Antipetismo, a doença senil do anticomunismo em tempos de Copa

Carlos Zacarias de Sena Júnior

A abertura da Copa não foi nada além do esperado, com a seleção brasileira jogando um futebol feijão-com-arroz para ganhar da modesta Croácia, muito embora com uma mãozinha do juiz; diversas manifestações em várias cidades brasileiras que se não chegaram a repetir a dimensão e profundidade da revolta popular das Jornadas de Junho reafirmaram que há ainda muito descontentamento entre a juventude e os trabalhadores que se rebelaram em 2013, acentuando a tendência de deslocamento da correlação de forças; e a esperada vaia para Joseph Blatter e também para a presidente Dilma Rousseff, que eram mais do que aguardadas, muito embora o conteúdo do desagravo para com a mandatária da nação tenha assombrado os mais cautelosos, especialmente quando se considera de onde partiu.

As vaias para a Fifa são, obviamente, mais que bem vindas, pois uma entidade que desde o primeiro momento esposou arrogância e prepotência diante de um Governo e um país que pretendiam oferecer o seu melhor, não merece nenhum respeito. Mas as vaias para a presidente não deixam de ser paradoxais, posto que diferente do prometido em 2007 e propagandeado nos quatro cantos da nação, a Copa não foi feita para os brasileiros apaixonados pelo futebol, mas para as empreiteiras e banqueiros que ganharam fortunas e também para os endinheirados que tiveram como pagar cerca de R$ 700,00 por um ingresso. Ou seja, no final das contas, de certa forma, a presidente Dilma foi vaiada por aqueles para quem a Copa do Mundo no Brasil foi feita, ou seja, para os setores abastados da sociedade e da alta classe média, pouco instruída em matéria de finanças e também de governos (de governo petista em particular).

O antipetismo de hoje é uma doença senil do anticomunismo de sempre. Não chega a ser uma novidade o ódio que os petistas seguem inspirando naqueles para quem pretendem governar. As classes dominantes preferem os seus filhos legítimos na direção da nação e para isso investem alto na formação de novos quadros e na tecnocracia acadêmica que se esforça para entender os meandros da sociedade de classes. Quando isso não funciona, quando ocorre uma crise da sua hegemonia, as classes dominantes podem cortar cabeças, rifar quadros políticos experimentados, oferecer os anéis para não perder os dedos, de forma a continuar dirigindo os destinos do país. Podem, por vezes, investir alto para corromper os quadros formados no campo inimigo, às vezes teoricamente mais capacitados para oferecer respostas rápidas à crise vivida enquanto a classe dominante está incapacitada para fornecer os quadros dirigentes do país. Nestas circunstâncias as classes dominantes se arriscam até o limite do possível, podendo lançar mão de aventureiros aparentando estar acima das classes e dos partidos, ou mesmo tomar emprestado dirigentes das classes subalternas, tudo isso para reestabelecer um equilíbrio necessário, muito embora nada muito além do precário. Na primeira oportunidade, contudo, as classes dominantes buscam retomar as rédeas da direção política que provisoriamente esteve em vias de lhe escapar das mãos.

Não é diferente como o governo petista, que ao longo dos quase doze anos não fez mais do que cortejar as classes dominantes ignorando (ou fingindo ignorar) que segue sob a sua tutela e hegemonia. Em todo caso não há outra maneira de entender o governo do PT identificando as suas diferenças com os tradicionais governos burgueses e isto as diversas frações da burguesia o sabem, às vezes instintivamente, não obstante os setores seus aliados tenham bastante dificuldade para diferenciar o joio o trigo.

Diante de um programa como o Bolsa Família, criticado essencialmente pelos setores médios da sociedade, não se pode ter uma avaliação que não tenha o seu conteúdo de classe evidente. Quem recebe o benefício sabe, também até por instinto, que o pouco que recebem lhe é devido pela sociedade que lhe explora e oprime cotidianamente, de maneira que não são a favor apenas por gozarem do direito, mas também por uma noção de legitimidade inscrita na sua condição de subalternidade. Na outra ponta da sociedade de classes se sabe que o Programa é absolutamente necessário na promoção de uma renda mínima para setores socialmente explosivos. Todavia a crítica ao Bolsa Família que ecoa nas redes sociais e também nas vozes daqueles que no estádio do Itaquera vaiaram Dilma, é sempre precária e feita por gente que ouviu o galo cantar, mas não sabe onde. Isso porque não se pode falar mal de um programa que em 2012 destinou apenas 18 bilhões para as famílias de baixa renda e silenciar diante da sangria de 753 bilhões destinados aos banqueiros. O problema é que quem é contra o Bolsa Família tem a opinião formada com quem ganha com o “bolsa banqueiro” e aí a informação vem revestida do conteúdo de classe que lhe é inerente e que, de tempos em tempos promove o anticomunismo, travestido hoje no Brasil de antipetismo. No final das contas a mensagem que devia ficar para o governo petista é que a classe dominante não deve favor aos seus serviçais. O próprio Lula, em diversas ocasiões, reclamou que os empresários que nunca ganharam tanto dinheiro não deviam ser tão ingratos com o governo.

Nascido em fins dos anos 1970 das lutas dos trabalhadores do ABC, de setores da Igreja ligados à Teologia da Libertação e do rescaldo das organizações marxistas que lutaram contra a Ditadura, o PT foi fundado em 1980 defendendo a acertada tese de que não se pode governar para todos. Nos anos 1990 o discurso mudou e chegando ao governo o Partido dos Trabalhadores adotou o lema de: “Brasil, um país de todos”. A questão é que numa sociedade de classes, alguns são mais iguais do que outros, apenas para utilizar a fórmula da fábula orwelliana, de maneira que o “todos” pretendido pelo governo é relativo a alguns, ou seja, os de cima, as classes dominantes dispostas da puxar o tapete dos petistas na primeira oportunidade. Isto acontece porque mesmo tendo feito a opção de governar para a minoria burguesa da sociedade, o petismo paga o preço das suas origens, sendo-lhe impossível evitar o ódio que as classes dominantes lhes dirigem, inclusive no seu incontornável traço anticomunista.

Nesse sentido, o significado da vaia destinada à presidente Dilma Rousseff na abertura da Copa não deixou de ser uma repetição da forma como as classes dominantes e suas desastradas claques lidam com estranhos que se metem a dirigir a nação no lugar dos legítimos representantes burgueses. A maioria dos brasileiros assistiu a abertura da Copa pela TV, como se esta fosse num país distante, como efetivamente foi nos últimos 64 anos. A arenização dos estádios que adotaram o padrão Fifa aceito de maneira inconteste pelo governo petista e pelo ministro dos Esportes do PCdoB, transfigurou-se numa espécie de arianização. Quem ligou a televisão e assistiu a abertura da Copa no estádio do Corinthians, construído ou reformado, como todos os outros, pelo poder público e oferecido escandalosamente ao setor privado, não pode ter se identificado com a arquibancada, pois esta contrariou de maneira evidente a composição étnico-racial do país. Os coxinhas que foram ao estádio não deviam ser tão mal agradecidos à presidente. Na verdade deviam aprender mais sobre o funcionamento dos governos e todo o bem que lhe faz a direção de um país que luta incessantemente para o reestabelecimento pleno da hegemonia burguesa. Assim também como os petistas não podiam ser tão esquecidos das suas origens, fechando os olhos para o que se passava do lado de fora dos estádios, onde a polícia de Alckmin, com todo aparato do Governo Federal à serviço da Fifa, atacava os trabalhadores em nome de uma Copa para poucos.

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