Sartre, Malcolm X e o ministro da Injustiça

Alvaro Bianchi

Na peça Les Mains sales [As mãos sujas], de Jean-Paul Sartre, ambientada nos estertores da Segunda Guerra Mundial em uma França governada por um títere do nazismo, dois personagens se confrontam: o idealista Hugo e o pragmático Hoederer. Para atingir os fins desejados, Hoederer não media esforços e não recusava nenhum meio. Queria negociar com os fascistas, que apoiavam a Alemanha, e os liberais, sustentados pelos Estados Unidos para constituir um governo após o fim da guerra. Horrorizado com tal oportunismo, Hugo repudiava essas negociações, reivindicava os ideais da emancipação humana e considerava qualquer acordo com liberais e fascistas uma traição aos interesses do proletariado.

A peça de Sartre, publicada em 1948, repunha, desse modo, um dos dilemas clássicos da política e uma questão que angustiava os comunistas sinceros: os fins justificam os meios? Para Hoederer não havia dúvidas a respeito. A certa do dissenso ele explicou de modo implacável sua moral política

“Hugo – Nunca menti para os camaradas. Eu… de que serve lutar pela liberação dos homens se eles são desprezados a tal ponto que se enche a cabeça deles de mentiras?

Hoederer – Mentirei quando seja necessário e não desprezo ninguém. Eu não inventei a mentira: nasceu em uma sociedade dividida em classes e cada um de nós a herdou ao nascer. Não aboliremos a mentira negando-nos a mentir e sim empregando todos os meios [en usant de tous les moyens] para suprimir as classes.

Hugo – Nem todos os meios são bons.

Hoederer – Todos os meios são bons quando são eficazes.”

En usant de tous les moyens”. A fórmula, encerra uma lógica implacável. Associada a um critério que a justifica pela sua eficácia imediata, se impõe de modo brutal ao senso comum. Ela sintetiza a realpolitik. A rigor, pode ser utilizada para ordenar qualquer coisa: desde singelas mentiras até o massacre de inocentes. Escrita quando o Partido Comunista Francês desfrutava de uma reputação inabalável como “le Parti des 75.000 fusillés”, Les Mains sales expressava a consciência atormentada do próprio Sartre. Em uma entrevista, o filósofo e dramaturgo expôs esse tormento: “Les Mains sales me foi inspirada pelas dificuldades que os burgueses de boa vontade, dos estudantes a mim, temos com o Partido Comunista. Eu pensei, também, no assassinato de Trotsky”

Apropriada pelo aparelho staliniano, a fórmula “empregando todos os meios” ameaçava a rebelião, contrariava a revolta, suprimia o dissenso, destruía o idealismo. Tudo em nome da igualdade. A gigantesca máquina partidária movia-se por meio dela pesadamente esmagando a própria revolução em nome da qual se mexia. Para aqueles que haviam lutado pela liberdade contra o jugo do nazismo a situação era paradoxal. O partido que havia combatido os ocupantes e libertado a França com as armas nas mãos entregou-as a seguir para que a ordem burguesa não fosse ameaçada. O governo desejado por Hoederer existia. Ele era o pesadelo de Sartre. En usant de tous les moyens

By any means necessary

Malcolm X abordou de maneira criativa esse velho dilema da política em um memorando de oito páginas encaminhado em 1965, à reunião de Cairo da Organização de Unidade Africana, criada dos antes pelas novas nações independentes da África.[1] Nesse texto, Malcolm X apresentou os objetivos da Organization of Afro-American Unity, segundo afirmava, os métodos e até mesmo os programas políticos poderiam mudar de acordo com as circunstâncias, mas os objetivos da nova organização deveriam permanecer firmes e inamovíveis:

“Você pode mudar o seu método de alcançar o objetivo, mas o objetivo nunca muda. Nosso objetivo é a completa liberdade, a justiça completa, a completa igualdade, por quaisquer meios necessários [by any means necessary]. Isso nunca muda. O reconhecimento e respeito completo e imediato, como seres humanos, que é o que todos nós queremos, não muda.” (X, 1990, p. 116)

Malcolm X não estava ameaçando com o poder incomensurável de uma máquina burocrática. Não estava propondo um acordo entre diferentes partidos ou chefes de Estado. Não advogava por um governo de unidade nacional entre a elite branca e racista e o povo negro e explorado. Ele estava fazendo um chamado à revolta, a uma luta sem quartel pela emancipação dos afro-americanos. Malcolm X não era Hoederer. Era Hugo, um profeta armado de uma vontade inquebrantável.

By any means necessary era uma fórmula política que no discurso de Malcolm X encontrava-se unida de modo indissociável a ideia de liberdade (freedom) e assim permaneceu até o trágico final de sua vida. Em um discurso pronunciado no Audubon Ballroom, em dezembro de 1964, ele voltou mais uma vez a esse tema:

“Você não tem que ser um homem para lutar pela liberdade. Tudo que você tem a fazer é ser um ser humano inteligente. E automaticamente, a sua inteligência faz você querer liberdade tão intensamente que você faria qualquer coisa, por qualquer meio necessário [by any means necessary], para conseguir a liberdade.” (X, 1990, p. 135)

À medida em que se radicalizava politicamente, Malcolm X passava a associar a ideia de by any means necessary com a autodefesa das comunidades negras, uma prática que seria retomada poucos anos mais tarde por Huey Newton, Bobby Seale e o Black Panther Party for Self-defense.[2] Uma das preocupações de Malcolm X dizia respeito à garantia dos direitos que os negros já haviam conquistado mas cuja aplicação era atacada sistematicamente por bandos armados de brancos segregacionistas que queriam impedir os afrodescendentes de exercerem seus direitos políticos. Era o caso do registro eleitoral dos negros no sul dos Estados Unidos. Comentando a respeito, não descartava o uso da violência para garantir esse direito no Mississipi, um dos estados nos quais a ação dos grupos racistas era mais forte. Em uma conversa que teve com ativistas no começo de 1965, Malcolm X tocou no tema:

“Então é por isso que eu digo: se nos  envolvemos no movimento dos direitos civis e vamos para o Mississippi, ou para qualquer outro lugar, para ajudar o nosso povo a registrar-se para votar, deveríamos ir preparados. Não temos a intenção de violar a lei, mas quando você está tentando se registrar para votar você está defendendo a lei. Quem infringe a lei é apenas quem tenta impedi-lo de se registrar para votar, e nesse caso você tem o direito de proteger-se por todos os meios necessários [by any means necessary].” (X, 1990, p. 153)

E discutindo a existência de ataques à comunidade no bairro negro de New York, o Harlem, e à existência de grupos de provocadores infiltrados, os quais promoviam distúrbios que serviam de pretexto para a ação policial, Malcolm X argumentou da mesma maneira, revelando que a autodefesa era já uma prática bem organizada: “o milagre de 1964, durante os incidentes ocorridos no Harlem, foi a restrição exercida pelo povo em Harlem o qual estava qualificado e equipado e tudo o mais necessário, para proteger-se quando fosse ilegal, imoral e injustamente atacado.” (X, 1990, p. 154)[3]

As razões para Malcolm X insistir na autodefesa eram cada  vez mais fortes. No dia 13 de fevereiro de 1965, Malcolm X acordou em sua casa no Queens com o barulho da explosão de um coquetel molotov atirado contra sua residência. Sua esposa e os quatro filhos estavam dormindo na mesma casa quando ocorreu o atentado. Uma campanha difamatória foi lançada pelo departamento de polícia de New York, o qual acusou o ativista de simular o atentado que danificou severamente sua casa e colocou em risco a família. Falando sobre o episódio, ele declarou:

“Então, eu não acredito em violência. E é por isso que eu quero detê-la. E você não pode pará-la com amor. Não. O amor não derruba essas coisas. Não! Então, nos apenas acreditamos na ação vigorosa como autodefesa, e acreditamos que estamos justificados a iniciar essa vigorosa ação por qualquer meio necessário [by any means necessary]” (X, 1990, p. 164-165)

Oito dias depois desse atentado Malcolm X foi assassinado a tiros na frente de sua família, quando prenunciava um discurso no Audubon Ballroom, no bairro nova-iorquino de Washington Heights. O exemplo de sua luta é incontestável por todos aqueles que lutam pela liberdade. Mas Malcolm X deixou, também, um pensamento político complexo e sofisticado que merece ser explorado. Sua formulação da relação entre meios e fins procurou articular as ideias de liberdade e igualdade no interior de uma visão de mundo no qual a liberdade só tem lugar quando a igualdade é assegurada e a igualdade só se verifica onde a liberdade tivesse sido conquistada, by any mens necessary.

 “O que for necessário”, amigo tucano

As recentes declarações do  ministro José Eduardo Cardozo a respeito da greve dos metroviários em São Paulo, o distanciam de Malcolm X, mas também o deixam longe de Hoederer. No dia 9 de junho, na mesma hora em que a polícia atacava e prendia os grevistas e o governador do PSDB Geraldo Alkimin anunciava dezenas de demissões, o ministro declarou ao jornal O Globo que havia oferecido auxílio ao governo do estado de São Paulo. Auxílio não aos grevistas que haviam pedido que o governo federal intercedesse como mediador, mas auxílio ao corrupto e brutal governo tucano. Perguntado pelo jornal que tipo de ajuda estava oferecendo, o ministro respondeu: “O que for necessário” (O Globo, 9 jun. 2014).

Em seu insistente ataque aos grevistas que se recusavam a abandonar seu direito de greve, o ministro já deixava explícito o que ele considerava necessário: a bruta força policial criada pelo governo para atacar os manifestantes. Cardozo sabia do que estava falando. O ministro da Injustiça já havia autorizado o uso da Força Nacional para atacar os trabalhadores da construção civil de Belo Monte. E no Rio de Janeiro e em Alagoas, a pedido dos reacionários governantes locais o ministro Cardozo já havia enviado seu batalhão para “controlar tumultos”.

Cardozo não é nem Hoederer, o oportunista sartreano, nem Malcolm X, o mártir da emancipação negra. Para Hoederer, en usant de tous les moyens significava justificar os meios pelos, mas os fins eram, ao menos, a supressão das classes sociais. Sua distopia era a autocracia stalinista, mas esta não deixava de ser igualitária. Igualdade e Sujeição poderia ser sua bandeira. Nada que possa ser recomendado, mas pelo menos um projeto que pode ser explicado racionalmente. Para Malcolm X, by any means necessary significava reconhecer que os fins encontravam-se justificados desde que estes fossem necessários e eficazes para a obtenção da igualdade, mas também da liberdade. Seu discurso político é um discurso da emancipação dos negros e de toda a humanidade, como deixou claro em seus últimos pronunciamento e entrevistas. Igualdade e Liberdade era seu estandarte.

O ministro não quer suprimir as classes como Hoederer, nem conquistar a liberdade como Malcolm X. Não quer que isso ocorra no presente; não quer que ocorra no futuro. O ministro só quer garantir a ordem do capital, nada mais. Quer que os negócios continuem ocorrendo como de hábito. Megalucros em megaeventos e megaconstruções são seu objetivo. Acredita que o que é bom para a Fifa e as empreiteiras é bom para o Brasil. Faz isso no interior de um governo liderado pelo PT, mas poderia fazê-lo também se pertencesse a um governo do PSDB. Não vê diferença entre ambos. Para isso prontificou-se a atender todos os desejos dos tucanos, atacou o direito de greve, exaltou os tribunais de exceção trabalhista, vituperou contra os grevistas, pisoteou na história de seu próprio partido. Desigualdade e Sujeição está gravado em seu pavilhão. O que for necessário, completa orgulhoso o ministro da Injustiça.

Referências bibliográficas

NEWTON, Huey P.; HILLIARD, David; WEISE, Donald. The Huey P. Newton reader.  New York: Seven Stories Press, 2002.

SARTRE, Jean-Paul. Les mains sales: piece en sept tableaux. Paris: Gallimard, 1948.

THREADCRAFT, Shatema A. New York City Riot of 1964. In: RUCKER, Walter e UPTON, James Nathaniel (Ed.). Encyclopedia of American Race Riots. Westport: Greenwood, 2007.  p. 478-480.

X, Malcolm. Malcolm X speaks : selected speeches and statements edited prefatory notes by George Breitmane.  New York: Pathfinder, 1990.

 


[1] Não se quer afirmar aqui que Malcolm X tivesse conhecimento de Les Main sales ou da obra de Sartre.

[2] Ver, por exemplo, em NEWTON; HILLIARD; WEISE (2002p. 49-53) uma breve reconstrução das origens do Black Panther Party for Self-defense e da importância da autodefesa para o grupo.

[3] Malcolm X estava, certamente, fazendo referencia à revolta das comunidades negras do Harlem e Brooklyn, depois que a polícia assassinou com três tiros o jovem James Powell, de quinze anos, no dia 16 de julho de 1964. Durante seis dias ocorreram protestos, delegacias de polícia foram atacadas e lojas saqueadas. Estima-se que 4 mil pessoas no Harlem e outras 4 mil no Brooklyn participaram da revolta. Uma pessoa foi morta durante a revolta, 118 foram feridas e 445 mulheres e homens foram presos. Os eventos de New York precipitaram uma onda de revoltas populares que atingiu nos meses seguintes as cidades de Philadelphia, Rochester, Jersey City, Paterson e Elizabeth (THREADCRAFT, 2007).

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