Tudo novo, de novo!

Carlos Zacarias de Sena Júnior

Um fenômeno importante tomou conta do Brasil nos últimos meses. Para quem lê os jornais ou assiste o noticiário televisivo, não são as greves o elemento central das querelas transmitidas via satélite ou impressas nas páginas dos periódicos, mas o fato de que as velhas direções estão sendo atropeladas pelas suas bases. O fenômeno, por assim dizer, cria uma profunda incerteza nos governos e nos patrões, já que, desacostumados o fenômeno de novas direções, mais combativas e descomprometidas com a governabilidade, governos e patrões tendem a se confundir na hora de enfrentar as lutas e buscar os tradicionais interlocutores, muitos deles com um histórico absolutamente conhecido de traição às suas bases.

Com a impossibilidade da ordem burguesa se manter com a paz dos de cima, já que os de baixo indicam que não querem que as coisas permaneçam como estão, a sociedade se polariza, intelectuais, jornalistas e formadores de opinião são chamados a assumir posições, manifestos assinados por acadêmicos circulam pela internet pedindo o fim das manifestações; governistas correm para acusar a direita, os fascistas, o PSDB e a Força Sindical de estarem provocando a desordem com finalidade eleitoral; enquanto os trabalhadores colhem grande adesão da sociedade, expressa nas ruas e nos debates das redes sociais. Mas o que, finalmente, está acontecendo no Brasil?

Ainda em março tivemos a greve dos garis no Rio de Janeiro, greve essa que foi sucedida por uma paralisação dos rodoviários na mesma cidade na primeira quinzena de maio. Depois veio a paralisação dos rodoviários paulistas, a que se seguiu uma greve, digamos, inesperada dos rodoviários baianos, já que a primeira que desafia frontalmente a direção do sindicato. No momento em que escrevo quatro capitais enfrentam greves de rodoviários (Salvador, Florianópolis, São Luiz e Rio de Janeiro), mas há um elemento que unifica uma parte das paralisações atuais àquela dos garis e rodoviários cariocas em março e maio, respetivamente, além dos paulistas das últimas semanas: o fato que que foram greves que surgiram pela base, com os trabalhadores atropelando suas direções.

O fenômeno que atordoa as classes dominantes no Brasil não é novo. De tempos em tempos, os trabalhadores dão uma chacoalhada nas suas direções burocratizadas e acomodadas a todo tipo de regalia. Lenin já havia tratado do assunto, quando discutiu a tendência a acomodação da aristocracia operária, e Trotsky anotou que o principal problema do nosso tempo é a crise das direções. Nem ou nem outro viveram o suficiente para ver o que aconteceria com muitas direções quando começaram a se chocar com os trabalhadores ao longo do século XX e na primeira vintena do XXI.

Para não ir muito longe no tempo e no espaço, basta que se mencione que a onda de greves que varreu o Brasil no após-guerra teve a característica mencionada, ou seja, em boa parte dos casos os trabalhadores desconheceram a recomendação das suas direções e partiram para a luta. O mais grave da conjuntura inaugurada em 1945 é que a vaga grevista se instalava contra o sindicalismo pelego do tempo do Estado Novo, cujo Ministério do Trabalho controlava os sindicatos, mas também contra a direção do PCB, que escorados na política de “ordem e tranquilidade”, recomendada por Prestes, pedia cautela aos trabalhadores nos seus conflitos com os patrões e os governos.

Algum tempo depois o fenômeno se repetiu em fins dos anos 1970, quando os pelegos novamente se apossaram dos sindicatos e tiveram que ser desafiados pelas bases, nas várias greves que tomaram o país desde 1978 e que terminaram por produzir o PT e a CUT. Pois são justamente a central fundada em 1983 e o partido que está no governo, as maiores vítimas das greves, haja vista que a CUT nem de longe lembra a combatividade dos anos 1980 e o PT é hoje o partido da ordem em vários municípios, estados e no governo federal.

O que estamos vivendo no Brasil hoje repete em grande medida o que aconteceu no passado, mas, como não poderia deixar de ser, tem seus elementos de novidade. A começar pela conjuntura que se inaugurou em 2012 e se confirmou em 2013, com os trabalhadores do serviço público federal, com a forte e importante presença do ANDES-SN, sendo a vanguarda de um processo que envolveu dezenas de categorias que foram à greve contra o governo de Dilma Rousseff. Ainda em 2012, em algumas situações, foram as bases dos sindicatos que arrastaram suas direções para a luta, isso quando não se enfrentaram violentamente contra seus dirigentes, como veio a ser o caso dos docentes da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Nesta universidade, as centenas de docentes que se reuniam a cada assembleia terminaram por destituir a direção da APUB, ligada ao PROIFES, já que esta não poupou esforços para evitar a greve e quando ela aconteceu, conspirou permanentemente para a sua derrota, primeiro se afastando das assembleias e em seguida fechando os espaços do “sindicato” aos trabalhadores e sonegando os recursos dos filiados ao Comando de Greve.

A situação se repetiu em alguns outros estados, muito embora na maior parte dos casos tenham sido as próprias direções as responsáveis pela mobilização e o enfrentamento com os governos e patrões durante a greve. Segundo o DIEESE, no Brasil foram registradas em 2012, 873 greves, que significaram 87 mil horas paradas, sendo a maior onda de paralisações desde 1996, quando se viram 1.228 greves. Em relação a 2011, que já havia sido aquele com maior quantidade de greves desde 1996, as paralisações aumentaram 58%. Os dados sobre 2013 ainda não foram disponibilizados, mas as jornadas de junho confirmaram que vivemos hoje sob uma nova correlação de forças no país.

Como foi dito, a maior parte das greves foi liderada pelas direções tradicionais que ajudaram a edificar boa parte dos governos que estão aí. A diferença, contudo, é que não parece ser mais possível conter a insatisfação dos trabalhadores e nem mesmo direções experientes, forjadas em anos de luta intensa, como foram os anos 1980 e a primeira metade dos 1990, conseguem evitar que as pressões desemboquem em greves e maculem a imagem dos governos que hoje defendem. Quando não, o que se vê é o surgimento de novas direções, alinhadas com o descontentamento de trabalhadores que entendem que colheram muito pouco em mais de uma década de governos petistas.

Eventualmente, direções podem ser improvisadas, mas não há improviso quando velhos dirigentes são substituídos por novas lideranças que nasceram criticando as limitações do projeto petista. É por isso que a CSP-Conlutas tem sido a parte principal da reorganização que hoje assistimos e que repete, em alguma medida, a história no após-guerra e também da década de 1970. Junho se aproxima e as esperanças de milhões de trabalhadores de verem surgir um novo país parece não pretender esperar por outubro, quando virão novamente as eleições com as cartas marcadas da velha direita e da nova esquerda governista. Enquanto junho não chega, as novas direções vão sendo testadas no do dia a dia, confirmando um novo ciclo de lutas inaugurado em 2012.

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