O gueto de Gaza e a “solução final” de Netanyahu

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Fábio José Cavalcanti de Queiroz

Não custa recordar que, no ano passado, foram lembrados os 70 anos da Levante do Gueto de Varsóvia. Ali, chegou a se concentrar algo como 30% da população da capital polonesa, num micro espaço de pouco mais de 2% de toda a sua área territorial. Em suas ruas e casas, se comprimiam centenas de milhares de judeus, que, progressivamente, foram diminuindo, na medida em que se acelerava a “solução final”.

Mas, o que é um gueto? O que é a “solução final”?

Azevedo define gueto como “termo empregado para designar agrupamento de pessoas confinadas, caracterizando uma atitude discriminatória”. (1999, p. 229) Mais adiante, ele ratifica que o termo é “sinônimo de discriminação e isolamento forçado”. (Idem). Borba (2004), dentre outras acepções, o enuncia como “área de confinamento” e “ambiente fechado e inacessível”.

De ordinário, a expressão teve o seu uso consagrado para descrever o confinamento de judeus, pelos nazistas, durante a 2ª Guerra Mundial. Hoje, o seu sentido adquiriu amplitude, e a sua generalização, para outras situações, não raro, se tornou um dado palpável da realidade, conforme se registrou no caso da África do Sul, por exemplo, com arrimo na adoção, pelo regime de segregação racial sul-africano, do sistema de apartheid, com os seus bantustões.

Essa definição cabe apropriadamente para a faixa de Gaza. Nesse território, onde vive uma parte significativa da população palestina, moram, aproximadamente, um milhão e oitocentos mil habitantes (sendo 450 mil na cidade de Gaza, maior núcleo urbano da faixa), comportando cerca de 5 mil pessoas por quilômetro quadrado. Nesse pequeno espaço perdido do planeta, idosos, homens, mulheres e crianças, em larga escala, vivem confinados, sofrendo “discriminação e isolamento forçado”. Com a guerra, provocada por Israel, mais do que antes, Gaza se tornou um “ambiente fechado e inacessível”. As pessoas, que desejam fugir do gueto de Gaza, não encontram portas que as conduzam para fora desse ambiente de confinamento. A fronteira com o Egito – com a ajuda do general-ditador Abdel al-Sisi – está fechada. Do outro lado está Israel. Por fim, a imensidão mediterrânea e seu controle extrapalestino.

Nesse quadro, depois de quase trinta dias de ofensiva Israelense, cerca de dois mil palestinos estão mortos. Nesse panorama geral, três centenas de crianças tiveram as suas vidas ceifadas, mas, como a UNICEF informa que, 30% dos óbitos são de crianças, talvez o quantum de mortos infantis seja o dobro disso. Em todos os níveis, é provável que esses números sejam bem piores. Até porque, como as operações estão em curso, qualquer número é precário e provisório.

De feito, o Estado sionista[1] de Israel aplica rigorosamente um processo de “solução final” contra a população palestina do gueto de Gaza.[2] Mas o que significa essa expressão?

Himmler – o líder da temida SS – anotou, em sua agenda, a seguinte observação: “Questão judaica / a serem eliminados como revoltosos”. (Apud ROSEMAN, 2003, p. 73) Benjamin Netanyahu parece ter anotado em sua agenda: “Questão palestina / a serem eliminados como revoltosos”. Só isso explica a política de “solução final”, adotada pelo seu governo, contra o povo palestino. Isso não é uma mera metáfora. Os milhares de palestinos mortos, e os que estão por morrer, não nos permitem lançar mão de outro remate para esse tosco episódio do breve século XXI (ainda que as suas raízes estejam amparadas no século XX, e, na expropriação do povo palestino, para criar o Estado sionista de Israel).

Enquanto o governo Israelense brinca de negociar a “solução territorial”, com relação aos palestinos, aplica uma política de genocídio contra esse povo. Aqui, é preciso recobrar o seguinte fato: a linha de “puro e simples assassinato” dos judeus era a base decisiva da “solução final”, tristemente infligida, pelos nazistas, àquela população, embora, retoricamente, esgrimissem a tese da “solução territorial”.

Said (2003) tinha razão, quando advertiu, vigorosamente, depois dos engodos de Oslo, de que Israel não abriria mão do cerceamento da vida palestina em geral. Não suspeitou, talvez, que esse cerceamento, mais do que territorial, adquirisse essa monstruosa magnitude física, conforme se observa, à luz dos recentes acontecimentos.

Evidentemente, a resistência heroica do povo palestino não cessa e o Estado-gendarme de Israel sabe disso e a história tem evidenciado essa circunstância. Tão importante quanto, no entanto, é o processo de mobilização, em andamento, que, passando por Brasil, França e Estados Unidos, tem denunciado e confrontado a política israelense de “solução final”. No caso do Brasil, a exigência de ruptura com o Estado sionista tem alcançado certa ressonância, o que não é um dado irrelevante.

Registre-se: essa combinação (resistência interna palestina e mobilização mundial), uma vez mais, confere grandíssima razoabilidade ao que disse Said, quando este afirmou que “A situação palestina em si é remediável, já que são os seres humanos que fazem a história, e não o contrário”.

Trata-se, decerto, de um juízo-prognóstico inteiramente admissível, desde que se considerem as condições nas quais a luta se desenrola, sob a áspera guarida de um gueto, e, desde que – do lugar no qual se ache -, se confronte a arte atroz da “solução final” de Himmler, ainda que este, momentaneamente, esteja trajado de Benjamin Netanyahu.

Referências bibliográficas

AZEVEDO, Antônio Carlos do Amaral. Dicionário de nomes, termos e conceitos históricos, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

BORBA, Francisco S. (org.). Dicionário UNESP do português contemporâneo. São Paulo: UNESP, 2004.

ROSEMAN, Mark. Os nazistas e a solução final, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

SAID. Edward. Cultura e política. São Paulo: Boitempo, 2003.



[1] A linha de corte de crítica a esquerda marxista, pelo emprego da expressão sionista, não agrega nada de novo ao debate, senão apenas reforça a política de semear ilusões no Estado racista de Israel. Doutro lado, é evidente que, dentro e fora de Israel, há judeus que estão contra as atrocidades cometidas, particularmente contra a população palestina, por esse Estado-Gendarme. Não é disso que se trata, mas da possibilidade de existência de um Estado Laico, democrático e não-racista enquanto subsistir esse Estado-enclave. Essa é a discussão mais de fundo.

[2] É evidente que a “solução final”, empregada por Israel ante a resistência palestina, não começou agora. A primeira e a segunda intifadas (1987 e 2000), em larga proporção, já havia evidenciado isso, e, antes desses episódios sangrentos, o Massacre de Sabra e Chatila (1982) já sugerira essa estratégia dantesca. Não se pode descartar a hipótese de que essa “solução” já estivesse posta desde meados dos anos 1940. Independentemente da conclusão acerca do momento da definição dessa política, cujas resultantes devem derivar de estudos mais abrangentes, essa é uma boa oportunidade para trazer a tona essa discussão teórico-histórica. O modus operandi do Estado de Israel, nesse instante, nos permite visualizar a presença de aspectos qualitativos de uma “solução final”.

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