adocicadas sobre as frutinhas silvestres, os riachos e as marmotas, nas quais a beleza da apreciação da natureza aparece como uma verdadeira epifania materialista. Mas também revela as raízes políticas e filosóficas daquele que seria, depois, o líder bolchevique mais vinculado ao pensamento e a organização científica, fundador da Academia de Ciências e líder da delegação soviética ao primeiro Congresso de História da Ciência, em 1930.

A descrição de momentos de angústia infantil e juvenil, como o da morte de sua pequena irmã Katia, quando o “mundo parecia ter ficado embaçado e torto” e “doloroso e sem sentido” e o jovem Nikolai sentia-se como um coelho esfolado e com a pele arrancada, parecem remeter ao terrível martírio que vivia o escritor quando descrevia suas emoções passadas.

É curioso como, além de uma intensa descrição afetiva de um sentimento de classe e ideológico profundamente socialista, arraigado desde jovem, facilitado por uma família progressista de um funcionário público, Bukharin torna-se esquemático e exagerado na descrição de seus debates políticos ginasianos, onde logo se alinhou com os marxistas na disputa com os membros do partido socialista revolucionário (os SR), a quem denomina, bem apropriadamente, de “liberais com bombas”. Mas a sua condenação formal aos SRs não impede de nos deixar ver transpirar em algumas passagens uma alusão ao que ocorreria, mais tarde, com o partido bolchevique no poder, quando coloca na boca do jovem SR que polemiza com o Bukharin adolescente as seguintes palavras: “vocês amarraram suas idéias numa camisa-de-força tal que parecem cristãos citando a Bíblia e não querem saber nada de novo. Vocês transformaram seu partido em uma prisão, mataram qualquer liberdade de crítica em seu meio e querem estender esta prisão para tudo e todos” (p.384).

Se a produção teórica dos marxistas nos cárceres foi profícua e, em alguns casos, constituiu a parte mais importante da obra de alguns deles, como foi o caso de Gramsci, em se tratando de Bukharin, embora essa produção não seja pequena (um livro teórico, um de poemas, uma autobiografia), não se pode dizer que ela estivesse à altura do que o grande dirigente havia produzido quando estava na direção do partido e do estado bolchevique. Sua extrema tensão, submetido ao dilaceramento inquisitorial de abjurar do que defendia e da própria honra sob pena de ver seus entes queridos e a si mesmo torturados e assassinados e, ao mesmo tempo, calculando as consequências do que viesse a dizer para a defesa de seu país diante da ameaça nazista, talvez tenham tolhido em excesso a possibilidade de criação independente de um intelectual que sofreu um dos maiores dramas existenciais do século e terminou por capitular admitindo os crimes de que era acusado, mas deixando um testamento oral para sua mulher decorar onde reafirmava sua dignidade e desmentia as absurdas calúnias de Stálin sobre aquele que Lênin, em seu testamento, havia chamado de “o mais querido do partido”.

A autobiografia não é, portanto, uma obra de reflexão teórica aprofundada e deve ser lida nas entrelinhas. Nas descrições da infância vemos ressoarem os ecos do autor já maduro, como quando afirma que “o ser humano adapta-se a tudo no mundo” (p.148), ou quando exalta os “ortodoxos marxistas” de sua juventude que “defendiam a coerente e grandiosa integridade de seu ponto de vista, e na mesma hora em que detectavam algum desvio faziam soar o alarme e manifestavam sua furiosa intolerância, que era considerada pelas pessoas mais frágeis como uma atitude doutrinária e dogmática. Eles avançavam cerradamente como uma falange e atacavam todos os dissidentes, pois por detrás deste “dissidente” se escondiam classes, grupos e tendências ativas” (p.244), não sabemos se estamos lendo um texto canônico destinado a agradar carcereiros ou se, devido até mesmo ao excessivo exagero retórico (“furiosa intolerância”), não percebemos uma fina ironia do dissidente acusado de todos os crimes que declara ser um defensor intolerante do monolitismo.

Como o livro é incabado e sua narrativa termina ainda antes do levante de 1905, os temas teóricos de fundo que mais se destacam são os debates entre as duas grandes vias que se delineavam para os russos que pretendiam, no início do século XX, se libertar da monarquia absolutista e do antigo regime: a via socialista e internacionalista e a via populista e nacionalista. A idéia eslavófila  de uma via especificamente russa de desenvolvimento, dos chamados samobitniki, que acabava por diferentes formas sendo defendida pelos populistas (narodnikis), chocava-se com as propostas de uma revolução russa inserida na revolução européia e destinada a romper as fronteiras nacionais. A partir da herança de Belinski, Tchernitcheviski e Dobroliubov, surgem os revolucionários marxistas que rompem com as “utopias sentimentais” dos nacional-populistas e buscam, no caminho do cosmopolitismo radical, a superação de todas as veleidades conservadoras, ultra-religiosas e eslavófilas que fundamentavam a ideologia da “barbárie russa”.

Nos calabouços em que aguardou o caminho do cadafalso, Nicolai Bukharin buscou deixar um testemunho de coerência na sua atitude de jovem rebelde, de materialista científico, de apaixonado pelo mundo e pela natureza, de revolucionário marxista e de um esperançoso no futuro humano. Sua trajetória e sua obra merecem que leiamos suas últimas palavras com condescendência e admiração sincera, mesmo tendo cedido em muitos aspectos, manteve-se íntegro e conseguiu usar da escritura como um instrumento da memória e um antídoto ao desespero.

mapes.soledad@mailxu.com